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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Thatcher morreu, Reagan também e o Pinochet já não se sente lá muito bem


Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
05/11/2019

Vou dedicar-me, neste texto, ao que se passa no Chile e na Argentina. Mas quero deixar claro que não ignoro os acontecimentos recentes noutras paragens daquele continente. Sobre a tragédia venezuelana já escrevi inúmeras vezes. Sobre a Bolívia, tratarei noutro dia. Até porque nunca coloquei Evo Morales no mesmo saco que Maduro ou sequer Chávez. Morales vem de um movimento social e representa uma clivagem impossível de ignorar na Bolívia: a do povo indígena eternamente esquecido.


Nada tinha a apontar-lhe até cometer o grave erro de mudar a ConsTituição para conseguir um terceiro mandato e violá-la para ir ao quarto. Este é o problema histórico da esquerda latino-americana: os processos de democratização social chocarem com a dependência de homens salvadores, o que é o oposto da democratização política. Seja como for, as crises na Venezuela e na Bolívia resultam de soluções políticas com décadas, evidentemente desgastadas pelo tempo e por erros. Estes eram os últimos sobreviventes do domínio da esquerda na América Latina.
Em novembro de 2007, reuniram-se em Santiago, numa cimeira ibero-americana, Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, Rafael Correa, Tabaré Vazquez, José Manuel Zelaya, Daniel Ortega e Alan García. Com alguma relevância política, só destoava o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Um ano depois, juntou-se ao clube da esquerda latino-americana Fernando Lugo, do Paraguai. Doze anos depois, a era de Nestor e Cristina Kirchner chegou ao fim na Argentina (regressa agora de outra forma); Bachelet foi alternando com o direitista Sebastian Piñera no Chile, que o dirige agora; Lenin Moreno, o sucessor de Correa no Equador, afastou-se da esquerda para rumar para os braços dos Estados Unidos; os conservadores Juan Orlando Hernández e Martín Vizcarra governam as Honduras e o Peru; e o Presidente do Paraguai é Abdo Benítez, filho do antigo secretário particular do ditador Stroessner. E Jair Bolsonaro chegou ao poder no Brasil. Entre as quedas, contam-se as destituições ilegais de Fernando Lugo e Dilma Rousseff e o golpe militar nas Honduras. Mas, regra geral, foi o voto que os fez cair. Hoje, as exceções são El Salvador, Uruguai e México. E o Uruguai está tremido.
O padrão parecia tão claro que ninguém esperava que esta guinada à direita fosse perturbada tão rapidamente. Havia quem acreditasse que as experiências de esquerda poderiam ter servido de vacina. Pois parece que está a acontecer o oposto: são as experiências de direita, com soluções económicas cada vez mais radicais e urgentes para satisfazer que as apoia, que se degradam a uma velocidade estonteante.
A Argentina foi a primeira queda de um governo instalado por esta onda de direita que parecia estar a varrer a América Latina. Mauricio Marci devolveu o poder ao peronismo de esquerda, representado por Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Quando chegou ao poder, Marci reverteu o default da brutal dívida argentina, desenvolveu uma grande contrarreforma laboral, limitando a possibilidade de recurso à Justiça, e eliminou os subsídios à eletricidade, com efeitos devastadores. Nada disto impediu que a dívida externa aumentasse ainda mais. A economia degradou-se e a inflação tornou-se um problema grave de um governo que prometera inflação zero. Resumindo num só parágrafo, diria que estas são as razões aparentes para a sua derrota.
Mas a vitória da esquerda argentina é especialmente perturbante porque vence um duplo cerco dos mercados. Um cerco de apoio a Marci e um cerco de combate a Fernández. Sem que os resultados económicos do primeiro o justifiquem. Primeiro, através de um empréstimo inédito do FMI: 50 mil milhões de dólares que depois subiram para 57 mil milhões. Numa coincidência quase absoluta com o calendário eleitoral, reservando grande parte das transferências para o período próximo das últimas eleições. Mas inédita também porque parte destas transferências serviram para sustentar a cotação do peso e financiar o tipo de políticas sociais que o FMI costuma condenar. O objetivo foi evidente: salvar um aliado. E mal a vitória de Alberto Fernández se começou a tornar evidente, logo regressou um discurso público que exigia sinais de austeridade e contenção dos futuros governantes. Aqueles que não foram exigidos a quem contou com um forte apoio. Mesmo assim, nada resultou. Como escreveu o analista político Mario Wainfeld, no jornal “Página 12”, “às vezes os cidadãos pronunciam-se como se tivessem conjurado”. Os argentinos queriam que Marci caísse. Assim como os chilenos querem que Piñera caia.
