terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Último dia. Amanhã tudo será igual!


Violência, agressividade entre bem-falantes, intolerância, ausência de diálogo cooperante, conflitos por uma hegemonia contrária ao sentido da vida, paulatina destruição da nossa casa comum, ganância em contraponto à negação da exploração do homem pelo homem, abandono, fome, pobreza, guerra e morte, tudo isto continuou em 2019, apesar dos sempre louváveis acenos e desejos de um bom ano! A todos os níveis, do mais alto exercício da política até ao mais paroquial, a hipocrisia voltou a pontificar, continuaram as Acções de Graças com governantes na primeira fila, orando e batendo no peito, "por minha culpa, minha culpa, minha tão grande culpa", mas a terminar, nestes dois últimos dias, mulheres aperaltadas e homens de smoking embora descalços, abraçam-se, mastigam passas (para quê?) bebem champanhe, em muitos casos do melhor, assistem ao fogo e fazem promessas e juras. Para o ano é que será o concretizar dos sonhos e desejos! 

Fogo na Madeira em 2016.
Foto da minha autoria. Atribuí o título:
"Abraço de Anjo"

E para a esmagadora maioria o próximo ano não será, obviamente. A engrenagem está montada, sofisticadamente oleada, aquela que subtil mas intencionalmente tritura e impede a esperança de melhores dias. O diabo continuará a amassar o pão e eles, do alto do seu púlpito, continuarão a sua luta pela descoberta de palavras e frases vãs, assobiando para o lado relativamente ao mundo que os mais vulneráveis vão escondendo e reclamando. 
Não sou uma pessoa derrotada pelas evidências, mas não gosto de caminhar vendo não vendo! Acompanha-me Salgado Zenha (1923/1993), um político que frequentemente assumiu que "só é vencido quem desiste de lutar". Já estive em algumas, profissionais e de cidadania activa, agora remeto-me a ler, reflectir e transmitir o que brota da acumulação de sentimentos. Não é novidade para qualquer um de nós que os "Vampiros" não nos deixam. O Zeca continua cheio de razão, embora outros sejam os tempos: "No céu cinzento sob o astro mudo / Batendo as asas pela noite calada / Vêm em bandos com pés de veludo / Chupar o sangue fresco da manada (...)". A sofisticação dos actos é que é diferente. Não é preciso uma polícia de Estado, não são necessários bufos de papel passado e a tortura apresenta-se sem marcas físicas externas visíveis. São interiores e devoradoras. Tudo flui no quadro de uma anormal normalidade. Roubam às escâncaras, pagamos os luxos e corrupções, desrespeita-se o sentido das prioridades estruturais e os pavões do "carro-preto" fazem-nos trazer em memória o que uma princesa terá dito ao saber que os pobres não tinham pão: "eles que comam brioche", o que significou e significa uma completa ausência de entendimento das tais prioridades básicas. Pois, Zeca, a engrenagem tem História e seguidores: "(...) São os mordomos do universo todo / Senhores à força mandadores sem lei / Enchem as tulhas bebem vinho novo / Dançam a ronda no pinhal do rei (...)".
Não estou a exagerar. Basta olhar em redor e fixar este número: por aqui, 30% de pobres significa cerca de 75.000 pessoas que não vivem bem em uma Região Autónoma, qual fruto bonito por fora mas corroído por dentro. Ficam claras as assimetrias. O Banco Alimentar que o diga, a que se juntam instituições religiosas e tantas outras que mitigam a fome. E o que dizer de tantas outras fomes? E o que dizer de um tempo onde ter um emprego não significa não ser pobre? E o que dizer dos milhares com consultas médicas e intervenções cirúrgicas em atraso. E o que dizer de um sistema educativo espantosamente apresentado como inclusivo, mas que deixa pelo caminho milhares que engrossam o "clube" da desesperança?
Porque temos o dever de acreditar no Homem, porque por detrás de Hong-Kong, dos coletes amarelos, dos jovens em luta pela defesa do Planeta entre tantos outros movimentos de cidadania de importante e constante revolta, apesar dos fazedores de implacáveis guerras e de uma comunicação social ao serviço de interesses não descortináveis em um simples olhar, oxalá que, em 2020, sejam dados passos no sentido de uma inteligência que respeite a dignidade do ser humano. Que os milionários se lembrem que a sua defesa e progresso está directamente relacionada com o bem-estar dos semelhantes. Que já descobrimos que as crises são fabricadas e que não é saudável, este é um mero exemplo, que 2/3 da riqueza dos Estados Unidos esteja nas mãos de dez famílias. E ali fala-se do sonho e da liberdade! Que os Estados olhem para as pessoas e que as economias estejam ao serviço do Homem e não de minorias. Por isso, apesar de tudo, um Bom Ano. Que a saúde não atraiçoe!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 29 de dezembro de 2019

E APESAR DISTO OS CULPADOS SÃO SEMPRE OS OUTROS


Final de ano, tempo para algum balanço. Entre muito que poderia e deveria ser analisado, ontem li um texto do Dr. Carlos Pereira, Deputado do PS na Assembleia da República. Transcrevo-o, não pelo facto de ser um Amigo, mas por nele ver a capacidade técnica e política que a muitos e muitos políticos não descortino. Vivi com ele várias lutas, infelizmente, quase todas perdidas. Pelo meio, muitas ofensas. A verdade porém, é que o tempo acabou por lhe dar razão. Esta síntese, publicada na sua página de fb, constitui, apenas, alguns pontos de referência. Mas existem tantos outros. Parabéns Amigo Carlos e que continue o seu trabalho político em defesa de uma Madeira distante de novos colonos. E, já agora, saiba que estou a reler "A Herança - saiba como a Madeira escondeu a dívida", esse magnífico documento de economia que todos os Deputados deveriam ler.

Há um custo mas não sei para quem mandar a conta das responsabilidades! Ou melhor, já não me cabe a mim fazê-lo ...
Num tempo de balanço , apetece-me voltar atrás, mais atrás do que apenas 2019, e lembrar que custa estar certo antes do tempo. Custa muito, não para mim próprio, porque aprendi a viver sem o sabor do reconhecimento, custa porque a Região perde muito ao reconhecer os erros tão tardiamente ou a ignorar ostensivamente alertas sustentados .
Três exemplos concretos de grande dimensão que se tivesse sido atalhado o caminho a Madeira vivia melhor:
1- DÍVIDA DA MADEIRA: cheguei ao Parlamento da RAM em 2007. Por essa altura falava-se numa dívida de 500 milhões . Passado pouco mais de um ano actualizei os dados depois de cruzar informação e lancei a suspeita de uma dívida que ultrapassava os 3,2 mil milhões . Fui enxovalhado muitas vezes, aguentei, insisti e provei os meus cálculos mas 3 anos mais tarde o mundo conheceu os 5,5 mil milhões de euros. Se tivesse sido levado a sério os meus abertas estaríamos hoje bastante melhor e talvez nunca tivéssemos um PAEF!
2- PERDA DE FUNDOS EUROPEUS: alertei a partir de 2005 e reforcei o apelo a partir de 2007 que era preciso colocar na agenda os critérios de transferência de fundos porque podíamos perder centenas de milhões de euros . Fiz várias propostas em sede de ALRAM por causa do empolamento do PIB em virtude do efeito da Zona Franca. Foi sempre tudo chumbado e, mais uma vez, não me esqueço das perseguições e eles sabem de quem falo . Hoje está demonstrado que eu tinha razão mas a Região perdeu 1500 milhões de euros.
3- REGIONALIZAÇÃO DA SDM E GESTÃO PÚBLICA DA ZONA FRANCA. Apelei ao bom senso para que a Região assumisse a gestão dos benefícios fiscais, desde 2008. Apresentei propostas todos os anos. Alertei para que aquando a renovação da concessão (2017) fosse aproveitado para, ou realizar outro concurso ou a Região assumir a sua gestão. Hoje (já alguns meses atrás) volta a ser demonstrado que tinha razão e percebemos todos que a resolução desta questão será feita com um custo social adicional desnecessário. Também fui insultado até pelo ex- presidente da SDM que sempre se apresentou como figura distante e sábia criando uma barreira para avaliar responsabilidades e proveitos!
Podia dar bastantes mais exemplos: a concessão da inspecção automóvel que alertei vezes sem conta (até fui insultado e agredido pelos concessionários); os custos da OPM (fui ameaçado pelo Dr Sousa, um tal que aparece como estrela local porque manda cartas ao governo e por aí se mantém); a escandalosa gestão das sociedades de desenvolvimento, hoje nem vale a pena fazer comentários... e por aí fora !
É um balanço de quem dedicou uma parte da sua vida a defender o interesse da Madeira e que depois de tudo , e apesar de tudo, há contas a fazer embora já não saiba muito bem para quem mandar a conta e sobretudo esteja afastado desses deveres !
Bom ano.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O "carnaval" continua na Escola de Hotelaria e Turismo


Só o Omo lava mais branco! Foi a leitura que fiz depois de ler o "trabalhinho" publicado na edição de hoje do Dnotícias sobre a Escola de Hotelaria e Turismo da Madeira. A escola está bem e recomenda-se, pode ser a conclusão. O "entrudo" continua! Todos os professores reclamaram sem sentido e o outro pessoal, de prestadores de serviços a especialistas, deveriam estar calados, acabei por deduzir.

