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sexta-feira, 6 de julho de 2012

AS OBRAS NO HOSPITAL SÃO REMENDOS... SENHOR SECRETÁRIO


Em 23 de Julho de 2011, sublinhei, na sequência de uma conferência realizada pelas Ordens dos Médicos, dos Enfermeiros e Sindicatos: "(...) O Dr. Manuel Brito, na sua intervenção, designou as obras em curso no velho hospital como "HOSPITAL TUNNING". Exemplificou que um carro topo de gama de há 60 anos, mesmo que lá se coloque umas jantes actuais, um motor moderno de um Ferrari, nunca deixará de ser um carro com 60 anos. Percebe-se a metáfora e tem toda a razão. Ora, quando se sabe que o actual hospital Dr. Nélio Mendonça tem 60 anos, não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atrativos e amplos, quando os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, quando nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas, quando apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc., pergunto, como é possível um só só homem, neste caso presidente do governo, não perceba o que está em causa, não consiga ouvir ninguém e ponha em marcha uma ampliação do velho hospital ao invés de caminhar no sentido da construção, por fases, de um hospital que corresponda ao século XXI?


As obras no hospital "não são remendos", disse, esta manhã, o Secretário da Saúde e dos Assuntos Sociais. Ora, para qualquer cidadão minimamente esclarecido, AS OBRAS NO HOSPITAL SÃO REMENDOS. Podem acrescentar o que quiserem, podem expropriar terrenos de bananeiras, casario, etc., porque o que ali estão a fazer são efectivamente remendos. Fica melhor, pois fica. Torna-se mais operacional em determinadas áreas, ninguém coloca em causa. Mas não deixa de constituir um remendo.  Dizem as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, dizem os Sindicatos, dizem os especialistas em construções hospitalares, dizem os que zelam pela SEGURANÇA, só o Secretário diz, agora, por conveniência política, exactamente o contrário, para contornar o clamoroso erro que foi a não construção do novo hospital. A posição do governo regional é, de facto, delirante. Em 5 de Março de 2011 aqui escrevi: "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir,que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada. Entre muitas a das expropriações. (texto que aqui escrevi
Em 23 de Julho de 2011, voltei a sublinhar na sequência de uma conferência realizada pelas Ordens dos Médicos, dos Enfermeiros e Sindicatos: "(...) O Dr. Manuel Brito, na sua intervenção, designou as obras em curso no velho hospital como "HOSPITAL TUNNING". Exemplificou que um carro topo de gama de há 60 anos, mesmo que lá se coloque umas jantes actuais, um motor moderno de um Ferrari, nunca deixará de ser um carro com 60 anos. Percebe-se a metáfora e tem toda a razão. Ora, quando se sabe que o actual hospital Dr. Nélio Mendonça tem 60 anos, não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atrativos e amplos, quando os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, quando nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas, quando apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc., pergunto, como é possível um só só homem, neste caso presidente do governo, não perceba o que está em causa, não consiga ouvir ninguém e ponha em marcha uma ampliação do velho hospital ao invés de caminhar no sentido da construção, por fases, de um hospital que corresponda ao século XXI? Eu penso que este governo entrou num estado de loucura, de desnorte completo que impede que, no mínimo, ouçam quem sabe. Preferem o Hospital Tunning, quando os doentes, hoje, querem segurança, privacidade, bom serviço e áreas sociais; quando os profissionais almejam por boas práticas, espaços amenos, informação e transparência. O hospital Dr. Nélio Mendonça tem 60 anos (início dos projectos), não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atrativos e amplos, quando os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, quando nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas, quando apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc., pergunto, como é possível um só só homem, neste caso presidente do governo, não perceba o que está em causa, não consiga ouvir ninguém e ponha em marcha uma ampliação do velho hospital ao invés de caminhar no sentido da construção, por fases, de um hospital que corresponda ao século XXI? Eu penso que este governo entrou num estado de loucura, de desnorte completo que impede que, no mínimo, ouçam quem sabe.
Queira ou não o Secretário Regional, este hospital é um remendo. Foram obrigados a remendar porque o dinheiro foi desviado para outras obras não prioritárias. E se assim não é, pergunto, então, que razões levaram o governo a gastar milhões em projectos e expropriações visando a construção do novo hospital?
Fora da esfera do poder político, acredite Senhor Secretário, meta na cabeça, que uma grande parte da população não é ESTÚPIDA!
Ilustração: Arquivo pessoal e Google Imagens.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

HOSPITAL "MEIAS-SOLAS". O VICE-PRESIDENTE DO GOVERNO TEM O DEVER DE EXPLICAR


"(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção ia para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir, que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada (...)".
 
 
Se o Governo não é uma sociedade secreta
tem o dever de explicar e de ser transparente.
Simplesmente porque o dinheiro
não é destes dois senhores
mas de todos os contribuintes.
Assume o Presidente do Conselho de Administração do SESARAM que a ampliação do Hospital Dr. Nélio Ferraz Mendonça, hospital, sublinhe-se, com 60 anos desde que foi apresentado o respectivo projecto, está na responsabilidade da Vice-Presidência que prevê esteja concluído lá para 2017/2018. Sobre esta matéria escrevi vários textos desde Março de 2011. Tive a oportunidade de assistir a um "Ciclo de Conferências: Um hospital para século XXI" promovido, em conjunto, pelas Ordens e Sindicatos dos Médicos e dos Enfermeiros. Não escutei uma palavra discordante quanto a tal necessidade, nessas conferências que envolveram engenheiros, arquitectos, técnicos especialistas e, naturalmente, médicos e enfermeiros. Na sequência do que ouvi, eu que nada percebo de construções hospitalares, mas tendo em consideração o conhecimento de tantas figuras que se debruçaram sobre a matéria, obviamente que, no mínimo, é estranho que o governo regional faça tábua rasa do conhecimento e continue a avançar por uma solução tipo "meias-solas" em uns sapatos velhos. Este hospital tem 60 anos!
A este propósito escrevi um texto (aqui) que a determinada altura referia: "(...) Podem acrescentar o que quiserem, podem expropriar terrenos de bananeiras, casario, etc., porque o que ali estão a fazer são efectivamente remendos. Fica melhor, pois fica. Torna-se mais operacional em determinadas áreas, ninguém coloca em causa. Mas não deixa de constituir um remendo. Dizem as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, dizem os Sindicatos, dizem os especialistas em construções hospitalares, dizem os que zelam pela SEGURANÇA, só o Secretário diz, agora, por conveniência política, exactamente o contrário, para contornar o clamoroso erro que foi a não construção do novo hospital. A posição do governo regional é, de facto, delirante! "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção ia para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir,que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada (...)".
Se volto a referir esta matéria é porque o Vice-Presidente tem o dever político de explicar muita coisa: o porquê da teimosia, qual a posição dos especialistas, se foram ou não ouvidas as ordens e os sindicatos, qual o ponto de situação relativamente aos terrenos expropriados em Santa Rita, quanto custará esta ampliação, enfim, existe aqui um rol de questões que não podem nem devem circunscrever-se aos bafientos corredores e gabinetes do governo como se de uma sociedade secreta se tratasse. Este processo está envolto em secretismo e qualquer cidadão tem o direito de ser devidamente esclarecido.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 5 de maio de 2015

SECRETÁRIO REGIONAL DA SAÚDE: DO "HOSPITAL TUNNING" À DÚVIDA


O actual secretário regional da Saúde disse, esta manhã, que a comissão, composta por cinco pessoas, estava hoje reunida para, no prazo de 60 dias apresentar um relatório, no qual fique claro, entre outros aspectos, "se é ou não necessária a construção do novo hospital". Fiquei estupefacto. Ora bem, uma vez mais, vejamos, sumariamente, a cronologia sobre o novo hospital iniciada há catorze anos: "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção ia para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir, que oito consórcios se mostraram interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica, no entanto, o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constatou-se o recuo, todavia, de trapalhada em trapalhada (...)". 

Secretaria Regional da Saúde
anda a "remar para terra"
no meio do nevoeiro financeiro!

