Adsense

Mostrar mensagens com a etiqueta Futebol. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Futebol. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Um espanhol na liderança da selecção nacional de futebol


Por norma não opino sobre o futebol profissional. Abro uma excepção porque está em causa a selecção nacional. Pode ter sido uma escolha acertada, o futuro o dirá, mas não me parece aceitável. Portugal tem tantos treinadores com formação académica e que trabalham dentro e fora do país no quadro de uma reconhecida excelência. 



Porém, precisámos de ir recrutar a Espanha um líder para a selecção nacional.Não conheço o processo de recrutamento, os contactos estabelecidos, quem disse não aos eventuais convites, todavia, porque existem duas reconhecidíssimas escolas de formação, concretamente a Faculdade de Motricidade Humana (Lisboa) e a Faculdade de Ciências do Desporto (Porto) de onde saíram figuras, hoje, de enorme prestígio, custa-me aceitar a necessidade de ir a Espanha recrutar quando temos do melhor cá dentro.

Enfim, penso assim, em estado distante e de pureza, porque não domino os meandros dos interesses de quem "vende e compra treinadores", tampouco domino "o cheiro do balneário". Acredito na formação académica, no permanente estudo e na competência. Aliás, disse o treinador escolhido que não acredita "em sistemas" (...) acredita, sim, "nos jogadores, no ser humano e no talento". Mais, que "gostaria de ter um assistente português, que tenha sido jogador da seleção e tenha carreira internacional". Portanto, parece-me que o estudo vale pouco e que, por outro lado, existem valores em Portugal!

De facto, cada vez mais, o futebol não tem pátria!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

Futebol madeirense, que futuro?

 

Este vídeo tem 30 anos. Era então colaborador da RTP-Madeira, com responsabilidades na informação desportiva. Entre outros, coordenei e apresentei o programa Domingo Desportivo. No dia 17 de Fevereiro de 1991, durante uma hora e meia, fui pivot do debate "Futebol madeirense, que futuro?" Era um tema que me preocupava, fundamentalmente, pela inexistência de uma credível sustentabilidade que o futebol profissional de então seguia. Nessa época de 1990/91, Marítimo, Nacional e União militavam na 1ª divisão nacional; na 3ª divisão, Câmara de Lobos, Machico e Portossantense. Muito para uma região limitada nos seus recursos. Convidei os presidentes destes clubes para um debate.

Trinta anos depois, o União atravessa o período mais doloroso da sua história, o Nacional desceu, novamente, à divisão secundária e o Marítimo safou-se, mas com o credo na boca até à penúltima jornada. Esta situação fez-me regressar a esse debate e visionar o que então foi apresentado e dito. Há trinta anos, genericamente, do debate resultou que as preocupações que eu tinha eram infundadas, a avaliar pelas declarações de cada um dos intervenientes. Não negavam as dificuldades, mas... 

Não vou aqui comentá-las, comparando-as com a situação hoje vivida, quer no plano competitivo, quer no que concerne a instalações entretanto construídas face aos resultados que hoje se verificam. Apenas julgo que a pergunta inicial continua pertinente.

Quem tiver a paciência de seguir este debate peço que o faça com redobrada atenção, em função das palavras ditas, da situação actual e de todos os outros factores que continuam a estar em causa.

Ah comentem, pois há ali matéria de sobra. Abram o debate trinta anos depois.


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Super Liga Europeia: como a economia “trickle down” chegou ao futebol


Vicente Ferreira, 
in Blog Ladrões de Bicicletas, 
19/04/2021

O anúncio de ontem à noite chegou às capas de jornais um pouco por todo o mundo: 12 dos clubes mais ricos do planeta oficializaram a criação da Super Liga Europeia, uma prova que pretende funcionar como alternativa à atual Liga dos Campeões. Embora ainda não se conheçam todos os contornos, os clubes fundadores – Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Tottenham, AC Milan, Inter, Juventus, Real Madrid, Atlético de Madrid e Barcelona – terão direito a um lugar permanente na competição, havendo a possibilidade de admitir anualmente alguns convidados. O projeto conta com um empréstimo de €3,25 mil milhões da JP Morgan, como adiantamento de receitas futuras provenientes dos direitos de transmissão televisiva.



No comunicado oficial, os fundadores da nova competição dizem que a decisão surge “num contexto em que a pandemia agravou a instabilidade do atual modelo económico do futebol europeu”, embora, na verdade, as discussões para a criação desta prova já tenham alguns anos. A ideia passa por criar “um formato para que clubes e jogadores de topo compitam uns contra os outros de forma regular”, que possibilite uma “abordagem comercial sustentável […] para o benefício de toda a pirâmide do futebol europeu”. É aqui que o caso se torna interessante: os clubes responsáveis por este projeto prometem que os benefícios não serão apenas para si próprios, mas que acabarão por ser distribuídos e beneficiar todos os outros. É a lógica “trickle down” aplicada ao desporto. Esta ideia, que tem origem nos debates sobre a política fiscal do final do século passado, diz-nos que a redução dos impostos sobre os mais ricos tenderia a beneficiar a sociedade como um todo, pelo efeito de promoção do investimento e da criação de emprego. Alivie-se a tributação da riqueza e esta distribui-se naturalmente, dizia-se.

Só há um problema: a experiência dos últimos 50 anos mostra que esta ideia não funciona. Os economistas Julian Limberg, do King’s College de Londres, e David Hope, da London School of Economics, estudaram os cortes de impostos sobre os mais ricos aprovados ao longo das últimas cinco décadas em 18 países diferentes. Sem grande surpresa, a conclusão a que chegaram foi a de que estes cortes beneficiaram bastante o 1% do topo, mas tiveram efeitos negligenciáveis para o resto da sociedade. “Em média, cada diminuição considerável de impostos resulta num aumento de 0,8 pontos da fatia do 1% do topo”, lê-se no estudo. Por outro lado, “a evolução do PIB per capita e da taxa de desemprego não é afetada por reduções significativas dos impostos sobre os mais ricos”. É por isso que, nas últimas décadas, os países que mais reduziram a taxa de imposto aplicada ao 1% do topo foram aqueles onde a fração do rendimento nacional captada por este grupo mais aumentou. Por outras palavras, foi nesses países que o 1% do topo passou a arrecadar uma fatia ainda maior do bolo, como mostrou um estudo de Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Stefanie Stantcheva. Conclusão: estes cortes só acentuaram as desigualdades.

terça-feira, 20 de abril de 2021

A RODA DOS MILHÕES E A GANÂNCIA




A propósito da Superliga que os clubes de alegada grande riqueza financeira desejam, ontem, dois pensamentos bailaram na minha memória. Um de Eduardo Galeano (1940/2015) que, no Le Monde Diplomatique escreveu, tem já uns anos, um artigo a que deu o título: “Football, une industrie cannibale”; um outro de um artigo do Professor Doutor Manuel Sérgio, Filósofo, na edição de O Desporto Madeira de 27.11.03: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)".
Pensemos nisto!

terça-feira, 9 de março de 2021

Formação de treinadores

 

Tenho a clara sensação que me estou a meter em um terreno muito pantanoso. O futebol mexe com muitos interesses de milhares de milhões, muitas e exacerbadas paixões, horas intermináveis de "debates" muitas vezes redondos, estéreis e de puro ardor clubístico, enfim, há muito que o futebol se tornou naquilo que Eduardo Galeano (1940/2015), em artigo no Le Monde Diplomatique, titulou de "Football, une industrie cannibale". Esta caracterização é, talvez, a que melhor configura o mundo do futebol. Mas não é sobre os meandros da indústria que escrevo. Apenas quero deixar uma nota a propósito da recente polémica sobre a formação do treinador do Sporting Clube de Portugal de nome Rúben Amorim.



Não sei qual a formação académica de base do treinador em causa. Nem me interessa. Sei, apenas, que foi um jogador de qualidade acima da média e com um interessante percurso profissional. Portanto, quem me ler, espero que considere estas linhas em abstracto, isto é, não enquadradas na situação do treinador em causa e de outros, mas apenas no quadro de uma convicção que alimento desde sempre. Eu diria melhor: um princípio que entendo como basilar. 

