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quarta-feira, 20 de maio de 2020

O jogo virou, mas não está ganho


Por 

A Europa fundada por Jean Monnet e Robert Schumann está de regresso e o motor franco-alemão voltou a funcionar. O anúncio feito por Emmanuel Macron e Angela Merkel de um pacote de 500 mil milhões de euros para relançar a economia europeia, montante a ser pedido aos mercados pela Comissão Europeia e a ser disponibilizado aos Estados membros sob a forma de subvenções é uma revolução e um regresso a um dos valores fundacionais da União Europeia, a solidariedade entre todos os membros do clube.

Trata-se de um passo, que ainda pode ser travado. Mas é um grande salto porque, pela primeira vez, a Alemanha, através da sua chanceler, admite que seja a Comissão a endividar-se para apoiar os Estados membros mais afetados através de subvenções e não de empréstimos.
Os sinais são todos positivos. O pacote anunciado é superior aquele que estava a ser cozinhado nos corredores de Bruxelas e que rondava os 320 mil euros. Depois, será dirigido para os países cujas economias foram mais atingidas pela pandemia do coronavírus e não distribuído de forma equitativa. Mais importante, as transferências assumem a forma de subvenções e não de empréstimos, o que é essencial para os países altamente endividados que não vêem assim esses montantes somarem às suas dívidas públicas. E finalmente o seu pagamento, a longo prazo, será da responsabilidade de todos os Estados membros, consoante o seu peso económico, e não exclusivamente dos países beneficiários.

É o ressurgimento do eixo franco-alemão em todo o seu esplendor. Há muitos anos que Berlim e Paris não tomavam uma decisão tão marcante para o futuro da União. Deve saudar-se a habilidade negocial do presidente francês. Mas deve sublinhar-se ainda mais a enorme coragem da chanceler alemã, que conhece bem a resistência política e social que terá no seu país contra esta medida. Em qualquer caso, o jogo não chegou o fim. Há pelo menos quatro países que continuam a opor-se às subvenções e insistem nos empréstimos, com a Holanda à cabeça, apoiada pela Áustria, Suécia e Dinamarca. E para que a proposta franco-alemã faça o seu caminho é necessário que haja unanimidade no próximo Conselho Europeu em Junho.

Este grupo de países, designados por «frugais», são muito reticentes a uma emissão comum de dívida, como será o caso, se a proposta de Berlim e Paris avançar. E detestam a ideia do dinheiro ser distribuído sob a forma de subvenções ou subsídios.
Para aplacar a sua resistência, Paris e Berlim sublinham que os 500 mil milhões são para ser reembolsados, através de um «plano de pagamento vinculativo para lá do atual Quadro Financeiro Plurianual». Além disso, «este apoio de retoma (…) vai basear-se no compromisso claro dos Estados-membros de seguir boas políticas económicas e uma agenda de reformas ambiciosa».
Contudo, apesar da semântica, o que está em cima da mesa é um processo de mutualização da dívida a nível europeu, algo reclamado insistentemente pelos países do sul da Europa e que até agora tinha sido sempre recusado pela Alemanha. Nunca se falou em «eurobonds» mas é evidente que há uma partilha de responsabilidade na emissão de dívida e no seu pagamento.
Mais: o seu reembolso não será suportado apenas pelos seus beneficiários, mas por todos os Estados membros, «com base numa chave de repartição que depende do peso que têm no orçamento (da UE)» ou então de «contribuições» e «outros mecanismos» que ainda não são conhecidos.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, tem agora nas mãos a dificílima tarefa de apresentar a 27 de Maio uma proposta que possa ser consensual para o Fundo de Recuperação e para o Orçamento Comunitário – já que, como se sabe, a sua aprovação exige a unanimidade dos Estados membros. O jogo virou mas ainda não está ganho.

sábado, 28 de março de 2020

Europa, segunda oportunidade


Por
José Sócrates,
in Expresso Diário, 
26/03/2020

1. Como sempre, na aflição, o mercado foge em debandada e só o Estado fica. A utopia neo-liberal de estender a racionalidade do mercado a todas as áreas sociais parece agora sem ponta por onde se lhe pegue. Desapareceram de cena aqueles que durante anos defenderam que deveríamos colocar o limite de três por cento do deficit orçamental na Constituição. Fazer dela um pacto suicida. Só resta o Estado – não há mais ninguém no campo da batalha. E, no entanto, é impossível evitar uma certa sensação de dejá vu.


2. A Europa está agora no centro da pandemia. Pese embora a tragédia dos números nalguns países e as compreensíveis hesitações iniciais, os governos europeus parecem estar a agir com cabeça fria. Primeiro, prioridade à questão sanitária, custe o que custar à economia. A ideia da imunização de grupo que levaria a escolhas utilitárias sobre quem morre e quem vive parece finalmente afastada. Não é mesma coisa, do ponto de vista moral, morrer depois de assistido ou morrer por impossibilidade de ser assistido. Segundo, nesta crise todos os governos (com pequenas diferenças) têm seguido os melhores conselhos da ciência médica. Terceiro e muito importante, tudo isso tem sido feito num clima político de grande responsabilidade, com as oposições a juntarem-se aos governos e suspendendo o conflito partidário. Ele virá, mas não agora, na emergência de saúde. Muito bem.

3. Enquanto isto, na frente da emergência económica, a União Europeia hesita. Sim, o banco central garantiu a indispensável liquidez. No entanto, as indispensáveis medidas de proteção social e de defesa da sobrevivência empresarial são deixadas a cada um dos países que não esqueceram a lição de 2008 e temem ser deixados sós a meio caminho. Sabem que mais tarde serão entregues a um mercado de dívida pública que os visará um a um. Com o relógio a contar, toda a Europa percebe bem que precisará de se endividar para fazer imediatamente chegar dinheiro às pessoas que, por razões sanitárias, estão impedidas de trabalhar. Isso será importante por razões sociais, por razões de confiança institucional e também para preservação da organização económica empresarial essencial à futura recuperação. Todavia, o trauma e a desconfiança resultante da ultima crise financeira está bem presente.

4. A primeira lição da crise anterior tem a ver com a liderança. Um pouco de enquadramento histórico é necessário para explicar o que quero dizer. A construção europeia teve dois ciclos distintos - um antes da queda do muro de Berlim e do desaparecimento do ameaça soviética; um outro depois, com a reunificação alemã e com a mudança do centro de gravidade europeu para leste. A Europa mudou com o alargamento e mudou numa questão central – a liderança.

O primeiro grande teste da Alemanha á frente do projeto europeu veio com a crise financeira de 2008 e com ela veio também o seu primeiro e mais clamoroso falhanço. A desgraça ficou evidente desde o início - nem proteção, nem preocupação com a unidade, nem diálogo. O que se viu foi apontar culpas, frieza institucional e indiferença ao sentimento nacional nos países em maiores dificuldades. De um momento para o outro, sob orientação alemã (ou, talvez melhor dito, sob orientação da direita alemã), a política europeia deixou de falar em emprego, em educação, em tecnologia, em ambiente, em energia renovável, para se concentrar num ajuste de contas histórico da direita contra os seus demónios preferidos – as políticas sociais. A austeridade económica constituiu-se então como única resposta redentora. Primeiro ponto, ela é indiscutível e não tem alternativa - é ditada pela ciência económica. Segundo ponto, ela tem também a sua dimensão moral: é preciso redenção – e redenção reclama castigo e sofrimento. Não deixa de impressionar a maneira como se conseguiu transformar uma típica crise de abuso de liberdade mercantil pelos mercados financeiros (os famosos sub prime) numa crise que aponta como culpados os Estados e o excesso de gasto público. Na verdade, a resposta europeia à crise financeira nunca foi uma política económica, mas um programa ideológico.