Se a Argentina foi a primeira queda, o Chile é um caso muito mais surpreendente, porque acontece um ano e meio depois de a direita regressar ao poder. Tudo rebentou poucas semanas depois de o Chile ter sido descrito por Sebastian Piñera como um “oásis”. Como é evidente, não é o aumento de quatro cêntimos da tarifa do metropolitano de Santiago que explica a explosão de revolta. Terá sido um pretexto há muito esperado. O preço da habitação aumentou 150% na última década, enquanto os salários aumentaram 25%. O salário mínimo anda pelos 370 euros e 70% dos trabalhadores recebem menos de 680 euros. Os salário dos políticos é 33 vezes mais alto do que o salário mínimo. O Chile tem números económicos de primeiro mundo e serviços públicos de terceiro mundo. Um dos piores sistemas de educação da América do Sul, num país com muito menos razões históricas do que outros para que isso aconteça. Um péssimo sistema de saúde infantil. Pensões muitíssimo baixas num sistema que está há muito tempo em crise, onde 80% recebem menos do que o salário mínimo.
Tudo isto se resume numa frase: o grande problema do Chile é a desigualdade. É, de longe, o país mais desigual da OCDE. O relatório de 2017 da Comissão Económica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) diz que um quarto da riqueza está concentrada nas mãos de 1% da população enquanto a metade mais pobre detém apenas 2%. Para além das razões históricas coloniais, partilhadas por quase todos os países da América Latina, há uma herança mais recente. Com alguns remendos, o Chile tem a Constituição imposta por uma ditadura e que reflete muitos dos seus valores. Incluindo os valores que nortearam as suas políticas económicas. Tudo é privado: a educação, a saúde, a água (penso que é o único país do mundo) e o sistema de pensões – os trabalhadores depositam os seus descontos em contas individuais geridas por privados e os resultados têm sido tudo menos famosos. O Chile é o país mais neoliberal do mundo. Desafiando os que associam a dependência eterna ao banco, à seguradora e ao patrão à liberdade, o Chile é a prova histórica de que não há qualquer relação entre o neoliberalismo e a democracia. No Chile, o neoliberalismo é a mais sólida herança da ditadura. Aquela que nem a democracia conseguiu vencer.
Milton Friedman ainda tentou desafiar o quebra-cabeças que contrariava a propaganda, afirmando, sobre as reformas que ele e os seus “Chicago boys” defenderam e que Pinochet aplicou com mão de ferro, que “o verdadeiro milagre não foi essas reformas terem funcionado tão bem, foi uma junta militar estar disposta a fazê-lo”. Não havia qualquer contradição. E o casamento a que assistimos hoje entre a direita neoliberal e a autoritária, presente em duplas como a de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, é a prova disso. O autoritarismo é condição para lidar com os efeitos da destruição das almofadas que tornam o capitalismo compatível com a paz social e, por consequência, com a democracia.
Um grafitti nas ruas de Santiago diz: “O neolibarismo nasce e morre no Chile”. Lamentavelmente, acho que não morrerá lá. Mas é sintomático que esta revolta, que tem o neoliberalismo como único verdadeiro alvo, aconteça em democracia no lugar onde ele se impôs, com mão de ferro, tortura e assassínios, através de uma ditadura. Tem-se escrito e dito que a democracia liberal está em crise. É verdade. E há, como em todas as crises sistémicas, muitas causas que se cruzam. Mas ignorar os efeitos da desregulação económica e da destruição de políticas sociais é ignorar o que mais toca a vida das pessoas. Com uma agravante: o enfraquecimento do papel económico dos Estados resultou num enfraquecimento do seu papel político. Hoje, ele está mais frágil para se defender da revolta, venha ela de onde vier. E é por isso que Eduardo Bolsonaro, o tresloucado deputado filho do Presidente brasileiro, reagiu assim aos acontecimentos no Chile: “Não vamos deixar isso daí vir para cá. Se vier para cá, vai ter que se ver com a polícia. E se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a História se repetir.” É o que lhes resta: a ameaça do fuzil.
Na Europa, quem acredita na democracia tem outra resposta. Perceber que não há só uma crise da democracia liberal, que temos de combater. Há uma crise do neoliberalismo, que temos de consumar. Como? Através de um contrato social. A última vez que o percebemos foi depois da mais abjeta das guerras. Seria excelente não precisarmos de outra. O que precisamos é de restaurar a social-democracia. Só assim salvaremos a democracia.
O neoliberalismo nasceu no Chile e é o Chile que nos avisa que ele está a morrer. Salvemos a democracia com um golpe de misericórdia nessa doença que, desde os anos 70, agrava as desigualdades nas economias ocidentais, deslaça as nossas sociedades e enfraquece as nossas democracias. Enterremos de uma vez Thatcher, Pinochet e Reagan. Precisamos de um novo New Deal. E que desta vez também seja verde, para salvar o planeta.