Mais, ainda: assisti, em 2011, a um "Ciclo de Conferências: Um hospital para século XXI" promovido, em conjunto, pelas Ordens e Sindicatos dos Médicos e dos Enfermeiros. No decorrer dessas conferências não escutei uma palavra discordante quanto a tal necessidade. Nelas participaram engenheiros, arquitectos, técnicos especialistas e, naturalmente, médicos e enfermeiros. O actual secretário, Dr. Manuel Brito, um dos convidados, considerou as obras em curso no velho hospital como "HOSPITAL TUNNING", exemplificando que um carro topo de gama de há 60 anos, mesmo que lá se coloque umas jantes actuais, um motor moderno de um Ferrari, nunca deixará de ser um carro com 60 anos. Todos perceberam a metáfora. E foi referido, por outros participantes, que o hospital Dr. Nélio Mendonça não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atractivos e amplos, os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, que nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas e que apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc.. Perante tudo isto, pergunto, que razões substantivas existem para que este secretário coloque no centro do debate a necessidade ou não de um novo hospital? Quando, nesta Comissão de cinco personalidades, identifico pelo menos quatro, com declarações públicas no sentido da construção de um novo hospital; quando o actual presidente do governo já assumiu tal obra e quando o secretário até já se posicionou no mesmo sentido, pergunto, se isto não corresponde a uma perda de tempo e a um sinal de quem anda a "remar para terra"? Não brinquem connosco!
Deixo aqui o vídeo sobre o Novo Hospital do Funchal.


















"errar é humano, mas insistir no erro é idiotice" (Julio Aukay).

sábado, 5 de março de 2011

ADVOGADA DAS CAUSAS PERDIDAS


Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declara que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assume que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo diz que, se for eleito gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF refere que o actual hospital está fora de prazo e em Dezembro é anunciado o concurso público e, logo a seguir, oito consórcios mostram-se interessados; por aí fora...

Há Deputados(as) que, das duas, uma: ou defendem o indefensável, aquilo que ninguém entende por falta de razoabiilidade argumentativa, ou estão talhados(as) para as causas perdidas. Ora, a questão do Hospital, afinal, é porque o Governo da República não quis assumir a sua responsabilidade. À posição assumida pela Senhora Deputada Rafaela Fernandes do PSD, acabo de ler algumas mensagens na edição on-line do DN que provam que há muita gente que tem dificuldades em engolir aquele tipo de declarações: "(...) O Governo (3D) Desviar, Devertir, Destrair! e a culpa é dos Cubanos (...) Desculpe mas isso não deve ser verdade, não acredito, nunca até hoje foi noticiado, e isso seria uma notícia que nenhum dos actuais grupos de comunicação social deixaria passar, que o governo da República tornasse público, claramente, que não apoiava a construção do novo hospital, se para mais alguns partidos como o CDS e o PCP desenvolviam esforços nesse sentido, de o projecto ser de interesse comum (PIC), ao que parece os deputados do PSD-M na AR, é que se deitaram à "sombra da bananeira", e talvez receosos do sucesso dos seus colegas da oposição toca "deitar areia em cima", aliás o "PIC" tornou-se foi "PIG" (...) Se há coisa que adoro são tangas... mas não destas! (...) Realmente... a culpa é sempre dos outros. De facto, há outras prioridades....como estádios, marinas,etc... (...) Vira o disco e toca o mesmo! Pois é! Aqueles malandros, sabem que vamos gastar tantos milhões na paradisíaca lixeira do Funchal e outros tantos no indispensável sumidouro do Lugar de Baixo, e nem nos pagam um Hospital! É incrível que mesmo sabendo dessas urgentes e incontornáveis despesas, ainda estejam à espera que tenhamos dinheiro para coisas pouco interessantes como hospitais. O governo central, ao contrário do nosso, não sabe o que são prioridades!!! (...) E o estádio dos Barreiros? Teve apoio da República!? (...) A "metralhadora" de barretes e manobrismo político como tentam fugir à impopularidade é de uma criatividade absolutamente delirante".
A posição do PSD é, de facto delirante. Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir,que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada. Entre muitas a das expropriações.
Perante um quadro destes, e lá vão dez anos, vem a Senhora Deputada Rafaela Fernandes dizer que a culpa é de Lisboa. Nem teve presente que a saída das regiões Objectivo 1 da UE, além de ter custado menos 500 milhões de receitas, pode também estar em causa um hospital. Se calhar foi a oposição que esteve em Bruxelas a manifestar a riqueza da Madeira à custa de um PIB empolado pela Zona Franca, portanto uma riqueza que nunca existiu.
Hoje, é Sábado de Carnaval. Este é, apenas, mais um DESFILE.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 23 de julho de 2011

HOSPITAL TUNNING


O hospital Dr. Nélio Mendonça tem 60 anos (início dos projectos), não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atrativos e amplos, quando os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, quando nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas, quando apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc., pergunto, como é possível um só só homem, neste caso presidente do governo, não perceba o que está em causa, não consiga ouvir ninguém e ponha em marcha uma ampliação do velho hospital ao invés de caminhar no sentido da construção, por fases, de um hospital que corresponda ao século XXI? Eu penso que este governo entrou num estado de loucura, de desnorte completo que impede que, no mínimo, ouçam quem sabe.


Hoje passei mais de três horas a escutar opiniões diversas sobre a candente questão do novo hospital. Tratou-se de uma conferência organizada pelo grupo de trabalho por "Um Hospital para o Século XXI". Foram conferencistas o meu colega de escola Engº Dírio Ramos (uma vida dedicada aos hospitais), o Aquitecto Duarte Caldeira, o Dr. Manuel Brito e o Enfermeiro Orlando Sá. Valeu a pena. Só lamento o facto do Secretário dos Assuntos Sociais e Saúde, os Directores Regionais, a administração do SESARAM, Deputados do PSD-M, entre outras figuras, não se tivessem dignado a sentar-se na sede da Ordem dos Enfermeiros e discutir o tema com médicos, enfermeiros, políticos e com os conferencistas, claro. A ausência diz tudo.
Aliás, estas pessoas que governam e têm responsabilidades em vários sectores e áreas da saúde, pela sua surdez e avessos que são às opiniões de outros, fazem-me lembrar os constantes apelos, por exemplo, dos ambientalistas, dos geólogos, dos geógrafos, entre outros, que levaram anos a chamar à atenção dos políticos para os erros que estavam a ser cometidos. Foram ofendidos, vilependiados, até que o 20 de Fevereiro veio dar-lhes razão. Toda a razão. O mesmo se está a passar com a Saúde e, particularmente, com a construção de um novo hospital.
O Dr. Manuel Brito, na sua intervenção, designou as obras em curso no velho hospital como "HOSPITAL TUNNING". Exemplificou que um carro topo de gama de há 60 anos, mesmo que lá se coloque umas jantes actuais, um motor moderno de um Ferrari, nunca deixará de ser um carro com 60 anos. Percebe-se a metáfora e tem toda a razão. Ora, quando se sabe que o actual hospital Dr. Nélio Mendonça tem 60 anos, não é seguro, não garante privacidade aos doentes, não dispõe de espaços sociais atrativos e amplos, quando os acessos não são funcionais, não tem flexibilidade funcional interna, apresenta dificuldades nos acessos, não tem conforto de uso, não respeita normas de segurança, quando nos mesmos elevadores circulam os cadáveres, os limpos e sujos, as pessoas, quando apresenta carência de espaços (salas de estar, gabinetes, vestiários, espaços de arrumos, sanitários, etc. etc., pergunto, como é possível um só só homem, neste caso presidente do governo, não perceba o que está em causa, não consiga ouvir ninguém e ponha em marcha uma ampliação do velho hospital ao invés de caminhar no sentido da construção, por fases, de um hospital que corresponda ao século XXI? Eu penso que este governo entrou num estado de loucura, de desnorte completo que impede que, no mínimo, ouçam quem sabe. Preferem o Hospital Tunning, quando os doentes, hoje, querem segurança, privacidade, bom serviço e áreas sociais; quando os profissionais almejam por boas práticas, espaços amenos, informação e transparência.
O governo rompeu, vá lá saber-se porquê (dinheiro não foi, quando vai gastar 300 milhões na Via Expresso do Norte) com dez anos de promessas, colocou a maioria dos profissionais da saúde revoltados e demonstrou a sua verdadeira face ditatorial. Eu penso que isto tem de acabar, rapidamente. Começa a ser um pesadelo político. Demitam-se, é o melhor que podem fazer. Esta atitude não tem qualificação.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A DITADURA


O PSD esteve no hospital, não para ouvir e posicionar-se contra os quase 15.000 em lista de espera por uma intervenção cirúrgica, não para falar das centenas que vivem no hospital abandonados pelas famílias, não para falar das arreliadoras taxas moderadoras, não para falar do despedimento de dezenas de enfermeiros, não para falar dos enfermeiros licenciados e que continuam a receber como bacharéis, não para falar de médicos explorados e contratados a preços low-cost, não para falar dos medicamentos e outros consumíveis que faltam a todo o momento, não para falar da monstruosa dívida acumulada, não para falar da gestão privada de um hospital que deveria ser PÚBLICO, não para falar de um hospital velho e inseguro face a um novo hospital que não entrou nas prioridades do governo, não para falar do sistema convencionado e, portanto, do "roubo" que o governo está a fazer às empresas privadas (laboratórios e outros) conduzindo-as à falência depois de tanto investimento no conhecimento e capacidade instalada, não para falar do muito que o pessoal de saúde ainda faz com tão limitados meios, mas para falar das "OBRAS" que vão estar concluídas dentro de três anos, certamente, a tempo das próximas eleições. Senhora deputada Rafaela Fernandes, por favor, poupe os madeirenses às suas conversas políticas de treta.