5. Todo este desastre só acabou quando, depois de várias catástrofes, o Banco Central Europeu decidiu finalmente fazer o que os alemães não tinham, até aí, deixado fazer – o “quantitative easing”, copiado da política americana, que conteve a desgraça de muitos países expostos (Portugal incluído) e que afastou os riscos contra a moeda única europeia. Aliás, a comparação com a estratégia americana é talvez a melhor fonte de evidência da irracionalidade económica seguida na Europa. Os Estados Unidos estancaram mais rapidamente a crise financeira e recuperaram mais rapidamente o emprego e o crescimento, enquanto a economia europeia, metida num buraco, continuava a usar a austeridade para escavar e enterrando-se cada vez mais.

O resultado desses anos no projeto europeu está ainda bem presente – a periferia ressentida com o centro, o sul desconfiado do norte, os pequenos desiludidos com os grandes. A cizânia não veio de fora, não veio da ameaçadora Rússia, como tantos apregoavam, mas de dentro e motivada por um grave erro de liderança. O desolador balanço desta política económica está ainda por fazer dada a cumplicidade da burocracia europeia (e da esquerda europeia, para ser justo) com a narrativa da austeridade. Mas os estudos sobre o que aconteceu são hoje em dia mais fáceis e a história anda agora mais rápido – não, a crise não veio dos Estados, mas dos mercados; não, não foi o deficit que criou a crise, mas a crise que criou o deficit; e não, não foi a austeridade que acabou com a crise mas o fim da austeridade que acabou com a crise.

6. É preciso falar da crise anterior também para que fique clara a lição número dois: os custos de contenção da crise são inferiores aos custos de reconstrução. Os custos de nada fazer não são apenas económicos, mas sociais e políticos. E desta vez é pior. A crise tem estas duas frentes, a sanitária e a económica, devendo a primeira prevalecer como prioridade. A crise vem agora da economia real e em breve se estenderá ao sistema financeiro. O tempo urge. O que virá a seguir é uma tragédia como penso que ainda não tínhamos visto. Quando se fala de plano Marshall para a recuperação económica futura é preciso que fique claro que nada disso deve desvalorizar a tarefa imediata. Não é possível passar ao lado do que é necessário fazer já - já - para evitar o colapso e o desemprego em massa que se avizinha. Esta semana, por exemplo, o governo dinamarquês comunicou às empresas privadas que vai pagar 75% dos salários dos seus empregados para evitar os despedimentos. Durante três meses o governo paga para os trabalhadores ficarem em casa: 13% do produto anual bruto do País. A ideia é congelar a economia e evitar as rotação de despedimentos e de novas contratações que atrasariam a recuperação futura. A filosofia é simples e resulta da experiência com a crise anterior - se nada for feito agora será mais caro reconstruir depois.

7 Outro exemplo curioso. Costumo passar pelo blog de um economista americano que escreve pouco, mas que, quando o faz, tem sempre alguma coisa a dizer. Escreveu ele a 14 de março : “Considerando a dificuldade de identificar os verdadeiramente necessitados e os problemas inerentes a tentar fazê-lo, enviar um cheque de 1000 dólares a cada americano o mais rápido possível será um bom começo... Há tempos para nos preocuparmos com a subida da dívida estatal. Este não é um deles. Peço atenção para este pormenor – dificuldade de identificar os verdadeiramente necessitados e os problemas inerentes a tentar fazê-lo". Isto é, as medidas devem ser simples por forma a evitar a burocracia e a canga regulamentadora que tantas vezes compromete a sua eficácia. Rapidez, rapidez.

No último ponto do seu pequeno artigo escreveu também que o Presidente Trump deveria calar a boca e deixar quem soubesse alguma coisa do assunto falar em seu nome. Infelizmente, dizia ele, isso não parece que irá acontecer. Na verdade, o governo americano não só ouviu como decidiu fazer exatamente o que foi sugerido. Três dias depois, a 17 de março o Secretário de Estado do Tesouro americano anunciava a decisão de enviar o cheque nas próximas duas semanas. A medida (ou coisa muito parecida) acaba de ser aprovada no Congresso. Julgo que nada haverá de mais parecido com o “helicopter money” de que falava Milton Friedman . Quem diria? Nos Estados Unidos.

8. Regresso ao ponto crítico: a Europa e a liderança. O esforço financeiro que é agora pedido aos Estados europeus não pode ser realizado sem recorrer à dívida publica – a “public blessing” de que falava Alexander Hamilton. Mas os montantes assustam e ninguém quer ser apanhado na emboscada que se começa a montar nos mercados financeiros, esperando as vítimas estatais, que chegarão ao próximo ano com deficits e dívida muito superiores aos que têm agora. O fantasma da última crise está ainda bem presente. A única forma de evitar essa armadilha é assumir essa dívida à escala europeia, havendo várias formas de o fazer.

Não consigo aceitar o que para aí ouço todos os dias nas televisões - convencer Merkel, pressionar Merkel, pedir a Merkel. Toda esta conversa lembra mais a de elites subordinadas do que que de parceiros na construção de um projeto comum. Não se apela à liderança, ela resulta do sentido interior da responsabilidade. Ninguém pode ser obrigado a liderar se não sentir que tem essa obrigação ou essa responsabilidade.

Liderar é convencer, unir - mostrar o caminho. Levantar-se e agir. Eis o que significa liderança. A questão política central e urgente é se enfrentamos esta tempestade juntos ou cada um por si. No final, a pergunta é simples: se a Europa não serve para uma crise destas, para que servirá? O risco que enfrentamos, se bem vejo as coisas, vai um pouco além da questão económica. Ninguém deseja uma Europa de volta à geopolítica das esferas de influência, das Mitteleuropas, e das balanças de poder. A liderança alemã – e a Europa em consequência - tem aqui a sua segunda oportunidade. Francamente, não sei se terá outra. E estou a medir as palavras.

sábado, 6 de maio de 2017

NA VÉSPERA DE UMA DECISÃO


Anda uma grande parte dos senhores da Europa com as calças na mão, em função do que se está a passar nas eleições francesas. No essencial, é a má consciência que transportam. Incapazes de fazerem um mea culpa por tantas e tantas situações absolutamente lesivas dos interesses mais básicos dos povos, eles que, alegremente, geraram as condições políticas, económicas e financeiras favoráveis ao descalabro (não esqueço a história dos "copos e mulheres" de Jeroen Dijsselbloem), eles que tudo quiseram padronizar e controlar, impondo as suas regras através dos armadilhados Tratados, eles que de forma conluiada permitiram que as diversas troikas espezinhassem, eles que continuam a triturar a liberdade, a autonomia dos povos e o direito a definirem o seu futuro no quadro da diversidade responsável, eles que criaram as condições para que a extrema direita e os populismos exacerbados crescessem, apresentam-se, agora, claramente aflitos com o desfecho em França. Multiplicam-se em contactos e em discursos denunciadores de pânico e de aposta no mal menor. O discurso de ontem de Jean-Claude Juncker, cheio de promessas, foi um evidente sinal de angústia.