domingo, 3 de novembro de 2019

Cumplicidades mil


Por
Dnotícias
03 Nov 2019

Continuemos com os olhos postos na dança de cadeiras

Há um novo governo desde o dia 15 de Outubro, mas passadas duas semanas (42 dias após as eleições) a impressão é de que não há um novo executivo, mas o de sempre. Com uma ligeiríssima, mas importante diferença: está mais pesado e mais caro ao erário. Não fosse a fulgurante dança das cadeiras nos lugares da administração pública e a sensação de marasmo acentuar-se-ia. Lugares que ainda nem foram ocupados pelos militantes designados dos partidos que partilham o poder. Depois do ‘sais daqui, mas vais para ali’, ninguém ainda foi empossado. Este governo dá-se ao luxo de esperar semanas para começar a discutir o seu programa no parlamento. Na República, o mega executivo de António Costa fê-lo em quatro dias. Por cá ‘nada de novo sobre a Terra’, que isto remedeia-se em gestão e em duodécimos.

Enquanto a classe política se entretém com o puzzle das nomeações, 
os problemas permanecem e agudizam-se.

O que temos assistido com a extracção de inertes de ribeiras e praias é um escândalo monumental, que já gerou – finalmente - uma investigação do Ministério Público e uma comissão parlamentar de inquérito. Ao que parece (entra pelos olhos dentro) é que a operação é feita à margem da lei, na sequência de anos e anos de prática consentida por uma fiscalização inexistente e dócil. Uma fiscalização que consubstancia a face visível do falhanço absurdo da administração regional, perante ilegalidades aparentemente consentidas. Subtraem-se pedras e areia, que são transportadas de um lado para outro, à vista de todos, em plena luz do dia e ninguém – até agora – questionou rigorosamente nada. 

Há coincidências difíceis de engolir, tão descaradas que são. A vontade política e a falta dela esbarram na evidência cúmplice, entre um poder político subjugado a um leque diversificado de interesses económicos, emergentes da ‘Madeira Nova’, erigida pelo PSD de Alberto João Jardim, durante as décadas de ouro da construção civil. 

A teia frutificou e laborou perante a complacência e o fechar de olhos da cúpula directiva da ilha. O tema é melindroso e quem conhece os seus meandros só fala perante a garantia de não ser identificado, porque sustentabilidade ambiental e património natural são conceitos para entreter nos períodos eleitorais.
Perante a evidência, denunciada pelo DIÁRIO uma dúzia de vezes, sobre a ilicitude praticada a céu aberto, que fez o governo regional? Diz que é preciso criar um “novo enquadramento jurídico”. O que Miguel Albuquerque não disse, junto à Ribeira da Madalena do Mar, provavelmente porque não sabe (?), é que já existem mecanismos legais suficientes para regular todo o sector. Neste ‘jogo’ complexo e milionário (convém não esquecer que uma mão lava a outra) parece que todos foram apanhados de surpresa! Agora já não há desculpas. Informação não falta. E pronto, enquanto se aguarda pelas decisões judiciais e parlamentares, continuemos com os olhos postos na dança de cadeiras, que o programa de governo só é debatido na segunda semana de Novembro.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de novembro de 2019

48 Horas no Sistema de Saúde Inglês


Por estatuadesal
Clara Ferreira Alves, 
in Expresso, 01/11/2019

Soube que estava em sarilhos. Saí de um restaurante na zona de Kings Cross e entrei na estação de metro. As imediações de St. Pancras e Kings Cross, um monturo nos anos do thatcherismo, são uma das zonas mais gentrificadas de Londres. Casas e escritórios caríssimos, arquitetura de ponta, torres de vidro e aço, a novíssima e monstruosa sede da Google a ser construída. Da construção emana o poder brilhante do futuro. Londres é uma cidade-estado, a Singapura dos Tories, mas ainda faz parte do Reino Unido, do empobrecido país dos nortes. Aqui, com as lojas de luxo e as marcas europeias chiques, às quais os ingleses reconhecem uma superioridade elegante, nada existe ou virá a existir que não seja de bom gosto e de bom preço. 


