domingo, 3 de novembro de 2013

ORÇAMENTO DE ESTADO E OS CARTEIRISTAS PROFISSIONAIS


Há tempos, através da televisão, assisti a uma reportagem sobre carteiristas. A peça retratava várias situações na baixa lisboeta, ali próximo, curiosamente, onde estão instalados vários ministérios. Da perícia à rapidez até à dissimulação, o carteirista profissional levava tudo num ápice. Ora, entre o Orçamento de Estado para 2014, apresentado pelo governo e um carteirista profissional, sinceramente, venha o diabo e escolha. O ataque é semelhante, apenas diverge no campo da legalidade. Enquanto, se apanhado, o primeiro fica a contas com a Justiça, os mentores do segundo passam incólumes e até se apresentam contra o Tribunal Constitucional. Os primeiros podem ser presos, os segundos em liberdade ficam. Entre a ilegalidade de um acto que corresponde a um roubo e a legalidade de um orçamento que, também sorrateiramente, rapa a carteira, pergunto, qual a diferença? A consolação fica na notícia de Agosto passado: "carteirista assalta economista da troika. Albert Jaeger, economista austríaco do Fundo Monetário Internacional (FMI) residente em Lisboa, foi assaltado por um carteirista quando passeava de eléctrico".


Entretanto, ontem li, no DN-Madeira, uma excelente opinião da Drª Manuela Parente, Psicóloga. O artigo reflecte sobre o caminho que o País está a seguir. Caminho muito preocupante. Escolhi algumas passagens que me pareceram incisivas e esclarecedoras. Aqui ficam: 
"(...) Em nome da dívida e da vontade do governo em cumprir metas estabelecidas em papel, Portugal passou a ser mais um dos países onde as pessoas valem muito pouco, sendo apenas consideradas números que se movimentam em tabelas financeiras, em linhas idênticas aos icebergs onde o visível é apenas o que importa valorizar. O que não se vê não é produtivo, logo está totalmente isento de qualquer investimento. (...) Estou certa de que os resultados desta corrida financeira e desta obsessão orçamental vai dar origem a situações gravíssimas de desiquilíbrio social, visíveis no passado e no presente, noutros lugares do mundo. (...) Como tal os estragos, que já começaram a se efectuar, com tendência para se agravarem, vão a curto prazo deixar o país numa situação muitíssimo mais difícil do que a que já se encontra no presente momento. Não é necessário dar exemplos porque eles são já tão óbvios que só mesmo um pequeno grupo de gente mal crescida prefere ignorar. Tenho visto alguns debates televisivos, poucos, mas os suficientes para ficar profundamente incomodada e triste com as palavras e raciocínios que saem da boca de gente cuja formação académica e educação de valores e princípios está muito aquém das necessidades do país. (...) A lei da selva chegou de novo a Portugal. A cadeia alimentar traça o destino só que no caso concreto o alimento é o poder económico. Quem tem mais lidera e explora quem tem menos e abate, se for necessário, o que considera desperdício. Em nome de qualquer coisa, que não é boa coisa, estamos a caminhar para um sistema perverso e promotor de doença. (...) O que está a acontecer no país é uma agressão à dignidade humana. Face a determinados argumentos da classe politica na tentativa de justificar o absurdo, só consigo sentir desprezo e uma total desconsideração. (...)"

Já agora, deixo também um vídeo sobre carteiristas profissionais. Este é um daqueles que "rouba" apenas como espectáculo. O "desgraçado" ficou sem nada, nem com a gravata, enquanto um simples papel e muito paleio o distraia. O debate do Orçamento de Estado não está a ser muito diferente. 

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