Não nego a minha preocupação, na pátria da "Liberté, Égalité, Fraternité" (1789-1799), pela possibilidade deste acto eleitoral vir a colocar, no Palácio do Eliseu (as sondagens de ontem dizem que não), uma candidata que transporta o fermento que poderá deixar a Europa de pantanas. Não desejo isso, mas também não alinho na conversa de Emmanuel Macron, pois tudo leva a crer que é mais do mesmo. Será um "petit" Holland de braço dado com as políticas dominantes, ontem lideradas por Durão Barroso e agora por Jean-Claude Juncker. Parece que estou a vê-lo (Macron), logo na primeira semana, a assinar o ponto, ajoelhado frente à conservadora Merkel. Preferia outras soluções, defensoras da unidade europeia, catalisadoras de um novo tempo que recolocasse os princípios e os valores de uma União de valores partilhados. Não tolero uma UE de directórios, subtis ou descarados, que impõem os seus ditames em tantos sectores e áreas de actividade, conducentes à perda do poder de decisão dos países e ofensivos, até, da própria identidade dos povos. Ora, se o discurso de Macron não traz no seu bojo qualquer sentimento de esperança em uma mudança estrutural, o de Marine, que não esconde ao que vem, preocupa-me e de que maneira! Tenho presente os enganos das sondagens. Quem diria, por exemplo, que Donald Trump venceria Hillary Clinton, após vários estudos de opinião? Quem diria que o Brexit seria inevitável? Mas aconteceu. Em França existe essa probabilidade. Muito remota, mas existe. É sensível um generalizado descontentamento em vários sectores da sociedade, o medo está presente apesar de dizerem que a vida tem de continuar, as políticas de restrição dos direitos sociais são ofensivas da tal "liberdade, igualdade e fraternidade", os escândalos e a corrupção são evidentes, portanto, existe ali, em sentido figurado, um cocktail molotov quase perfeito que poderá "incendiar" a Europa fazendo-a desmembrar. Agora ou, caso tudo continue igual, em uma situação delicada daqui por cinco anos. Seja qual for o resultado, o sentimento que tenho é que a fratura na sociedade existe e factura pode vir a caminho. O que será muito grave face aos apetites imperialistas que estão desenhados e identificados, que se marimbam para a paz e para os valores comuns.
Não sou francês, daí que nada tenha em me posicionar por este, por aquele ou pelo mal menor. Os franceses que decidam. Só que esta angústia tem culpados. E que culpados!
Ilustração: Google Imagens.   

domingo, 2 de abril de 2017

TRAGÉDIA... DISSE ELE!


O Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, mostrou-se impressionado com a "incrível tragédia" face aos números "aterradores" do desemprego jovem nas Regiões Ultraperiféricas (RUP). Por exemplo, a Madeira regista 50,6% da população jovem desempregada. Parece que todos sabíamos desta dura realidade, só Juncker ainda não se tinha apercebido. Espantoso. Nem ele nem o seu antecessor Durão Barroso. "Tragédia", disse!  O que me leva a concluir que a política europeia sempre esteve a duas, três ou mesmo quatro velocidades, se partir do princípio que os próprios "cérebros" não dominam a realidade. Quem se espanta com o desemprego jovem estará, porventura, desperto para os grandes desequilíbrios a todos os níveis? Não me parece.


Sendo, apenas, um dos indicadores da crescente negação a esta Europa política, Jean-Claude Juncker, figura pela qual, sublinho, não nutro qualquer admiração política, faz parte da clique que lá no fundo aplaude, sem aplaudir, esta Europa marcada pela dor profunda sentida pelos povos. Os contributos e a redistribuição do dinheiro de todos não apaga os desmandos. Por isso, não me deixo iludir, quando a propósito da discussão sobre o “Livro Branco sobre o Futuro da Europa”, Juncker exclamou: "(...) Gritamos aos quatro ventos que o debate é necessário e que é preciso ir ao encontro dos cidadãos e dos eleitores – que são cidadãos e não apenas eleitores – e quando o fazemos somos criticados. Então merda. Eu diria merda se não estivesse no Parlamento Europeu. O que querem afinal que façamos?" Então, perante este desabafo, pergunto, não é a família política a que o Presidente Juncker pertence que, desde há muito, tem os cordelinhos na mão e que conduziu esta Europa para um lamentável pré-colapso? Não foram esses senhores que tudo fazem para apagar as identidades nacionais, a diversidade de culturas e as especificidades seculares, marimbando-se para a voz dos cidadãos, onde quase nada é concretizado sem uma pergunta a Bruxelas, um subordinação à autorização, uma subserviência que esmaga e limita o respeito pelas leis nacionais?
Não gosto de escrever sobre um tema sem o perfeito domínio de todas as causas. Mas, enquanto cidadão, assisto ao Brexit, ao descontentamento de muitos especialistas que leio, à perda de princípios e valores que pautaram a construção europeia, assisto à corrupção de pendor criminal e dou comigo a pensar nas razões mais substantivas do crescendo populista que ganha no espaço da angústia. E vem agora o Senhor Juncker falar dos cidadãos que não são apenas eleitores? Paroles... Paroles... Paroles!
E pior, ainda, é o Presidente do Governo Regional da Madeira dizer que o desemprego é "um preço que a Madeira paga pela insularidade e que a União Europeia deve compensar apoiando programas de estímulo ao emprego (...)". A Madeira, apesar da insularidade, tem uma factura social altíssima porque negligenciou o planeamento, porque apostou, fundamentalmente, no cimento e não na diversificação da sua economia, porque descurou, profundamente, as políticas educativas, quem a tem governado mandou às malvas o sentido prospectivo, porque foram políticos e não estadistas, porque confundiram crescimento com desenvolvimento.
E para que fique claro: sou europeísta. Sou por uma Europa de paz e de princípios solidários. Sou por uma Europa de livre circulação de pessoas. Sou por uma Europa de estratégia comum na defesa. Sou por uma Europa que respeite as nações. Digo não a uma Europa de directórios que impõem os caminhos que devemos trilhar, até porque, entre tantos sectores, a Economia deve estar ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço da Economia. Com a licença dos leitores, faço minhas as palavras de Juncker: "merda"... para esta Europa!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

AFINAL, A MÁQUINA FUNCIONA!


A Comissão Europeia, depois de vários meses de permanentes posições chantagistas, de ameaças de punições, sempre na lógica de mais medidas de austeridade, revelando ausência de confiança relativamente às opções políticas do actual governo, acabou por cair de joelhos, não suspendendo os fundos a Portugal, por défice excessivo. Até ao Orçamento para 2017 dizem sim. Isto parece-me, entre outros, ter dois significados: primeiro, a falta de seriedade das instituições europeias, dominadas, ideologicamente, pela direita política, a qual, durante vários anos, só enxergou a via da austeridade e do concomitante aumento da pobreza; segundo, acabaram por dar um sinal a todos os povos europeus que, afinal, à esquerda, a máquina também funciona. Basta bom senso, respeito pela diferença e uma alta capacidade de negociação. 