A secretaria da Educação, que tutela o estabelecimento, deve ter organizado a coisa muito bem para, através de outrem, lavar a sua cara. A entrevista é "omo" e o papel da secretaria é de embrulho. Está tudo limpinho e enfeitado com cores garridas, não há razões para alarme, a transparência no funcionamento é total que nem o mais famoso limpa vidros conseguiria fazer. A páginas tantas, face a tanto sucesso, perpassou-me pela cabeça a canção de os "Da Vinci", "O Conquistador", pelos cursos em Angola, Moçambique e agora S. Tomé. Ainda chegam à Praia, Bissau, Macau e Timor!
Portanto, em função da "despropositada" movimentação dos professores, vi-os de cabelos em pé em uma reunião sindical, dirão os mais incautos que, para esclarecimento cabal, no mínimo, seria razoável promover um inquérito, mas, de facto, para quê? Pelo que li, todo aquele pessoal é ingrato face a uma escola em "entrudo" permanente. O ano escolar passa para 34 semanas e até poderão vir a receber em dias de férias as horas extraordinárias. Não é bom? Se é... o problema é que parece que os supermercados não recebem "dias de férias" em troco do carrinho de compras! E o que seria do "entrudo" sem dinheirinho para as malassadas? 
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Não dá a bota com a perdigota


Nota prévia
Não sou entendido em mecânica de automóveis, ligeiros ou pesados, nem tenho formação jurídica para acusar ou absolver. Portanto, o que aqui fica escrito é a leitura de um simples cidadão que olha para um caso e fica perplexo. Talvez porque toda a informação não circulou. Talvez. 

Neste Natal, entre muitos e muitos aspectos que poderia e, porventura, deveria equacionar, desde os diversos constrangimentos, desde os de natureza social até ao estendal de hipocrisias que a época é propícia, há uma situação, a de um Homem que me parece só, acusado de ter sido o responsável por 29 mortes. Refiro-me ao caso do autocarro que tombou na estrada do Caniço.
Ora bem, li que se tratava de um excelente profissional, muito experiente e cumpridor das tarefas, li também que não se tratava de uma pessoa desequilibrada a vários níveis de análise nos foros médico e psicológico e li, também, que nada acusava na taxa de alcoolemia.
Fiquei pasmado quando foi público que, segundo os peritos, o autocarro estava em perfeitas condições de circulação. E mais pasmado fiquei quando, de seguida, o Ministério Público da Madeira acabou por acusar o motorista por 32 crimes (homicídio por negligência e crimes de ofensa à integridade física).
Ora, parece-me que "não dá a bota com a perdigota". Certo é que o tal motorista exemplar e experiente passará este Natal com muitos dedos apontados para ele. Não o meu e, certamente, o de milhares de madeirenses porque, repito, há evidentes contradições por explicar. E não é preciso ser entendido em automóveis ou em matéria jurídica. Apenas contradições. Imagino o que deve estar a passar. Ele e a sua família. E sendo assim, eu que não o conheço, saúdo-o com um fraterno abraço de solidariedade.
Imagens: Google Imagens.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Zozi, a Miss Universo que questiona e redefine a beleza


Ricardo Vita, 
in Público, 
20/12/2019

“Cresci num mundo onde uma mulher que se parece comigo, que tem a cor da minha pele e o meu cabelo, nunca foi considerada bonita, e acho que chegou a hora de acabar com isso, hoje. Quero que as crianças olhem para mim e vejam o meu rosto, e quero que vejam os seus rostos reflectidos no meu.”

Foi com essas palavras retumbantes, mas serenas, que o mundo inteiro descobriu surpreendido, no dia 8 de Dezembro, a Miss Universo 2019; uma mulher negra, inspiradora e sublime, em sintonia consigo mesma e com este século de afirmação de todas as diversidades. Lembrou-nos Nefertiti, a poderosa rainha egípcia negra de lendária beleza. Tem 26 anos e vem da terra de Mandela, África do Sul. Chama-se Zozibini Tunzi, uma genuína deusa da beleza do novo paradigma e do futuro.
É Zozi, para os amigos que, como ela, entendem a importância dos imaginários, da iconografia e as modalidades das suas construções. É a quinta mulher negra a ser coroada Miss Universo, mais é a primeira a reivindicar em voz alta a sua intenção de mudar mentalidades — para defender a beleza e a mulher — destacando a cor da sua pele e o seu cabelo crespo como triunfos intrínsecos. Pois, Zozi entendeu que a sua coroa já havia sido comprada e paga. Tudo o que ela precisa fazer é usá-la. Sabe que a sua história não começou no século XV com a chegada dos europeus a África, mas foi com eles que murchou. Sabe disso.

O frescor de Zozi faz-nos pensar sobre a beleza. Quem a define e como? E essa definição, a quem beneficia e a quem prejudica? Basicamente, como é que escolhemos entre o belo e o feio nas nossas sociedades? Pois, se a beleza é inevitavelmente uma construção cultural, então como podemos desconstruí-la, quebrá-la quando a definição não nos corresponde? Em 2011, critiquei, num artigo publicado no diário francês Libération, a uniformidade que reinava no universo da alta-costura.

Quis mostrar como designers como Karl Lagerfeld impuseram um modelo de beleza que excluía quase todas as mulheres não brancas. A mulher que ele sublimava era andrógina, magra, para não dizer anoréctica, sem formas ou curvas que subjugariam o olho imparcial posado sem concupiscência malsã na mulher não caucasiana, geralmente fora do padrão. Por exemplo, o olho parcial de Lagerfeld não podia apreciar a beleza e a escultura divina do corpo de várias mulheres negras. Era incapaz de ir além dos muros que cercavam a sua ilha. Com ele, graças à força de ataque que adquirira na Chanel, a digna alta-costura, a de Paco Rabanne, Yves Saint Laurent e Jean-Paul Gaultier ou John Galliano, havia deixado de rimar com diversidade.
Lagerfeld reinou como um absolutista neste mundo durante décadas, ditava a chuva e o bom tempo. Mas, com os outros, a haute couture era mais bonita e temos boas lembranças disso. Azzedine Alaïa lançou e defendeu com unhas e dentes Naomi Campbell; Saint Laurent fez o mesmo com Mounia, Iman Bowie e Katoucha; e Alek Wek foi várias vezes a “noiva” nos desfiles de Christian Lacroix.
No entanto, havia, e ainda há, uma constante. Fora de Alek Wek, na pele, impuseram-nos modelos negros — tanto mulheres como homens — com pele clara e feições finas. Essa segregação persiste em praticamente todos os lugares, como no mundo da música. No ano passado, numa entrevista sincera, Mathew Knowles, pai e ex-manager de Beyoncé, reconheceu, e insistiu, que a sua filha não teria o sucesso nem a carreira a solo que tem se não tivesse pele clara. “Se fizermos uma retrospectiva, sobre Whitney Houston, por exemplo, analisando as suas fotografias, veremos como elas foram trabalhadas para a tornar mais clara de pele! Há uma percepção, um colorismo, quanto mais clara for a pele, mais inteligente e rico parecemos. Portanto, existe uma percepção da cor em todo o mundo, mesmo entre os negros”, afirmou. Esse fenómeno, “selectivo e imposto”, continua até hoje. Winnie Harlow, uma linda modelo negra canadiana, vítima de vitiligo, é usada, positivamente, pelas marcas Desigual e Diesel; e Ashley Graham, uma modelo branca com excesso de peso, também goza dos favores de marcas e revistas famosas.

Portanto, há pessoas que decidem o que é bonito e o impõem a todos. Quando isso é feito de maneira sã, como no espírito de Yves Saint Laurent — o espírito que une, que celebra a diversidade e a diferença —, é claro que devemos recebê-lo de braços abertos para o abraçar. Mas devemos recusar com força os Lagerfelds de ontem, hoje e amanhã, devemos combatê-los.

E sejamos como Zozi, ela sabe que a beleza do mundo foi construída contra os negros, desde que foram dominados. Ela sabe que é por isso que os negros se rejeitam hoje, que a história de submissão se tornou a razão da sua vergonha de existir, o auto-ódio. Mas o que Zozi sabe melhor é que ela vem de uma longa linhagem de nobreza; de monarcas cujos poderes e inteligência eram temidos por todos os povos da terra, de filósofos, sábios e poetas que treinaram a humanidade toda. Ela sabe disso, é o que justifica a sua dignidade reconfortante. Essa dignidade, que ouvimos na voz segura e vemos no seu cabelo natural, não se deve apenas à vitalidade e pujança de Winnie Mandela, mas também ao orgulho das Candaces, essas rainhas poderosas do reino matrilinear de Kush (ou Cuxe). Ela sabe que os seus antepassados construíram e governaram o Egipto da abundância e alta expansão.
Zozi sabe o preço da sua coroa, sabe que é sua, de pleno direito. Ela faz parte dessa geração consciente que não quer mais ser definida por outros; a sua é a geração do novo paradigma. É essa geração que está determinada a reabilitar todas as belezas ocultadas ou minoradas, e as belezas confiscadas há muito tempo por gurus oportunistas e dogmáticos da monocultura, aqueles que definem a beleza como bem entendem por seu único e insaciável desejo de continuar a dominar.
Alegremo-nos então hoje, pois, pela primeira vez na história, ao mesmo tempo, no momento em que escrevo estas linhas, a Miss Teen USA é negra, a Miss USA é negra, a Miss America é negra, a Miss Mundo é negra e até a Miss França é negra. Não é um favor que vem do white-saviorism, como alguns revisionistas sempre tentaram afirmar nessas circunstâncias, é a força de um movimento de base que está determinado a mudar o mundo. A maioria de jovens do mundo — brancos, amarelos, vermelhos, negros — quer criar um outro mundo, um lugar mais agradável para se viver na diversidade. E só espero que, no próximo ano, todos esses títulos sejam atribuídos a outras belezas diversas, das quais o mundo é abundante: asiáticas, orientais, ameríndias, brancas. Este é o ciclo normal da vida humana, que devemos plenamente libertar das intenções vis dos supremacistas e segregacionistas.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A literatura ou a vida


Por
António Guerreiro, 
in Público, 
20/12/2019

Num texto sobre a lista de livros do ano que escrevi para esta edição do Ípsilon, falo da existência quase clandestina de alguns livros, por determinações das regras do mercado e das contingências da recepção crítica. Mas falo também de uma clandestinidade auto-infligida (algo que se passa quase exclusivamente no campo da poesia), que foi praticada, por exemplo, durante alguns anos, por Joaquim Manuel Magalhães.