Ora, a formação de um treinador, por fazer exigência a um alargado conhecimento técnico e científico, é óbvio que exige uma formação básica consistente. E essa reclama, em um primeiro momento, um título académico de licenciado por uma faculdade onde as ciências do desporto constituam, entre outras, a sua vocação e missão. Só depois devem ser encarados, como especialização ou formação permanente, os cursos de nível I, II, III e UEFA PRO da responsabilidade de uma qualquer federação, independentemente do número de horas e de estágio em cada nível. A prática do desporto federado, desde o nível básico até ao alto rendimento, sobretudo no alto rendimento, faz exigência de conhecimentos que estão muito para além de um dado sujeito ter sido praticante de qualidade e de ter, ao longo dos anos, experimentado e até assimilado situações múltiplas em função do que escutou de outros treinadores de quem foi discípulo.

Dir-me-ão que há treinadores de sucesso que não são licenciados em coisa alguma; que existem treinadores licenciados e com especialidade que não passam da mediania; e que existem autodidactas com resultados. Pois, tudo isso é verdade, depende de muitos factores, mas não se sobrepõe a um princípio que é o do conhecimento sustentado no plano de um estudo superior. Dir-me-ão, ainda, que, hoje, e bem, as equipas técnicas são constituídas por vários especialistas. Eu diria que esbate o problema, mas não me parece que constitua o caminho adequado, porque todos, repito, todos, devem ter a formação apropriada.

Aliás, é assim no quadro da nossa vida. Os médicos não são "curandeiros"; os enfermeiros não são "benzedeiros"; os advogados não são arguentes de café; os professores não são discentes; o maestro não é um DJ; os engenheiros não são pedreiros, por aí fora, quando em causa está o conhecimento.

Há muito que não oiço esta expressão: "mas ele domina o 'cheiro' do balneário". Ora, a ciência não se compadece de cheiros, mas de estudo, sendo certo que os mais talentosos acabam por singrar e outros é absolutamente natural que não escapem à mediania. Olhe-se, por exemplo, para o José Mourinho entre tantos outros, cuja formação foi determinante para o êxito!

De resto, julgo que foi Mário Wilson (Geólogo) que, do alto da sua humildade, disse: "quem treina o Benfica arrisca-se a ser campeão". Nesta frase se não está tudo, ela acaba por transmitir que o poder financeiro é capaz de suprir as insuficiências de conhecimento. Só que eu não vou por aí nem contribuo para esse terreno, repito, pantanoso!

Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de maio de 2020

AS NOVAS CATEDRAIS E OS MONSTROS SAGRADOS


Por
Padre José Martins Júnior
29.04.2020

Ao título em epígrafe falta juntar o elemento essencial: o verbo ou predicado. Então ficaria assim: “Também caem as novas catedrais e da mesma forma se abatem os monstros sagrados”. Na leitura que lhes faço, os verbos assumem uma nítida conotação reflexa, ou seja, são as catedrais que tombam por si mesmas e os monstros, ainda que sagrados, são eles que a si próprios se desmancham, à luz do dia.


Ao título em epígrafe falta juntar o elemento essencial: o verbo ou predicado. Então ficaria assim: “Também caem as novas catedrais e da mesma forma se abatem os monstros sagrados”. Na leitura que lhes faço, os verbos assumem uma nítida conotação reflexa, ou seja, são as catedrais que tombam por si mesmas e os monstros, ainda que sagrados, são eles que a si próprios se desmancham, à luz do dia.
Da encosta onde me posiciono, declaro que tomo, desde já, torres ou monstros como ícones e metáforas de tantos outros monumentos sócio-económico-culturais que têm balizado os nossos usos e costumes - numa palavra, a nossa civilização – e que, a partir de agora, ficam em hasta pública, à mercê de novos ventos e fortes abalos trazidos pela “insustentável leveza” do coronavírus.
Hoje, porém, compartilho da mesma paisagem que, no dia de ontem, milhares e milhões de portugueses desfrutaram ao ver subir lentamente (ao peso de uma herança quase perdida!) certos corifeus do nosso desporto-rei na escadaria de São Bento, em Lisboa. Houve quem a comparasse a uma segunda edição de nova “brigada do reumático” a caminho de um improvisado hospital de campanha. Ordem de trabalhos: epílogo de campeonatos inacabados.
Não me ocupo do elenco da dita embaixada nem da sua hipotética legitimidade representativa. Nem sequer da dita Ordem de Trabalhos. Preocupa-me tão só o mesmo que preocupa o cidadão comum quando se debruça sobre o estado actual do mundo do futebol – essa floresta tão densa e tão sombria que tanto custa a desbravar e decifrar. A questão que a todos se coloca é esta: o que é hoje o futebol?... Desporto, acção, arte atlética, fraca competição, desenvolvimento integral da personalidade?... Não há muito tempo, um conhecido e abalizado cronista desportivo, no aceso de um debate televisivo sobre a matéria, explodiu (é mesmo o termo, explodiu!) agastado, peremptório: “Isto é só negócio. O futebol nada tem além do negócio”! No decurso do debate, atiraram-se como pedras de chumbo para cima do tampo da mesa acusações e denúncias de transacções, trapaças e jogadas, subornos, traições, todo um enxurro torpe de dinheiro sujo e atentados à dignidade humana…
Pergunta-se: Onde está um lampejo que seja daquele ideal olímpico de que falava o poeta latino Iuvenalis: “Mens sana in copore sano”?
Nos comentários de bancada, do povo que até gosta de futebol, saíram tacadas ácidas, como “Se calhar, estes tipos também vão pedir dinheiro ao governo para pagar aos jogadores”… E logo vêm ao de cima as cifras ciclópicas aos donos das chuteiras, como aquele ilustre Professor da Faculdade de Medicina que, ao saber da transacção feita com Neymar ao PSG, não se conteve: “O quê? Isso é o Orçamento Anual de todo o Hospital de Santa Maria”!!!

A alinhar com esta inflação verdadeiramente obscena, acresce a superinflação da palavra, dos “catedráticos da bola”, com cujas avalanches verbais os nossos canais rebentam pelas costuras… Por outro lado, não deixa de ser notória a “caça” precoce aos jovens, desde tenra idade, criando neles parcas apetências e falsas expectativas num futuro que não ultrapassa a mediania, senão mesmo o vazio cultural. Permitam-me um desabafo: ainda não percebi qual o cabimento pedagógico de transportar menores pela mão para dentro de um “caldeirão”, de todo desaconselhável, onde os esgares descontrolados são a mais vergonhosa cartilha para uma criança!

Não pretendo moralizar nem muito menos dogmatizar sobre o gigantesco fenómeno do desporto-rei. Acompanho apenas o olhar atento dos autênticos observadores dos futuros estádios, isto é, dos novos caminhos que o futebol abrirá no mundo de amanhã. Algo será diferente. O batente que o ‘Covid-19’ estourou na barra dos nossos rectângulos desportivos e em quase todos os quadrantes sociais servirá para queimar a gordorosa e rançosa imundície de que andam vestidos certos figurinos e certas estruturas do nosso futebol. As próprias novas catedrais – os estádios são as novas catedrais da cidade – e os seus monstros sagrados cairão de velhos e gastos se não tentarem rejuvenescer numa outra mundividência do desporto. 
Faço minhas ( e outro objectivo não tenho senão transmiti-las) as judiciosas palavras do Prof. Francisco Sobral: “Toda a actividade desportiva deverá ser equilibrante, estruturante e socializante”. E completo-as com a veemente denúncia de um outro Mestre do Desporto, Manuel Sérgio, acerca dos desvios do mundo em que se movimentava: “Este nosso mundo tecnocrático que rejeita áreas fundamentais e que, ao lado dos “Spitz” e dos “Pelés”, mantém milhões de subalimentados”!
Será desta - pergunto eu - ou teremos nós de esperar por mais uma enorme penalidade do ‘Covid” para darmos outra volta ao mundo do desporto, o futebol inclusive?

quarta-feira, 19 de junho de 2019

FUTEBOL... A BOLA VAI REBENTAR!


