quinta-feira, 20 de junho de 2013

AINDA A GREVE DOS PROFESSORES


Ao contrário do que disse a Senhora Deputada (Isabel Torres do CDS/PP), o Professor Mário Nogueira e tantos outros que o antecederam na liderança da Fenprof, não foge ao debate e à negociação com uma postura flexível. Está enganada. Deveria a Senhora Deputada pensar três coisas: primeiro, que os ganhos e a dignidade da função docente adquirida desde 1974 ficam a dever-se à luta dos sindicatos, particularmente da Fenprop (federação de sindicatos), todos, inclusive a Senhora Deputada, ganharam com essa luta pelos direitos, mesmo aqueles que nunca fizeram uma greve na sua vida, acabaram beneficiados com a luta dos sindicatos. Não me parece correcto que se apelide de "retórica corrosiva" e "discurso ríspido" aqueles que, apaixonadamente, lutaram pelo sistema educativo, pela melhoria das condições de trabalho e que, agora, lutam contra o desmantelamento da escola pública; segundo, a Senhora Deputada deveria ter presente que nesta greve não foi apenas um sindicato que a promoveu, mas nove onde se inclui a Federação Nacional de Educação (FNE) muito próxima dos partidos do poder. É porque alguma coisa está mal, ou não será assim?; terceiro, o que significa a palavra negociação? Será que basta se sentar à volta de uma mesa e, logo à partida, uma parte determinar que podemos discutir tudo, mas este, aquele e aqueloutro aspecto não têm discussão? Ou numa negociação todos perdem alguma coisa para que todos ganhem muito? Então a "inflexibilidade foi de ambas as partes" ou de uma das partes?