Podemos entrever nalguns gestos deste tipo um desencantamento com aquilo a que chamamos “a vida literária”; mas pode ser também, noutros casos, um jogo com a coisa literária, com os leitores e o “meio”, ou uma reivindicação exacerbada da autonomia da obra. O “caso” que me suscitou algumas considerações foi o de Jorge Gomes Miranda, sobre o qual já me tinha muitas vezes perguntado: “O que é feito deste poeta, que deixou de publicar?” (pergunta que faço também relativamente a outro poeta: “O que é feito de Paulo Teixeira?”). Evidentemente, esta pergunta supõe um hábito muito do nosso tempo, toma como modelo o escritor que publica todos, ou quase todos os anos, acompanhando a aceleração do nosso tempo. Ficar hoje meia dúzia de anos sem publicar, mesmo que já seja autor de uma obra volumosa, é ficar condenado ao desaparecimento público. Um escritor com a publicação escassa de um Flaubert é, no nosso tempo, uma singularidade que raramente ajuda o reconhecimento. É verdade que existem casos como os de Salinger, que com o seu romance, Catcher in the Rye, se tornou um escritor de culto e passou ele próprio à clandestinidade, como quem não quer ter nada a ver com a vida literária nem com a função-escritor, como um criador que se ausenta da sua criação. Porque é que nos fascinam estas figuras como Salinger ou como Maurice Blanchot? Este último neutralizou-se completamente na vida civil, depois do Maio de 68, em nome da literatura. É difícil imaginar outra actividade, artística ou não, em que a “impessoalidade” seja vista como a mais alta exigência, em que a obra, no fundo, aniquila o seu autor.

O escritor francês Romain Gary, que se suicidou em 1980 com 66 anos, publicou livros com diferentes pseudónimos, sem nunca revelar a identidade que lhes correspondia. Assim acabou por ser o único escritor da literatura francesa que conseguiu a proeza de ganhar dois prémios Goncourt: um, atribuído a um romance assinado pelo seu próprio nome, e outro por outro romance assinado por um tal Émile Ajar, que durante muitos anos não se soube quem era. Neste tipo de mistificações, Romain Gary não foi o único génio.

Em Itália, encontramos ainda na primeira metade do século XX um outro modelo de escritor: o escritor que nunca escreveu, mas que é considerado pelos outros um seu par e que alcança um prestígio e uma autoridade extraordinárias. É o caso de Roberto Bazlen, que nasceu em 1902 em Trieste e morreu em 1965 em Milão. Foi ele que serviu de matéria a um romance de Daniele del Giudice, O Estádio de Wimbledon, que saiu com um prefácio de Italo Calvino. Sobre Roberto Bazlen, ou Bobi Bazlen, como era mais conhecido, escreveu Roberto Calasso no prefácio ao livro onde foram reunidos postumamente os escritos de Bazlen (afinal, ele tinha escrito alguma coisa; e uma das coisas que escreveu intitula-se Notas sem Texto) : “Na antiga querele entre o homem do livro e o homem da vida, Bazlen representava o homem do livro que está todo na vida e o homem da vida que está todo no livro”. Estas palavras muito lúcidas ajudam-nos a perceber certas atitudes dos escritores que parecem não conformar-se às exigências e aos protocolos da sua arte:
Há uma antiga e inextinguível inimizade entre a literatura e a vida, e ora se dá a primazia a uma, ora se dá a primazia a outra, ora se sacrifica uma, ora se sacrifica a outra. Quando as duas vivem em perfeita harmonia e são feitas uma para a outra, devemos suspeitar que nem a vida nem a obra são muito interessantes.
Este conflito não tem fim, existe em todos os tempos, e não são as regras actuais da edição e de legitimação dos livros que alteram significativamente as coisas. E é em função dele que temos de compreender os gestos enfáticos ou discretos de quem passa ao silêncio ou ao quase-silêncio.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Trabalho por objectivos ou ganhar por objectivos?


Vivemos em um mundo às avessas. Em tudo. Porque o dinheiro é rei: uns em luta pela sobrevivência no dia-a-dia; outros, escravizando em modo de tempos modernos, sofregamente, porque a lógica do sistema baseia-se em querer mais e muito mais. Vem isto a propósito do trabalho por objectivos.  


Há dias, em uma grande superfície comercial, abeirei-me de uma daquelas ilhas que vendem produtos, eu diria, da época. Interessei-me e comprei. Lá pelo meio da transacção disse à simpática vendedora: parece que o negócio está fraco. Resposta: tem dias, uns melhores que outros. O problema é atingir os objectivos. Objectivos? questionei? Com um semblante alegre para com o cliente de circunstância, próprio de quem deseja vender o máximo, adiantou: para a semana tenho de chegar a (x vendas), porque de contrário perco o bónus e talvez mais do que isso.
Saí dali a pensar nesta história do trabalho por objectivos. Se calhar o mais correcto seria falar de ganhar por objectivos! E em um ápice lembrei-me da minha gestora de conta, já tem uns anos, que às nove e meia da manhã, à minha exclamação "pela sua cara, parece-me que isto hoje não vai bem". Não pode ir, foi a resposta, e continuou: entrei às 08:30, são nove e meia e já me perguntaram "o que já vendi hoje". Alguns anos mais tarde, todos viemos a conhecer a trama bancária desse e de outros bancos. Em síntese, exploração de uns para alimento, neste caso, de condenáveis interesses de uns quantos.
Do meu ponto de vista, a questão do trabalho por objectivos deve colocar-se ao nível empresarial em uma perspectiva macro. Isto é, em função do período anterior, a empresa x define, como objectivo, um crescimento de, por exemplo, 2%. Toda a estrutura organizacional, quero eu dizer, todos os seus colaboradores, animados de um sentido de pertença, deverão trabalhar no sentido da concretização daquele objectivo. Coisa bem diferente é, a um circunstancial colaborador, portanto, com um vínculo precário, dizer-lhe que tem de vender 300 caixas de um determinado produto na semana k. Sem publicidade de suporte, acrescento.
É panaceia do trabalho por objectivos que esmaga e que, muitas vezes se torna ridículo. Um dia, na minha escola, uma assistente operacional abeirou-se e pediu-me que a ajudasse a preencher um documento que tinha recebido. A páginas tantas o documento solicitava que definisse os objectivos a concretizar no ano seguinte. Porque está sujeita a uma avaliação para progredir na carreira, a senhora estava em pânico e disse-me: eu limpo o pavilhão e todas as instalações anexas uma vez por dia e dou assistência aos senhores professores, aliás, como está definido. O que acha, vou pôr aqui que passarei a limpar três vezes por dia? Pedi-lhe o papel, levei-o para casa, preenchi e, no dia seguinte acertámos os pormenores. Ela ficou feliz porque o tal papel, devidamente preenchido, ao querer dizer tudo, nada dizia, portanto, não a comprometia. Porque o seu trabalho era feito de forma exemplar.
Mas há quem diga que se não houver objectivos o pessoal não trabalha! São todos uns malandros, ouve-se amiúde. Não aceito este posicionamento, quando em causa está a estrutura organizacional e a criação de um verdadeiro sentido de pertença capaz de fazer atingir um objectivo desejado. A este propósito deixo aqui o endereço de um texto que publiquei, baseado na organização de uma empresa de sucesso. 


Ilustração: Google Imagens.

domingo, 15 de dezembro de 2019

It once upon a time a Great Britain…


Por 
Vítor Lima, 
14/12/2019

Os ingleses tiveram de escolher nas últimas eleições, entre um idiota e um incapaz. O Boris Trump pretende recuar à orgulhosa Inglaterra, ainda que sem império mas com muitos offshores para animar a Bolsa. O Corbyn vincou as questões sociais mas mostrou-se neutro em algo mais abrangente como a integração europeia; sem querer ver que as duas coisas estariam absolutamente ligadas, um erro crasso que o vai remeter para a aposentação.

Um terço dos votantes trabalhistas vieram de regiões empobrecidas e apoiaram o Brexit como se o encerramento autárcico seja solução para alguma coisa. E Boris, com a sua maioria de avatares nacionalistas, quiçá lepenistas, tratará de liquidar o sistema de saúde, privatizando-o; e, certamente, de modo mais radical do que vem acontecendo em Portugal, com as célebres PPP, levadas a cabo pelo PS/PSD, com capitalistas a viver do dinheiro dos impostos.