Não é a primeira vez que os deputados são impedidos de visitar instituições que são públicas. Ontem, uma vez mais, foi com o PCP que, legitimamente, no âmbito das suas funções, o deputado Edgar Silva viu boicotada uma visita à Escola Prof. Eleutério de Aguiar, uma escola de educação especial, pioneira no apoio aos surdos-mudos, note-se, muito antes de 1974. Outros partidos, sistematicamente, ao contrário do que está definido em Lei, são impedidos de desempenharem as suas funções, ora porque o momento e até a hora não é oportuna, ora porque só o secretário da correspondente pasta pode autorizar. E isto acontece quando, de facto, o governo não tem nada que autorizar, quanto muito, por deferência e por respeito ao Parlamento, as instituições devem ter conhecimento para poderem desencadear o processo de bem receber os deputados, acompanhando-os na visita. Nada mais. As instituições públicas não são feudos do governo e, ademais, as disposições legais dão poderes aos deputados no acesso a tais espaços. Mas, aqui, nesta terra, onde a democracia e o respeito pela legalidade constitui uma mera caricatura, os responsáveis pelas instituições embora tendo conhecimento da lei, metem o rabinho entre as pernas, certamente, porque não querem ter chatices! Só os deputados do PSD têm livre acesso. Basta um simples telefonema ou, a pedido interno, por razões de propaganda, as portas logo se abrem. 
Ainda anteontem, numa conferência de imprensa, o grupo parlamentar do PSD-M deu conhecimento público de uma visita às "consultas externas" do hospital. Uma visita claramente fabricada. Estava eu a seguir essa declaração e dei comigo a reflectir que o grupo parlamentar do PS esteve dois anos à espera de uma reunião com a anterior administração do hospital, sistematicamente solicitada e nunca agendada! Ora, só quem tem a consciência pesada, só quem é subserviente, só quem não tem coluna, só quem é partidário esclerosado comporta-se daquela maneira. Só quem tem medo e só quem teme que o povo saiba outros lados da história é que assume posições absolutamente desconformes com a lei e sobretudo com o que deriva da palavra DEMOCRACIA.
O PSD esteve no hospital, não para ouvir e posicionar-se contra os quase 15.000 em lista de espera por uma intervenção cirúrgica, não para falar das centenas que vivem no hospital abandonados pelas famílias, não para falar das arreliadoras taxas moderadoras, não para falar do despedimento de dezenas de enfermeiros, não para falar dos enfermeiros licenciados e que continuam a receber como bacharéis, não para falar de médicos contratados a preços low-cost, não para falar dos medicamentos e outros consumíveis que faltam a todo o momento, não para falar da monstruosa dívida acumulada, não para falar da gestão privada de um hospital que deveria ser PÚBLICO, não para falar de um hospital velho e inseguro face a um novo hospital que não entrou nas prioridades do governo, não para falar do sistema convencionado e, portanto, do "roubo" que o governo está a fazer às empresas privadas (laboratórios e outros) conduzindo-as à falência depois de tanto investimento no conhecimento e capacidade instalada, não para falar do muito que o pessoal de saúde ainda faz com tão limitados meios, mas para falar das OBRAS que vão estar concluídas dentro de três anos, certamente, a tempo das próximas eleições. Senhora deputada Rafaela Fernandes, por favor, poupe os madeirenses às suas conversas políticas de treta.
Tarde ou cedo isto vai acabar. Os deputados serão respeitados e as diversas verdades, com responsabilidade, poderão ser escutadas ou lidas por todos. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

NOVO HOSPITAL: A POLÍTICA DA MENTIRA POLÍTICA A TODO O VAPOR


Sobre a possibilidade de um novo hospital, li, no dia 25 de Fevereiro de 2015, a seguinte posição do actual secretário da Saúde do governo regional da Madeira: "(...) É uma prioridade, é uma preocupação, é tecnicamente sustentável a necessidade de um novo hospital". Leio, hoje, 03.07.2015: "(...) Na nossa opinião, para os doentes, é essencial que, nos próximos 20 anos, tenhamos um hospital moderno capaz diferenciado e que responda ao que neste momento já não é (...)". Ora, um horizonte temporal de 20 ANOS corresponde a CINCO LEGISLATURAS. Corresponde também, grosso modo, a uma pena máxima para todo o povo. Muitos, provavelmente, alguns largos milhares, porventura os que mais precisam, já não andarão pelo planeta Terra! 


Detesto este tipo de política. Para ser eleito dizem tudo o que soa bem ao ouvido das pessoas, acredito, até, por convicção pessoal, embora sem se comprometerem com datas, depois, chutam para a frente. Ao invés de enfrentar, como vulgarmente se diz, "o touro pelos cornos", nomeiam uma comissão para concluir sobre aquilo que há muito está assumido. É o pau que vai e volta para que folguem as costas.
Repito, aqui, a sequência dos posicionamentos políticos desde 2001 (14 anos), em um texto divulgado a 5 de Março de 2011: "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir, que oito consórcios se mostraram interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trapalhada (...)". Para além disto existem actas de discursos proferidos na Assembleia Legislativa, no plenário e nas Comissões Especializadas, houve expropriação de terrenos e alguns milhões investidos em projectos e não só. E agora, o horizonte temporal é de 20 anos! Se me falassem em duas legislaturas, por fases, para a entrada em pleno funcionamento, bom, seria aceitável. Prolongar até vinte anos... constitui a política da mentira política a todo o vapor. E o povo acreditou, uma vez mais, que agora seria diferente. Torna-se importante que o presidente do governo se pronuncie sobre esta matéria. Cada um sabe de si e responde por si, eu, se tivesse responsabilidades políticas, não me deixava cair nesta situação, pois colocaria a mim próprio a seguinte pergunta: se assumo que a obra é prioritária, se não me deixam concretizá-la em tempo aceitável, então, o que estou aqui a fazer? Ia-me embora, por uma questão de responsabilidade e dignidade política. Porque a minha consciência nunca esteve nem estaria à venda.
Edição do DN-Madeira: 
Ilustração: Google Imagens - Maqueta do que ficou conhecido por "Novo Hospital"

domingo, 30 de novembro de 2014

UM GOVERNO COM POLÍTICAS EM ZIG-ZAG... AFINAL, É NECESSÁRIO UM NOVO HOSPITAL


O governo regional da Madeira tem o dever de explicar-se. Afinal, que razões substantivas, as verdadeiras, levaram a abandonar o projecto do novo hospital, em S. Rita, investir nos terrenos anexos ao velho hospital, acabar com quase toda a iniciativa privada convencionada, com quase toda a capacidade instalada (o direito à saúde está muito para além do local onde é prestado) e apostar em um hospital de sucessivos remendos. O governo tem o dever de contar TODA A VERDADE e não apenas a verdade conveniente. 