Bem disse a Eurodeputada do PS Liliana Rodrigues: "este foi um processo absurdo e discricionário que se arrastou por demasiado tempo e que arriscava colocar em risco a imagem que o cidadão tem da União Europeia, mais ainda numa altura em que não nos podemos permitir tal luxo. Esta decisão, juntamente com a aprovação do Orçamento de Estado para 2017, mostram que é possível respeitar os compromissos europeus sem adoptar uma atitude de absoluta passividade face às decisões das instituições europeias e, em simultâneo, enveredar por uma via que, gradualmente, vai pondo cobro à austeridade dos últimos anos". Nem mais. Se a União, a passar por uma crise de identidade e de reconhecimento por parte da sociedade, tivesse enveredado pela crítica severa ao país, julgo eu que esse quadro de afastamento se agravaria.
Obviamente que Portugal tem muito a fazer para que se possa falar de finanças públicas saudáveis. Neste momento, apenas certo é que se assiste a um paulatino retorno aos direitos sociais, à recuperação dos "roubos" perpetrados durante vários anos, provando que o caminho da austeridade estava errado e que existiam outros formatos assentes no respeito pelas pessoas e pela promoção do crescimento. Só para Pedro Passos Coelho, que se arrasta sem argumentos, repetindo, diariamente, a lengalenga do profeta da desgraça, o caminho não é este. Pressinto que até o CDS já dá indicações de afastamento para trilhar o seu próprio caminho. 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O COMPORTAMENTO POLÍTICO ESQUIZOFRÉNICO DO FMI


Umas vezes, de mansinho, vêm dizer que a austeridade foi longe demais. Em outros momentos, mostram os dentes e afiam a língua para criar o ambiente necessário à inevitabilidade da austeridade. Perceber este comportamento político esquizofrénico não é fácil, quando um recente estudo prova a completa falência das opções propostas pela famigerada troika. Mas eles insistem, combinados, à vez, ora o FMI, ora a Comissão Europeia, ora aqueles que, dentro do País, olham para os portugueses como se fossem uma folha de Exel. Eles secundarizam tudo, a opinião dos economistas laureados com o Prémio Nobel, eles fazem o encantador discurso da solidariedade, mas marimbam-se em tudo o que cheira a pobreza, eles prometem um amanhã de felicidade, porém, na prática, o que se constata é que os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Não é paleio, apenas os dados da estatística. Cada vez melhor me soa "Os Vampiros" de Zéca Afonso. Um tema intemporal. 


Christine Lagarde (FMI), sistematicamente, diz e contradiz. Tem dias. É uma Senhora conforme, conforme as pressões, os mercados, os interesses económicos e financeiros, toda essa gentinha para quem a multiplicação do dinheiro especulativo constitui objectivo primeiro da vida. Tem dias que lhe rebate a consciência. Mas depressa lhe passa. A verdade é que à custa dos mais vulneráveis e da sua exploração, falam por eles ao mesmo tempo que escondem as riquezas no Panamá e em tantos outros sítios congeneres. Ontem, a Senhora, agarrada a um relatório(!), veio, uma vez mais, puxar as orelhas ao governo português, ao insistir na necessidade de "mais medidas adicionais", leia-se medidas de austeridade, para cumprir o défice. Escrevo estas palavras ao mesmo tempo que vou cantarolando Zéca:
(...)
"A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas
São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei
(...)
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada.
(...)
Para ela e outros não há vida para além do défice. Há que restringir as despesas. Na Educação, na Saúde e nos direitos sociais já de si mínimos. Há que cortar, maldosa e fanaticamente, nos subsídios que disfarçam a pobreza. Há que continuar a política do trabalho sem regras, o despedimento facilitado, o trabalho precário, os "bancos de horas" e a enorme carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho, em geral (Portugal foi o país da OCDE que mais aumentou a carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos em 2015 - Passos Coelho), e, em particular, sobre a praga dos recibos verdes. Há que privilegiar a banca, pondo o povo a pagar as leviandades, como se a esmagadora maioria desse povo fosse culpada pelo desastre gestionário. Há que assobiar para o lado, aquando de situações reprováveis como o daquela ex-comissária europeia Neelie Kroes, soube-se agora, que terá administrado uma empresa sediada numa "offshore", nas Bahamas, entre 2000 e 2009, em violação do código de conduta do executivo comunitário. A falta de vergonha e de honestidade passam ao lado, mas uma ou duas décimas no défice é logo motivo de alertas, de perseguições e de ameaças de corte nos fundos a transferir. Uma coisa é o dever de sermos rigorosos e irrepreensíveis administradores da coisa pública; outra é esta constante pressão que traz no seu bojo o roubo a quem pouco tem. Oh país martirizado e ofendido por aqueles que servem os grandes interesses! Acordemos!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

COMO É POSSÍVEL "ESTAR NO PELOTÃO DA FRENTE"?


Trata-se de declarações que nos devem obrigar, com serenidade e determinação, que o tema da saída de Portugal da zona Euro seja colocada na ordem do dia. Oiço que seria dramático e leio que constitui uma opção determinante para o futuro de Portugal. Torna-se necessário que o debate se faça, que se coloquem nos pratos da balança as vantagens e desvantagens. Não sou economista muito menos Nobel, mas se várias personalidades apontam para o caminho da saída, pois então que se esclareça de uma vez por todas e de uma forma prospectiva. A indefinição em que andamos e a permanente angústia de vermos um amanhã que não chega, tem de ser, sem receios, devidamente equacionadas. Até porque há evidências que a Europa não quer mudar as suas políticas. Uma das minhas últimas leituras sobre o assunto foi no jornal Público: "O Nobel da Economia Joseph Stiglitz defendeu, em entrevista à Antena 1, a divulgar esta segunda-feira (anteontem), que o melhor caminho para Portugal será sair do euro, já que se permanecer na moeda única irá ter dificuldades no futuro. "Acho que a Europa, como um todo, devia começar a pensar num divórcio amigável com alguns países, para estes pensarem em formas para lidar com a saída. Não será um processo imune a dificuldades (...). Custa mais a Portugal ficar do que sair do euro", disse o economista.




Segundo Joseph Stiglitz, caso Portugal permaneça na moeda única "está condenado", salientando que a Europa "não tem, nem vai ter condições políticas para fazer as mudanças necessárias" e, como tal, aconselha os portugueses a sair do euro. "Acho que cada vez é mais claro que ficar é mais custoso do que sair", referiu, lembrando que a ideia de ficar tem sido defendida "com base na esperança de que haverá uma posição mais suave na Alemanha".
No entanto, Stiglitz clarificou que as políticas de austeridade prescritas pelos alemães "vão continuar mesmo que a teoria económica e até o Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstrem, claramente, que a austeridade nunca irá funcionar" O economista lembrou que a saída do euro daria a Portugal condições para "crescer, criar emprego e um processo de restruturação da dívida", sublinhando que, "apesar de ser duro", uma vez a "dívida estruturada, a moeda cresceria".
Joseph Stiglitz, professor na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, foi distinguido com o Nobel da Economia em 2001."
NOTA
Jornal Público, edição de 05 de Novembro de 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A HIPOCRISIA SERVIDA COM APARENTE DOÇURA


Sanções "zero" por défice excessivo. Para já, Portugal 1 Comissão Europeia 0. Mas o jogo só agora começou. Vem aí um "prolongamento" de exigências que a mim, cidadão espectador, na bancada, põe-me com os nervos em franja. Pessoalmente, entendo que Portugal tem de continuar em frente, impedindo a devassa do nosso País. Uma coisa é sermos um povo honrado, que paga o que deve, outra é quererem que nos transformemos em uma passadeira vermelha por onde passam os colonos, bem enfeitados, trajando a rigor mas com o cheiro nauseabundo dos interesses que não têm pátria. Os sem rosto pressionaram, tentaram engolir os "comissários" que não são mais do que rodas dentadas da poderosa máquina, porém as suas próprias fragilidades e a débil inteligência política, pelo menos desta vez, soçobrou. Mas, atenção, não desistirão tão facilmente. Foram semanas a fio de toca-e-foge, de provocações, de ameaças, enfim, como se nada mais tivessem a fazer no plano político: o brexit, os refugiados, as desigualdades, assimetrias sociais e a pobreza persistente, a empregabilidade e a precariedade laboral, o terrorismo e os cenários de morte e destruição que se espalham. Zero vírgula dois por cento no défice, aparentemente, tornou-se muito mais importante.