Em termos gerais, calcula-se que a quebra do PIB da GB, para os próximos dez anos, será de 4 a 10% consoante o resultado dos acordos com a UE, nos capítulos do comércio e dos emigrantes.
Uma grande parte do enorme problema que Boris vai ter de resolver é admitir que a Escócia e a Irlanda do Norte (e até Gales, onde o separatismo cresce a olhos vistos) se separem da Inglaterra, transformando esta numa Grande Londres e arredores, centrada na bolsa, na rede de offshores e reportando a Trump.
O que se passa no mundo, muito para além do Brexit, da atrofia da GB, da estagnação da economia e a incapacidade política das classes políticas é a crise do capitalismo.
Acima o novo mapa dos EUA com o seu novo estado federado.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O PSD ainda está na geringonça?


Por
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário, 
05/12/2019

O debate entre os candidatos começou da pior forma para o PSD. Pelas contas de merceeiro, com uma medição de desempenhos que levou a alguns momentos ridículos, como a responsabilização de Rui Rio por resultados tidos quando era vice-presidente ou o regresso dos resultados de Luís Montenegro nas candidaturas à Câmara de Espinho ou uma distrital. Em resposta, Montenegro explicou as condições difíceis em que concorreu à autarquia do norte. Ou seja, assumiu que, tal como dissera Rui Rio em relação às legislativas, as condições em que se concorre são relevantes. E Rui Rio repetiu a responsabilização dos opositores internos. O que, num partido com a história do PSD, cola mal.



É natural que num confronto interno se faça um debate sobre os créditos de cada um. Mas não é um debate que nos diga respeito. Um debate entre candidatos a um partido, quando passa na televisão, deve sair do que apenas é importante para os militantes. E a viagem de Rui Rio à Maçonaria (cuja obediência eu também considero incompatível com a liderança de um partido), acabando a dizer que acredita em notícias desmentidas, foi um dos momentos mais infelizes. Rui Rio optou, mais uma vez, pelo julgamento de tabacaria que sempre criticou.
Passado este momento penoso, chegou-se ao debate que é relevante para os próximos anos: como o PSD fará oposição ao PS? A posição de Montenegro é das que resulta sempre em todos os partidos: o sectarismo. Mas será difícil, caso chegue à liderança, manter a fasquia onde a colocou. Afirmar que não precisa de ver o Orçamento para dizer que vota contra (Pinto Luz explicou que era preciso dar a aparência de que se tinha esperado para ver e ser contra) é incompreensível para qualquer pessoa normal. Rui Rio, nessa matéria, tem o discurso do senso comum. Pelo menos para os eleitores – outra coisa são os militantes.
Para explicar o seu posicionamento, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz construíram uma fantasia sobre a atual situação política. É como se a “geringonça” continuasse a existir e toda a estratégia do partido se baseasse nessa ideia. Só que a “geringonça” não morreu apenas em teoria. Morreu na prática. Não há acordos e não há interesse, nem do Bloco de Esquerda nem do PCP, em prolongar uma relação com os socialistas que não lhes trará vitórias programáticas ou eleitorais.

Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro. O retrato fantasioso resulta da necessidade em justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza os militantes

A partir desta fantasia, os dois candidatos construíram uma segunda fantasia, ainda mais distante da realidade: a de um PS radicalizado, totalmente amarrado a uma política esquerdizante e socializante. Até de amor à Venezuela se falou. Se isso não foi verdade durante a “geringonça”, onde o papel de bloquistas e comunistas foi forçar devolução de rendimentos perdidos e reversão de medidas impostas no período da troika (onde se incluíram a renacionalização da TAP e o recuo nas concessões dos transportes urbanos, as duas muito recentes e mal explicadas), vai para lá do delirante neste momento. Se o PSD tem um problema é o PS ter-lhe comido o centro, não é ter-se radicalizado à esquerda.
Este retrato fantasioso não resulta de uma dificuldade de perceção. Resulta de uma necessidade. Montenegro e a sua versão moderada precisam dele para justificar a incomunicabilidade com o PS, que galvaniza mais os militantes do que os eleitores. Que não é seguramente justificada, como tentaram fazer crer, pela história do partido que fez inúmeras revisões constitucionais com os socialistas. Uma estratégia que corresponde a uma radicalização à direita que transformaria o PS num partido charneira, que ocuparia todo o centro e não, como querem fazer imaginar para consumo interno, o lugar de líder de um bloco da esquerda que morreu no início de outubro. Esse episódio político passageiro durou apenas a anterior legislatura e terá, na melhor das hipóteses, o seu último momento na aprovação deste Orçamento de Estado, demasiado precoce para uma crise política.
Com base nesta fantasia o debate deslizou para o que poderia ser interessante: as grandes clivagens políticas e ideológicas que definem o confronto de alternativas. Fora a construção de uma história muito própria do país, em que o PSD foi quem “instaurou uma verdadeira democracia liberal em Portugal” e até “construiu o terceiro sector”, apenas duas ideias estiveram presentes: baixar impostos sobre as empresas e dar mais espaço ao privado no Serviço Nacional de Saúde, ignorando a recorrente suborçamentação do SNS, responsabilidade de vários governos. E depois, o velho, estafado e enganador debate que contrapõe um crescimento económico baseado nas exportações ao aumento do consumo interno, como se um e outro fossem contraditórios. Bem à moda portuguesa, que vê a ideologia do outro como uma doença e a nossa como “reformismo”, todas as divergências com o PS, as reais e as imaginadas, foram tratadas como “complexos ideológicos” dos adversários.
No fim, ficou uma sensação estranha: sabemos que Luís Montenegro é mais à direita e Rui Rio mais ao centro, estando Miguel Pinto Luz, que até nem se safou mal, algures no meio deles. Mas isso só se percebe na relação que prometem ter com o PS, chumbando tudo, chumbando tudo mas fingindo que se pensa no assunto ou chumbando quase tudo quase de certeza. Entre eles, não houve sinal de divergências políticas substantivas. E o PSD tem abrangência suficiente para elas existirem. Talvez não aconteça porque diferenças menos acentuadas não permitem caricaturas sobre os “complexos ideológicos” dos outros ou simples frases de efeito sobre a “agenda reformista” deles próprios. Uma agenda que vá para lá de baixar impostos às empresas e privatizar partes do SNS. O país ficou a saber o que cada um quer fazer na oposição, não percebeu o que os distinguiria no poder.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Tantas cartas para Greta


Por
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
03/12/2019

O estilo epistolar foi o escolhido por inúmeros autonomeados correspondentes de Greta Thunberg. Nada há que objetar quanto à técnica discursiva, cada qual sabe de si e de como entende apresentar as suas ideias, embora seja de assinalar que esta escolha da carta aberta delimita unicamente dois campos, ou o da proximidade (escrevo a alguém que conheço ou que reconheço) ou o da distância (contraponho-me a alguém de quem discordo e que quero criticar em público). No caso de Greta, temos desde o jogo do político que se quer refletir no fenómeno de popularidade, até ao do crítico zangado mas a quem o instinto aconselha a não atacar uma figura mais simpática. E o resultado é uma chuva de cartas para Greta.


Greta tornou-se um símbolo mundial por várias razões e nenhuma delas é passageira. Por ser jovem e falar diretamente. Por exprimir um sentimento e uma razão que eram obviamente tratados com cinismo pelas instituições. E, sobretudo, por mobilizar o conhecimento científico contra um situacionismo calculista e adaptativo. Essa é a sua força principal, a mais radical: ela fala em linguagem direta e em nome do consenso científico que se alarma com a displicência da diplomacia, com o interesse da indústria e com a fuga dos governos à responsabilidade. Nada disto é ingenuidade ou ar do tempo, como ligeiramente supuseram alguns dos comentadores, no início deste périplo das novas ideias da justiça climática. O incómodo dos governos, habituados a técnicas de jogo político de curto prazo, é por isso patente na forma como aplaudem o que não parecem dispostos a aceitar (os governos europeus) ou insultam o que não querem sequer admitir (os governantes dos EUA e do Brasil).
Pressionados pelo fenómeno mediático e procurando responder como se fosse somente uma moda, chegam então as cartas abertas de governantes e influencers. A mais discutida dessas cartas a Greta, pelo menos entre nós, foi a do ministro do Ambiente. Nada presumo sobre as suas intenções, pois seria injusto. Noto até que o Governo anunciou uma antecipação para o fecho de centrais termoelétricas e denunciou alguns dos contratos de concessão de prospeção petrolífera, tudo boas medidas num país que tem avançado na produção de energias alternativas.

No entanto, tem sido também assinalado que estas decisões convivem com o paradoxo da degradação da ferrovia, da decadência dos transportes públicos nas grandes áreas metropolitanas, sobretudo do metropolitano, com a concessão de autorizações de perfuração em Bajouca e Aljubarrota e com deliberações que aumentarão as emissões da aviação em mais 40%. Dar com uma mão e tirar com outra é má política.

Em qualquer caso, a agenda ambiental de urgência entrou no debate português. As greves climáticas de jovens são a maior mobilização dos movimentos estudantis em muitos anos e nada indica que se deixem fazer esquecer. Por isso, estas cartas têm um problema. Focam mais quem assina do que o que pretende fazer. São um espelho, e não uma conversa, dado que não estão sequer à espera de resposta. Exibem, em vez de apresentarem soluções. É possível ter em cinco anos as cidades sem carros, com os centros urbanos restritos ao transporte público e de moradores? É possível antecipar para 2030 a neutralidade carbónica? É possível refazer a floresta? E priorizar a reabilitação urbana em vez da construção? Sim, é tudo possível. Suspeito que há quem queira atrasar, negociar ou evitar soluções deste tipo, mesmo escrevendo cartas cordiais a Greta. Afinal de contas, essa é a história da vida das sociedades modernas, se alguma decisão afeta o poder dos poucos que dominam, sobra a escolha de prejudicar os muitos que se espera que fiquem caladinhos. E, sobretudo, que não ouçam uma miúda de 16 anos que cita relatórios científicos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Politiquice barata!