Os restaurantes, fusão criativa, com empregados esbeltos e clientes dessa população que só se costumava ver em Nova Iorque e LA. Nómadas digitais, novos empresários, a burguesia nacional e internacional viajada e bem empregada, qualificada, jovens e baby boomers que debicam vinhos franceses, americanos, italianos, neozelandeses, argentinos, israelitas e, sim, portugueses. Estive quase a pedir um Papa-Figos. Eu aprecio este mundo transversal, internacional, criativo, onde se ouve a babel das línguas e onde o talento tem importância. Nada de milionários, apenas profissionais ambiciosos que não são racistas nem puristas porque o mundo é o seu território. A espécie humana a viver bem sem fazer mal a ninguém. Saí do Coal Office, o restaurante era um antigo edifício industrial no tempo em que existia classe operária inglesa, a caminho do Gauguin na National. Chovia torrencialmente. Nas escadas rolantes do metro, um abismo de metal ensopado em água, escorreguei. Perna torcida e pé do avesso.
Amparada pelo meu filho, rumei ao Hospital Universitário perto de Kings Cross, onde costumo passar no autocarro quando vou ao Selfridges. Sempre o observei com atenção, a espiar o movimento da Urgência. Pior ou melhor? A transparência dos vidros dá para ver. Parecia-me muito decente.
Uma sala de espera com dezenas de pacientes esperando pacientemente. Todas as etnias e cores, um ou dois utentes de pele desmaiada e olho claro. Os coloridos são tão ingleses como estes, convém recordar. Quando se sustentam impérios onde o sol nunca se põe, a população não pode ser deitada ao mar. Inscrevi-me, não me pediram cartão europeu de saúde, mandaram-me esperar. Não residente no UK, certo. Quatro horas depois, fui inquirir. A perna doía prodigiosamente. A sala esvaziara, os comensais desandavam, novos comensais rodeavam-me. Deram-me Brufen e Paracetamol e disseram-me que estava nos três próximos. Mais um par de horas e nada. Inquiro de novo. Será hoje? Tom agressivo. Meia hora depois chamam-me. Paredes pintadas, boas instalações. Nada de corredores entulhados, nem macas a esmo, nem gente estafada. Enfermeiras conversam pelos cantos. Algumas portuguesas, decerto. Um médico de origem asiática, Paquistão ou Índia, atendeu-me. Raios X. Leitura dos raios X. Fratura múltipla. Tem de vir à Clínica da Fratura daqui a três dias para colocar uma bota de tala, porque agora vamos fazer metade do gesso para imobilizar. Será vista pelos ortopedistas. O seu país é o melhor país do mundo, disse-me no fim. Antes de entrar na sala do gesso, outro médico, de origem paquistanesa ou indiana, vem falar comigo. Vi os seus raios X e considero a cirurgia inevitável e a ser feita já. Fraturou vários ossos. A ortopedista vai falar consigo daqui a pouco. Veio a ortopedista, uma jovem médica, decerto estagiária. A operação é a única solução. Tudo se precipita. Tiram sangue para análises, deixamos o cateter para o soro, não deixamos, mais raios X, tensão medida, o melhor é ficar internada esta noite. Pergunto se não posso ir a casa, que não é longe, não vinha preparada. A ortopedista vai conferenciar com outro ortopedista no computador e já me dirá, mas o anestesista poderá vir às 5h ou 6h da manhã para discutir a anestesia e eu teria de estar no hospital a essa hora. Para a vaga. Uma injeção de anticoagulantes na barriga por causa das embolias. Será uma por dia, sem falta. Quando sair do hospital para casa, leva a receita e leva a medicação consigo. Mas... se volto de madrugada. Há aqui inconsistências. Tenho de preparar o meu internamento, preciso do computador. Vão ligar-lhe do hospital logo de manhã, depois da conferência ortopédica. Se as análises do sangue fossem anormais, ligaríamos durante a noite. Era um domingo. Aos fins de semana há menos médicos. Por esta altura, estava maravilhada com o NHS. Saí sem a medicação. Telefonei para o meu médico em Lisboa. Sim, se te operam já, melhor. E explicou as minudências. Riscos de embolia, edemas, etc. O médico que detetou a urgência cirúrgica deseja-me felicidades e diz que ficou contente por ter visto os meus exames. Cirurgia é a única solução. Não estará lá no domingo, quando eu entrar. Boa sorte.
Telefonam-me às 9h da manhã. Uma administrativa. Não a podemos operar. O sistema está cheio de emergências e temos de dar prioridade. Como é residente em Portugal, recomendamos que viaje para o seu país para se operar, a.s.a.p. Mas disseram-me que era urgente, entraria de madrugada. Sim, mas o serviço tem outras prioridades além da sua e tem a hipótese de se operar no seu país. Digo que não preparei as coisas, há aviões a tomar, há que avisar médicos que não me viram, tudo em menos de 24 horas. Pode dizer-me, se preferir operar-me aqui, quando o seria? Não lhe posso dar uma data, teria de ir aguardando dia após dia. Nenhuma ideia do dia. Incerto.

Tenho de ser operada com urgência, o edema, a embolia, a hemorragia, pois, não lhe posso adiantar mais nada. Regresse a Portugal. E a injeção? Não me deram a receita e a medicação. E os exames? Como ia ser internada, não os tenho. Venha ao hospital buscar a medicação, já não será observada por um médico. Regresse ao seu país.

Hospital de novo, a coxear nas canadianas. Na receção dizem-me que sou internacional. Onde está o meu seguro? Começo a berrar que eles ainda estão na União Europeia. A seguir, despejo uma torrente de argumentos que acabam com a ameaça de processo, linguagem jurídica complexa, nos anglo-saxónicos tem efeito seguro. Pedem logo desculpa, vão dar-me uma pulseira de prioridade. Não me podem dar a medicação e exames sem ser vista por um médico. Sorry. Mais umas horas de espera, o meu filho entra na unidade restrita e agarra um dos médicos do dia anterior, o que não tinha visto a necessidade da cirurgia. Pede-me desculpa das inconsistências do NHS. Diz-me para escrever uma carta e apresentar a reclamação. Porque foram rudes e isso afeta todo o sistema. Rudes? É esse o problema? Rudeza? Negaram-me tratamento. O NHS está muito sobrecarregado. Dá-me os exames, com ar pesaroso, depois de muita burocracia e vários impedimentos e uma conversa absurda sobre a proibida transmissão de dados para fora do UK. Tenho direito a um CD, peço a análise do sangue, dão a injeção, não a medicação. Tenho para 24 horas de efeito anticoagulante, por causa do avião. Tinham-me falado numa caixa de medicação, antes. Em Lisboa, trate do resto. Da ortopedista, nem sinais. Ou de um ortopedista. Fui expulsa do sistema.

Estou em Lisboa, a ser muito bem tratada pelos médicos portugueses. Sei que o nosso depauperado SNS, para o qual pago impostos, jamais faria isto a um cidadão britânico. O ‘Brexit’ já aqui está. 

O português com sotaque britânico que conduzia o Uber que me levou a casa, depois de 25 anos a trabalhar no país, mulher e filha com passaporte britânico, viu-lhe negado o pedido de residência fixa por causa de uns papéis em falta dos últimos seis meses. Fazem-lhe a vida negra.
No NHS, mal pus os olhos num “puro-sangue”. Médicos e utentes? Vi imigrantes e descendentes de imigrantes, com uma ou outra exceção. Quem vai limpar as latrinas dos ingleses? Os ‘brexiteiros’, espero. Vai fazer-lhes bem.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O Benfica joga hoje... está tudo bem!


