quinta-feira, 23 de julho de 2015

CAVACO SILVA UM POLÍTICO SEM SENTIDO DE ESTADO


Será que o Senhor Presidente da República tem a noção dos seus deveres enquanto Presidente da República? O dever de isenção, por exemplo. Duvido. As suas declarações de ontem são de uma normal anormalidade, nada concordante com a função que ocupa. Destaco algumas passagens: (...) este acto eleitoral é "particularmente importante para o futuro de Portugal" porque o país continua "sujeito a regras muito exigentes de disciplina financeira" (...) "é essencial assegurar o equilíbrio das contas do Estado, a redução do endividamento externo e o reforço da competitividade da economia" (...) pelo que Portugal necessita de "condições de estabilidade política e governabilidade", sem as quais "será muito difícil alcançar a melhoria de bem-estar a que os nossos cidadãos aspiram" e, sendo assim, será "extremamente desejável que o próximo Governo disponha de apoio maioritário e consistente na Assembleia da República". Vamos por partes...


Todas as eleições são importantes para qualquer país. Não são estas de 04 de Outubro de 2015, mas sim todas. E ao sublinhar, neste caso, as "regras muito exigentes de disciplina financeira", o que o Presidente acabou por dizer é que todos os governos antecessores deixaram marcas negativas de incompetência, inclusive aqueles que teve a responsabilidade absoluta de liderar, onde o défice público chegou a atingir 8,9% do PIB! Os seus governos, há que lembrar, deram cabo da agricultura, das pescas e da educação apesar da overdose de entrada de fundos europeus. Situação que hoje estamos a pagar. Obviamente, por tantos comportamentos anteriores, de nítida colagem à sua costela partidária, Cavaco Silva, com aquelas declarações, não sugeriu uma maioria absoluta do Partido Socialista. De resto seria também errado que deixasse transparecer essa intenção. Simplesmente porque a democracia assenta na vontade soberana do povo, pelo que não lhe compete sugerir, seja o que for, em função das "regras muito exigentes de disciplina financeira". Se o povo decidir que não quer estas regras europeias, que não deseja alinhar na lógica de "maria vai com as outras", que não deseja ser vítima da especulação, ao Presidente da República, na altura certa, competir-lhe-á ouvir e gerir o processo político. Nada mais. Não deve, a três meses das eleições falar de "equilíbrio das contas do Estado, a redução do endividamento externo e o reforço da competitividade da economia", porque qualquer partido tem esse pressuposto como objectivo, seja qual for o quadrante político. Os membros dos diversos partidos não são acéfalos, têm, sim, estratégias diferentes para o mesmo desiderato. Não deve, pois, acenar o espantalho do medo!
Depois, o que significa essa história de "condições de estabilidade política e governabilidade", sem as quais "será muito difícil alcançar a melhoria de bem-estar a que os nossos cidadãos aspiram". Esta declaração vale zero, é patética, e o exemplo está exactamente nestes últimos quatro anos em que todos os indicadores sociais pioraram. Bem-estar onde, pergunto, quando houve estabilidade política (apesar dos abandonos "irrevogáveis") e com um Presidente a dizer "esfola" quando o governo se entretinha a "matar" com uma pornográfica carga fiscal. Por tudo isto e muito mais, que venha Janeiro para que na Presidência tenhamos alguém com um verdadeiro SENTIDO DE ESTADO.
Ilustração: Google Imagens.

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