Recordo o que já escrevi em 2011:
"(...) Podem acrescentar o que quiserem, podem expropriar terrenos de bananeiras, casario, etc., porque o que ali estão a fazer são efectivamente remendos. Fica melhor, pois fica. Torna-se mais operacional em determinadas áreas, ninguém coloca em causa. Mas não deixa de constituir um remendo. Dizem as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, dizem os Sindicatos, dizem os especialistas em construções hospitalares, dizem os que zelam pela SEGURANÇA, só o Secretário diz, por conveniência política, exactamente o contrário, para contornar o clamoroso erro que foi a não construção do novo hospital. A posição do governo regional é, de facto, delirante! "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção ia para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir,que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto, o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constatou-se o recuo, todavia, de trapalhada em trapalhada (...)".
Finalmente, 13 ANOS DEPOIS, o governo volta a referir que é necessário. Então, o que se passou, que interesses estiveram em jogo e que interesses estão hoje em jogo? Certamente que não são os interesses dos utentes.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

PREOCUPANTE INSEGURANÇA


A segurança nos túneis está hoje em causa, mas queira que nunca, repito, nunca, aconteça uma situação delicada no hospital do Funchal. Todos sabem e muitos assobiam para o lado que o hospital é um ponto negro na segurança para quem lá está internado, para quem lá trabalha, para quem o visita e uma dor de cabeça para os bombeiros em situação de emergência. É um hospital cujo projecto inicial andará pelos 60 anos, as fragilidades estão elencadas, pelo que a construção de um novo hospital justificava-se, também, por essa razão. E como o hospital existem por aí tantas situações a merecer cuidados especiais. Mas, não, fingem que está tudo bem, "prà frente... sempre", empurram os problemas com a barriga e quando há problemas é porque Lisboa não mandou o dinheiro!



A segurança nos túneis da Região é motivo de grande preocupação. O facto de terem acontecido incêndios em viaturas, enfim, acabam por constituir casos a lamentar, mas não estamos livres que aconteçam. O que me parece muito preocupante é o presidente do Conselho de Administração da Empresa Estradas da Madeira, Engº Francisco Taboada, entrevistado na RTP-M, ter assumido que há falhas no processo de segurança dos túneis por falta de meios financeiros. Não quero entrar em pormenores que seriam de pura especulação da minha parte. Não sou perito nessas áreas e, por isso, abstenho-me de comentários técnicos sobre tais necessidades. Tampouco escrevo sobre a possibilidade da crise estar a gerar menor cuidado com a manutenção das viaturas. Sei, isso sim, das constantes chamadas de atenção dos bombeiros e deixa-me perplexo, enquanto cidadão, que uma obra daquela natureza, os túneis, no respectivo caderno de encargos, não contemple todos os aspectos relacionados com a segurança. Penso que lá devem estar, mas, no mínimo, é esquisito a segurança não estar acautelada! Deduz-se, então, que mais valeu inaugurar do que zelar pela segurança das pessoas. Ontem, segundo li, do incêndio resultaram dezoito pessoas assistidas na urgência hospitalar, o que é grave.
Mas não quero ficar por aí. Estas situações acabam por explicar muita coisa. Entre outras, explica a falência da Região, quer ao nível da rigorosa definição das prioridades na aplicação do dinheiro de todos nós, quer ao nível do princípio mais básico do respeito pela segurança de pessoas e bens. Há um abandalhamento, uma visão desleixada, um deixa andar que nada vai acontecer e, quando acontece, aparece o do costume a dizer que temos de conviver com o perigo. Entretanto, gasta-se à fartasana, ou gastava-se, naquilo que não é importante (a lista é enorme, quase infindável) ou em estruturas organizacionais como a da Empresa Estradas da Madeira (semelhante a tantas outras e que aqui reproduzo o respectivo organograma, constante no sítio da internet), enfim, perdem-se enormes recursos financeiros que, queiramos ou não, acabam por faltar onde se torna necessário. A segurança nos túneis está hoje em causa, mas queira que nunca, repito, nunca, aconteça uma situação delicada no hospital do Funchal. Todos sabem e muitos assobiam para o lado que o hospital é um ponto negro na segurança para quem lá está internado, para quem lá trabalha, para quem o visita e uma dor de cabeça para os bombeiros em situação de emergência. É um hospital cujo projecto inicial andará pelos 60 anos, as fragilidades estão elencadas, pelo que a construção de um novo hospital justificava-se, também, por essa razão. E como o hospital existem por aí tantas situações a merecer cuidados especiais. Mas, não, fingem que está tudo bem, "prà frente... sempre", empurram os problemas com a barriga e quando há problemas é porque Lisboa não mandou o dinheiro!  
Ilustração: Diário de Notícias-Madeira e sítio da Internet da Empresa Estradas da Madeira.

domingo, 16 de outubro de 2016

ABSOLUTA SEM-VERGONHICE


É inquestionável a necessidade e o direito de ser oposição, isto é, o dever de propor alternativa no quadro da responsabilidade política de acompanhar e de discordar com as opções de quem, circunstancialmente, exerce o poder. Não é fácil, mas é assim que a democracia funciona e exige. Mas há por aí uma geração de políticos que não nos levam a sério, que nós, os cidadãos, ou somos parvos ou andamos a tirar documentos para estúpidos. A propósito do Orçamento de Estado para 2017, quando oiço "(...) Parece que abriu a época de caça ao contribuinte (...)" - Assunção Cristas (CDS/PP) (...) e que "Cada linha deste orçamento é mais um aumento de impostos" - Duarte Marques (PSD), a ideia que me fica é a do apagão sobre tudo quanto se passou sobretudo entre 2011 e 2015, sobre aquela brutal carga de impostos que a coligação PSD/CDS impôs aos contribuintes portugueses. Assistimos a um saque, directo e indirecto, à substancial diminuição dos direitos sociais, a um compulsivo empobrecimento da população, à desregulação laboral, ao quase desaparecimento da designada classe média, ao aumento da pobreza e da saída de muitos milhares de portugueses para outras paragens, enquanto tentativa de sobrevivência. Alguém pode esquecer-se da severa austeridade que passámos e que ainda aí anda?


De Pedro Passos Coelho já nem falo, porque ali parece-me existir uma permanente angústia ainda por resolver, passados tantos meses, derivada do facto de ter sido apeado do poder através de uma maioria parlamentar e da convivência nos areópagos europeus. As suas declarações estão sempre envolvidas em tons negros, nunca de pendor propositivo mas de ave agoirenta e de subserviência ideológica a essa Europa sempre penalizadora para com os mais vulneráveis e portas escancaradas para quem serve os grandes interesses. Passos Coelho não me aquece nem arrefece, o que me custa aceitar é a falta de memória pelo que fizeram e que, de substancial, de nada valeu. O discurso que a sua via política era a única e imprescindível ao sucesso foi "chão que deu uvas". Meses a dizer que o "diabo" apareceria em Setembro, vamos em Outubro e, ao que parece, o défice vai ficar pelos 2,5%, embora de forma ainda que ténue, aos portugueses está a ser devolvida a parte que lhes sugaram, os pensionistas longe de estarem bem, sentem alguma atenção, os benefícios sociais estão de volta, enfim, a longa lista de compromissos entre os quatro partidos da base parlamentar, caminham com a segurança que nem a Europa consegue beliscar. Parece que alguns ficam aborrecidos por muitos estarem ligeiramente melhores. Que egoísmo!
Uma nota final: o novo hospital para a Madeira. Ah, pois, o cavalo de batalha dos últimos tempos. Uma vez mais assiste-se a um apagão na memória. Mas  para que conste: "(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir,que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constatou-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada. Entre muitas a das expropriações (...)". Drª Rubina Berardo (PSD), "um jogo de espelhos"? Consulte os documentos e as declarações. Ficará esclarecida sobre os governos do PSD de há dezasseis anos a esta parte. O mesmo peço ao secretário regional da Finanças, personalidade que conhece todo o processo do hospital desde há muitos anos. Embora a construção do novo hospital seja uma prioridade, a par de tantas outras que estão à frente dos nossos olhos e que o governo regional não quer ver, manda a honestidade política que não atirem pedras quando têm telhados de vidro.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

"VOSSA EXCELÊNCIA MUITO OBRA..."