Raramente reflicto sobre assuntos do futebol, particularmente, o do sector profissional. Porém, as últimas semanas, aguçaram-me o apetite. Ligo a televisão ou a rádio e só oiço milhões, muitos milhões para este e para aquele. Milhões a rodos por transferências, na esmagadora maioria dos casos ascendendo a valores absolutamente pornográficos. Desde há muito que tenho consciência que se ultrapassou o limite do razoável e do bom senso. Porém, as "vendas" continuam em crescimento. Abordo esta questão de uma forma livre, em jeito de desabafo, sem qualquer... eu sei lá como hei-de de me expressar, vou pela palavra mais fácil, sem qualquer inveja, apenas guiado pela observação da loucura total que está aos olhos de todos.  


Dir-me-ão que se trata de empresas de natureza privada. Eu sei que a generalidade funciona segundo tais princípios. O talento do futebol é, desde há muito, mercadoria transacionável. É o negócio que comanda tais empresas. Mas também não é menos verdade que uma grande parte dos clubes apresenta sinais de falência ou se encontram sob a alçada das instituições internacionais para cumprirem o designado fair-play financeiro. O que me leva a pressupor que não sabendo quando se verificará o estoiro, certamente, para lá caminham. A bola vai rebentar!
O problema é que toda esta azáfama que polariza as atenções da generalidade dos canais de comunicação, com "debates" estéreis, em horário nobre, normalmente, em redor do nada, acabam por ser ofensivos face a tantos dramas vividos na(s) sociedade(s), particularmente, no quadro da pobreza. Não quero entrar em comparações despropositadas (serão?), por exemplo, trazendo para cima da mesa os míseros salários de cientistas, de investigadores e, entre outros, aqueles que lutam contra o relógio do tempo no campo da ciência que conduz à solução para muitas doenças; tampouco quero entrar no campo dos laureados com um Prémio Nobel, dos artistas, escritores ou, então, dos que participam ao mais alto nível em outras modalidades desportivas. Mas pela minha cabeça passam, forçosamente, as disparidades, os desequilíbrios, a alucinação colectiva pelo espectáculo, a especulação de uns que reduzem a competição desportiva, leia-se campeonato(s) nacional(is) de futebol, a três equipas, com as restantes a comporem o ramalhete dos interesses. 
Creiam, que este é, apenas, um desabafo, onde muito fica por equacionar!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 19 de maio de 2019

A LIÇÃO DO PROFESSOR BRUNO LAGE


Finalmente, um treinador, na hora da vitória, saiu da mediania e, sereno, aproveitou a oportunidade para dar , de improviso, uma lição: (...) "Que este título, que esta reconquista, que este campeonato que estava perdido, seja também a forma de nós começarmos a dar mérito a quem ganha, e tem de partir de nós agora", pedindo que "a partir do nosso exemplo, começarmos a olhar para os nossos adversários e quando eles ganharem, também lhes dar mérito, porque só assim é que, quando nós ganhamos, eles nos vão começar a dar mérito."

Bruno Lage foi mais longe ao lembrar que "o futebol é apenas o futebol", considerando que "há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos de lutar". Partindo do fervor desportivo nutrido pelos adeptos, o treinador disse para as pessoas "se unirem" porque, "se tiverem a força, se tiverem a exigência que têm no futebol noutros aspectos de Portugal, na nossa economia, na nossa saúde, na nossa educação, nós vamos ser um país melhor". Fantástico! Uma lição política a que juntou uma frase de cidadania na Praça do Marquês de Pombal: "É só para avisar que ninguém vai para casa sem deixar a praça limpa, ok?"
Não é normal, na hora da euforia, da loucura total, das exacerbadas paixões, um Homem suba à tribuna e, serenamente, diga a todo o País que "o futebol é apenas o futebol". Que existem sectores e áreas da nossa vida comum muito mais importantes.
Bruno Lage tem uma sólida formação académica, fez uma Licenciatura em Educação Física e Desporto. E isso faz toda a diferença, sobretudo porque, muito certamente, não leu, apenas, as sebentas para cumprir as cadeiras da Faculdade. Foi mais longe e isso, sinceramente, agrada-me, sobremaneira.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O SENTIDO DAS PRIORIDADES NUMA REGIÃO CHEIA DE PROBLEMAS


Nota prévia

Este é, apenas, um desabafo em um espaço de debate muito controverso, porque o futebol profissional está cheio de exacerbadas paixões. Espero que compreendam a minha posição, porque respeito todas as outras.

Nunca entendi a necessidade dos dois principais clubes da Madeira disporem de estádios próprios para a prática do futebol profissional. Outra coisa são os espaços para treino das suas equipas. Dir-me-ão que é legítimo no quadro dos seus projectos, rivalidades e ambições. Pois, é verdade. Porém, em uma Região muita pequena, limitada, pobre, assimétrica e dependente, onde os sucessivos governos não foram capazes de reduzir a carga fiscal prevista no Estatuto (20/30%), se o bom senso prevalecesse e não as cumplicidades, digo eu, seria muito mais compreensível que os dois actuassem na mesma “sala de visitas”. Exemplos não faltam em outros países, por exemplo, em Itália, onde o Inter de Milão e o A. C. Milan, desde há 70 anos, utilizam o mesmo estádio (Giuseppe Meazza, 80.074 espectadores). Entretanto, recentemente, o Milan e o Inter chegaram a acordo para trabalharem juntos no projeto de um estádio "moderno e de vanguarda". O San Siro data de 1926. Apesar de rivais, li que estão juntos na repartição dos encargos. 


Mas, por aqui, a pobreza tem destas coisas, os principais clubes já foram buscar às paupérrimas finanças regionais muitos e muitos milhões e soube-se, há dias, pela boca do secretário da Educação que o contrato-programa relativamente ao estádio dos Barreiros, obrigará a uma novas tranches até prefazer os 20.000.000,00 de Euros assumidos pelo governo. Questionado, o secretário engonhou, mediu as palavras ao jeito de “não me comprometa”, mas lá foi dizendo a verdade ou parte dela! Seja como for, muitos milhões a juntar a muitos outros milhões. E porquê? Porque, ao longo do tempo, por ausência de racionalidade nos investimentos, o governo cedeu às pressões e os dois acabaram por ter a sua casa, um terceiro também e até a Associação de Futebol foi contemplada. Depois, neste caso justificando-se, por toda a Região o que não faltam são os espaços para a prática do futebol. 
Falo de racionalidade no investimento público, porque, sendo os clubes instituições privadas, ninguém lhes pode limitar o direito de construírem os seus estádios através de recursos próprios com apoios muito pontuais. É evidente que foi a febre inauguracionista e a ausência de planeamento que assim ditou. Nada a fazer, porque o mal está feito. Agora, é arcar com as consequências, porque só a manutenção das infraestruturas deve colocar com os cabelos em pé de qualquer direcção!
Eu que raramente escrevo sobre desporto, muito menos sobre a utilização de uma modalidade desportiva utilizada no âmbito profissional (para muitos o desporto envolve um outro conceito) fico perplexo como é que, politicamente, se entrega(ou) de bandeja a empresas (as Sociedade Anónimas Desportivas, SAD’s, são empresas) tantos milhões em total desigualdade relativamente ao restante tecido empresarial. Só é inteligível por ausência de rigorosas prioridades políticas, económicas, financeiras e culturais, medo das clientelas partidárias e, sobretudo, porque a Região, embora condenando o que se passava (e ainda se passa) em alguns países, optou por ter um “desporto pertença do Estado”. Não há clube que não seja, coloco esta expressão entre aspas, “propriedade da Região”, tal é o grau de dependência financeira. 
Projecto de um novo estádio nascido da iniciativa do Inter/Milan.
Só nesta última semana os milhões jorraram (vide edição do DN de 22.11.2018, página 22). E isto é o que se sabe. Curiosamente, ou talvez não, por estes dias, um treinador, que muito considero, gritou que a sua modalidade dificilmente teria futuro uma vez que a pirâmide de praticantes está totalmente invertida. Isto é, a SAD funciona no quadro do alto rendimento, mas são poucos os que praticam a modalidade nos escalões mais jovens. Significa, utilizando a expressão do meu Amigo Arlindo Oliveira, que “estamos vestidos de "smoking", mas descalços”! E o que se passa nessa modalidade é muito semelhante a quase todas as outras, bastando para isso um olhar atento sobre a “demografia federada”. No quadro específico do desporto, a pirâmide está invertida e as prioridades também! 
A questão aqui, repito, é de racionalidade e bom senso no investimento. Também é de planeamento e de respeito pelos princípios do desenvolvimento. Um desses princípios é o da “prioridade estrutural”. Não faz sentido que o Sistema de Saúde ande com o credo na boca, tantas vezes a denunciar que corre a rapar o tacho, e o cidadão comum veja milhões a voar para satisfação de megalomanias. Da mesma forma que não faz sentido, o Sistema Educativo público andar à míngua e vermos 30 milhões serem entregues ao ensino privado, quando a obrigação de um governo é respeitar o direito constitucional à Educação pública. Da mesma forma que não faz sentido, olhar para vários exemplos de despesismo e sentir que falta dinheiro (ou má vontade) para um complemento de pensão a quem tem de viver com duzentos, trezentos euros mensais. O que acontece nos Açores! Da mesma forma que não faz sentido, estou a escrever sobre prioridades estruturais, gastar exorbitantes quantitativos, para gáudio de poucos, e não investir no desporto escolar, nessa prática que deveria ser entendida como bem cultural para a vida. Da mesma forma que não faz sentido, porque faz cair por terra a luta política, quase diária, contra “os malandros de Lisboa” (eles que paguem a factura) quando, por aqui, as opções são absolutamente discutíveis. 
Finalmente, ao invés dos governos esconderem o que, na prática, entendem como prioritário, gostaria que tivessem a coragem política, no decorrer das campanhas eleitorais, dizerem, abertamente, aos eleitores, o que pretendem fazer com o dinheiro de todos, no caso concreto, na prática desportiva e nas “empresas desportivas”. Gostaria, por extensão, de ver a reação dos eleitores e o seu sentido de voto, se conhecessem, antecipadamente, o leque das suas prioridades. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