FACTO

Plano de Investimentos da Câmara Municipal do Funchal para 2020 foi aprovado; o Orçamento para 2020, NÃO. - Fonte: Dnotícias.

COMENTÁRIO

Não são necessários muito comentários, porque qualquer cidadão apercebe-se da politiquice sem qualquer vergonha. Passei pela autarquia, como vereador, durante doze anos. Exerci o meu direito de discordância em relação ao Orçamento, mas também relativamente ao Plano. Porque os dois documentos são indissociáveis. 
Ora, seria legítimo que a oposição na Câmara votasse contra os dois documentos, por discordância quer na política das grandes opções como do orçamento de suporte. O que não está correcto é assumir, maioritariamente, que o plano é, no mínimo, satisfatório, mas, alto aí, não vão ter dinheiro para o cumprir.
Ah e tal, dirão, são coisas com algum grau de diferença, por isto e por aquilo. Digo eu, vão junto da população e perguntem se aquela votação tem algum sentido. Ouvirão, certamente, da boca dos munícipes, que aquelas votações constituem uma politiquice barata, sem nexo e perturbadora, porque a Câmara irá, durante os próximos tempos, ser gerida através de duodécimos. Percebe-se que o que está em causa é complicar a vida da vereação maioritária da Câmara Municipal.
Se não concordam com o Orçamento deveriam ter votado contra o Plano de Investimentos. Assim, com os cortes de milhões de euros do Governo relativamente à Câmara, agora, com o estrangulamento do Orçamento e Plano, julgo que algumas forças estão a apostar em eleições intercalares. A ver vamos.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Impunidade sem limites


Por
Subdirector do DIÁRIO
01 DEZ 2019 

O Governo Regional perdeu todo e qualquer pudor face às nomeações de clientela partidária para os lugares da administração pública. A ‘máscara’ caiu mal foram conhecidos os resultados eleitorais. Daí para cá temos assistidos a um assalto sem paralelo à máquina do poder na Região. Sem filtros e à vista de todos. O governo faz tábua-rasa das elementares regras da ética e dos princípios democráticos para colocar os amigos nos gabinetes, nas empresas, nos institutos, protagonizando um festim onde não faltam ligações familiares próximas. 43 anos depois, o laranja e o azul fundiram-se com as cores da autonomia.

Nos conselhos de administração das empresas públicas a gula partidária intensificou-se e, sem justificação convincente, o executivo procede ao aumento do número de vogais apenas e só para saciar dirigentes do PSD e do CDS. Na ‘Habitação’, primeiro. Depois virá o SESARAM. Os critérios de competência sucumbiram aos da influência e chantagem partidária. Na Saúde o escândalo assume contornos indecentes. Para colocar uma ex-secretária regional no comando do IASAÚDE, o governo vai mudar os estatutos do organismo porque a senhora não possui as qualificações necessárias para o desempenho do cargo. 

Como se não bastasse criou mais uma direcção regional, com tudo o que isso implica a mais de despesa pública, para suprir a dificuldade que a indicação forçada de Rita Andrade implica. Na direcção clínica do SESARAM assiste-se a outra trapalhada semelhante. Filomena Gonçalves não assumiu o lugar porque foram detectadas, a tempo, ilegalidades contratuais, que têm de ser ultrapassadas. Qual o problema? Nenhum. 

Até lá arranja-se um substituto provisório, porque o serviço de saúde só pode ser liderado por esta médica, competentíssima ao que sabemos, que é dirigente do CDS e pessoa próxima do deputado Mário Pereira, que tem feito valer toda a sua influência política na empresa. Entretanto, um concurso público à medida da cirurgiã já está em marcha. Sobre as listas de espera e sobre a falta de condições hospitalares? Nem uma palavra.
No melhor destino insular da Europa e do Mundo andamos nisto há longas semanas, perante a indiferença generalizada dos partidos da oposição e com parte da sociedade focada na lastimável ‘barracada’ da Placa Central, como se todos os nossos problemas desembocassem ali. Nesta espécie de circo político que antecipa o Natal ficamos a saber que na Madeira regista-se a segunda taxa mais elevada de risco de pobreza do país. Ficámos também a saber que as nossas crianças passam horas a mais nas creches e que a acção social escolar abrange muito mais alunos na Região do que no continente. Mas importam todos estes sinais? Rigorosamente nada. Em Lisboa, o primeiro-ministro foi ao Parlamento anunciar medidas para combater a pobreza, reconhecendo-a e elegendo-a como uma das principais preocupações. E por cá? Um dia depois, o Conselho de Governo decide expropriar temporariamente parte da avenida Arriaga e as latrinas da praça da Restauração, para que não falte poncha e arraial nas semanas da Festa. Delicioso. No meio desta ‘guerra de alecrim e manjerona’ faltava a ‘cereja no topo do bolo’: é-nos anunciado que vai ser criado um grupo de trabalho para resolver a questão do subsídio social de mobilidade. Em português corrente é a mesma coisa que dizer que nada vai ser solucionado em breve e que o madeirense vai continuar a pagar uma pequena fortuna para se deslocar a Lisboa. Foi nisto que deu o “diálogo permanente” que Miguel Albuquerque inaugurou no novo relacionamento com o governo da República.
Sobra-nos o consolo de que a Madeira cresce consecutivamente há 76 meses, mesmo que isso não diga rigorosamente nada à esmagadora maioria da sua população.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Política carroceira


Escutei e mudei de canal. Falava um advogado/deputado com uma lengalenga tão repetitiva e gasta que não dava para continuar. No dia seguinte, oiço um deputado na Assembleia Legislativa e zás, "aldrabão", "mentiroso", enfim, a continuidade de um tipo de discurso cansativo e arrepiante. Mudei de estação. Não se trata apenas da forma discursiva, mas sobretudo do conteúdo. Eu diria que se criou uma mentalidade no Parlamento que fez escola. Passa de uns para os outros, como se falar alto e grosso e dissertar através de palavras grosseiras e, vezes sem conta, ofensivas, para alguns é sinal de pujança política. Quanto enganados estão! O discurso subtil, acutilante e argumentativo, até fazendo apelo à finura do humor corrosivo, tem outra elegância e resultados que não a baixeza da vergasta lesiva da dignidade dos outros e da pessoa que profere os dislates.


A Assembleia Legislativa precisa de uma tomada de consciência, de que o povo não gosta e está farto de um registo que teve o seu tempo, infelizmente. Oiço, a cada passo, desabafos descredibilizadores, certamente, também, os próprios que por lá têm assento. Curiosamente, não é só no hemiciclo. A recente treta em redor do "Mercadinho de Natal", sobretudo a forma como um governante se posicionou, diz bem de uma lógica de poder de "quero, posso e mando" absolutamente desadequado. Seja lá entre quem for, tenham as cores partidárias que tiverem, o exercício da política carece de diálogo sereno e jamais de posturas de tom totalitário, ao jeito de quem estando a perder, porque é dono da bola, resolve acabar com o jogo.
É tempo de acabar com este tipo de política nauseabunda, geradora de repulsa, feita de ataques internos e daqui para fora, até porque estão a dar sinais às novas gerações que esse é o caminho. Pobre daquele que assim actua. Ser vigoroso na defesa dos seus pontos de vista é uma coisa, debitar a ofensa, a má-criação, uma altivez sem sentido que não repetem nos corredores e na vida social, só demonstra a fragilidade de quem foi eleito para dar exemplos de dignidade. E fico por aqui.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Marcelo e a reescrita da História


Por estatuadesal
Carlos Esperança, 
26/11/2019

Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa, por força do voto popular, mais presidente do que republicano, está ansioso por voltar ao lugar de onde partiu, ao seio da direita portuguesa, sejam quais forem os caminhos a percorrer ou a Vichyssoise a servir à mesa dos sem-abrigo da política e dos esquecidos da História.