"Considero que há uma agenda política partidária que tem como prioridade prejudicar a Madeira, no sentido de tentar em 2019 o assalto ao poder regional. Isso nós não vamos admitir (...)". Esta declaração é do presidente do governo regional da Madeira, Dr. Miguel Albuquerque. Ora bem, a posição do presidente do governo, a dois anos de eleições legislativas, denuncia sintomas de pânico, porventura a partir de uma aproximação do PS, em função das sondagens que têm sido publicadas. Não há outra justificação. Porque as perguntas, naturalmente, surgem: quais os traços e fundamentos dessa hipotética "agenda partidária"? E como é possível esse tal "assalto ao poder" regional, quando é o povo que, soberanamente, decide? Julgo que o problema do Dr. Miguel Albuquerque reside nestas duas linhas do gráfico: o azul que se aproxima da laranja!

Prejudicar a Madeira como? Será que quem está a criar sérios problemas aos madeirenses é a oposição política ou o próprio governo da Madeira? Pois, entendo, tudo a propósito do novo hospital. Mas quem é que, sucessivamente, desde o ano 2001, anda a empurrar o problema? Terá sido a oposição ou os vários governos da Região? Para que tenhamos presente, pela enésima vez, reproduzo o essencial do processo:

"(...) Em 2001, a ex-Secretária dos Assuntos Sociais e Saúde, Drª Conceição Estudante, declarava que a opção vai para um novo hospital; em 2003, o Presidente do Governo assumiu que o vai construir em sete anos e que é prioritário; em 2004, o presidente do governo disse que, se for eleito, gostaria de inaugurar o novo hospital até 2008; em 2005, o presidente do Conselho de Administração do HCF assumiu que o actual hospital estava fora de prazo e em Dezembro foi anunciado o concurso público e, logo a seguir, que oito consórcios mostraram-se interessados; em 2006 foi dito que a obra avançava no final de 2008; em 2007, o actual secretário assumiu que a construção do novo hospital estava decidida, definitiva e irrevogavelmente. A partir de 2008, o PSD começou a oferecer sinais de dúvida, com o Deputado Jaime Ramos a dizer que o novo hospital não era uma necessidade urgente e básica; no entanto o presidente do governo continuou a sublinhar que a prioridade era um novo hospital. Daí para cá constata-se o recuo, todavia, de trapalhada em trabalhada. Entre muitas a das expropriações e até a possibilidade de aumento do actual hospital para terrenos contíguos."

Perante isto a oposição é que é a culpada? Mais, ainda, se os terrenos, neste momento,  apenas estão parcialmente adquiridos, se não foi lançado o concurso público internacional da responsabilidade do governo da Região, se não se sabe, por isso, quanto custará o hospital, tampouco se existirão ou não outros financiamentos, como pode o governo da República avançar com os 50% assumidos e que são da sua responsabilidade? O Estado não funciona em regime de pré-pagamento! O que me leva a dizer que para o Dr. Miguel Albuquerque não está em causa a fragilidade política do seu governo, mas sim o Dr. António Costa que deseja um "assalto ao poder regional". Dizem os brasileiros... "só contaram p'ra você!"
O governo que faça o favor de governar e de resolver os problemas dos madeirenses. E são muitos. Os eleitores só pedem isso e, lá para 2019, o julgamento será feito. Mas atenção, o problema da Madeira e do Porto Santo não está na loucura das obras que, tudo leva a crer, regressarão em força. Lembro aos governantes, tem poucos anos esta história com pitada de humor, a Região parecia um estaleiro tal o volume de obras em curso, porém, a população não foi em cantigas. O PSD venceu as eleições, é certo, mas o susto ficou. Hoje, colocam-se outras questões e outras necessidades. E a propósito, lembro-me de um político da maioria que, na Assembleia, passava todo o tempo a falar da "obra feita". E a páginas tantas, um deputado da oposição começou a sua intervenção dizendo-lhe: "vossa excelência, muito obra". Cuidado, há obras e obras!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de novembro de 2019

48 Horas no Sistema de Saúde Inglês


Por estatuadesal
Clara Ferreira Alves, 
in Expresso, 01/11/2019

Soube que estava em sarilhos. Saí de um restaurante na zona de Kings Cross e entrei na estação de metro. As imediações de St. Pancras e Kings Cross, um monturo nos anos do thatcherismo, são uma das zonas mais gentrificadas de Londres. Casas e escritórios caríssimos, arquitetura de ponta, torres de vidro e aço, a novíssima e monstruosa sede da Google a ser construída. Da construção emana o poder brilhante do futuro. Londres é uma cidade-estado, a Singapura dos Tories, mas ainda faz parte do Reino Unido, do empobrecido país dos nortes. Aqui, com as lojas de luxo e as marcas europeias chiques, às quais os ingleses reconhecem uma superioridade elegante, nada existe ou virá a existir que não seja de bom gosto e de bom preço. 


Os restaurantes, fusão criativa, com empregados esbeltos e clientes dessa população que só se costumava ver em Nova Iorque e LA. Nómadas digitais, novos empresários, a burguesia nacional e internacional viajada e bem empregada, qualificada, jovens e baby boomers que debicam vinhos franceses, americanos, italianos, neozelandeses, argentinos, israelitas e, sim, portugueses. Estive quase a pedir um Papa-Figos. Eu aprecio este mundo transversal, internacional, criativo, onde se ouve a babel das línguas e onde o talento tem importância. Nada de milionários, apenas profissionais ambiciosos que não são racistas nem puristas porque o mundo é o seu território. A espécie humana a viver bem sem fazer mal a ninguém. Saí do Coal Office, o restaurante era um antigo edifício industrial no tempo em que existia classe operária inglesa, a caminho do Gauguin na National. Chovia torrencialmente. Nas escadas rolantes do metro, um abismo de metal ensopado em água, escorreguei. Perna torcida e pé do avesso.
Amparada pelo meu filho, rumei ao Hospital Universitário perto de Kings Cross, onde costumo passar no autocarro quando vou ao Selfridges. Sempre o observei com atenção, a espiar o movimento da Urgência. Pior ou melhor? A transparência dos vidros dá para ver. Parecia-me muito decente.
Uma sala de espera com dezenas de pacientes esperando pacientemente. Todas as etnias e cores, um ou dois utentes de pele desmaiada e olho claro. Os coloridos são tão ingleses como estes, convém recordar. Quando se sustentam impérios onde o sol nunca se põe, a população não pode ser deitada ao mar. Inscrevi-me, não me pediram cartão europeu de saúde, mandaram-me esperar. Não residente no UK, certo. Quatro horas depois, fui inquirir. A perna doía prodigiosamente. A sala esvaziara, os comensais desandavam, novos comensais rodeavam-me. Deram-me Brufen e Paracetamol e disseram-me que estava nos três próximos. Mais um par de horas e nada. Inquiro de novo. Será hoje? Tom agressivo. Meia hora depois chamam-me. Paredes pintadas, boas instalações. Nada de corredores entulhados, nem macas a esmo, nem gente estafada. Enfermeiras conversam pelos cantos. Algumas portuguesas, decerto. Um médico de origem asiática, Paquistão ou Índia, atendeu-me. Raios X. Leitura dos raios X. Fratura múltipla. Tem de vir à Clínica da Fratura daqui a três dias para colocar uma bota de tala, porque agora vamos fazer metade do gesso para imobilizar. Será vista pelos ortopedistas. O seu país é o melhor país do mundo, disse-me no fim. Antes de entrar na sala do gesso, outro médico, de origem paquistanesa ou indiana, vem falar comigo. Vi os seus raios X e considero a cirurgia inevitável e a ser feita já. Fraturou vários ossos. A ortopedista vai falar consigo daqui a pouco. Veio a ortopedista, uma jovem médica, decerto estagiária. A operação é a única solução. Tudo se precipita. Tiram sangue para análises, deixamos o cateter para o soro, não deixamos, mais raios X, tensão medida, o melhor é ficar internada esta noite. Pergunto se não posso ir a casa, que não é longe, não vinha preparada. A ortopedista vai conferenciar com outro ortopedista no computador e já me dirá, mas o anestesista poderá vir às 5h ou 6h da manhã para discutir a anestesia e eu teria de estar no hospital a essa hora. Para a vaga. Uma injeção de anticoagulantes na barriga por causa das embolias. Será uma por dia, sem falta. Quando sair do hospital para casa, leva a receita e leva a medicação consigo. Mas... se volto de madrugada. Há aqui inconsistências. Tenho de preparar o meu internamento, preciso do computador. Vão ligar-lhe do hospital logo de manhã, depois da conferência ortopédica. Se as análises do sangue fossem anormais, ligaríamos durante a noite. Era um domingo. Aos fins de semana há menos médicos. Por esta altura, estava maravilhada com o NHS. Saí sem a medicação. Telefonei para o meu médico em Lisboa. Sim, se te operam já, melhor. E explicou as minudências. Riscos de embolia, edemas, etc. O médico que detetou a urgência cirúrgica deseja-me felicidades e diz que ficou contente por ter visto os meus exames. Cirurgia é a única solução. Não estará lá no domingo, quando eu entrar. Boa sorte.
Telefonam-me às 9h da manhã. Uma administrativa. Não a podemos operar. O sistema está cheio de emergências e temos de dar prioridade. Como é residente em Portugal, recomendamos que viaje para o seu país para se operar, a.s.a.p. Mas disseram-me que era urgente, entraria de madrugada. Sim, mas o serviço tem outras prioridades além da sua e tem a hipótese de se operar no seu país. Digo que não preparei as coisas, há aviões a tomar, há que avisar médicos que não me viram, tudo em menos de 24 horas. Pode dizer-me, se preferir operar-me aqui, quando o seria? Não lhe posso dar uma data, teria de ir aguardando dia após dia. Nenhuma ideia do dia. Incerto.