Aparentemente parece que nada se passa. Que tudo funciona bem e que os graves problemas da sociedade, naqueles pilares essenciais, saúde, educação e segurança social (na esteira destes muitos outros de acordo com a "pirâmide das necessidades" de Maslow), são falsas questões geradas por uma oposição política acéfala! Mas o que dizer de 31% da população pobre ou em risco de pobreza? O que dizer de 65% da população apenas possuir até ao 9º ano de escolaridade? O que dizer do abandono e do insucesso escolar? O que dizer da ausência de capacidade profissional de resposta às necessidades? O que dizer da mentalidade e cultura, entendidas como conhecimento sustentado e adequado às múltiplas situações? O que dizer de quem deseja ter um emprego mas que não deseja "trabalho"? O que dizer dos baixíssimos salários e dos impostos pagos? O que dizer de gentinha que, à socapa, insiste em "roubar" as riquezas naturais, daí fazendo fortunas mal explicadas? O que dizer do paleio político promíscuo, de uma falsa concorrência, da exploração dos mais vulneráveis e da fome tornada paisagem? Certamente, tudo invenções de quem não deseja o bem-estar que, repito, parece existir. 


Vivem-se tempos conturbados, assentes em uma lógica de mentira e do salve-se quem puder. O resvalar é suave e contínuo. Toma-se conhecimento da aldrabice, de actos indiciadores de corrupção, de situações absolutamente chocantes e, apesar de alguns acórdãos da Justiça, continua a luta pela conquista de dinheiro fácil. A degradação das instituições é evidente e poucas escapam ao desnorte. Fazem às escâncaras, sem pudor quase tornando normal a anormalidade. A mediocridade ascende pela via partidária e perdeu-se o sentido de assumpção das responsabilidades. Substituem-se pessoas de valor por outras sem qualquer percurso. Colocam-se pessoas por amizade e relações familiares, porque a competência deixou de ser relevante. Uns saem de um posto, mas logo aparecem em um outro, criado à medida, sem qualquer preparação específica para o seu cabal desempenho.

Andam pelas escolas a enaltecer a "meritocracia", mas, em contraponto, mais tarde, entregam o desempenho político a pessoas sem currículo e sem mérito. A família deixou de ser central na estrutura da sociedade. Em tempo devido não houve o cuidado de (re)organizar a sociedade em função da entrada da mulher no mundo laboral. O défice demográfico é preocupante. O endividamento dispara. A violência anda à solta. Mata-se. O sistema educativo está de pantanas, sem rumo, desadequado, quizelento, burocrático e angustiante para quem trabalha. O medo faz parte do dia-a-dia. O número de suicídios é assustador. 

No sistema de saúde prolifera o caos, a desordem, os atrasos e a falta de adequado financiamento. Tudo funciona pelas pontas. A Justiça continua mais amiga dos ricos do que dos pobres. O sistema empresarial está sobrecarregado em custos de contexto, mas face a tudo isto, repito, aparentemente, parece que nada se passa. Continuam a ser sensíveis peitos cheios de "ar poluído", discursos ocos e subtilmente elaborados, visitas aqui e ali que não trazem nada de novo, tampouco a esperança, porque deixámos de ter estadistas, mas políticos que apenas olham para a eleição seguinte. Chegou-se ao ponto de uma execrável "corrupção partidária", onde um cidadão não sendo militante, porém, cheio de ambição, querer liderar um partido ultrapassando todas as fases estatutárias. Ah e continua aquela lengalenga do "inimigo externo" para justificar múltiplas incapacidades de governação. Aparentemente, parece que nada se passa. Tudo decorre com normalidade!
Pessimismo? Não, a realidade. Não sei a quem perguntaram aquilo mesmo e a resposta veio célere: "pessimista, eu? Não, apenas sou um optimista com alguma experiência".
O Benfica joga hoje... está tudo bem!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

A corporação


Por estatuadesal
Daniel Oliveira, 
in Expresso, 
26/10/2019

O nascimento de uma criança “sem rosto” seria, pelo horror e pela impotência, assunto para tabloides. Porque se nada se pudesse ter feito nada haveria para dizer e se fosse apenas um caso de negligência médica seria à justiça que caberia agir e a nós esperar. Só que a história do obstetra de Setúbal não é de ontem. Houve muitas queixas gravíssimas à Ordem dos Médicos e até houve um processo que chegou a tribunal. Sim, tudo foi arquivado ou continua pendente. Sucessivamente arquivado, eternamente pendente.


 A imprensa traz relatos de mães e o padrão é sempre o mesmo: desleixo e trabalho feito à pressa. Não é um médico qualquer, desses que ninguém imagina como acabou um curso onde tantos se esfalfam para uma vida que não é nem glamorosa nem fácil. Chegou a chefe de obstetrícia no Hospital de São Bernardo e era sócio de uma clínica a quem o Estado contratava exames. A rapidez garantia faturação. Artur Carvalho era conhecido no meio como o doutor 5 minutos.
Não é um caso para tabloides porque nos conta uma história para lá do choque e da indignação rápida e fácil. Por cada erro deste médico — e só conhecemos aqueles em que os pais tiveram forças e conhecimentos para apresentar queixa — houve outros médicos que acompanharam depois os casos. Que souberam e perceberam o que tinha falhado. Que talvez até o tenham reportado a superiores. E nem eles nem os superiores agiram perante a suspeita de tão criminosa negligência. Foram sempre os pais, suas vítimas arrasadas, que se mexeram. E tantas queixas não fizeram tocar uma campainha na Ordem dos Médicos, que burocraticamente foi arquivando, até chegar à imprensa. Aí sim, suspenderam o médico e foram tratar do que estava pendente. É revelador do poder da corporação a rapidez com que o spin da Ordem, que anda há mais de dez anos para criar uma certificação para realizar ecografias, conseguiu que os holofotes se virassem para a entidade reguladora do Estado, que tendo falhado grosseiramente na inspeção à clínica não tem a responsabilidade ou capacidade de regular as práticas médicas de Artur Carvalho.

