quinta-feira, 9 de maio de 2013

RESERVA MUNDIAL DE SURF


As políticas dirigidas para o aproveitamento do mar, enquanto oportunidade de grande riqueza educativa e económica, foram, claramente, secundarizadas. Aliás, a dez minutos da serra e a dez minutos do mar, quer o mar quer o desporto na floresta nunca beneficiaram de uma estratégia definida com olhares portadores de futuro. O governo regional esteve sempre mais preocupado com as infraestruturas em terra (muito cimento) do que com a utilização de "instalações" de ar livre e sem encargos de manutenção. Construíram ou melhoraram, julgo que 37 campos de futebol, piscinas por todo o lado, muitas que não funcionam, milhares de metros quadrados de pavilhões e polidesportivos cuja utilização é, claramente, desproporcional às necessidades de um crescimento e desenvolvimento sustentáveis. O mar e os clubes que a ele se vincularam foram sempre tolerados. Tiveram as migalhas quando deveriam ter beneficiado de uma aposta fundamental. Mas outra coisa não seria de esperar. O próprio presidente do governo regional, no decorrer da inauguração de uma piscina, disse que exigia presença olímpica na natação, face ao mar que nós dispúnhamos. Uma posição que revela bem o desconhecimento e a confusão do que é uma coisa e outra, do que devem ser as políticas para uma e outra área.


Não vou abordar a questão, se a Madeira pode ou não vir a ser a dita "reserva mundial de surf". Nada sei daquela modalidade e muito menos de ondas! Tenho apenas consciência do que assumem os praticantes de surf que, dizem, algumas obras terão matado "a galinha dos ovos de ouro". Agora, há dois aspectos que domino em toda a sua extensão: primeiro, as potencialidades do mar no quadro do desenvolvimento do desporto; segundo, qual tem sido, desde sempre, a política deste governo regional relativamente ao mar. Isso eu sei porque está documentado em opções e números. 
O mar, ao contrário do governo, sempre foi considerado a principal instalação desportiva da região. Em 1977, estive integrado numa equipa de trabalho que organizou o então designado "Encontro Regional de Educação Física e Desporto" (EREFD). Nas conclusões, página 14, podemos ler um texto sobre "Turismo e intercâmbios desportivos", onde são referidas preocupações com "as actividades de mar" que incluía o "lançamento da organização de competições de carácter internacional, do tipo semana ou quinzena da vela (...)". Esta medida tem 36 anos. A partir daí, com inteligência e decisões consistentes, muito deveria ter sido  concretizado. Apesar da preocupação então enunciada por muitos que estavam ligados, directa ou indirectamente, ao sector do turismo, a realidade é que o mar nunca constituiu uma preocupação, não apenas no plano do desenvolvimento do desporto educativo e de lazer interno, mas também no quadro da oferta no âmbito do turismo. As políticas dirigidas para o aproveitamento do mar, enquanto oportunidade de grande riqueza educativa e económica, foram, claramente, secundarizadas. Aliás, a dez minutos da serra e a dez minutos do mar, quer o mar quer o desporto na floresta nunca beneficiaram de uma estratégia definida com olhares portadores de futuro. O governo regional esteve sempre mais preocupado com as infraestruturas em terra (muito cimento) do que com a utilização de "instalações" de ar livre e sem encargos de manutenção. Construíram ou melhoraram, julgo que 37 campos de futebol (um campo por cada sete mil habitantes), piscinas por todo o lado, muitas que não funcionam, milhares de metros quadrados de pavilhões e polidesportivos cuja utilização é, claramente, desproporcional às necessidades de um crescimento e desenvolvimento sustentáveis. O mar e os clubes que a ele se vincularam foram sempre tolerados. Tiveram as migalhas quando deveriam ter beneficiado de uma aposta fundamental. Mas outra coisa não seria de esperar. O próprio presidente do governo regional, no decorrer da inauguração de uma piscina, disse que exigia presença olímpica na natação, face ao mar que nós dispúnhamos. Uma posição que revela bem o desconhecimento e a confusão do que é uma coisa e outra, do que devem ser as políticas para uma e outra área.
Ora, quando surge o secretário do Ambiente e dos Recursos Naturais, Dr. Manuel António, de forma descontextualizada e politicamente oportunista falar de uma "reserva mundial de surf", parece-me óbvio que existe aqui qualquer coisa que volta a não bater certo. Não foi a Direcção Regional do Desporto, articulada com as secretarias da Educação e a do Turismo, através de um estudo global para o desporto que a Madeira quer e, especificamente, para o mar que está aí à nossa frente, mas a secretaria do Ambiente e dos Recursos Naturais que anuncia, pomposamente, tal iniciativa. Isto denuncia a não existência de um plano estratégico e, portanto, assenta num discurso que reflecte mais uma medida avulsa. Quando a região não tem sabido aproveitar, entre outros) o nome de referência mundial, falo do Engº João Rodrigues, detentor de seis ciclos olímpicos, para ter as baías da região da Madeira cheias de velas e de outras actividades que o mar pode proporcionar, vem o secretário dos "senhores agricultores" falar de uma "reserva mundial de surf". Poupe-nos e organizem-se!
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Será que esse tal Manuel António se cansou de lamber as botas ao chefe?

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Eu penso que esse político não tem a noção do seu real valor. Corre, corre muito, por desmedida ambição. Que até lhe fica mal. Lambeu durante anos para cima e escouceou para baixo e agora pensa que é salvador da porcaria que ajudou a criar. Enfim...
Um bom fim de semana.