E ontem ouvi-os, tão serenos a "perdoar" quanto de dentes afiados, a impor recomendações de raiz chantageadora. Querem-nos submissos, obedientes, como se este não fosse um País com dignidade quase milenar. Tratam-nos como se paizinhos fossem, a nós e aos outros que tentam sair da canga e do perfil neoliberal que julgam ser o caminho certo! Portanto, é tempo de continuar com firmeza, com seriedade, honestidade e enorme sentido de responsabilidade, repito. Se nos quiserem na casa comum europeia, o respeito pela diversidade dos povos e pela independência terá de constituir a pedra angular. Ainda ontem, embora o contexto tivesse sido outro, por aproximação e sem abuso da minha parte, registei as palavras do Papa Francisco que pode ser aplicada ao que se passa no espaço europeu: "é uma guerra de interesses e pelo dinheiro". Existe, de facto, uma guerra silenciosa. Sem um único tiro essa teia está a matar os desígnios dos povos europeus. Com responsabilidade, Portugal deve continuar a trilhar o seu caminho. Outros nos sigam. A nossa Pátria não está à venda.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 19 de julho de 2016

SANÇÕES, SENHORES DA EUROPA? TENHAM VERGONHA.


Já mete repulsa este constante matracar na cabeça dos governantes e dos portugueses em geral. Todos os dias regressa a história das sanções. Alguns, até, pela forma como se posicionam, parece que se regozijam com o regresso da austeridade, com um tal plano b, com medidas adicionais, seguindo a cantoria externa e os poderes internos, neste caso, quer os do patronato da comunicação social, quer os de costela partidária. É apertar porque "o povo aguenta... aguenta". Um mínimo de bem-estar, através da reposição dos salários e reformas roubadas, a anulação das sobretaxas disto e daquilo, o aumento do salário mínimo, a restituição de vários abonos para quem é pobre, as 35 horas de trabalho que até deveriam ser para todos, enfim, para os senhores da Europa tudo aquilo são extravagâncias e não pode merecer aprovação. Mas por que raio devemos estar dependentes da sofisticada engrenagem que esmaga e, todos os dias, nos intimida?


Há dias, na página de facebook, o Dr. António Macedo deixou um comentário. Trago-o para este meu texto, enquanto reflexão, pelas preocupações enunciadas.
"Ao que consta, a decisão do Ecofine não foi unânime, tendo merecido a oposição da França e da Grécia (que provavelmente se esqueceu da antiga postura de Passos Coelho, em Bruxelas). É altura de Portugal e Espanha se juntarem a estes países, tentando arrastar também a Itália para poderem, mais facilmente, enfrentar o directório político que (des)governa a UE. Reafirmo o que há algum tempo venho escrevendo. Em conjunto, os países do Sul são auto-suficientes em agro-pecuária, têm capacidade industrial e tecnológica da melhor, possuem uma plataforma marítima imensa, para ser explorada e defendida da pirataria actual, estão numa posição geo estratégica privilegiada, mantêm fáceis relações com a África, América do Sul e Ásia. Tudo isto dá-nos força para impor mais respeito por parte dos nossos parceiros da UE. Somos europeus, todos ganharíamos com uma Europa forte e unida, mas não podemos aceitar sermos tratados como europeus de segunda. É urgente encontrar alguém com capacidade e determinação para liderar este processo e devolver a dignidade que, aos poucos, vamos perdendo. A não conseguirmos isto, temos que assumir que há mundo para além da Europa. Mundo que bem conhecemos e que nos (re)conhece. As manifestações de alegria pela vitória de Portugal no campeonato da Europa, ocorridas um pouco por todos os continentes, são disso a prova".
Sanções, senhores da Europa? Tenham vergonha.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

UMA SANSÃO DE 0% É RIDÍCULA, MAS, POLITICAMENTE, É UMA IGNOMÍNIA DESTA EUROPA



Cada vez estou mais farto desta União Europeia. Não propriamente da União, mas de uma certa jagunçada unida para levar a água ao seu moinho triturador dos povos. Sinto-me cada vez mais afastado e revoltado face a esta pouca-vergonha, qual remoinho onde mergulhámos. Diziam e influenciaram-nos, lembram-se, pateticamente, que estávamos no "pelotão da frente" da moeda única, deixando de lado as diferenças de produtividade e tudo quanto este aspecto influenciaria. A situação hoje é de debilidade, porque à crise fabricada externa e intencionalmente (muitos ganharam com ela), junta-se uma espécie de abutres, de garras e bico afiados, sem qualquer pejo em alimentar-se de quem já pouco tem para dar.    



A decisão do Ecofin de "apoiar a recomendação da Comissão Europeia de accionar o processo de sanção a Portugal, que pode ir até 0,2% do PIB", pelo facto de ter ultrapassado o défice de 3% (3,2%) em 2015, confirma, entre outras, duas coisas: primeira, que a possibilidade de uma sanção de 0%, sendo ridícula, é, politicamente, uma ignomínia desta Europa a um Estado membro; segunda, mesmo que a "sanção", repito, ridiculamente, seja de 0%, não deixa de constituir um grave e público puxão de orelhas ao governo português na perspectiva de, oiçam bem, aqui mandamos nós! Não interessa que outros, ao longo de todo o tempo, inclusive a Alemanha (5) e a França (10), tenham ultrapassado os limites do défice. Consta-me que 23 dos 28 já o ultrapassaram sem que nada lhes tivesse acontecido. Estranho? Talvez não. Mesmo que não queira, acabo por me aproximar da tese que há olhares enviesados relativamente à solução governativa em Portugal e que, em Espanha, a instabilidade política também conduza a olhares desconfiados e preocupados aos senhores desta Europa de políticos menores.  
E se for de 0% (?) o paradoxal "castigo", parece-me óbvio, não deixará dúvidas, será acompanhada, certamente, de uma recomendação: têm de apresentar novas medidas de austeridade ou seja lá o que for. No decorrer de 2016, a vacina terá de ser aplicada. Têm de cortar, cortar e cortar, têm de roubar aos pobres para favorecer os ricos. De que vale, questiono, o povo argumentar que andou, desde 2009, permitam-me a expressão, a "levar na corneta", que foram extorquidos por todos os lados entre 2011 e 2015, encostado à parede, sobretudo as populações vulneráveis, jovens e idosos, aposentados e pensionistas, que o mundo laboral foi desregulado e é hoje, genericamente, um mundo cão de precariedade e que, consequência dessas políticas, aumentou o desemprego e a emigração e a melhoria não se verificou? De que vale dizer que somos pobres mas honrados e que vários milhões sobrevivem? De que vale, quando estes senhores(as) da Europa dos Comissários são peças dentadas de outras invisíveis, não correias de transmissão da vontade dos cidadãos, mas dos movimentos financeiros, construtores de uma Europa onde uns são mais iguais que outros? Em uma Europa que esmaga, tritura e impõe as regras que quer e entende, de que vale a lamúria da injustiça quando têm, no actual quadro político, a faca e o queijo na mão?
Uma coisa é certa, estou disso convencido, esta União Europeia insensível, de cócoras para os mercados, submissa e rastejante, distante dos povos e bem instalada, caminha, infelizmente, para o colapso, porque não são os milhões que, diariamente, aqui chegam, como dádiva, vergarão a dignidade da esmagadora maioria que sofre. Um dia o elástico rebenta!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 10 de julho de 2016