O que falhou tem um nome: corporativismo. Está longe de ser um problema específico dos médicos. É de advogados, que tantas vezes convivem em silêncio com vendilhões que usam o estatuto para esconderem o que não deveria ser o seu ofício. É de polícias, que se calam perante os abusos dos que se esquecem que a sua função é defender a lei. É de jornalistas, que são coniventes com os atropelos quotidianos ao código deontológico em nome do negócio.

É de professores, que se recusam a agir quando são chamados a investigar condutas pouco profissionais de colegas seus. É o que levou militares a cometerem crimes contra o Estado para manter uma falsa imagem de dignidade da instituição. O corporativismo é um vírus contra a democracia. Especialmente presente em atividades com poder, protege os membros de um copo profissional do escrutínio público, da regulação ou até da lei, deixando os cidadãos vulneráveis. Quando os bons profissionais deixam os maus profissionais à solta são seus cúmplices. Foram cúmplices os médicos que souberam de Artur Carvalho e nada fizeram. Porque tinham os instrumentos e o saber que nos faltam para nos defender. Esta é a história do pacto de silêncio que atravessa tantas profissões. Uma mão lava a outra porque nunca se sabe o dia de amanhã.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A história não pára


Por estatuadesal
Alexandre Abreu,
in Expresso Diário,
24/10/2019


A América do Sul é há muito o continente com mais elevada desigualdade socioeconómica, herança das características do sistema colonial e esclavagista, do padrão de concentração fundiária e da acção das ditaduras de direita que dominaram o continente durante a segunda metade do século XX. No final da década de 1990 e na década de 2000, esta tendência começou finalmente a alterar-se com a chamada ‘maré rosa’, concretizada na ascensão ao poder, num país após outro, de governos de esquerda ou centro-esquerda. Esta inflexão política levou à saída da pobreza de muitos milhões de pessoas e à redução dos níveis de desigualdade: mesmo continuando a ser o mais desigual dos continentes, a América do Sul foi neste período o continente em que esta mais diminuiu, convergindo significativamente em relação à média global. Os factores mais importantes para isso foram a melhoria dos níveis de educação, as transferências sociais e as políticas laborais, particularmente quanto ao salário mínimo.

Porém, é também verdade que a acção dos governos da ‘maré rosa’ teve importantes limitações, incluindo o facto de ter assentado demasiado na redistribuição dependente da fase de alta dos preços das matérias-primas em detrimento da transformação das estruturas económicas fundamentais, nomeadamente no que diz respeito ao modelo extractivista predominante. Isso tornou esta vaga progressista especialmente vulnerável a uma contra-reacção conservadora, particularmente aquando da fase de queda dos preços das matérias-primas no mercado internacional que ocorreu de 2010 em diante.
Erros estratégicos próprios, a má fortuna da evolução do mercado internacional e o ódio ardente das elites conjuraram-se assim para permitir uma nova ascensão de governos conservadores um pouco por todo o continente na última década. Num país após outro, através de eleições ou de golpes constitucionais ou inconstitucionais, a direita conservadora regressou ao poder e reestabeleceu a orientação neoliberal na política económica, levando logicamente a que, na década de 2010, o caminho de redução da desigualdade no continente se detivesse. Mas a reacção a este recuo não haveria de se fazer esperar, e aquilo a que estamos a assistir agora em diversos países não é outra coisa senão uma nova vaga de levantamento popular contra os retrocessos sociais e económicos impostos pelo rumo neoliberal e conservador que nos últimos anos voltou a tomar conta do continente.

No Chile, os estudantes e as classes populares erguem barricadas contra o aumento dos preços dos transportes, mas esta é apenas a causa próxima: o motivo mais profundo é a revolta contra décadas de estruturas e políticas neoliberais que remontam à ditadura de Pinochet e que as três décadas de democracia não só não desmantelaram, como em muitos casos aprofundaram: o modelo de capitalização privada da segurança social que deixa centenas de milhares de idosos desprotegidos, a saúde apenas ao acesso dos mais ricos, as elevadas propinas para acesso ao ensino, a privatização da água.

No Equador, a revolta popular e dos povos indígenas foi desencadeado pelo anúncio do aumento do preço dos combustíveis, mas dirige-se de forma mais geral contra o duríssimo pacote de políticas neoliberais que tem vindo a ser implementado pelo Presidente Lenín Moreno, protagonista algo surpreendente do retrocesso neste país na medida em que foi eleito pelo mesmo partido de esquerda do seu antecessor Rafael Correa e só alterou radicalmente a sua orientação política após as eleições. Na Argentina, os eleitores preparam-se para daqui a três dias castigar nas urnas Mauricio Macri, cujas políticas nos últimos quatro anos fizeram voltar a disparar os níveis de pobreza e desigualdade.
Em muitos destes casos, a reacção dos líderes políticos mostra o quanto a preservação de políticas neoliberais socialmente destrutivas não dispensa o autoritarismo. Moreno, no Equador, e Piñera, no Chile, responderam aos protestos através de uma vaga de repressão policial que provocou sete mortos no primeiro destes dois países e, até agora, mais de uma dezena no segundo. Mas o recuo de ambos num segundo momento, ainda que seja meramente táctico, mostra também que há limites para a capacidade de reprimir a força popular quando esta se levanta contra a injustiça.
Uma coisa é certa: a história não pára, e as lutas sociais entre as classes populares e as elites, na América Latina como noutras partes do mundo, não terminam por decreto.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Oh PS... não resvales!