A propósito do 25 de novembro, Marcelo procurou aliciar Ramalho Eanes, o PR que o antecedeu no cargo disputado ao seu presumível preferido, Gen. Soares Carneiro, para evocar a data que o próprio Eanes considerou dividir os portugueses, e que é uma velha tentativa do CDS, ora em pré-defunção, para a confiscar em seu proveito.
A tentativa de diminuir o 25 de Abril é uma velha aspiração da direita mais reacionária, como se Vasco Lourenço, Otelo e Vítor Alves não tivessem assumido a liderança de um movimento que se comprometeu a Descolonizar, Democratizar e Desenvolver o País.
Ignoram que Salgueiro Maia esteve no Carmo; que Gertrudes da Silva foi de Viseu e se lhe juntarem os camaradas de Aveiro e da Figueira da Foz, que neutralizaram a Pide em Peniche, e marcharam sobre Lisboa; que Delgado Fonseca foi de Lamego para o Porto; que José Fontão e os seus 4 capitães prenderam Silvino Silvério Marques e Pedro Serrano, no Governo Militar de Lisboa, e realizaram as tarefas distribuídas; que Teófilo Bento tomou a RTP e a colocou ao serviço do MFA; que Costa Martins tomou sozinho o aeroporto de Lisboa e encerrou o espaço aéreo nacional; que Monteiro Valente fechou a fronteira de Vilar Formoso; que Garcia dos Santos foi o responsável das Transmissões no 25 De Abril e em igual dia de novembro; que houve o Conselho da Revolução; que o Grupo dos 9 que esteve no 25 de Abril e no 25 de novembro, tendo no terreno Ramalho Eanes com Jaime Neves, sob o comando de Costa Gomes por intermédio do Governo Militar de Lisboa.
Perdoem-me os heroicos capitães de Abril que ora omito, e os 5 mil militares que foram os pais da democracia que nos legaram, como prometeram, e a que os deputados, saídos das eleições, se cencarregaram de lhe estabelecer os contornos.
Marcelo quer regressar ao sítio de onde partiu, ao ambiente do regime que lhe moldou a origem, à elite conservadora que não tolerou o ruído da Revolução e o medo que sentiu.
Entre o 28 de maio familiar e o 25 de Abril exógeno, quer ressuscitar o 25 de novembro, sem ouvir os militares que ainda estão vivos e o protagonizaram.
Depois de designar como irmão a Jair Bolsonaro e de outorgar o mais elevado grau da Ordem da Liberdade a Cavaco Silva, quer agora subverter a História e confiscar para os seus a data que os autores consideram um detalhe no papel heroico que assumiram no 25 de Abril.
Viva o 25 de Abril! Sempre!

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Partiu o grande José Mário Branco



Por
Francisco Louçã,
in Expresso,
19/11/2019

Tudo o que se vai lembrar e dizer será certo. Que, no exílio em Paris, foi um animador de festas populares em que semeava a luta contra a ditadura, que os seus discos contrabandeados chegavam como uma alegria e uma inspiração.
Que tocou com o José Afonso e que o acompanhou com a fidelidade da grandeza.
Que voltou cheio de energia, que o GAC era uma força da natureza e que inspirou a alma daquela revolução.
Que houve tristeza nos anos oitenta, pesados, e que o “FMI” foi logo a enunciação dessa exasperação, quando a “consolidação” e a dívida externa e a ordem novembrista eram o mantra do regime.
Que procurou novos caminhos, que andou pelo “Combate” e se juntou às campanhas que o PSR reinventou, depois ajudou a fazer o Bloco, sempre a exigir mais e a dizer o que pensava, nunca lhe bastou a modorra dos tempos e as trincheiras em que se espera e raramente alcança.
Que cantou à capela no Coliseu ou com um coro que transbordava no palco.
Que foi um músico enorme, que foi um poeta notável, que procurou também as palavras de outros que podiam levantar a emoção mais verdadeira, que não teve medo de barreiras, que nunca abandonou as suas causas, que procurou os amigos, que cumpriu a vontade de fazer um extraordinário espetáculo e disco com Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias, dois músicos que estimava como dos maiores, que foi cúmplice de Camané na sua busca do fado, que com a Manuela de Freitas fez teatro e cinema e canções e tantos anos, que foi inquieto e que houve tristeza quando não tinha palavras novas para a sua indignação, que sentia tudo o que se mexia na sociedade e procurava os sinais da inquietude e revolta. Tudo o que se disser será certo.
Tão pouco e foi tanto, que porra. Quem é que agora nos vai dizer, “sou o José Mário Branco, 77 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto”?
Faltará sempre o que não se consegue dizer. Que detestou a podridão e que amou a vida. Que não tolerava cinismo e má fé. Que apontava a dedo o charlatão. Que tinha mais dúvidas do que reconhecia, quem não tem?, e que gostava de “épater le bourgeois”. Que tinha a arte de querer tudo e não ficar com nada. Que foi genial.
Tudo se dirá, menos que a morte é tramada. Sobram os discos, a música, as letras, as entrevistas, mas não ficam as conversas, nem a intransigência, só a memória ainda resta para olhar para trás e respeitar o que desaparece com o fim. E é tão pouco, só a lembrança, falta a vida vivida, não é, Zé Mário?
Onde estará amanhã a lágrima daquelas almas censuradas, a voz que se levanta, o olhar intenso, as palavras que ferem? Tão pouco e foi tanto, que porra. Quem é que agora nos vai dizer, “sou o José Mário Branco, 77 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto”?

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Indignação


Já me prenunciei sobre este assunto, mas regresso com indignação a partir do que tem sido publicado. E com uma pergunta tão simples quanto esta: serão necessários tantos para governar estas duas ilhas da Região da Madeira? Mais uma: justifica-se esta dança de cadeiras e de banquinhos? Qualquer pessoa minimamente atenta, mesmo os que, por convicção, fazem parte da família social-democrata, certamente que olha para isto com estupefacção. Os beneficiados, obviamente que não, tal como os que se encontram na fila. Mas há aqui, do ponto de vista institucional, um claro "Estado" dentro do Estado. Repito, serão necessárias tantas figuras para governar 250.000 pessoas? E o CDS/PP, que sempre esteve na oposição e criticou, não fica incomodado com esta claríssima ida ao pote? E que justificação é dada às mudanças de titulares de serviços? Mudam, porquê? Por incompetência, por inadaptação política ao lugar? Para não se dar conta de uma  hipotética incompetência? É que, caros senhores(as), maioria absoluta é uma coisa, poder absoluto é outra, e o dinheiro sempre foi um recurso escasso para além de sair do bolso dos contribuintes.


O drama disto, que potencia a minha indignação, é olhar para uma foto, por aí a circular, de representantes do maior partido da oposição em amena cavaqueira, durante um almoço, com uma figura de um grande grupo económico face à qual, diziam, em surdina, ser necessário colocar na linha. Eu nada tenho contra os grandes grupos, desde que prevaleça a honestidade, desde que paguem os seus impostos, desde que remunerem bem e atempadamente os seus colaboradores. Felicito-os pelo sentido de risco, por gerarem postos de trabalho e por serem motores da economia. Porém, devem ocupar o seu lugar. No exercício da política exige-se que os políticos não fiquem subordinados aos particulares interesses dos empresários e lóbis que prejudicam o desenvolvimento. E isso acontece. Não vejo quem pretenda ser poder a demarcar-se, repito, fazendo minhas as palavras de outros, colocando-os na linha. Neste caso, é óbvio que não existem almoços grátis! Exactamente como não são grátis quando elementos do governo almoçam com a "farinha de primeira" cá do burgo!

Ao longo dos 45 anos após o 25 de Abril nunca assisti a tanto descaramento como agora. Ao contrário de uma imagem de contenção, de rigor, de correcção de todos os processos que levaram a Região a um brutal e insustentável endividamento superior a seis mil milhões, a loucura continua como se não existisse amanhã. Multiplicam-se os lugares generosamente pagos; há gente que quase é chefe de si próprio; não é possível o reforço de verbas para os cuidados de saúde, mas existe dinheiro para "obras"; a Educação sobrevive em um mar de enganos; a pobreza, evidente ou escondida, fez disparar as associações que mitigam essa floresta de constrangimentos (81.000 estão em risco de pobreza), enfim, é sensível uma política de gastos que, em muitos casos, não tem nada de investimento portador de futuro, porque não diversifica a economia com criatividade e inovação, apenas assenta em uma continuada luta reivindicativa por mais e mais dinheiro. 

Junta-se, na decorrência disto, muitas vezes, o debate inútil de assuntos menores, daquilo que se pode considerar como "casos do dia". Na própria Assembleia!
Falta maturidade política, sentido de responsabilidade, mentalidade de estadista, respeito pelos contribuintes, independência, transparência nos actos políticos e planeamento, muito planeamento adequado às possibilidades do país e da região. Tarde ou cedo, por necessidade, toda a estrutura político-administrativa será revista e drasticamente reduzida àquilo que é manifestamente essencial ao funcionamento da Autonomia. Até como exemplo para o país. Não me restam dúvidas sobre estas questões, porque se assim não acontecer as ruas da cidade serão invadidas pelo descontentamento popular. Exemplos não faltam por esse mundo fora e sabemos que o madeirense, apesar de, historicamente, suportar, curvado, o "baile pesado", de quando em vez, desperta para a realidade e leva tudo à sua frente. Tal como as aluviões! Lembrem-se que a grande "obra" é no ser humano e essa está por fazer.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 17 de novembro de 2019

Até que a voz me doa!...


DNotícias
17 NOV 2019

A discussão do programa de governo “soube a pouco”. A solução governativa encontrada não apresentou nada de novo à população.


Há quem encare o poder como uma arma para satisfazer o seu ego, sua vaidade e se comporte como um aristocrata de falsa superioridade. Esquecem-se que até as monarquias estão em decadência e necessitam reinventar-se para sobreviverem.
A discussão do programa de governo “soube a pouco”. A solução governativa encontrada não apresentou nada de novo à população. “Mais do mesmo” foi a expressão que mais se ouviu por entre a população entre outras expressões mais fortes do vernáculo popular na classificação da postura de alguns deputados.
A lufada de ar fresco que se esperava com a entrada de novos protagonistas na gestão dos bens públicos rapidamente mofou. O discurso de Rui Barreto de 4 de novembro passado de que a economia madeirense está a “crescer há 73 meses consecutivos” lembrou de imediato as declarações de Pedro Calado de 26 de junho deste ano de que a “Madeira está a crescer há 70 meses consecutivos”. Até os discursos foram repassados? Caso para perguntar: o acordo governativo impede os novos protagonistas de pensarem pela sua própria cabeça?
Será que são estes os “novos quadros” que Miguel Albuquerque pretende recrutar para renovar o PSD-Madeira no rumo certo?
Todos os analistas económicos mundiais são unânimes a preverem uma nova crise económica mundial. Na Europa, o Brexit, a prolongada instabilidade política em Espanha e o surgimento de algumas manifestações populares em vários países europeus deveriam estar a merecer a mais cuidada atenção por parte dos nossos governantes.

