segunda-feira, 15 de junho de 2015

"OS EXAMES NÃO ESTÃO A GERAR MELHORIA DAS APRENDIZAGENS"


Começam hoje os exames do final dos Ensino Básico e Secundário. Cerca de 260.000 alunos estão envolvidos. O curioso, ou talvez não, é que, de acordo com os resultados aferidores, "os exames não estão a gerar melhoria nas aprendizagens" (Público). E como não estão, ora bem, a ordem é para que os "critérios sejam mais flexíveis na avaliação das respostas" podendo os professores "validar respostas não previstas no guião" (Diário de Notícias). E dizem os mentores que as suas políticas são contra o facilitismo! Tudo isto é trágico, apesar do "acompanhamento extraordinário" dos alunos ditos mais fraquinhos; das numerosas edições de livros de testes que inundam desde livrarias a estações de correio; da insistência, na sala de aula, na resolução de testes de treino dos anos anteriores e não só; e, ainda, das explicações, algumas pagas a peso de ouro, a que os pais recorrem. E apesar disso, dizem, não há melhoria!


Esta é a realidade do sistema. A obsessão pelos exames em detrimento de uma avaliação contínua, sobretudo no Ensino Básico, tomou conta da inteligência do decisor político. Trabalha-se para a avaliação e não para o conhecimento. A sensatez que deveria conduzi-los a equacionar as causas, isto é, à formulação de uma pergunta tão simples quanto esta: "eu ensino... tu aprendes"? é negligenciada pela teimosia e por uma atroz cegueira. E assim vão, de erro em erro, sem darem conta ou se deixarem fecundar pelo conhecimento trazido pelos investigadores. Para eles, refiro-me a todos esses "cratos" que infernizam a nossa vida, os exames estão certos, os professores é que estão errados; a política social do governo está certa, os portugueses é que não querem trabalhar. 
Mas a paranóia está longe de ser atribuída apenas ao decisor político e à questão dos exames. "O Conselho das Escolas (CE) fez, esta semana, uma recomendação ao Ministério da Educação no sentido de os alunos terem uma pausa de dois dias, a meio do primeiro período, uma espécie de "férias de outono", altura em que as escolas poderiam planear actividades de apoio aos alunos que revelassem maiores dificuldades". Li que "a proposta não agradou à Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap) que criticou as várias pausas que já existem ao longo do ano e defendeu a necessidade de uma revolução no ensino e um período lectivo muito mais longo: "as aulas deveriam começar no início de Setembro e terminar no final de Julho", sugeriu o presidente da Confap. É caso para dizer que este homem não percebe nada nem de educação, nem de sistema educativo. A revolução que este senhor fala não é sistémica, logo à partida, de (re)organização de toda a sociedade; de atenção à diversidade (culturas que chegam à escola) e à desigualdade (económicas e sociais); a revolução não é de ruptura com um disparatado sistema educativo curricular e programático e não é de financiamento do sector educativo. Para este senhor que faz parte do Conselho Nacional de Educação, pasme-se, o problema é de mais tempo na escola, diariamente e ao longo de todo o ano. Isto porque, está subjacente à sua posição, torna-se necessário que os pais trabalhem de sol-a-sol, progressivamente sem direitos sociais, com baixos salários, sem direito a horas extraordinárias e sempre com a espada do despedimento sobre as suas cabeças. Para este senhor, a escola deve ser uma espécie de armazém. Não estranho, caro leitor. O Dr. Jorge Manuel Ascensão, presidente dessa Confap, é Licenciado em Gestão Financeira, é ou foi Consultor na empresa Portugal Telecom, Auditor de Fornecedores da PT (Sistemas de Gestão e Responsabilidade Social) e Gestor do Segmento de Negócio Empresarial.
Com uma opinião diferente, que aplaudo, a presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIP), Isabel Gregório, saudou a recomendação do Conselho das Escolas (CE) sublinhando que a proposta de uma pausa lectiva ia ao encontro de outros pressupostos que a Confap não entende: "(...) as crianças, jovens e adolescentes precisam de tempo para crescer" (...) "Não queremos criar robots, queremos cidadãos completos e as crianças precisam de espaço para socializar, e a verdade é que, neste momento, muitos estão na escola das oito da manhã às seis da tarde a estudar, com a agravante de ainda trazerem TPC para fazer em casa" (...) "as crianças precisam de crescer como um todo e não apenas na vertente escolar. Os nossos filhos estão cada vez mais ocupados, são cada vez mais competitivos no sentido de terem as melhores notas e serem os melhores, e isso pode pôr em causa a entreajuda entre colegas".

Concluo, para o presidente da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap), bom, bom, seria os meninos levarem a cama para a escola, libertando os pais da função de educadores primeiros. E assim vai o país, com exames e mais exames, e com uns senhores que disto percebem como eu de energia nuclear!
Ilustração: Google Imagens.

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