DOIS IMPORTANTES TEXTOS




"(...) É extremamente preocupante a ausência da comunicação social portuguesa ante o descalabro europeu. É preciso acentuar que a União Europeia já o não é. O egoísmo sobrepôs-se aos grandes princípios do humanismo e da solidariedade que fundamentaram o seu nascimento, e, hoje, o nosso continente mais não é do que um condomínio fechado e cercado de arame farpado. As "reportagens" apresentadas pelas televisões portuguesas são gemidos mal-enjorcados em que a verdadeira natureza dos factos fica encoberta pelo horror dos acampamentos de refugiados, com miúdos a olhar-nos já sem lágrimas, mulheres cobertas de espanto e de medo, e homens encerrados na sua própria tragédia. 
A matança de inocentes não pára, enquanto senhores muito consideráveis discutem, nos areópagos internacionais, banalidades e ineficácias. Já o disse e repito: não preciso desta falaciosa União para ser europeu; mais: não quero ser europeu desta União, mandada pela Alemanha da finança e dos negócios. Não quero ser alemão. Estou preocupado, na minha velha pele portuguesa, pelo descalabro moral, político e económico em que o continente todos os dias se apresenta. (...)"


"(...) Numa estratégia indireta, Berlim escolheu Portugal como o elo mais fraco para reafirmar a sua hegemonia, mostrando que depois do brexit o cilício do Tratado Orçamental ainda aperta mais fundo. Como num crime friamente premeditado, sabendo o poder aterrorizador das suas palavras, Schäuble e Regling assobiam para que a matilha dos especuladores de mercado identifique Portugal como uma presa. A subida dos juros da dívida reflete que o alvo foi claramente identificado. O objetivo será sancionar Lisboa por défice excessivo. Se isso acontecer, Berlim arranjará maneira de livrar Madrid, para que o castigo não provoque demasiadas contracorrentes.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de julho de 2016

DURÃO BARROSO UM DOS "GATOS GORDOS" DA UNIÃO EUROPEIA


Se esta Europa está como está, desprestigiada e sem rumo, a Durão Barroso se deve. Foram dez de presidência da Comissão Europeia, onde teve tudo para corrigir o que há muito vinha sendo desenhado. Escrevi em 10.11.2013: "(...) do que é conhecido, porque a História divulgará muito mais, a Europa tem, como Presidente da Comissão, um pau mandado. Serve os interesses ideológicos instalados". Razão tinha Henry Kissinger, um membro permanente de Bilderberg, aquando da assunção de responsabilidades de Durão Barroso na Comissão Europeia: é "indiscutivelmente o pior primeiro-ministro na recente história política. Mas será o nosso homem na Europa". E foi. Barroso é um político que segue a verdadeira estratégia do Clube Bilderberg que tem o propósito de criar um governo totalitário mundial. Sobre Durão Barroso, diz Estulin, estudioso de Bilderberg: "(…) é tido, nas altas esferas da governação europeia e mundial, como o perfeito instrumento do Clube Bilderberg". Ele e tantas "personalidades" são jogadoras neste tabuleiro de interesses mundiais. Uns protegem os outros. Juntos formam uma seita política. Uns ocupam determinadas cadeiras de poder ao mais alto nível, outros são correias de transmissão desse poder avassalador.

A "elite" europeia vale zero e não tem vergonha

Portanto, não é de estranhar que a Goldman Sachs International (GSI) tivesse anunciado ontem a nomeação de Durão Barroso para seu presidente não executivo e consultor do banco de investimento. "A sua perspectiva, capacidade de avaliação e aconselhamento irão acrescentar muito valor ao Conselho de Administração da Goldman Sachs International, à Goldman Sachs, aos seus accionistas e trabalhadores", referiu a instituição com sede em Nova Iorque, através de comunicado. De facto eles sabem quem recrutar e sabem também que todo o trabalhinho político sujo tem de ser compensado. Após um breve período de teórico afastamento, lá está o "pagamento" político pelos serviços prestados. 
É óbvio que Durão Barroso e tantos outros têm de viver e que há mais vida para além do exercício da política. Porém, leio na página da TVI de 27.10.2014: Durão Barroso vai receber uma pensão vitalícia de 132 mil euros por ano, o equivalente a 11 mil euros por mês, avança o "Daily Mail" (...) No regresso a Portugal, Durão Barroso vai receber, ainda, um subsídio de «transição» e de «reintegração» durante os próximos três anos, que pode chegar aos 200 mil euros, por cada ano. Para além disso, o antigo primeiro-ministro vai ganhar também um salário extra de 25 mil euros, mais despesas de deslocação". Este facto levou a uma condenação pelos deputados conservadores britânicos por causa da "ganância e arrogância dos gatos gordos da UE". Segue-se, agora, a Goldman Sachs International. Portanto, questiona-se, a nós, cidadãos, o que fazer em função da existência de uma engrenagem que permite a existência de "gatos gordos" no xadrez político internacional? Afinal, percebe-se agora, para quem é que ele esteve a politicar durante dez anos. Aliás, acompanho a posição de Jorge Costa, dirigente e deputado do Bloco de Esquerda, que assumiu que "em vez de responder pelo crime da guerra do Iraque, Barroso recicla-se no gangsterismo financeiro global”. Está tudo dito. Pelo menos para mim.
Nota
Texto a consultar AQUI.
http://comqueentao.blogspot.pt/2009/06/nao-ha-qualquer-interesse-nacional-na.html

segunda-feira, 4 de julho de 2016

POLITICAMENTE JUNTINHOS... EMBORA DISFARCEM


Os leitores conhecem o provérbio "pimenta no rabo dos outros é refresco". Dele me lembrei quando escutei a ex-ministra das Finanças Maria Luis Albuquerque dizer, a propósito das hipotéticas sanções europeias a Portugal por causa do défice excessivo: "(...) se eu fosse ministra das Finanças estas questões, seguramente, não se colocavam". Ora bem, a Senhora que não tem espelho que se enxergue, nem notou: primeiro, que lhe fica mal, muito mal, dizer o que disse. É verdade que "presunção e água benta, cada qual toma a que quer", mas fica-lhe mal, até pelo simples facto do défice excessivo ser, exactamente, consequência do tempo de governação da sua responsabilidade; em segundo lugar, a Senhora demonstrou, inequivocamente, que este assunto não seria objecto de discussão se o governo português continuasse na linha política desta Europa ultraliberal. O hipotético "castigo" não é tanto por causa do défice excessivo, mas porque, politicamente, os senhores(as) desta Europa e do FMI não gostam de quem os afronte com soluções de governo distantes dos cânones por eles(as) ditados.