FUTEBOL - UMA INDÚSTRIA CANIBAL. O CASO DE ALCOCHETE.


De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes… 


Raramente escrevo sobre assuntos relacionados com o futebol profissional. E quando resolvo juntar umas palavras, mor das vezes, é no quadro de uma política educativa através do desporto. O resto, desde há muito, passa-me ao lado. Apenas observo. Pelo menos há 30 anos que não assisto, ao vivo, a uma partida de futebol. Refastelo-me no sofá, de quando em vez, para seguir um jogo de altíssimo rendimento, pela qualidade a todos os níveis. Desinteressei-me, talvez, depois de ler um extraordinário artigo no Le Monde Diplomatique, assinado por Eduardo Galeano (1940/2015), a que deu o título: “Football, une industrie cannibale”. Desde esse tempo, premonitoriamente, o autor, antecipou aquilo que hoje corre debaixo dos nossos olhos de actores/espectadores: salários absolutamente pornográficos, corrupção de arrepiar os mais insensíveis, tráfico de influências, violência e até morte. Aprendi com o grande Mestre, o filósofo do desporto, Manuel Sérgio, um dos maiores pensadores mundiais, que o desporto deveria ser “jogo, humor e festa”. Ora, essa pureza parece estar irremediavelmente perdida. 
Desporto vs indústria. O futebol profissional não é desporto. Existe, sim, uma modalidade desportiva (existem outras) que é utilizada com fins empresariais. As Sociedades Anónimas Desportivas pertencem ao domínio empresarial. Não confundamos, portanto, com os princípios que enformam a “Ode ao Desporto” de Pierre de Coubertin: "Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...) Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...). 


Portanto, não confundamos estes princípios com outras finalidades que consubstanciam a sua prática profissional. Tratando-se de uma indústria que fabrica exacerbadas paixões, ódios, fúria e espaços de comportamento irracional, aliás, basta ter presente, sobretudo nos encontros de risco elevado, as massas adeptas serem conduzidas pelas forças de segurança para dentro dos estádios, para concluir desse “canibalismo” que, grosso modo, tal indústria configura e potencia. 


Ora, o que aconteceu na Academia de Alcochete, que não é situação única no futebol por esse mundo fora, não é mais do que o corolário de uma construção, eu diria, com boa vontade, inconsciente, de múltiplos factores, desde a escola à comunicação social. De facto, entre nós, a Escola, genericamente, não tem despertado e não tem incutido o desporto para a vida, segundo valores humanistas, fundamentalmente pela sua organização, porque está presa ao nível curricular a uma Educação Física que, ao querer ser tudo no plano pedagógico, acaba por deixar um rasto de desilusão.
Educar para os valores. Associado a isto, a comunicação social e o dirigismo. Todos os dias, são intermináveis horas, em quase todos os canais, de forma repetitiva, agressiva, doentia e muito pouco normal, painéis de comentadores, com dirigentes desportivos, ex-árbitros, jornalistas, empresários e até políticos que de tudo sabem, com intervenções que formatam frágeis consciências geradoras dos pressupostos da violência. Em alguns casos chega a ser degradante, tal a fúria demonstrada entre uns e outros. Até vejo gente com excesso de peso (!) que muito dificilmente são capazes de correr para uma paragem de autocarro, falando de “desporto” como se fossem exemplo de uma prática entendida, no mínimo, como bem cultural. Um paradoxo, que só ajuda a compreender o tal “canibalismo”. 
De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes. Pelo contrário. E quando ouço o primeiro-ministro falar da necessidade de uma nova “autoridade contra a violência” questiono-me, para quê? Já existe lei que chegue e são vários os organismos com essa missão e vocação. Daí que, o que falta é educar para os valores, o que falta é bom senso na generalidade dos órgãos de comunicação social. O que falta, mesmo no inalienável direito constitucional ao associativismo, é a existência de rastreio nos candidatos a dirigentes. Isto não significa que, por esta via, se eliminem todos os casos. A marginalidade andará sempre à espreita, mas estou certo que jamais atingirá a vergonha que está instalada.
Regresso ao meu Amigo Doutor Manuel Sérgio: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". Pensemos nisto em conjugação com a vergonha de Alcochete.

NOTA
Artigo publicado na edição de Verão 2018 de A Página da Educação.
Também, no blogue www.gnose.eu

quinta-feira, 17 de maio de 2018

FUTEBOL - UMA INDÚSTRIA CANIBAL


Raramente, muito raramente, escrevo sobre assuntos relacionados com o futebol profissional. E quando resolvo juntar umas palavras, mor das vezes, é no quadro de uma política educativa através do desporto. O resto, desde há muito, passa-me ao lado. Apenas observo. Pelo menos há trinta anos que não assisto, ao vivo, a uma partida de futebol. Refastelo-me no sofá, de quando em vez, para seguir um jogo de altíssimo rendimento, pela qualidade a todos os níveis. Desinteressei-me, talvez depois de ler um extraordinário artigo no Le Monde Diplomatique, assinado por Eduardo Galeano (1940/2015), a que deu o título: “Football, une industrie cannibale”. Desde esse tempo, premonitoriamente, o autor, antecipou aquilo que hoje corre debaixo dos nossos olhos de actores/espectadores: salários absolutamente pornográficos, corrupção de arrepiar os mais insensíveis, tráfico de influências, violência e até morte. Aprendi com o grande Mestre, o Filósofo do desporto, Manuel Sérgio, um dos maiores pensadores mundiais, que o desporto deveria ser “jogo, humor e festa”. Ora, essa pureza parece estar irremediavelmente perdida. 