Duas notas que evidenciam a minha dificuldade em perceber a atitude do Partido Socialista: primeira, o voto favorável a Christine Lagarde para presidir ao Banco Central Europeu; segunda, a não ratificação escrita de um acordo com o Bloco de Esquerda para a presente de Legislatura.


No primeiro caso, fico com a ideia que os socialistas esqueceram, rapidamente, a forma como Christine Lagarde actuou no caso da assistência financeira a Portugal no âmbito da Troika. Foi demasiado evidente que a "receita" aplicada, historicamente baseada em uma severa austeridade, não fazia sentido, o que mais tarde veio a provar-se. O seu passado, inequivocamente explicado no "The Daily Telegraph" e transcrito no Courrier Internacional de Setembro último, demonstra o fracasso da sua perversa orientação política ao serviço da sua matriz política. Durante todo esse tempo, o que me pareceu espantoso, foram as constantes e desnorteadas alterações discursivas da citada Senhora, terminando com um elogio às políticas dos últimos quatro anos, no caso português, influenciadas por partidos à esquerda. Mas mesmo assim esqueceram-se e a Lagarde concederam o benefício da dúvida. Esquisito, muito esquisito, mesmo considerando que o PS integra um grupo no Parlamento e existem concessões, sublinho, face às quais não me revejo. O exercício da política não pode ser um "toma lá dá cá".
No segundo caso, não tendo maioria na Assembleia da República, em nome de alguma estabilidade, é inexplicável um não acordo escrito com o Bloco de Esquerda para toda a Legislatura. O PCP, pelo que deduzi, desde início colocou muitas reservas, o que não aconteceu com o BE, partido exigente, é certo, mas dialogante, aberto e que poderia constituir a base de segurança para uma Legislatura sem grandes sobressaltos. O que irá acontecer nos debates dos próximos orçamentos de Estado poderá  ser muito complicado que, porventura, seria atenuado com negociações prévias.
Oh PS... não resvales! A direita já está ocupada e nessa área ideológica há quem saiba fazer melhor.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 20 de outubro de 2019

Fechado sobre si mesmo


Por
ROBERTO FERREIRA
Dnotícias
20 OUT 2019

Este governo não dá nenhum sinal de abertura ao exterior, aos independentes.


Roça o anedótico o que assistimos nesta última semana na frente política. Mesmo antes do governo ter tomado posse já andava na rua a frenética dança das cadeiras, com a mira apontada aos lugares cimeiros da administração pública regional, sem qualquer pudor, sem qualquer reticência nem recato.
‘Nada de novo no Reino da Dinamarca’! O elenco governativo foi debatido e conhecido antes do Representante da República ter tido conhecimento oficial do mesmo. Formalismos para quê? Importa continuar a governar com os ‘amigos’ na linha da frente. Tira-se dali, coloca-se acolá. O antigo secretário das Infra-estruturas vai liderar as Águas e Resíduos. Por que motivo? Ninguém sabe e poucos querem saber. Rita Andrade passa da Inclusão para o IASAUDE, mesmo sem habilitação para tal. Qual é o problema? Segue-se pelo caminho menos óbvio e muda-se a lei, pois claro. Paula Cabaço sai do Turismo, depois de ter sido vexada no Instituto do Vinho e do Bordado, com todos os indicadores a bater no fundo e com o sector à deriva e segue para a administração dos Portos. Normal...O ex-director regional dos Assuntos Europeus – alguém lhe conhece obra? – segue para a Habitação, cuja administração passa de três para cinco membros. Normalíssimo. A dirigente que mandava no IHM, por sua vez, salta para o Instituto de Emprego. Obviamente que as políticas de habitação são transversais com as novas funções, mas o mais importante é ter currículo partidário e ter marcado sempre presença no Chão da Lagoa.

Os casos são tantos que ocupavam esta página inteira, mas seria penoso para o leitor. O que podemos concluir de toda esta esquizofrenia política é que pouco importa a qualificação profissional dos titulares dos cargos públicos. Pouco importa se têm ou não currículo na gestão de empresas, se têm caminho feito ‘cá fora’. Importa sim que sejam fiéis aos líderes, que não levantem problemas ao partido e que não escrevam opiniões embaraçosas. 