Parece-me óbvio que não haverá sanções, porque isso equivaleria a União Europeia, que tudo controla, sancionar-se a si própria. Mas haverá uma feroz chamada de atenção. O que para mim é muito grave, pois isso significa uma intolerável ingerência na política interna do nosso país. Irrita-me, sobremaneira, esta abusiva intervenção. Mas Maria Luis Albuquerque alinha, aceita, ao mesmo tempo que vai dizendo que não se justificam penalizações. Ela, o Dr. Passos Coelho e a Drª Assunção Cristas, sabendo o que fizeram (ou o que não fizeram) durante quatro anos, politicamente, "para a fotografia pública" colocam-se contra as penalizações, mas lá saltou uma voz para dizer mais ou menos isto: connosco este seria um não assunto! É, por isso, que "pimenta no rabo dos outros é refresco". Não suporto gente política deste calibre, que surfam as situações, que pendem para o lado dos ventos, que sem vergonha alguma dizem coisas como se o povo fosse desmiolado. 
Algumas frases resumem o que penso e defendo. A primeira, do ex-ministro das Finanças Doutor Teixeira dos Santos: "Depois de tantos elogios da ‘troika’ ao Governo anterior, será irónico e cínico se a Comissão Europeia vier a propor a aplicação de sanções a Portugal"; a segunda, da Deputada Catarina Martins, do Bloco de Esquerda: "A Comissão Europeia não tem que sancionar o nosso país, tem sim é de ressarcir o nosso país pelo dano que foi causado"; uma outra, do Deputado João Galamba do PS: "A última coisa que precisamos neste momento é de incendiários. Já chega a situação complicada no Reino Unido"; finalmente, as palavras do Deputado Jerónimo de Sousa, frontalmente dirigidas a Wolfgang Schäuble: "mais um episódio de chantagem, de arrogância, de ingerência. (…) Não é preciso responder à letra, mas um pouco de brio patriótico é exigível às instituições, designadamente ao Governo da República para dizer lá no seu país manda ele e em Portugal mandam os portugueses".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

WOLFGANG SCHÄUBLE DOMINA AS FINANÇAS ALEMÃES E AS DOS OUTROS... POR QUE SERÁ?


Portugal precisa de um novo programa de resgate, diz o Ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. É por estas e muitas outras que milhões de europeus estão fartos e cheios DESTA Europa. Depois não querem mais referendos! 


Schäuble sabe-a toda. Ele sabe como ganhar com a desgraça, leia-se pobreza, dos outros. Ele transporta no seu nome Wolf(gang) - bando, quadrilha ou corja; grupo organizado que se reúne para prejudicar algo ou alguém - aquilo que algumas figuras europeias de braço dado com o FMI, há muito fazem aos mais vulneráveis. É o caso desse chefe de missão do FMI, Subir Lall que teve o desplante de colocar em causa as 35 horas de trabalho, o que significa ir contra a Assembleia da República e o governo português. "Subir" até pode, mas não à nossa custa.
Enfim, todos com o trabalhinho de casa feito e copiado uns dos outros.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

BREXIT - BREVE REFLEXÃO AO CORRER DO PENSAMENTO


Tanto esticaram o elástico que ele se rompeu. Era inevitável. Ou de outra maneira, foram os senhores construtores desta Europa que criaram a arma da sua própria destruição. Não foi o povo que a construiu, foi gente sem escrúpulos e ideologicamente bem definida que a fizeram implodir. Lamento, porque os avisos foram muitos e nunca escutados. Não foi esta Europa a sonhada por Jean Monnet e Robert Schuman, uma Europa que se tornou centralizadora e totalitária nas decisões. 


Sendo eu um europeísta convicto, espero, rapidamente, por uma total revisão do Tratado de Lisboa e de outros perversos "acordos", de tal forma que os interesses europeus comuns se sobreponham à excessiva e muito complexa máquina dos interesses de alguns directórios que andam a triturar povos. "Nós queremos de volta o nosso país" - disseram. Eu também desejo, embora fazendo parte daquilo que é essencial defender: liberdade, democracia, circulação de pessoas e bens, paz, SEGURANÇA, controlo de fronteiras, defesa, respeito pelas regras essenciais da União e não ingerência nas decisões internas dos povos. Espezinhamento, não. Subordinações insensatas, não. O dinheiro a comprar consciências políticas, também não. 
Enquanto cidadão preocupa-me (e de que maneira!) os portugueses que vivem e trabalham no Reino Unido. Que o bom senso prevaleça, que esta Europa renasça das cinzas e que Portugal, seja capaz de os proteger através de novas e consistentes políticas económicas. Como ainda hoje escreveu Nicolau Santos (Expresso), "(...) Há hospitais ingleses onde a maioria dos enfermeiros são portugueses. Vivem nas ilhas cerca de 1500 investigadores, cientistas e estudantes portugueses. E há diversos investimentos nacionais naquele país. (...)". Preocupante.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 7 de junho de 2016

ANEDÓTICO: FMI ADMITE QUE AGENDA NEOLIBERAL ELEVA A DESIGUALDADE


Penso não existir outra palavra que caracterize a posição dos economistas do FMI: anedótica. Depois de tantas posições, inclusive através de Prémios Nobel da Economia, sistematicamente ignorados pelo FMI, a comunicação social destacou as declarações assumidas por Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri: "(...) Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco uma expansão duradoura". Isto é, as políticas receitadas pelo FMI acabaram por ser criticadas pelos próprios economistas. É de gargalhada, ou então, por detrás destas declarações há mais qualquer coisa que não se descortina.



Resta agora saber se a União Europeia, esmagadoramente neoliberal, o que pensa disto e como é que irá actuar. Continuará a defender a  cega austeridade como medida fundamental para o crescimento? E o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, absoluto defensor de uma agenda política que tem visado o "empobrecimento" (disse-o após as eleições de 2011) de uma grande parte dos portugueses, que resposta tem para estes três economistas? E o que dirá relativamente ao governo da República que nega a austeridade? Sentar-me-ei para assistir.  
Ilustração: Google Imagens.





domingo, 5 de junho de 2016

O PS MAIS NÃO ESTÁ A FAZER DO QUE CUMPRIR A SUA "CARTA DE PRINCÍPIOS"



O Dr. Francisco Assis tem uma posição que, discordando, aceito. Em democracia é assim: o respeito pela diferença de opinião constitui um direito inalienável. Foi coerente, entrou no congresso do PS e disse o que pensa. Lamentavelmente foi apupado. Teria sido melhor o silêncio ou a ausência de aplausos. Eu, se lá estivesse, não me teria manifestado. Era a minha resposta perante a discordância de opinião. Mas a política e as paixões conduzem a manifestações muitas vezes carregadas de uma certa irracionalidade. Eu, quando desempenhei funções políticas, também estive, várias vezes, no campo da discordância. Em algumas situações o tempo deu-me razão. Em outras, mais tarde, pedi desculpa pelos equívocos e análises erradas. Neste caso, penso que o Dr. Francisco Assis não tem razão. Está a cometer um erro de análise. Simplesmente porque, no plano ideológico, o PS não é um partido de direita, mas um partido de esquerda que abrange, no pleno respeito pela sua "Carta de Princípios", uma grande parte do eleitorado do centro. Se as águas tinham de ser separadas, o Dr. António Costa fê-las, correctamente, reposicionando o PS na sua vertente moderada e em função do seu património histórico, onde se enquadra uma enorme e sensata preocupação pelas pessoas e pelas questões sociais. Aliás, interrogo-me: então, são ideológicos os acordos à esquerda e deixam de o ser os acordos à direita? Meu Caro Francisco Assis, tenha presente o que a coligação PSD/CDS fez ao povo português durante quatro anos. Para que serviu tanta austeridade, se ninguém sentiu qualquer melhoria em função do esforço pedido? E a crise, foi fabricada externamente, ou somos todos culpados pelo desastre que varreu tantos países na Europa? E as ziguezagueantes políticas europeias face às quais perdemos muito da nossa identidade de país quase milenar? Ficou a dever-se à esquerda ou à direita? 
Ilustração: Google Imagens. 

terça-feira, 31 de maio de 2016

ESTA EUROPA? NÃO, OBRIGADO!