O futebol profissional não é desporto. Existe, sim, uma modalidade desportiva (existem outras) que é utilizada com fins empresariais. As Sociedades Anónimas Desportivas pertencem ao domínio empresarial. Não confundamos, portanto, com os princípios que enformam a “Ode ao Desporto” de Pierre de Coubertin: "Ó Desporto, prazer dos Deuses! Essência da vida (...) Ó Desporto, tu és a beleza! És o arquitecto deste edifício que é o corpo, que pode tornar-se abjecto ou sublime, se degrada na vileza das paixões, ou saudavelmente se cultiva no esforço. (...) Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais (...) Ó Desporto, tu és a audácia! Todo o sentido do esforço muscular se resume numa única palavra: ousar. (...) Ó Desporto, tu és a Honra! Os títulos que tu conferes não têm qualquer valor se adquiridos por meios diferentes da lealdade absoluta. (...). Por aí fora. Portanto, não confundamos estes princípios com outras finalidades que consubstanciam a sua prática profissional. 
Tratando-se de uma indústria que fabrica exacerbadas paixões, ódios, fúria e espaços de comportamento irracional, aliás, basta ter presente, sobretudo nos encontros de risco elevado, as massas adeptas serem conduzidas pelas forças de segurança para dentro dos estádios, para concluir desse “canibalismo” que, grosso modo, tal indústria configura e potencia. Ora, o que aconteceu na Academia de Alcochete, que não é situação única no futebol por esse mundo fora, não é mais do que o corolário de uma construção, eu diria, com boa vontade, inconsciente, de múltiplos factores, desde a escola à comunicação social. De facto, entre nós, a Escola, genericamente, não tem despertado e não tem incutido o desporto para a vida, segundo valores humanistas, fundamentalmente pela sua organização, porque está presa no plano curricular a uma Educação Física que, ao querer ser tudo no plano pedagógico, acaba por deixar um rasto de desilusão; associado a isto, a comunicação social e o dirigismo. Todos os dias, são intermináveis horas, em quase todos os canais, de forma repetitiva, agressiva, doentia e muito pouco normal, painéis de comentadores, com dirigentes desportivos, ex-árbitros, jornalistas, empresários e até políticos que de tudo sabem, com intervenções que formatam frágeis consciências geradoras dos pressupostos da violência. Em alguns casos chega a ser degradante, tal a fúria demonstrada entre uns e outros. Até vejo gente com excesso de peso (!) que muito dificilmente são capazes de correr para uma paragem de autocarro, falando de “desporto” como se fossem exemplo de uma prática entendida, no mínimo, como bem cultural. Um paradoxo, que só ajuda a compreender o tal “canibalismo”. 
De que estávamos à espera? De um futebol vivido com paixão, com enorme entusiasmo, mas com moderação e respeito? De um espectáculo vivido pela beleza do movimento, pela emoção, pela técnica e táctica? De uma competição séria, dirimida com audácia, ousadia, justiça, honra e absoluta lealdade? Dificilmente podíamos esperar um quadro destes. Pelo contrário. E quando ouço o primeiro-ministro falar da necessidade de uma nova “autoridade contra a violência” questiono-me, para quê? Já existe lei que chegue e são vários os organismos com essa missão e vocação. Daí que, o que falta é EDUCAR para os valores, o que falta é bom senso na generalidade dos órgãos de comunicação social. O que falta, mesmo no inalienável direito constitucional ao associativismo, é a existência de rastreio nos candidatos a dirigentes. Isto não significa que, por esta via, se eliminem todos os casos. A marginalidade andará sempre à espreita, mas estou certo que jamais atingirá a vergonha que está instalada. 
Regresso ao meu Amigo Doutor Manuel Sérgio: "(…) O interesse do capitalismo vigente é querer democratizar na medida em que quer vender. O desporto como mercadoria, a cultura como produto vendável, segundo as leis do mercado, é tudo quanto o capitalismo sabe de cultura e desporto (…)". Pensemos nisto em conjugação com a vergonha de Alcochete.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 7 de junho de 2015

A NOVELA DOS MILHÕES


Parece que não temos mais nada com que nos preocuparmos, quando se assiste a uma semana de sessões contínuas da novela de um Jesus que não "encarnou", "verdou"! Parece que estamos todos muito bem, para darmos ao luxo de falar de senhores que nadam no pântano dos milhões, enquanto a maioria discute-os, de imperial na mão, encostados ao balcão da vida real e com inusitado entusiasmo. 


Parece que nada se passa de relevante quando um telejornal concede, como primeira "notícia", treze longos minutos de paleio sobre uma mudança de um lado para o outro da avenida. Parece que nada nos aflige quando quatro canais, em simultâneo, discutem ao pormenor, uma situação que esquece, por algumas horas, o dia seguinte, a realidade dos milhões relativamente à contagem dos cêntimos para pagar a habitação, a educação, a saúde, o pão e o endividamento. Parece que somos um país normal quando nos ameaçam com mais austeridade, congelamento de carreiras, precariedade, desprezo pelos jovens e roubo nas pensões, enquanto toleramos os milhares de milhões que circulam à nossa frente em actos de alegada corrupção (a FIFA é, com toda a certeza, a ponta do icebergue, mas há muitas outras corrupções). Parece que vivemos em total bem-estar, sem problemas por resolver, que o salário mínimo permite enfrentar o custo de vida e que existe equilíbrio entre direitos e deveres, quando nos deixamos enredar nesta teia que esconde o importante e alimenta o supérfluo. Parece que valorizamos mais os milhões de um profissional da bola, do que aqueles que "queimam as pestanas", anos a fio, nos laboratórios da ciência, na persistente finta às dificuldades para encontrarem a solução, por exemplo, para o temível cancro! 


Respeito quem goste, quem devore os jornais desportivos de uma ponta à outra e consiga sentar-se à frente de um televisor para consumir conversa de treta. Quem sou eu para tecer considerações de severa crítica! Apenas aqui fica, sem miserabilismo, o meu estado e desabafo de Domingo.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

FUTEBOL PROFISSIONAL NO SECTOR DA EDUCAÇÃO? JUSTIFIQUEM, PORQUE POUCOS ENTENDEM!


O Presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Miguel Albuquerque parece-me que tem andado distraído com a situação do "desporto" na vertente profissional. Ontem, na romaria do C. F. União à Quinta Vigia, adiantou à comunicação social: há necessidade de "auditar os efeitos de retorno do futebol profissional na economia e receita fiscal da Região". Salienta o DN que o presidente explicou a importância de ser feito este trabalho o quanto antes, porque "o contribuinte que investe o seu dinheiro público no desporto profissional precisa de saber qual o retorno directo e indirecto do seu investimento enquanto contribuinte. Penso que esse será um passo muito importante para acabar com esta conversa dos dinheiros públicos para o desporto profissional". Ora bem,  os estudos existem, estão publicados, sobre os porquês da apetência do destino Madeira e a sua relação com o desporto em geral. Até o PS apresentou, em 2007 e 2010, dois diplomas na Assembleia sobre esta matéria. Foram chumbados pelo PSD. Nem serviu, enquanto ponto de partida e de instrumento de trabalho. Nessa altura, lembro-me de terem sido divulgados os resultados desses trabalhos que tiveram uma abrangência significativa em função dos cinco principais mercados geradores de turismo, alguns desses estudos, inclusive, foram replicados em função das designadas épocas alta e baixa do turismo. Há uma excelente monografia de Licenciatura de uma madeirense na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. No entanto, faça-se mais um estudo. Enquanto o "pau vai e volta folgam as costas". Certo é que o futebol de natureza profissional, pelas suas características empresariais, deve estar sob a tutela da Economia e não da Educação. As SAD's são empresas e, portanto, devem ser analisadas tal como qualquer outra que se encontre no mercado. Por que é que o futebol profissional tem de ser diferente? Pelas paixões que gera?