Tenho de ser operada com urgência, o edema, a embolia, a hemorragia, pois, não lhe posso adiantar mais nada. Regresse a Portugal. E a injeção? Não me deram a receita e a medicação. E os exames? Como ia ser internada, não os tenho. Venha ao hospital buscar a medicação, já não será observada por um médico. Regresse ao seu país.

Hospital de novo, a coxear nas canadianas. Na receção dizem-me que sou internacional. Onde está o meu seguro? Começo a berrar que eles ainda estão na União Europeia. A seguir, despejo uma torrente de argumentos que acabam com a ameaça de processo, linguagem jurídica complexa, nos anglo-saxónicos tem efeito seguro. Pedem logo desculpa, vão dar-me uma pulseira de prioridade. Não me podem dar a medicação e exames sem ser vista por um médico. Sorry. Mais umas horas de espera, o meu filho entra na unidade restrita e agarra um dos médicos do dia anterior, o que não tinha visto a necessidade da cirurgia. Pede-me desculpa das inconsistências do NHS. Diz-me para escrever uma carta e apresentar a reclamação. Porque foram rudes e isso afeta todo o sistema. Rudes? É esse o problema? Rudeza? Negaram-me tratamento. O NHS está muito sobrecarregado. Dá-me os exames, com ar pesaroso, depois de muita burocracia e vários impedimentos e uma conversa absurda sobre a proibida transmissão de dados para fora do UK. Tenho direito a um CD, peço a análise do sangue, dão a injeção, não a medicação. Tenho para 24 horas de efeito anticoagulante, por causa do avião. Tinham-me falado numa caixa de medicação, antes. Em Lisboa, trate do resto. Da ortopedista, nem sinais. Ou de um ortopedista. Fui expulsa do sistema.

Estou em Lisboa, a ser muito bem tratada pelos médicos portugueses. Sei que o nosso depauperado SNS, para o qual pago impostos, jamais faria isto a um cidadão britânico. O ‘Brexit’ já aqui está. 

O português com sotaque britânico que conduzia o Uber que me levou a casa, depois de 25 anos a trabalhar no país, mulher e filha com passaporte britânico, viu-lhe negado o pedido de residência fixa por causa de uns papéis em falta dos últimos seis meses. Fazem-lhe a vida negra.
No NHS, mal pus os olhos num “puro-sangue”. Médicos e utentes? Vi imigrantes e descendentes de imigrantes, com uma ou outra exceção. Quem vai limpar as latrinas dos ingleses? Os ‘brexiteiros’, espero. Vai fazer-lhes bem.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Por estas e outras nunca haverá liberais em Portugal


Por estatuadesal
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
02/02/2021


(Não foi só o Mayan que veio com esta história, ó Francisco. Ontem também o Rui Rio pegou na dita, na entrevista à TVI, para provar o "preconceito ideológico" do Governo contra a iniciativa privada. Mas que raio de iniciativa privada querem estes tipos!? O Estado que pague aos médicos, que lhes mande os doentes, lhes pague as facturas dos internamentos que eles ficam com os lucros e, no fim do processo, não os taxe com muitos impostos?

Em suma, os que os liberais tugas pretendem e a que se habituaram durante décadas é ao chamado "Estado vaca-leiteira". Só que a teta da vaca está a secar e eles gritam que se fartam. Não, aos liberais e ao borracho não deve pôr o Estado a mão por baixo, parafraseando o provérbio.

Comentário da Estátua, 02/02/2021)

 

O Hospital Compaixão, em Miranda do Corvo, foi concluído há dois anos mas continua fechado. Não tem porteiro, nem telefonista, nem administrativos nem um único profissional de saúde. É um edifício vazio. E foi notícia nas eleições presidenciais, com um candidato, Tiago Mayan, a fazer do escândalo o tema de um dia de campanha, querem lá ver que o polvo do Estado recusa salvar os doentes por puro preconceito ideológico contra a iniciativa privada.

O hospital foi construído pela Fundação Assistência para o Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP), um nome curioso que se deve referir à sua função. Pois a Fundação especializou-se no negócio da saúde, gerindo várias unidades na região centro. O seu presidente é um dinossauro do PSD, Jaime Ramos, que foi deputado, vice-presidente da bancada, governador civil de Coimbra e presidente da Câmara de Miranda do Corvo em sucessivos mandatos. O Hospital Compaixão é o seu principal investimento mas, para surpresa dos inocentes, nunca abriu portas.

Em novembro, as autoridades de saúde contactaram todas as unidades privadas da região para programarem a cooperação na resposta à pandemia. Houve duas que não responderam, entre elas o hospital do dr. Ramos. Chegadas as eleições presidenciais e encontrado um porta-voz voluntarioso, o “escândalo” vem para a praça pública: temos aqui estas camas e salas cirúrgicas, tudo pronto, e o Estado recusa-se a enviar doentes. Perguntadas pela imprensa, as autoridades de saúde manifestaram perplexidade: como é que vamos mandar doentes Covid, ou outros, para um hospital que está fechado e não tem nem um enfermeiro nem uma médica? O dr. Ramos explicou então candidamente numa reportagem da Sic que o que queria, precisamente, era que o Estado lhe garantisse o pagamento dos profissionais que ainda não contratou e que lhe despachasse os clientes que ainda não tem. Ou seja, a iniciativa privada quer que o setor público lhe pague as despesas e lhe proteja o negócio. Não pretende convenções, quer uma garantia de cobertura dos custos e uma salvaguarda das receitas. Sem isso, continua amuado e não contrata ninguém. Só abre portas se o Estado lhe assegurar a tesouraria e os proveitos.

A mais atrevida das imaginações não conseguiria conceber um retrato tão fiel sobre o liberalismo português. Com direito a fanfarra eleitoral, um operador político estende o chapéu ao Estado, não para o ajudar a singrar ou para colaborar numa urgência sanitária, mas para lhe fazer a caixa. Como bem explicou recentemente outro destacado prosélito liberal, o dr. Mesquita Nunes, quem critica esta fé são os que “não percebem nada de economia”.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

"FALAR A VERDADE"... ESSA É BOA!


E nesta súbita alteração na opção política há muitos aspectos que terão de ser explicados, desde logo, as razões substantivas (as não aparentes e divulgadas) da opção tomada, a listagem completa de quem vendeu os terrenos expropriados, se houve ou não intermediários e se já voltaram a ser vendidos, quanto custarão as indemnizações e eventuais pagamentos de mais-valias, o que fará o governo regional com os terrenos expropriados, quanto custará a nova obra comparativamente a todo o processo anterior...