Na continuidade das linhas orientadores do PSD-Madeira não faltam neste Governo Adjuntos, Assessores e Técnicos Especialistas. Como seria bom que todas estas nomeações visassem o estudo dos vários dossiers importantes para o nosso futuro.

Infelizmente estas nomeações parecem ser apenas uma mudança de cadeiras sem qualquer preocupação pela competência e mérito para o lugar que vão exercer. E sendo assim pergunto: vão continuar a fazer como fizeram até agora? Vão continuar simplesmente a reagir aos “azares”?
Veremos se ainda precisarão de encomendar estudos e análises a gabinetes externos para decidir o nosso futuro. Esquecem-se que governar não é seguir umas instruções informáticas de um qualquer programa de gestão. É ter visão. É fazer apostas. É gerir pessoas. Sabem o que é gerir pessoas? É gerir seres humanos!
Bem sei que há gente nomeada porque é especialista em “engonhar” e é preciso fazê-lo com style. Mas não tenham dúvidas – pagaremos todas as ineficiências!
Todos os estudiosos, empresários e pensadores na nossa terra falam na necessidade de mudança de paradigma para podermos vencer no futuro. O que é preciso dizer ou fazer para acordarem?
É por demais evidente que não podemos continuar a ser surpreendidos por “azares” como o da falência da Thomas Cook. Seremos surpreendidos também com as consequências do Brexit? Quais as suas consequências nas nossas vendas de Vinho Madeira para o Reino Unido? E no turismo britânico? E quais as consequências da desvalorização da Libra na nossa economia?
E já agora, que preocupações estamos a ter com os nossos emigrantes na sequência do Brexit? Ou será que os nossos emigrantes só servem para votarem ou permitirem a justificação de umas viagens?
Vão continuar a conduzir os destinos da nossa terra a olhar para o retrovisor? O carro vai bater de frente.
Mas, caro leitor, não vale a pena sofrer por antecipação. A solução é ter coragem para enfrentar o que tem de ser enfrentado. As nossas “reservas de ouro” já lá foram todas na passada crise. Se a coisa ficar bem triste, a solução é bater à porta da Segurança Social. Se houver dinheiro, é claro!
A Madeira é um paraíso na terra... Mas, hoje em dia, nem o amor tem piada ser vivido numa cabana na praia.

Telhados de vidro





FACTO

"Mais um caso de como um apego desmedido ao poder pode lançar um país no caos político, económico e social (...)" - Dr. Sérgio Marques, Deputado do PSD na Assembleia da República, sobre Evo Morales ex-presidente da Bolívia. Fonte: edição de hoje do DIÁRIO.




COMENTÁRIO

Obviamente que são âmbitos diferentes de análise, por isso mesmo, fico pela causa: "apego desmedido ao poder". A caminho de 47 anos de poder ininterrupto na Região Autónoma da Madeira, também questiono, "por que razão são tão frequentes estes casos"? O Dr. Sérgio Marques, que foi Deputado no Parlamento Europeu, é Deputado na Assembleia da República, foi Deputado na Assembleia Legislativa da Madeira e governante, obviamente que, melhor do que eu, conhece as profundas razões dos "telhados de vidro". Sabe que se compram votos de múltiplas maneiras, que tempo houve que alguns mortos "votaram" e que a Administração Pública multiplica-se como cogumelos para satisfação do clientelismo partidário e que, por aí, a liberdade de pensamento e de opção é subtilmente condicionada. Pelas suas múltiplas vivências políticas, o Dr. Sérgio Marques conhece o bas-fond da política europeia, nacional e regional, pelo que, em nosso redor, o "apego desmedido ao poder" tem muito que se lhe diga.
De resto, o que se está a passar em todos os continentes, de Santiago do Chile a Hong-Kong passando pelo velho Continente, retrata a necessidade de uma nova ordem internacional (que começa à escala local), porque sendo as problemáticas tantas e complexas merecem profundas análises às razões mais substantivas. Em uma pergunta estou completamente de acordo com o Senhor Deputado: por que "razão são cada vez mais raros os casos como o de Mandela". É isso que importa analisar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Miséria de Estado, este que prende a mulher que abandonámos


Isabel Moreira, 
in Expresso Diário, 
14/11/2019

Li o que não queria ter lido sobre a imigrante ilegal deixada à sua sorte nas ruas de Lisboa, anónima, grávida, sim, a mulher que terá cometido o crime que evidentemente nos perturba até às lágrimas. Li dessa mulher sobre a qual só sabemos do seu abandono o que não esperava ler, porque o me salta à consciência é o nosso abandono, é a pergunta coletiva ou as perguntas umas atrás das outras, velozes, cortantes, como ?, porquê?, não estava sinalizada?, como terá sido concebida aquela criança?, em que condições?, o que a levava a esconder a gravidez?, por que razão não tinha um único apoio familiar?, onde estava o Estado social?, onde estava eu?, onde estávamos nós?



Depois é decretada a prisão preventiva e leio estarrecida gente esclarecida e defender que não sendo possível aplicar outro tipo de medidas era a única medida possível ou a defenderem que foi o melhor para “ela”.
Não consigo admitir que uma prisão ilegal seja defensável como ato piedoso, como ato caridoso, uma espécie de previdência para a mulher que não terá alternativa à prisão. Não consigo, não posso nem quero admitir uma barbaridade tamanha.

A prisão preventiva tem pressupostos claros e não basta que haja indícios da prática de um crime grave. Seria necessário demonstrar, neste caso, porque é sempre no caso concreto e nunca em abstrato, que a liberdade desta mulher causaria abalo social ou poria em causa a ordem pública, o que não é manifestamente o caso. Seria necessário demonstrar perigo de continuação da atividade criminosa por parte de quem, no caso, obviamente já não oferece qualquer perigo, porque não há outra gravidez a criança está hospitalizada.

Mais agonizante é explicar que a prisão preventiva é a pior medida que pode ser aplicada a quem ainda não foi julgado, pelo que não, não se aplica para dar conforto a quem não tem casa. O Juiz não substitui o Estado social dando cama a uma sem-abrigo via decretação de prisão preventiva. Estamos a falar de uma mulher com direito à liberdade ou a outra medida de coação como qualquer arguida ou arguido e, se carece de tratamento hospitalar ou de abrigo, há hospitais e há casas abrigo.
Pergunto-me se quem defende a prisão preventiva com base na condição de sem-abrigo da arguida está disposto a defender a prisão de todos os sem-abrigo na condição de arguidos como forma de lhes dar um teto. Francamente, é repugnante.
Se os pressupostos da prisão preventiva não estão preenchidos – e não estão – a prisão é ilegal e miséria, miséria de Estado, este que prende uma mulher que abandonámos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Afinal, o que é que os distingue?


A situação política do CDS/PP Madeira, se já de si era menos confortável por alguma crispação interna, com a integração no governo da região tornou-se complexa. Eu diria muito complexa. Se, no plano da estrutura, com bom senso e diálogo, penso eu, por experiência, mor das vezes é possível o entendimento, já no plano do governo a coisa fica mais nebulosa. Desde logo porque não é fácil gerir tudo quanto foi dito contra a governação do PSD e esquecer tantas ofensas pessoais ao longo dos anos, algumas muito graves, e agora ser obrigado a voar muito rente ao solo, dizendo sim ao que outrora era motivo de sérias acusações políticas; depois, se os actos de governo não decorrerem bem, pode acentuar-se a impaciência interna com as consequências que sempre estão associadas. As migalhas distribuídas e a integração de umas quantas propostas no programa e no orçamento, servirão, apenas, para manter serena a coligação sob a égide de um PSD, também ele em clara quebra de popularidade. Aliás, desde  a tomada de posse que é este o sentimento que emana para o cidadão. 

Até o Presidente do PSD já coloca o polegar como símbolo do CDS!

O CDS/PP Madeira, parece-me, que não percebeu a cilada e caiu. O PSD, com a experiência e a paciência de quarenta anos, permitam-me a expressão, a experiência de "virar frangos", nesta fase de deslumbramento, controla-o com mestria. No governo admitiu dois à mercê de nove e, no parlamento, deixou-o amarrado através do presente envenenado da presidência. Como se isto não bastasse, o PSD nas recentes jornadas do seu grupo parlamentar, chamou-os para o seu espaço de debate político, comprometendo-o. Politicamente, tratou-se de uma situação só explicável à luz de interesses escondidos na manga. Não tem outra explicação, deduzo.

O PSD, matreiramente, está a fazer o embrulho, anda a envolver o parceiro de coligação em celofane e já tem um laço pronto do tamanho da Região. A voz da discordância apagou-se, o discurso da alternativa de poder emudeceu, a mudez nos temas políticos mais gravosos da Região constituirá, certamente, um facto, portanto, o CDS/PP ou ficará diluído na corrente social-democrata ou qualquer afirmação distintiva, segundo os princípios da democracia-cristã, gerará um insanável conflito no seio do partido e da coligação. 