Leio na capa do jornal I: "Sanções da Europa a Portugal - Multas podem ser aplicadas em 20 dias e fundos estruturais suspensos de forma imediata, se a linha dura dos comissários vencer (...)". Ora bem, é bem provável que não as apliquem, mas não me restam dúvidas que a tal "linha dura" constituída por uma esmagadora direita política que de pobreza nada sabe, nem quer saber, vai deixar um sério aviso ao governo. O próprio Presidente da República de Portugal já começa a dar indícios de andar a remar para terra: "(...) Marcelo vai continuar a fazer avisos sobre as contas de Costa", enaltece o referido jornal. 


Esta Europa que resvalou dos seus princípios orientadores democráticos, de respeito pelas nações, de solidariedade e de coesão social, nada quer saber se o País está exangue, que haja pobreza, crianças e idosos em dificuldades extremas, que os jovens e menos jovens emigrem, que a economia paralela ande à solta porque, tal como vulgarmente se diz, as pessoas têm de se desenrascar, isto é, nada quer saber se o povo andou e anda, desde 2008, a comer o pão que o diabo amassou. Esta Europa está, decididamente, ao lado dos fortes e de uma corja insensível que não dando o rosto, existe, tem poder e capacidade de decisão. O resto, aquilo que nos chega, os vários programas disto e daquilo, não são mais do que, por um lado, "incentivos" para que, genericamente, os da mesma clique desfrutem de meios para o seu próprio enriquecimento (há uma sofisticada inteligência na circulação do dinheiro); por outro, serve para facultar a ideia que esta é uma Europa magnânima, solidária e tendencialmente social. 
Servirá o referendo na Grã-Bretanha para mudar esta Europa feita de directórios que esmagam??
Deixo aqui dois provérbios: "quem muito se abaixa, o rabo aparece" e "onde reina a força, o direito não tem lugar"!
Ilustração: Google Imagens. Atente-se na simbologia da imagem.

domingo, 3 de abril de 2016

OS VAMPIROS ESTÃO DE VOLTA


O Fundo Monetário Internacional, depois de, por diversas vezes, ter assumido que a austeridade foi longe demais, vem agora, através de Christine Lagarde, duvidar da capacidade de Portugal cumprir metas. Défice inferior a 2,9% só com Plano B, diz o FMI. E o que tal plano b) significa é, apenas, mais austeridade, mais constrangimento para as famílias e continuidade do empobrecimento. O resto é conversa fiada em que se especializaram as instituições porta-vozes dos grandes interesses financeiros. Montaram, paciente e obstinadamente, uma complexa engrenagem onde necessário se torna uma inteligência capaz de poder escapar ao redemoinho. Há quanto tempo a direita política fala de um plano b)? No essencial, estão todos umbilicalmente interligados, FMI, União Europeia, agências de rating e seus sequazes.



Christine Lagarde, leio, "não acredita nas metas orçamentais que António Costa traçou para Portugal e pede mais esforço e menos generosidade. Adiar a reposição integral dos salários dos funcionários públicos, manter a sobretaxa do IRS e preparar um plano B que permita cumprir as metas do défice são algumas das recomendações do FMI". Ora, esbater a pobreza, dinamizar a economia assente em um outro paradigma é coisa que não lhes interessa. A receita que definiram é a que se ajusta ao pensamento dominante. Austeridade, privatizações a eito, emprego precário, substancial redução dos apoios sociais, tudo para defesa dos "investidores" e nada em defesa do bem-estar mínimo das populações. Nem se coíbem de "invadir" os países, remetendo, de longe, o discurso desestabilizador de qualquer dinâmica alternativa. Uma vergonha! Tenhamos presente quando o grego Varoufakis quis, na UE, discutir economia, teve como resposta: "você até tem razão mas vamos esmagar-vos mesma". A UE discute Tratados (porquê e com que interesse!) os povos querem que se discuta Economia. Li em uma entrevista a Varoufakis: "O Eurogrupo toma decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém” (...) "Afinal o que temos é um grupo inexistente que tem o maior poder para determinar as vidas dos europeus. Não presta contas a ninguém, dado que não existe na lei; não há minutas das reuniões; e é confidencial. Por isso nenhum cidadão sabe o que lá é dito… São decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém" (...) "Quando falava nas reuniões, com argumentos económicos preparados, "as pessoas ficavam a olhar para mim, como se não tivesse falado (…) Bem podia estar ali a cantar o hino da Suécia que ia receber a mesma resposta (…) Nem sequer havia mal-estar, era como se ninguém tivesse dito nada", revelou Varoufakis. (...) O que mais impressionou Varoufakis nas reuniões a que assistiu foi a "completa ausência de qualquer escrúpulo democrático por parte dos supostos defensores da democracia". O ex-ministro da Grécia dá um exemplo: "Ter várias figuras muito poderosas a olharem-me nos olhos e dizerem ‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma".
É esta Europa que temos e é neste mundo que o FMI funciona. Entretanto, porque tudo tem um limite começam a surgir alguns movimentos contra esta lógica própria de sanguessugas. "Mário Centeno, ministro das Finanças de Portugal, faz parte de um grupo de oito ministros das Finanças europeus que escreveram uma carta à Comissão Europeia a contestar a fórmula de cálculo do défice estrutural, que serve de base à definição do esforço orçamental que os países têm de fazer todos os anos, para cumprir os tratados europeus. A carta está ser avançada pelo jornal espanhol Expansión, numa notícia sobre um movimento de “rebelião” liderado por Espanha e por Itália. Além destes dois países e de Portugal, assinam a carta Luxemburgo, Lituânia, Letónia, Eslovénia e Eslováquia. A carta é dirigida ao vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis e ao comissário Pierre Moscovici, com conhecimento do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Os governantes apontam para "incoerência" no atual sistema. O principal argumento é que o défice estrutural é calculado em função do PIB potencial – um indicador "desconhecido” e que portanto gera estimativas com “um elevado grau de incerteza”. A utilização do défice estrutural produz assim "diferenças significativas" entre diferentes Estados membros quando se avalia se há ou não cumprimento dos objectivos do défice estabelecidos pela União Europeia. Mário Centeno assina a carta depois de um Orçamento do Estado para 2016 marcado por intensas discussões com a Comissão Europeia sobre o esforço de ajustamento orçamental necessário para este ano. Bruxelas impôs mil milhões de euros de medidas adicionais, face às intenções iniciais do Governo, precisamente com o argumento de que seria necessário reduzir o défice estrutural em linha com as regras europeias" (ionline).
E assim andamos nós nesta embrulhada!
Ilustração: Google Imagens.