O grupo parlamentar do PSD na Assembleia Legislativa da Madeira corre, diariamente, contra o prejuízo. Ontem foi a defesa indefensável da não construção de um novo Hospital. Como se fosse politicamente sustentável passar uma mensagem daquelas e como se todos fossem parolos. 
O governo, depois de muita insistência por parte da oposição, avançou com o projecto, gastou milhares nesse estudo, expropriou terrenos e pagou a alguns, alimentou, politicamente, a irreversibilidade do processo e agora, anos depois de tanta azáfama, vem dizer, não senhor, há outras opções menos onerosas e que resolvem, cabalmente, a situação. Ora, daqui se infere que a normalidade deste governo é a da navegação à vista e que corre ao sabor da pressão política e pública. A estratégia e a definição das prioridades ficam para depois. Dir-se-á que o caso do hospital é o caso do aterro. No caso do hospital foram necessários dez anos para definir um rumo; no caso do aterro, sem a sustentabilidade dos estudos e contra tanta voz técnica e científica, apresenta, um ano depois da tragédia, uma resposta que poderá constituir um monumental erro. Talvez, mais tarde e tarde demais venha a recuar! Veremos.
E vem o PSD sublinhar que se trata de "falar verdade à população". Mas qual verdade? A do governo, obviamente. Porque a verdade é múltipla e, portanto, não se esgota na decisão de um governante. Há muitas verdades sobre um mesmo assunto, porque são muitos os olhares e leituras sobre qualquer processo. O caso do Hospital é paradigmático. E nesta súbita alteração na opção política há muitos aspectos que terão de ser explicados, desde logo, as razões substantivas (as não aparentes e divulgadas) da opção tomada, a listagem completa de quem vendeu os terrenos expropriados, se houve ou não intermediários e se já voltaram a ser vendidos, quanto custarão as indemnizações e eventuais pagamentos de mais-valias, o que fará o governo regional com os terrenos expropriados, quanto custará a nova obra comparativamente a todo o processo anterior, o qual, em certos casos, estou convicto que será dirimido nos Tribunais. Tudo isto e muito mais terá de ser devidamente esclarecido. Se alguém tem a obrigação de "falar a verdade" é o governo regional do PSD que sempre foi governo e com maioria absoluta. Não é a oposição que tem de dar justificações. O governo governa; a oposição fiscaliza. É assim em todo o regime democrático.
E no meio disto vem o presidente do governo falar de políticas que prosseguem "contra a burguesia frustrada". Mas qual burguesia frustrada? Estará o presidente do governo a falar para dentro do seu próprio partido? Talvez. É que, por maior esforço que faça não sei onde ela se encontra no quadro dos partidos da oposição e do Povo em geral. Afinal, quem são os grandes da economia regional, as tais multimilionárias famílias e em que quadro político aparentemente se encontram?
E que "lata" é essa, permitam-me a palavra, de vir falar que é aqui que se desenvolve o Estado Social de acordo com o desenvolvimento da economia quando, por um lado, a economia regional está de pantanas e do Orçamento Regional não sai um cêntimo para contrabalançar a austeridade, no campo dos apoios aos pensionistas, do abono de família, dos desempregados, até aos cortes salariais dos funcionários públicos, etc. etc? Quando toda a Segurança Social é paga pela República (e assim tem de ser), até os próprios funcionários, mas onde, localmente, no quadro da AUTONOMIA, o governo não demonstra sensibilidade social?
Há muitas verdades... é ou não verdade?
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A HISTÓRIA DO NOVO HOSPITAL

"O presidente do PS-M, Carlos Pereira, veio esclarecer, novamente, as dúvidas que dizem respeito à construção do novo hospital, garantindo que “o Governo da República vai co-financiar 50% da obra do hospital quando o Governo Regional apresentar um concurso público internacional”. Carlos Pereira reiterou que não há no Orçamento de Estado obras pagas a pré-pagamento, referindo que se não há concurso público, não há pagamento. Por seu turno, mostrou-se indignado com as reações do PSD e do Governo Regional, que estão, sistematicamente, a constituir obstáculos à construção e ao cofinanciamento do novo hospital. Assista às declarações".

 

domingo, 7 de agosto de 2016

O BEM E O MAL ENTRE AS PERNAS


Caríssimo, permita-me que o trate por Amigo. Eu sei, não temos uma relação frequente, mas conhecemo-nos. Só hoje soube, através do seu singular artigo, da situação que viveu e vive, também com uma extraordinária e singular atitude positiva. O seu artigo devia de ser de leitura obrigatória para todos os jovens. Devia ser esmiuçado no que às vicissitudes da Vida diz respeito. O seu artigo tem pinceladas de sofrimento consentido, de humor dentro da tristeza, de político sem o ser e de sincero amor pelos outros quando se refere a todos quantos nos ajudam em determinados momentos de angústia. A sua grandeza foi-me contagiante, tocou-me e, certamente, tocou a muitos que o leram. É um hino à Vida quando só vivemos uma vez. Parabéns pelo testemunho na primeira pessoa. Obrigado, Amigo.


"Antes de mais nada, peço que não vejam mal nenhum no título desta crónica. E, lendo-a até ao fim, chegarão à conclusão que o mal só poderá estar nalguma interpretação intempestiva.
A última vez que aqui deixei um escrito foi a 16 de agosto do ano passado. Dei-lhe o título de “Governantes corruptos” (onde é que eu tinha a cabeça?!...). Hoje podem ficar quietos. Mas governem bem!
Um ano de ausência por doença grave que levou à amputação do pé e de parte da perna esquerda, abaixo do joelho, devido a problemas de circulação, na sequência de diabetes em mais de vinte anos. Devem imaginar o que senti e o que ainda sinto. Parecia o fim do mundo. Mas não foi. Tantos meses de internamento, três operações cirúrgicas no pé e mais uma final na perna. Bactérias e vírus q.b.. Mas não foi o fim do mundo. Foi menos de meia perna. E é aqui que entram as pernas.
Aterrorizado com a ideia de que poderia estar sujeito a amputação (o que veio a acontecer), muito mal me sentia quando havia a iminência de isso suceder a companheiros de enfermaria, como infelizmente se verificou, antes e depois de mim. E claro que isso vai continuar a acontecer.
Será inevitável.
Agora, o que parece evitável é que haja tantas amputações na Madeira. Como um dia ouvi dizer uma muito conhecida profissional da medicina alternativa, “o hospital da Madeira parece um lugar de canibais”. Com certeza não se referia aos médicos, mas à praga das amputações ali operadas. Por isso, torna-se imperioso e urgente que se criem as condições mínimas para reverter a situação. Desde logo limpar o Hospital - uma imundície tremenda, onde é mais fácil adquirir bacilos, vibriões, cocos, bactérias, sépsis do que medicamentos e outro material elementar a um estabelecimento onde se pretender tratar de doentes; construir outro hospital à velocidade dum TGV e não dum “Comboio do Monte”; dotar toda a rede de pessoal médico e de enfermagem suficientes aos doentes acamados ou ambulantes.
Aspecto extremamente positivo foi o de ter constatado a entrega e a competência dos médicos com quem contactei durante e pos-internamento. Uma equipa de valor donde ouso destacar o Dr. Pinto da Cruz que não conhecia antes, mas que teve uma atenção tal que levou a que alguém o referisse como sendo um amigo meu. E foi.
Mas de igual valia foi toda a equipa de enfermagem do 2.º andar, lado poente, onde a Enfermeira-chefe Dalila, exigente consigo própria, atenciosa, muito interveniente, exige aos enfermeiros e às enfermeiras prestações, que são conseguidas, lutando todos contra as adversidades que por ali proliferam.
Bem hajam também todos os outros profissionais que dia a dia ajudaram a tornar o ambiente um pouco mais familiar.
Portanto, apesar de ter sido acometido por uma “hospitalite aguda”, por tantos meses lá passados, com fases de muito sucesso no percurso, resultante da competência referida, embora com desfecho negativo, muito derivado à sujidade hospitalar (estou convencido disso), a verdade é que houve aspectos muito positivos, passando pelas visitas e telefonemas dos amigos que fizeram o favor de me dar atenção.
Não podia esquecer a mesma forma profissional como estou a ser tratado na Fisiatria do Hospital Dr. Nélio Mendonça, onde encontro três vezes por semana o sorriso e o profissionalismo da Terapeuta Mariana, na reabilitação que me há de levar ao uso duma prótese.
Mais perna, menos perna, aqui estou a dar uma perninha com os escritos que o Diário me deixa publicar e os leitores me incentivam a aqui estar. Estas forças dão-me pernas para andar, faço-o até com uma perna às costas e, mesmo que alguém me queira cortar as pernas, hão de ter-me sempre à perna. É uma questão de pernas".
NOTA
Artigo publicado na edição de ontem do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Notícias do túnel


Por estatuadesal
Isabel do Carmo, 
in Blog Entre as Brumas da Memória, 
29/01/2021

«Eu, médica, observadora diferenciada, estive internada com o diagnóstico de covid-19 durante dez dias nas enfermarias do Hospital de Santa Maria e penso que o meu testemunho pode servir de alerta e de um enorme reconhecimento. Alerta para o risco real e actual (rastrear e confinar é preciso). E dar graças à vida pela existência do nosso Serviço Nacional de Saúde.