Tenho dificuldade em aceitar os políticos que utilizam a palavra com pinças, os conceitos como se tivessem um bisturi nas mãos, mais parecendo estarem numa intervenção cirúrgica onde os materiais têm de ser utilizados com uma milimétrica precisão: isto não convém dizer, aquilo não é politicamente correcto, mais vale uma no cravo e outra na ferradura, há que fazer um jogo de cintura para ficar a bem com Deus e com o diabo..., enfim, irrita-me quando sou confrontado com gente que não enfrenta o problema, buscando as causas mesmo que isso possa desagradar ao seu eleitorado. Por isso mesmo regresso ao tema greve dos professores. Aliás, se há sectores que não devem ser partidarizados, um deles é o da Educação. Politizado, sim e sempre. Partidarizado, não, nunca. A discussão deve ser política, com alma e com conteúdo. Fi-lo, assim, quando pela Assembleia passei. Um dia disse aos meus interlocutores políticos: "quando falo de Educação as minhas vestes partidárias ficam ali à porta". Isso consta do Diário das Sessões da Assembleia. Portanto, estou à vontade para equacionar as questões da Educação numa base política e não partidária. 
Porquê tudo isto? Porque ontem segui a parte final do programa "Parlamento" da RTP-Madeira (repetição), exactamente no momento que a Senhora Deputada Isabel Torres, do CDS/PP, argumentava sobre a greve dos professores. Disse: "(...) sabendo a postura, sobretudo dos sindicatos principais, a Fenprof, com o professor Mário Nogueira, que não tem uma postura, uma retórica um pouco corrosiva, um discurso muito ríspido, estavam criados os ingredientes para que isto não culminasse num verdadeiro sucesso". Mais adiante: "houve inflexibilidade de ambas as partes" (...) "o governo cedeu em algumas coisas (...)", já disse que as 40 horas não interferem com os tempos lectivos e que a "mobilidade não seria aplicada no próximo ano lectivo, mas no seguinte". 
Ora bem, escutei e formei uma opinião. Correcto para o CDS/PP e para a Senhora Deputada Isabel Torres, quando fala de um "verdadeiro sucesso" é que, tal como cordeirinhos atados à corda do governo PSD/CDS, todos os professores, sem excepção, dissessem sim às abusivas e sistemáticas manobras de descredibilização dos professores. Aí estaria tudo bem, até porque o governo "cedeu em algumas coisas". Mas que coisas, Senhora Deputada? A mobilidade, alegadamente, adiada para 2015? Oh, Senhora Deputada, então isso não significa dizer a milhares de professores que o seu provável despedimento não será em 2014, mas em 2015? É óbvio. Para a Senhora Deputada, isto significa ceder, para mim é hipocrisia levada ao extremo, quando "não temos professores a mais, temos sim sistema educativo a menos". Esquece-se a Senhora Deputada que há milhares de professores em mobilidade desde que começaram a trabalhar. Como já escrevi, saltam de Bragança para os Açores, dos Açores para Faro, de Faro para o Funchal tendo a família na Guarda. Mobilidade, desestruturação familiar e prejuízo financeiro é o que muitos professores sempre fizeram. Agora, descaradamente, tendem a mandá-los embora. Considera a Senhora Deputada esta situação justa? Conseguirá a Senhora Deputada colocar-se na situação de professora despachada para a mobilidade especial?  
E quanto às 40 horas, a pergunta que se coloca é simplesmente esta: se os professores não vão trabalhar mais, se já fazem 40 horas ou mais, então, que razões levam a fixarem em texto legal? Então a Senhora Deputada não está a ver que é uma falácia, uma grosseira mentira, o que diz o Ministro, através do argumento que mantém o número de horas lectivas? Que os professores vão ter mais trabalho na escola, mais burocracia, mais reuniões, mais apoios, etc. etc.? É óbvio e ninguém vai poder escapar, pois o cutelo do despedimento, através da mobilidade especial, pairará a todo o momento. Adiante. 
Ao contrário do que sugere a Senhora Deputada, o Professor Mário Nogueira e tantos outros que o antecederam na liderança da Fenprof, não foge ao debate e à negociação com uma postura flexível. Está enganada. Deveria a Senhora Deputada pensar três coisas: primeiro, que os ganhos e a dignidade da função docente adquirida desde 1974 ficam a dever-se à luta dos sindicatos, particularmente da Fenprop (federação de sindicatos), todos, inclusive a Senhora Deputada, ganharam com essa luta pelos direitos, mesmo aqueles que nunca fizeram uma greve na sua vida, acabaram por ser beneficiados com a luta dos sindicatos. Não me parece correcto que se apelide de "retórica corrosiva" e "discurso ríspido" aqueles que, apaixonadamente, lutaram pelo sistema educativo, pela melhoria das condições de trabalho e que, agora, lutam contra o desmantelamento da escola pública; segundo, a Senhora Deputada deveria ter presente que nesta greve não foi apenas um sindicato que a promoveu, mas nove onde se inclui a Federação Nacional de Educação (FNE) muito próxima dos partidos do poder. É porque alguma coisa está mal, ou não será assim?; terceiro, o que significa a palavra negociação? Será que basta se sentar à volta de uma mesa e, logo à partida, uma parte determinar que podemos discutir tudo, mas este, aquele e aqueloutro aspecto não têm discussão? Ou numa negociação todos perdem alguma coisa para que todos ganhem muito? Então a "inflexibilidade foi de ambas as partes" ou de uma das partes?
Regresso ao princípio. É um pouco por tudo isto, pelas posições do Ministro Crato que antes de ser ministro disse que o Ministério da Educação deveria ser "implodido", que não devemos permitir que o faça no plano conceptual do que deve ser o Sistema Educativo, sabendo nós o que ele pensa sobre a Educação, o político retrógrado que é, que fico triste quando assisto a uma ex-professora manifestar-se, na essência discursiva, contra a classe profissional a que pertence(u). Nestas análises que estão muito para além de um certo corporativismo, entristece-me ver, por interesse político, quem defenda certas posições ignorando toda a história do processo. Mas, enfim, com todo o respeito pela Senhora Deputada, não é esse o meu caminho e os professores, no momento adequado, saberão dar a resposta.
Ilustração: Google Imagens.

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