Do meu ponto de vista seria absolutamente aceitável, porque democrático no quadro político da direita, um acordo de incidência parlamentar como tem vindo a acontecer com os governos do Dr. António Costa: primeiro, com um acordo de princípio, agora, através de negociações sectoriais. Nestas circunstâncias, na Madeira, o PSD deveria estar a governar só, com um governo minoritário, o que libertaria o CDS para uma continuada e saudável oposição. Isto obrigaria o governo PSD a ter de negociar todas as suas propostas em sede de parlamento. Seria bom para a Madeira e, no caso em apreço, para o próprio CDS/PP. A opção foi outra, os dias passam-se, e cada vez é mais sensível que os "dinossauros" tomarão conta do espaço político. E se as autárquicas decorrerem mal, presumo, adeus CDS/PP e, talvez, adeus coligação. As culpas por eventuais resultados negativos dificilmente serão divididas. E isso é bem possível que aconteça, a avaliar pela maturidade da população que já denunciou que sabe ler o jogo e sabe quem deseja na Assembleia Municipal, na Câmara, nas Juntas e nas Assembleias de Freguesia. 
Ora, este joguinho político, desenvolvido debaixo dos olhos dos eleitores, é insustentável. Enquanto o PSD, creio, mais cedo que tarde, perderá o poder por esgotamento, o CDS, convicto estou, com esta sua estratégia tendencialmente suicida, pode apagar-se por muitos anos. Se a queda já era evidente nos planos nacional e regional, doravante, porque integra o governo, corre o risco de ser levado na corrente do descontentamento eleitoral. Nestas circunstâncias, parece-me óbvio, crescerão de tom as vozes internas e a travessia do deserto será penosa. A ver vamos. Para já, há um provérbio português que anuncia: "Raposa matreira não fará besteira".
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Espanha. Conheça os 10 pontos do pré-acordo entre PSOE e Unidos Podemos


In Expresso Diário, 
12/11/2019

Se o PSOE tivesse reforçado a sua força eleitoral podendo dispensar o apoio da esquerda para formar Governo, as opções políticas de Sanchez seriam as que decorrem dos dez pontos do acordo agora conseguido? A resposta é, sem qualquer dúvida, negativa.


De facto, não há nada melhor do que colocar os socialistas em minoria, mas com hipóteses de governar, para que eles adoptem políticas mais justas e distributivas, como se viu cá com a Geringonça, e como se está, apenas agora, a ver em Espanha. O que agora foi acordado já o poderia ter sido antes, mas Sanchez quis sujeitar o país a mais umas eleições perseguindo a quimera de dispensar o apoio do Podemos. Não havia necessidade.
Enfim, os partidos socialistas europeus só conseguem seguir políticas de esquerda contrariados, e quando a realidade faz imperar o pragmatismo sobre a casmurrice. Até porque a União Europeia não gosta muito destes "casamentos", e está continuamente a mandar "avisos à navegação", para que os governos socialistas não se esqueçam de que o mantra da austeridade ainda vigora, e que a TINA, (there is no alternative), continua de boa saúde.
Acresce que a ascensão da extrema-direita, que a teimosia de Sanchez realizando eleições veio a potenciar, também deu uma ajuda para a realização deste acordo.
Nada como ver o fogo a aproximar-se para que se recorra a tudo quanto é extintor. Esperemos que não seja tarde demais e que as chamas não sejam já incontroláveis vindo, mais tarde ou mais cedo, a queimar as liberdades e a democracia em Espanha.

domingo, 10 de novembro de 2019

Mística?


Dnotícias
10 NOV 2019

Será saudosismo? Não se lobriga, pertence ao passado enterrado pela Renovação. Como? Sem experiências, vivências e traquejo, numa parva exaltação de encantamento aos que usufruem do que vem de trás até esgotar? Com tiques exacerbados de Povo Superior em “bullying” insolente, pleno de um chico-espertismo que mata quem traz votos e acarinha inúteis? Sem justiça nem lealdade e com vitórias plenas de desrespeito pelo próximo?

As internas foram um sonho para salvar um partido cristalizado sobre os mesmos, acabou no uso de uma palavra como engodo, entendida por muitos como mudança de práxis, desígnios e paradigmas mas acabou num calçar de pantufas, ainda quentes, para mais do mesmo, senão pior. As internas foram um flagelo, 2015 foi quimera e 2019 incrementa o erro na utopia da coligação. Todos são gozados pela sua condescendência responsável, até Jardim. A composição do governo, assente na plateia dos comícios e no regresso de flops, traduz-se num GR sem lua-de-mel porque rodou e não mudou, cresceu com inúteis por tachismo e conveniências. O sistema mantém os dóceis, agora desambientados dos seus conhecimentos, vão produzir sucesso? A quantidade descomunal, entre as equipas do passado e agora, não provam incompetência? A sociedade civil só serve para fazer número porque só há espaço para as clientelas? Quase todos sabem que isto não vai bem mas toleram enquanto dá para si, reflictam sobre o egoísmo que mata o colectivo e como estão vendidos. Tudo é uma imensa ficção, onde andam os melhores para governar?
Estamos na era do “Pato Bravo Superior”, onde a emancipação Autonómica se ajoelhou ao poder económico e financeiro, os seus políticos passaram de bípedes a rastejantes. Se no PSD está contado, no CDS contado está ao fim do mês e no PS contam que de Lisboa venha a cartilha mastigada. Mística? Se Albuquerque trouxe o PSD à pré-história política, o PS sem estrutura vive da saturação do eleitor, anda no “paleiolítico” inferior, nómadas, a caçar na sorte do destino sem saber como se organiza um partido político. Os egos não deixam e só reconhecem o mais feroz com contactos no continente. O PS que não se pacifica, organiza ou obtém uma vitória em circunstâncias perfeitas, saberia governar ou imitava a Renovação? Mística? Cafôfo, líder do PS, vai valer menos do que o independente quando tem a responsabilidade de honrar o voto útil que lhe foi concedido pela anulação da esquerda mais dura, se não o fizer, tem esses votos perdidos a par dos desavindos do PSD que nunca votariam PS. A luta Zen atraiçoa o desejo secreto por trás do politicamente correcto do eleitorado que quer sangue.

A raposa de Lisboa, mais esperta do que verbaliza, sabe que vem aí um comissário a fio de espada para o desafio de uma crise económica no horizonte, a par dos desafios da crise climática e oferece de forma “virtuosa” ligação directa à UE. Dispensa mais 4 anos de culpas quando conhece perfeitamente a pobreza galopante, o Turismo a pique, a incapacidade de pagar dívida e de pedir emprestado para o seu serviço, um CINM sempre em risco, meses de crescimento, estatisticamente distribuído por todos mas canalizando a riqueza regional para meia dúzia. Laivos de actividade económica suportada pelo movimento dos regressados luso-venezuelanos que, ao perceberem que somos 250.000, sem poder de compra e que isto não rende como na Venezuela, partirão. Se a renovação, habituada a mentir e a gerar clivagens, os tratar como faz aos antigos do seu partido, não terão a resignação silenciosa e medrosa.

A experiência que o CDS vai adquirir com o “esquema” governativo não reverterá em seu favor, deixou de ser alternativa. Em vez de esperar e capitalizar com a queda do PSD, o CDS foi atraiçoado pela ambição pessoal de alguns que levarão o partido, entre cambalhotas e piruetas, para o mesmo destino do PSD. Quando o CDS sentir mais o ferry, “pedras”, obras, Ajustes Directos, índices de construção, contratos blindados, monopólios, Saúde, estúpidos em lugares de decisão, etc, mesmo com vontade férrea de governar bem e brilhar, perceberá que está maniatado pela teia dos monstros que a Madeira Nova criou e que mantém o Governo refém dos esquemas.
Estamos na era da mentira, do expediente tornado governação, da materialização do convencimento, todos usados para tapar a falta de resultados com as infindáveis camadas de assessores de imprensa e jornalistas “vendidos” como “Firewall” de contra-informação. A deontologia?
A cereja no topo do bolo está na concentração de tanto poder em Calado. Funciona como um “ditador”, se cair, arrasta o regime, é o canto do cisne. Se por um lado a concentração protege-o politicamente, por outro é possível aniquilar todo o GR com um só tiro mostrando “casos de polícia”. Calado, com tanta ambição, ainda não percebeu que responderá pelo todo acumulado do quero, mando e posso e as respectivas impunidades durante décadas. As pedras são mais do que uma suspeita, é um “modus operandi” já displicente por contínua impunidade. Chegar e pactuar torna-o único cúmplice. Albuquerque, sem poder é inimputável, prova da ratice da escola que matou. Caindo Calado é pior do que cair Albuquerque, mas o homem da fotografia pagará caro por não ter, conscientemente e por projecto pessoal, os melhores ao seu lado. Sem contraditório é um desvario.
A Renovação enfrentará um partido em convulsão com muitos carrascos (para a gândara inculta), executores (para o executivo na alta Justiça), algozes (na tribo) e verdugos (como em Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos). A direita salvou-se por agora mas o colapso tem data marcada, de mão dada. Julgam somar votos mas anulam, já há arrependidos por votar e acreditar. Os políticos fantasiam num mundo de conspirações e ambições e o povo pergunta para que serve a política e a democracia capturada por tantos interesses, ficando os seus no fim da lista. A população embirra com a política pouco séria e claramente interesseira de todos os “bons rapazes e raparigas” da cena política madeirense, da direita à esquerda, passando pelo centro onde anda tudo desacreditado. Aguardam serenamente por uma alternativa com o foco na sociedade real e ela existe. Mística? Será que falavam da Fox/Disney?