Estive a trabalhar e a ver doentes até ao dia 23 de Dezembro, com todo o cuidado, e não foi por aí que o vírus entrou. No dia 24, juntámo-nos seis adultos e três crianças e, apesar das máscaras e das distâncias, alguma imprudência abriu por momentos a porta ao invisível. Contaminámo-nos todos e, fiados na falsa segurança do teste simples, alguns de nós multiplicaram o contágio. Os mais jovens mantiveram a sua energia transbordante, os de idade intermédia tiveram muitos sintomas, mas trataram-se em casa, os mais velhos reagiram de acordo com os factores de risco. E foi assim que ao décimo dia de febre e outras queixas o meu colega do Centro de Saúde me ordenou, e bem, que fosse à urgência covid. Se não tivesse ido tinha morrido e esse é o primeiro alerta a manifestar.

Há um momento, determinado empiricamente, em que se conclui, por estatística, que é assim. Não vale a pena correr contra as probabilidades. Claro que foi muito incómodo, muito frio, muito desaconchegado, esperar por ser chamada no pequeno telheiro improvisado no piso das entradas. Fica melhor quem está dentro das ambulâncias, que têm suporte de oxigénio e macas ou cadeiras. Esta condição de espera, este ponto de entrada, seria possível melhorar fisicamente? Talvez. Mas os doentes chegam e não podem ser mandados para trás. Seria possível desviar um meteorito que caísse em cima das nossas cabeças? Só para os encartados e teóricos comentadores, que, eles, preveriam tudo.

Resolveu-se: agora temos o hospital de campanha. Todavia, foi por ali que me salvei. Quando finalmente dei entrada no Covidário, ganhei direito a um cadeirão, a uma máscara de oxigénio e à segurança de ter entrado no circuito. Desde esse momento fui sempre a senhora Isabel, idêntica a todos os outros e nunca, e bem, a médica da casa. Algumas horas depois entrei numa box, com WC e uma porta com grande janelão de vidro. As dimensões comparei-as com outras de outras “boxes” de há muitos anos. Idênticas, mas o janelão e o calor humano pertencem a outro universo. Fiz então uma TAC num dispositivo colocado no Covidário. E é aí o extraordinário. Nunca ao longo de tantos anos de clínica tive conhecimento de tal quadro – os meus pulmões estavam infiltrados de alto a baixo e dos dois lados com múltiplos focos de inflamação, que não deixavam o oxigénio atravessar os alvéolos e passar para o sangue, onde ele é necessário à vida. Sintomas? Poucos. Mas lá estava o oxímetro a mostrar níveis baixos. Aqui reside um grande risco. Esta “hipoxemia feliz” mata. Assim morreu o pai de uma colega minha com 50% de saturação e poucos sintomas. Foi, a partir do nada ou da experiência inicial da China, que os protocolos foram sendo estabelecidos. De madrugada saí do Covidário e fui rapidamente internada nas enfermarias covid, Medicina 2C. Fizeram-me aquilo que está protocolado que se faça: oxigénio, corticóides, broncodilatadores, antibiótico se necessário. Para os meus companheiros de enfermaria, alguns hemodialisados, diabéticos, transplantados, cada protocolo era diferente. No mesmo piso, para além da porta de separação havia mais enfermaria covid, havia a zona dos intensivos e havia a zona dos intermédios com máscara permanente de oxigénio, onde ficou o Carlos Antunes e donde partiu para sempre no dia 19 de Janeiro.

Aquilo a que assisti de serenidade, de eficácia, de competência, ficará para sempre marcado como um momento muito alto da minha vida. Sei que as pessoas todas juntas não somam inteligências, multiplicam. É um fenómeno que faz parte da natureza humana, assim a humanidade sobreviveu. Observei a entrada regular e harmoniosa das assistentes operacionais, dos enfermeiros, dos fisioterapeutas, dos jovens médicos internos e das chefes seniores. Cada um sabe o gesto que tem que fazer, o equipamento em que tem que mexer, o registo necessário, a colheita de sangue a horas, a administração do medicamento. E… sabe também informar. Explica o que vai fazer e porquê.

O meu conhecimento dos espaços das urgências cresceu comigo organicamente. Fiz urgências nos bairros pobres de Lisboa, fiz no Hospital do Barreiro actos clínicos que não passavam pela cabeça de uma miúda de vinte e poucos anos, antes da classificação de Manchester andei de papel na mão a fazer triagem na sala de espera, vi crescer o Serviço de Observações das Urgências de Santa Maria com a Teresa Rodrigues a decidir os gestos urgentes. E lá continua ela a salvar gente. Sofri com os “directos” e culpabilizei-me. Vi o Carlos França instalar finalmente os Cuidados Intensivos. Vi tudo? Não. Não vi nada. Porque bastou o ano de 2020 e o inimigo ultra invisível para perceber que há uma coisa que de facto é um “milagre”: a capacidade de auto-organização, rápida, eficaz, criativa, serena. Era possível fazer tudo isto com requisição civil? Tenho dúvidas. É a cultura que está para trás que explica o “milagre”.

Com as minhas amigas enfermeiras conversávamos por vezes sobre os “territórios”. Pois o milagre também desenhou territórios. Quer isto dizer que reina a paz nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde? Não. Esta onda organizada de espaços e de recursos humanos palpita como um corpo que pede respiração. O director da Medicina, Lacerda, vai buscar enfermarias a todo o lado possível, converte serviços e adapta-os. A Sandra Brás supervisiona como um arcanjo os vários espaços e equipamentos covid-19. Os meus colegas dos Cuidados Intensivos, com 85% de lotação, estão no limite, ou seja, na zona das necessárias e rápidas escolhas. Estes doentes não são pneumonias habituais. Têm mais demora de cama (quanta?), têm uso de equipamentos que não existiam antes.

Os meus colegas não estão desesperados, nem aflitos, estão profundamente preocupados, esgotados também, a situação é dinâmica, é preciso fazer opções técnicas. Quando lançam o alarme cá para fora não é um pedido de socorro para eles. É dizer que só o confinamento melhora o problema. É explicar que quanto mais infectados, mais sintomáticos. Entre estes aumentam os de risco e quanto mais risco mais cuidados intensivos. E há uma linha vermelha que percorre este chão e é móvel – a das mortes evitáveis.

Na minha enfermaria, por sinal toda de afrodescendentes, senti no mais fundo da noite que alguém abandonava a Montanha Mágica. Com serenidade. Sem obstinação. É também uma escolha. No dia seguinte a animada Inalda, assistente operacional de São Tomé (já sou efectiva!), a enfermeira Ana, a enfermeira Marta, nos doentes o Sr. C. que ficou meu amigo e é de Cabo Verde, a Dona A., de Luanda, o Sr. D. que também é de Luanda e já venceu muitas coisas, corpos que já foram desejados, já se reproduziram, são a humanidade que ali está. A médica de Medicina Interna, Dra. Patrícia Howell Monteiro, que ainda foi contratada em exclusividade (2008/2009?), é o pilar sólido e sustentável que orienta o Henrique Barbacena, o Renato e o Francisco, que hão-de fazer o exame da especialidade proximamente. Para onde irão? O Renato está a sofrer nos cuidados intensivos, a dar o máximo. O Henrique é também professor de Farmacologia, tive o privilégio que me explicasse coisas sobre vírus. E ausculta à velha maneira, como eu. Conseguimos ter um momento para conversar e a propósito da vida e do ultra invisível contou-me como lera apaixonadamente a Estranha ordem das coisas, do Damásio, livro que a chefe Patrícia lhe ofereceu. Há muitos anos, o António Damásio também foi da nossa incubadora, o Hospital de Santa Maria. E, a propósito, eu e o Henrique conversámos sobre a dinâmica da vida, a necessidade de não fazer classificações mecanicistas.

E reganhei a grande esperança do aviso da tal frase do Abel Salazar: “Um médico que só sabe Medicina, então não sabe Medicina.” Estes sabem Medicina e são uma das estruturas do SNS.»