A 07 de Dezembro de 2010 fui convidado pelo Jornalista Ricardo Soares, do Tribuna da Madeira, a pronunciar-me sobre diversos aspectos, fundamentalmente, ligados ao desporto e à Educação. Deixo aqui a resposta a duas questões:
E o que fazer com o futebol profissional?
Sabe, quando ouço que os clubes dão mais ao Estado, em impostos, do que recebem, constitui uma mistificação. Que a Região vai receber o dobro relativamente ao investimento é outra mistificação. Se é assim, deixem de receber e, por isso, deixarão de pagar impostos. São frases soltas, descontextualizadas de outras variáveis que devem ser tidas em conta. São frases assassinas que se destinam a vender uma imagem. Apenas isso. É fumo. A verdade é que estão todos falidos, mesmo com substanciais apoios. O que defendo é que “os clubes desportivos participantes em competições desportivas de natureza profissional ou com praticantes que exerçam a actividade desportiva como profissão exclusiva ou principal, sujeitas ao regime jurídico contratual, não devem beneficiar, nesse âmbito, de apoios ou comparticipações financeiras por parte da Administração Regional Autónoma e das autarquias locais”. Têm de funcionar como empresas assumindo todos os riscos do mercado. É, por isso, que defendo que a Região deve alienar as participações sociais que detém nas sociedades anónimas desportivas. A vocação e missão de um governo, já que falamos de desporto, não é a de apoiar sociedades falidas, mas a de investir, neste caso, na escola, na quantidade e na qualidade do desporto educativo escolar. Na qualidade dos nossos praticantes visando uma consequente representação externa. Faz parte da nossa auto-estima enquanto povo sermos representados ao mais alto nível. Não assim, com uma legião de continentais e estrangeiros a nos representarem. Uma outra mistificação é que o futebol profissional e outras modalidades profissionalizadas constituem veículo promocional da Região. Nada de mais errado. Esta mesma ideia proliferou, recordo, aquando dos “Jogos sem Fronteiras”. Há estudos, concretamente, monografias de Licenciatura e dissertações de Mestrado, da Universidade da Madeira, que provam, em altíssima percentagem, que quem nos visita procura a tranquilidade do destino, os passeios a pé, as levadas e o ambiente social. Quando questionados, apurou-se ser insignificante os turistas que conheciam uma só equipa da Madeira. Conheciam os clubes de golfe. São estudos publicados e, portanto, basta consultá-los. Poderão alguns dizer que o futebol contribui para o pacote da imagem da Madeira no exterior. Considero que há outras formas promocionais que não passam por este canal e de resultados mais consistentes. Portanto, o futebol profissional tem de encontrar unhas para tocar a sua guitarra. O apoio ao desporto, enquanto bem cultural, não deve esgotar-se no domínio profissional. A separação de águas é necessária até porque não há dinheiro público nem empresas capazes de o suportarem. 
Na sua opinião, os madeirenses compreendem que o Governo Regional continue a dar apoios ao futebol profissional?
Sabe, eu penso que este seria um óptimo momento para travar, ou melhor, para corrigir a agulha desta desnorteada bússola governativa. Um momento para o poder dizer: nós já fizemos a nossa parte (infra-estruturas), agora façam o favor de fazer a sua. O problema não se resolve retirando um, dois ou três milhões do Orçamento ou, então, dizendo que os apoios têm vindo, anualmente, a diminuir. Essa é areia para os olhos. O problema é de pensamento estratégico. Cortam nas margens para que tudo continue na mesma. A linha de pensamento é a mesma. A questão é, portanto, mais profunda, é de definição de objectivos, de clarificação dos âmbitos de actuação, de ter capacidade para assumir que esta Região é pobre e dependente e que o dinheiro dos impostos deve ser aplicado de forma racional e no pleno respeito pelas prioridades sociais. Um governo eleito, mesmo com maioria absoluta, não pode, à sombra de uma vitória nas urnas, assumir posições que se mostrem contrárias aos interesses do Povo. E as prioridades que estão à frente dos nossos olhos são as do emprego, as da educação e as da saúde. (...) O Povo começa a perceber as palavras de Chico Buarque: “Aqui na terra tão jogando futebol; Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll; Uns dias chove, noutros dias bate sol; Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (…)".
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de maio de 2015

O FUTEBOL PROFISSIONAL DEVE PERTENCER À ECONOMIA E NÃO À EDUCAÇÃO


Directamente ao assunto, apenas, repito, apenas, em um caso particular. Ficará para depois uma análise mais detalhada sobre os sistemas educativo e desportivo. Li que, no próximo Orçamento Regional, o "desporto" na sua vertente profissional, terá um corte de, grosso modo, quinhentos mil euros. Fiquei estupefacto sobretudo pelo carácter isolado da medida. Quando esperava por uma decisão política global, para que todos possamos perceber o que é que este governo pretende dos sistemas educativo e desportivo, saiu um tiro no escuro, politiqueiro, porque não acompanhado de um pensamento sobre a compaginação ou interface dos dois sistemas. Apontam para quinhentos, como poderiam ser quatrocentos ou seiscentos. A razão substantiva que deveria determinar uma determinada decisão política, essa não existe ou, no mínimo, não foi divulgada.



Por outro lado, começo a ficar com o pressentimento que continuam a mexer na roda do prato para que o essencial continue como sempre esteve. E a pergunta surge, inevitavelmente: que justificação existe para que o "desporto" na sua vertente profissional continue no âmbito da secretaria da Educação? Então as sociedades anónimas desportivas (SAD) não são empresas de direito privado, constituídas por acionistas? Então, se são, não deveriam estar sob a "tutela" da secretaria da Economia? Devem ou não ser analisadas como qualquer outra empresa? As SAD até podem estar cotadas em bolsa! Que tem a ver o sistema Educativo com o âmbito do "desporto", repito, na sua vertente profissional? Se esta área de desempenho empresarial é importante ou não para a Região, deve competir à Economia defini-la na compaginação com todas as outras áreas empresariais e no quadro das prioridades da Região. Simplesmente porque na vida empresarial não podem existir uns e outros. A Educação tem a função específica de dinamização do desporto educativo escolar, fundamentalmente, no sector público, onde, de facto, os meios têm sido irrisórios para o trabalho que tem de ser realizado. 
Regressarei ao assunto, mas esta secretaria da Educação começa mal. Curiosamente, uma das primeiras intervenções do anterior secretário foi uma visita aos clubes Marítimo e Nacional. Passados quatro anos, o recém empossado secretário começa por uma decisão sobre os mesmos clubes. E aqui vamos. Aguardo pelo programa de governo para 2015/2019. 
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

HÁ POLÍTICOS NA MADEIRA QUE DEVERIAM SER JULGADOS


É evidente que houve erros muito graves ao longo de toda esta história, é evidente que todo este sistema desportivo está errado de raiz, tenho-o dito e escrito tantas e tantas vezes, desde os finais dos anos 70, é evidente que este sistema estava ao serviço da política e não do desenvolvimento, que o monstro estava a ser alimentado por sucessivos orçamentos megalómanos, que esta política de infra-estruturas estava desadequada da dimensão e das necessidades da Região, todavia, é inaceitável que, por incúria, por megalomania de quem governa a Região há 36 anos consecutivos com sucessivas maiorias absolutas, por ignorância, por um lado e, por outro, interesse eleitoral, deixem, agora, em situação muito difícil pessoas e instituições que deram, em muitos casos, o seu melhor. Uma coisa é a errada política desportiva que definiram, outra é permitir que pessoas de bem que serviram essa política se sintam hoje entre a espada e a parede, isto é, entre facturas por pagar e uma vida pessoal de constante sobressalto. E enquanto isto acontece, os mentores desta insensata política, vão atirando de uns para os outros as suas responsabilidades, o das Finanças para o da Educação e o da Educação para as Finanças. Nem sabem como corrigir os erros do passado, nem atenção nutrem, não pelo futuro, mas pelo pagamento de vários anos de atraso no cumprimento dos encargos assumidos e não pagos. No meio disto um presidente do governo que lava as mãos como se nada tivesse a ver com isto.
 
