quinta-feira, 28 de maio de 2015

FUTEBOL PROFISSIONAL NO SECTOR DA EDUCAÇÃO? JUSTIFIQUEM, PORQUE POUCOS ENTENDEM!


O Presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Miguel Albuquerque parece-me que tem andado distraído com a situação do "desporto" na vertente profissional. Ontem, na romaria do C. F. União à Quinta Vigia, adiantou à comunicação social: há necessidade de "auditar os efeitos de retorno do futebol profissional na economia e receita fiscal da Região". Salienta o DN que o presidente explicou a importância de ser feito este trabalho o quanto antes, porque "o contribuinte que investe o seu dinheiro público no desporto profissional precisa de saber qual o retorno directo e indirecto do seu investimento enquanto contribuinte. Penso que esse será um passo muito importante para acabar com esta conversa dos dinheiros públicos para o desporto profissional". Ora bem,  os estudos existem, estão publicados, sobre os porquês da apetência do destino Madeira e a sua relação com o desporto em geral. Até o PS apresentou, em 2007 e 2010, dois diplomas na Assembleia sobre esta matéria. Foram chumbados pelo PSD. Nem serviu, enquanto ponto de partida e de instrumento de trabalho. Nessa altura, lembro-me de terem sido divulgados os resultados desses trabalhos que tiveram uma abrangência significativa em função dos cinco principais mercados geradores de turismo, alguns desses estudos, inclusive, foram replicados em função das designadas épocas alta e baixa do turismo. Há uma excelente monografia de Licenciatura de uma madeirense na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. No entanto, faça-se mais um estudo. Enquanto o "pau vai e volta folgam as costas". Certo é que o futebol de natureza profissional, pelas suas características empresariais, deve estar sob a tutela da Economia e não da Educação. As SAD's são empresas e, portanto, devem ser analisadas tal como qualquer outra que se encontre no mercado. Por que é que o futebol profissional tem de ser diferente? Pelas paixões que gera?


A 07 de Dezembro de 2010 fui convidado pelo Jornalista Ricardo Soares, do Tribuna da Madeira, a pronunciar-me sobre diversos aspectos, fundamentalmente, ligados ao desporto e à Educação. Deixo aqui a resposta a duas questões:
E o que fazer com o futebol profissional?
Sabe, quando ouço que os clubes dão mais ao Estado, em impostos, do que recebem, constitui uma mistificação. Que a Região vai receber o dobro relativamente ao investimento é outra mistificação. Se é assim, deixem de receber e, por isso, deixarão de pagar impostos. São frases soltas, descontextualizadas de outras variáveis que devem ser tidas em conta. São frases assassinas que se destinam a vender uma imagem. Apenas isso. É fumo. A verdade é que estão todos falidos, mesmo com substanciais apoios. O que defendo é que “os clubes desportivos participantes em competições desportivas de natureza profissional ou com praticantes que exerçam a actividade desportiva como profissão exclusiva ou principal, sujeitas ao regime jurídico contratual, não devem beneficiar, nesse âmbito, de apoios ou comparticipações financeiras por parte da Administração Regional Autónoma e das autarquias locais”. Têm de funcionar como empresas assumindo todos os riscos do mercado. É, por isso, que defendo que a Região deve alienar as participações sociais que detém nas sociedades anónimas desportivas. A vocação e missão de um governo, já que falamos de desporto, não é a de apoiar sociedades falidas, mas a de investir, neste caso, na escola, na quantidade e na qualidade do desporto educativo escolar. Na qualidade dos nossos praticantes visando uma consequente representação externa. Faz parte da nossa auto-estima enquanto povo sermos representados ao mais alto nível. Não assim, com uma legião de continentais e estrangeiros a nos representarem. Uma outra mistificação é que o futebol profissional e outras modalidades profissionalizadas constituem veículo promocional da Região. Nada de mais errado. Esta mesma ideia proliferou, recordo, aquando dos “Jogos sem Fronteiras”. Há estudos, concretamente, monografias de Licenciatura e dissertações de Mestrado, da Universidade da Madeira, que provam, em altíssima percentagem, que quem nos visita procura a tranquilidade do destino, os passeios a pé, as levadas e o ambiente social. Quando questionados, apurou-se ser insignificante os turistas que conheciam uma só equipa da Madeira. Conheciam os clubes de golfe. São estudos publicados e, portanto, basta consultá-los. Poderão alguns dizer que o futebol contribui para o pacote da imagem da Madeira no exterior. Considero que há outras formas promocionais que não passam por este canal e de resultados mais consistentes. Portanto, o futebol profissional tem de encontrar unhas para tocar a sua guitarra. O apoio ao desporto, enquanto bem cultural, não deve esgotar-se no domínio profissional. A separação de águas é necessária até porque não há dinheiro público nem empresas capazes de o suportarem. 
Na sua opinião, os madeirenses compreendem que o Governo Regional continue a dar apoios ao futebol profissional?
Sabe, eu penso que este seria um óptimo momento para travar, ou melhor, para corrigir a agulha desta desnorteada bússola governativa. Um momento para o poder dizer: nós já fizemos a nossa parte (infra-estruturas), agora façam o favor de fazer a sua. O problema não se resolve retirando um, dois ou três milhões do Orçamento ou, então, dizendo que os apoios têm vindo, anualmente, a diminuir. Essa é areia para os olhos. O problema é de pensamento estratégico. Cortam nas margens para que tudo continue na mesma. A linha de pensamento é a mesma. A questão é, portanto, mais profunda, é de definição de objectivos, de clarificação dos âmbitos de actuação, de ter capacidade para assumir que esta Região é pobre e dependente e que o dinheiro dos impostos deve ser aplicado de forma racional e no pleno respeito pelas prioridades sociais. Um governo eleito, mesmo com maioria absoluta, não pode, à sombra de uma vitória nas urnas, assumir posições que se mostrem contrárias aos interesses do Povo. E as prioridades que estão à frente dos nossos olhos são as do emprego, as da educação e as da saúde. (...) O Povo começa a perceber as palavras de Chico Buarque: “Aqui na terra tão jogando futebol; Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll; Uns dias chove, noutros dias bate sol; Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (…)".
Ilustração: Google Imagens.

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