 
Absolutamente nada me espanta relativamente à posição dos clubes face às competições regionais, entre outras, as de futebol. A sua não inscrição na respectiva associação apenas constitui mais um episódio, a somar a tantos outros, que explicam a falência do sector desportivo. Nada que não fosse previsível que viesse a acontecer. Pena tenho e lamento profundamente que muitos dirigentes desportivos, a esmagadora maioria benévolos, repito, benévolos, gente que oferece muitas horas do seu tempo livre para colaborar com o clube da sua cidade, freguesia ou com a sua associação, estejam hoje envolvidos numa situação a todos os títulos condenável para quem está na origem desta vergonha regional. Gente, conheço muitos, que esteve e está no processo de boa fé, que negociou, assinou contratos-programa, acreditou nos que estavam no outro lado da mesa e que, agora, têm, ilegitimamente, o seu nome conspurcado na praça, na banca, sobretudo, no Banco de Portugal. Simplesmente porque as suas instituições não geram receitas para pagar os encargos. Uma situação destas não tem perdão para quem governa. Prometeram e não cumpriram, mandaram avançar e retiraram o tapete. Inacreditável. Gente desta que faz parte do governo, decididamente, não presta enquanto governante. Com todas as letras... NÃO PRESTA! São dispensáveis.
Ouvi as declarações do Dr. Celso Almeida, presidente da Associação Desportiva da Camacha, escutei as suas declarações de cunho desesperado, digeri as suas críticas e a ameaça de colocar a Região em Tribunal, compaginei-as com as declarações do presidente da Associação de Futebol do Funchal, Rui Marote e, sinceramente, senti uma revolta contra essa gentinha politiqueira, fechada nos gabinetes, gentinha que mente e que não apresenta uma única solução para os dramas que estão a ser vividos ao nível do associativismo.

Apenas quero ser presidente da Junta!
É evidente que houve erros muito graves ao longo de toda esta história, é evidente que todo este sistema desportivo está errado de raiz, tenho-o dito e escrito tantas e tantas vezes, desde os finais dos anos 70, é evidente que este sistema estava ao serviço da política e não do desenvolvimento, que o monstro estava a ser alimentado por sucessivos orçamentos megalómanos (mais de 30 milhões por ano), que esta política de infra-estruturas estava desadequada da dimensão e das necessidades da Região, todavia, é inaceitável que, por incúria, por megalomania política de quem governa a Região há 36 anos consecutivos com sucessivas maiorias absolutas, por ignorância, por um lado e, por outro, interesse eleitoral, deixem, agora, em situação muito difícil pessoas e instituições que deram, em muitos casos, o seu melhor. Uma coisa é a errada política desportiva que definiram, outra é permitir que pessoas de bem que serviram essa política se sintam hoje entre a espada e a parede, isto é, entre facturas por pagar e uma vida pessoal de constante sobressalto. E enquanto isto acontece, os mentores desta insensata política, vão atirando de uns para os outros as suas responsabilidades, o das Finanças para o da Educação e o da Educação para as Finanças. Nem sabem como corrigir os erros do passado, nem atenção nutrem, não pelo futuro, mas pelo pagamento de vários anos de atraso no cumprimento dos encargos assumidos e não pagos. No meio disto um presidente do governo lava as mãos como se nada tivesse a ver com isto.
Ora, eu sei, todos sabemos, que a situação da Madeira é muito grave em todos os sectores. Que ninguém paga a ninguém a tempo e horas. Que o "livro de cheques está nas mãos do ministro Gaspar", que há fome e processos de degradação económica e social que merecem redobrada preocupação, que há desemprego e insolvências familiares, que há depressões em crescimento que colocam as famílias em permanente instabilidade, que as escolas não têm dinheiro para cumprirem a sua missão, que a saúde rebenta pelas costuras, que os idosos estão a sair dos lares para poderem colmatar com as suas parcas pensões os orçamentos familiares, enfim, tudo isto é conhecido e tudo isto tem responsáveis políticos. O que não é admissível é que os dias, as semanas e os meses se passem e não seja sensível uma preocupação que defina um rumo e que garanta a solução dos casos pessoais que estão rapidamente a transformar-se em novos dramas pessoais. Uma vergonha, um escândalo que deveria colocar certa gente a responder em Tribunal pelos seus actos. Pelos actos de ontem e pelos de hoje. Muito antes dos dirigentes desportivos se sentirem réus.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

MAIS UM DEDO NA GRAVE FERIDA

Tarde ou cedo a verdade dos processos políticos sobem à tona como o azeite na água. O problema não é novo pois arrasta-se desde os primórdios dos anos 80. São trinta anos de erros acumulados, de uma prática desportiva ao serviço da política e não do desenvolvimento. E os resultados estão aí: a falência do associativismo, clubes endividados, significativos atrasos nas transferências financeiras acordadas através de contratos-programa, salários por pagar, enfim, um sufoco financeiro devido a uma causa primeira, a subsidiodependência na qual assenta a política desportiva da Região, quer ela se situe no plano profissional quer "amador".
Este quadro está desde há muito identificado através de estudos e de propostas concretizadas em sede própria, isto é, na Assembleia Legislativa da Madeira. Uma das últimas, chumbada pela maioria PSD, foi a que estabelecia "As bases da Actividade Física, do Desporto Educativo Escolar, do Desporto Federado e aprovava o regime jurídico de atribuição de comparticipações financeiras ao associativismo desportivo na Região Autónoma da Madeira". No preâmbulo deste importante documento pode ler-se: "Uma análise exaustiva à política desportiva desenvolvida na Região Autónoma da Madeira desde 1976, determina a necessidade de correcção de orientações que não se mostraram eficazes e eficientes. É óbvio que tal não significa que não se tenham verificado aspectos positivos ao longo dos anos: os resultados técnicos, individuais e colectivos, as infra-estruturas construídas e, inclusive, a realização de alguns prestigiantes eventos. Porém, porque à parte as infra-estruturas tudo o resto é efémero, depreende-se do estudo das variáveis em causa que teria sido preferível uma política de menos desporto de rendimento, sobretudo pelas limitações da própria Região, e de mais educação e cultura desportivas que, a prazo, tornasse esta população caracteristicamente sedentária numa população fisicamente activa, com todos os benefícios daí resultantes. Passadas três décadas é sensível a necessidade de uma rotura com certas premissas que demonstraram ser insustentáveis do ponto de vista do financiamento. Criado o parque infra-estrutural, através da iniciativa do governo regional ou por iniciativa do associativismo mas substancialmente apoiado através do sector público, considera-se, hoje, necessária uma mudança assente em consistentes opções estratégicas, tendo presente o facto desta ser uma Região atlântica, dependente e onde subsistem, ainda, múltiplas prioridades. Inclusive, no desporto.
Sem pôr em causa o direito ao desporto de alto rendimento, à excelência e à representação nacional e internacional no quadro da auto-estima do povo madeirense, entende-se que a Região, dentro de alguns anos, deverá constituir num exemplo nacional e europeu, no que concerne à elevada organização e participação desportivas, no quadro da construção contínua de um desporto entendido como bem cultural, criado à medida de cada um e que não se esgote no labirinto da representatividade externa.
As grandes limitações espaciais e orçamentais da Madeira implicam, por isso, um outro tipo de orientação, isto é, um grande investimento nas políticas educativas, neste caso, no desporto educativo escolar, na competição regional, no desporto informal, na actividade física em geral, numa prática que, a prazo, conduza a Madeira a dispor de uma taxa de participação desportiva superior à média nacional e europeia. Estes pressupostos encontram justificação na análise das taxas de participação desportiva globais (77% não têm qualquer tipo de prática regular), onde são sensíveis substanciais desequilíbrios na relação desporto educativo escolar versus desporto federado, na relação entre géneros (na época de 2005/06 a demografia federada registou 16.546 participantes, dos quais 71,14% masculinos e 28,86 femininos) e na distribuição por categorias de participação (as categorias de iniciados, juvenis e juniores somam 33,64% tendo os seniores registado 32,58%) (...).
Este projecto de Decreto Legislativo Regional foi apresentado em 2007. A maioria política assobiou para o lado. Portanto, não estranho que, na edição de hoje do DN, Joaquim Evangelista, Presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, com conhecimento de factos, venha dizer que "(...) a subsidiodependência gera um dirigismo atrofiado. Não há necessidade de arranjar soluções e quando falta alguma coisa é um problema. É fácil chegar ao fim do mês, receber o cheque e fazer a contabilidade. Quando isso sucede as coisas correm bem, quando falta o dinheiro..." Em suma, no seu entender, a ajuda do Executivo "está a causar danos graves ao futebol na Madeira porque os dirigentes não têm necessidade de ser proactivos. Ficam à espera que seja o Governo Regional a resolver". E por isso acha que o Governo tem de meditar sobre o assunto. "Tem de saber o que quer. Se pretende dirigentes subsidiodependentes que estão à espera do cheque para pagar aos jogadores. Ou se quer ter dirigentes activos, empreendedores que reformulem o futebol madeirense (...)".
Bom, já estou a ver, amanhã, uns quantos levantarem a voz no sentido de trucidar o Presidente do Sindicato e respectivas declarações ao Diário. Mas que ele tem razão, obviamente que tem!
Nota:
Ao contrário do que salientou o Presidente do Governo Regional a questão do Pontasolense (cujos jogadores, alegadamente, não recebem salários há seis meses), entre outras, é muito mais que uma questão "laboral". É sobretudo uma questão de POLÍTICA DESPORTIVA.
Fotos e desenhos: Google Imagens.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

ESCÂNDALO

É mesmo de colocar as mãos e os olhos para o Céu!
Um jogador de futebol, mesmo que se chame Cristiano Ronaldo, valer 94 milhões de euros no mercado das transferências, do meu ponto de vista é um escândalo. Ele vale 4 278 lingotes de ouro, um boeing, um hospital ou um iate de 85 metros. É um escândalo como o são outras transferências operacionalizadas por valores inferiores mas igualmente chocantes, eu diria mesmo, pornográficas. Tanto é assim que o ministro do desportos Gerry Sutcliffe, considerou os valores em jogo "uma fonte de inquietação" pois "são somas astronómicas que fogem, simplesmente, à compreensão da maior parte dos adeptos". Fico inquieto por um pequeno número de clubes ricos estar cada vez mais rico, o que põe em causa o equilíbrio" no futebol, prosseguiu o governante.
O presidente da União Europeia de Futebol (UEFA), o francês Michel Platini, manifestou-se "atónito" e como sublinha o DN-M de hoje, Ronaldo tem um valor que daria para "comprar" 12 'Maradonas' ou 235 'Cruyffs'. O salário anual de Ronaldo passa a ser de, aproximadamente, nove milhões de euros por ano, isto é 30 mil euros por dia, afora, certamente, os milionários contratos de publicidade. Por seu turno, refere o jornal Público, que "o estilo flamejante de Florentino Pérez (presidente do Real Madrid) levanta dúvidas. E há muitos que criticam a atitude do empresário espanhol no mundo dos negócios. De resto, a situação financeira de muitos clubes é crítica. Tenho muito receio porque a sua situação não é sustentável a médio termo", explica Angel Barajas, professor de Finanças na Universidade de Vigo, que chama risco extremo à política de Pérez".
Tudo isto ao mesmo tempo que, por todo o lado, os clubes vão falindo. Falidos mas com vida de milionários! Safa-se um ou outro através da especulação bolsista. Só em Portugal, os três maiores, Benfica, Porto e Sporting precisam de cerca de 90 milhões de euros para saírem da falência técnica em que já se encontram. E coitados dos clubes da Região da Madeira se não fossem os inacreditáveis financiamentos públicos quando relacionados com a montanha de carências sociais que por aí andam.
Ora bem, há um limite para tudo. Choca-me, por exemplo, quanto ganham os cientistas, por exemplo, os investigadores que estudam a vacina contra a pandemia (H1N1), quanto ganhará um investigador do SIDA, um prémio Nobel que leva uma vida a trabalhar pelo bem da humanidade, ou, então, um qualquer do topo das várias manifestações da cultura em geral, obrigados que são a intermináveis horas de trabalho diário. Depois, num Mundo a braços com terríveis assimetrias, com milhares de crianças que, diariamente, morrem com fome e doença, esta transferência no meio de outras, do meu ponto de vista, apresenta-se como moralmente reprovável.
O mais curioso é que todos se dizem chocados e muito preocupados mas ninguém coloca um travão nesta escalada sem sentido. Apenas falam do deus mercado! Enfim, que Ronaldo goze o que este desmiolado mundo lhe coloca no banco, que saiba gerir a fortuna, que promova postos de trabalho (o que duvido) e, como aconteceu com tantos, não pulverize a fortuna em pouco tempo. Esses são os meus votos, embora tudo isto não me faça menos clarividente e me leve a sublinhar que vivemos num Mundo errado. Num misto de humor e verdade, um amigo meu costuma dizer que, num restaurante, um bife para o senhor Ronaldo, deveria então custar 1.500 dólares... no mínimo, fora o acompanhamento!

quarta-feira, 27 de maio de 2009

PRIMEIRO A SAÚDE, DEPOIS OS FUTEBÓIS...

Nada justifica, a não ser a falta de senso e a ânsia de todos os dias ter alguma coisa para inaugurar (há nisto qualquer coisa de patológico), que o futebol, sobretudo o de natureza profissional, aos olhos da opinião pública, seja considerado uma prioridade. Não estão aqui os valores de uma e de outra obra, se considerarmos os 40 e tal milhões para o estádio do Marítimo e os valores que estão em causa para pôr a funcionar uma infra-estrutura hospitalar. O que está aqui em causa é como se olha para as coisas, como delas se fala e como se publicitam estas iniciativas. Chega a ser pornográfica a leviandade com que se derrama dinheiro em iniciativas que não constituem uma prioridade social, em relação a outras reclamadas pelas pessoas, pelos técnicos e pelos políticos mais atentos.
Este Hospital Central, ou melhor, os hospitais da Madeira estão a rebentar pelas costuras. Todos sabem disso. Não há dinheiro para nada. Assoberbados de dívidas e que são do conhecimento público, agora, até material de uso corrente vai faltando, sendo necessário que os serviços, com muita boa vontade e espírito de entreajuda, vão colmatando as insuficiências de uns em relação aos outros. Enquanto isto acontece, falam de futebol, de transferências milionárias, de uma fugaz passagem por uma competição europeia, de dinheiro, muito dinheiro para realizar um "campeonato regional" travestido de série nacional de uma qualquer divisão, falam de boca cheia como se nada se estivesse a passar no seio das famílias madeirenses, já não falo sequer daqueles que vivem nas margens dos direitos sociais, mas daqueles que convencionámos designar por classe média.
Há muita maldade por aí e muita gente a fingir aquilo que não é e, porventura, nunca foi. Passam pela sociedade como homens de solidariedade, homens de bem, homens que alardeiam um sentimento de benfeitor, fazem voluntariado, pertencem a organizações de caridade, têm acesso aos centros de decisão onde podem influenciar comportamentos e atitudes políticas, mas preferem o silêncio, a medição das palavras, os salamaleques perante o poder político e o económico, que mais parecem travestis desta trágico-comédia regional.
O problema agora é saber como se sai desta teia quando, hoje, mais um capítulo da novela "Os Delfins" dá a entender que estão todos mergulhados numa relação azeda a avaliar pelas palavras ditas. E ninguém pode esperar que nada de bom dali saia. A lógica que ali preside é idêntica à do Partido Revolucionário Institucional (PRI) que liderou, hegemonicamente, o México entre 1929 e 2000 (81 anos). Os princípios são os mesmos (poder e mais poder) e a atitude mental é idêntica à mexicana.
Ora, a solução para a Madeira não passa por aí, mas pela mudança substancial dos comportamentos políticos. E isso necessita que a Região, todo o seu Povo, tome consciência que esta terra que amamos só pode ter futuro se mudar de paradigma, o que implica outras pessoas, outros actores políticos, que apareçam sem manhas, com as mãos limpas, com inovação, com criatividade e com um alto sentido de responsabilidade. Acredito que é possível, acredito que este povo saberá se "levantar do chão" e tomará nas suas mãos o seu destino, distante de intermediários (os novos colonos) que tornaram a Região insustentável no número de desempregados e de pobres.