‘Roma não paga a traidores’ e isso aplica-se na perfeição ao actual estado de coisas na Madeira que acaba de sair de um acto eleitoral que não viabilizou nenhuma maioria absoluta. E o que faz o CDS? Apressa-se a colocar os seus, claro está. O azul passa também a figurar na orgânica oficial. Dá para os dois. Se não houver vaga acrescenta-se umas cadeiras à mesa, que a ‘rapaziada’ não pode andar à solta.
Este governo não dá nenhum sinal de abertura ao exterior, a pessoas competentes que não tenham filiação partidária. Todos os lugares de decisão são preenchidos por gente da ‘máquina’. Penso que é caso único no país e na Europa. O PSD-M está vergado pelo peso do carreirismo, não apresenta ideias novas, nem mobiliza projectos sociais. Está fechado sobre si mesmo.
E enquanto se assiste a esta voracidade colectiva pelos lugares de topo da administração ficamos a saber que uma das primeiras medidas tomadas pelo novíssimo executivo prende-se com a arte de comunicar. A partir de agora a comunicação passa a ser coordenada pela presidência do governo. Mas não é isso que deve acontecer em todos os executivos, promovendo uma comunicação competente, clara e imparcial que não beneficie uns em detrimento de outros?

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Madrid se mata


Valdemar Cruz, 
in Expresso Curto, 
15/10/2019

Na monarquia espanhola não parece haver espaço para a república da Catalunha. O Supremo Tribunal acolheu a acusação de “sedição” e condenou a penas entre os nove e os treze anos de prisão e perda de direitos políticos a nove dos doze dirigentes independentistas catalães. Em simultâneo foi reativado o mandado de captura europeu contra o ex-presidente da Generalitat, Jordi Puigdemont.



Pedro Sánchez, Primeiro-Ministro espanhol, tinha a faculdade de proclamar um indulto, mas a pressão exercida pela direita e pela extrema-direita (que antes mesmo do julgamento já o acusava de pretender indultar os presos, o que pressuponha que os considerava culpados antes de serem julgados), inibiu uma decisão que poderia amenizar as consequências de uma das mais graves crises institucionais alguma vez enfrentadas por Espanha desde a proclamação da Constituição de 1978, abrir espaço para um novo tipo de diálogo e fazer impor o primado da política após as deliberações unânimes dos juízes do Supremo. Para que não ficassem dúvidas sobre o seu compromisso, Sanchez anunciou o “absoluto cumprimento da sentença”.
Apesar de, como o reconhece o El País num editorial de total apoio à condenação dos dirigentes catalães, ser “evidente que a aplicação do Código Penal por parte do Supremo Tribunal não resolverá a crise constitucional provocada por uma estratégia que é sem dúvida política, mesmo se assente na ilegalidade”
Em algumas áreas de opinião espalha-se a convicção de que os catalães saem humilhados de uma sentença histórica através da qual a sociedade espanhola no seu todo vê serem postas em causa questões muito sérias sobre a liberdade de expressão, de reunião e de manifestação. Se nos anos glamorosos de 1980, da movida espanhola saía a expressão “Madrid me mata”, este pode vir a transformar-se num tempo de chumbo em que, com tantas e tão complexas feridas abertas, poderá caber a ideia de que “Madrid se mata”. É mais uma das incógnitas para o futuro.

Desde logo porque na sociedade espanhola há quem veja a sentença como uma vitória das “pombas”, para completo desagrado e revolta dos “falcões”. Não por acaso, nos sectores mais ligados à direita radical, a que o jornal “El Mundo” dá voz, expressa-se um total desagrado por uma sentença que, não apenas deixa cair a acusação mais grave – o crime de rebelião – como permite que os presos tenham acesso desde já a alguns direitos.

A violência saiu à rua mal foi conhecida a sentença, tornada pública em plena campanha eleitoral espanhola. Numa réplica do que tem sucedido em Hong Kong, com milhares de pessoas a manifestarem-se, o aeroporto de Barcelona depressa se transformou no centro dos protestos, com mais de cem voos cancelados.
O Futebol Clube de Barcelona, uma das grandes instituições catalãs, publicou no seu sítio oficial um comunicado intitulado “A prisão não é solução”, no qual, para lá de expressar toda a sua solidariedade para com “as famílias dos que estão privados de liberdade”, refere que, na senda da sua histórica posição de defesa da liberdade de expressão e do direito a decidir, sustenta que “a resolução do conflito que vive a Catalunha passa, exclusivamente, pelo diálogo político”.
O tema continuará na agenda nos próximos tempos e novas ações de protesto estão programadas, até porque, como assinala o jornal El Público, há pelo menos dez incógnitas que ficam agora no ar resultantes deste processo. Para nenhuma delas há respostas fáceis, com milhares e milhares de catalães disponíveis para manifestarem a sua indignação por uma sentença que, é assinalado em alguns meios, aplica, em média, penas mais pesadas aos independentistas catalães do que aos autores do golpe de Estado desencadeado em 23 de fevereiro de 1981 por militares franquistas.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Independentemente de qualquer posição


O insulto à Catalunha

Por estatuadesal
Joseph Praetorius,
15/10/2019

Não há e não pode haver crime de sedição. "Seditio" é a palavra que aparece no diálogo de Marcus e Quintus, legado por Cicero. Quando o jovem patrício protesta contra os exagerados poderes dos tribunos da plebe, chama ao respectivo exercício - Sedição. Os melhores e mais exactos tradutores de hoje preferem a palavra "Revolução" para traduzir a posição do patrício, mas não estou de acordo.

Revolução é palavra que nos virá com Galileu e não podia ter existido sem ele. (Sim, há um pouco mais no caso de Galileu do que aquilo que usualmente se conta). E também a Revolução não pode ser crime. O regresso ao início da órbita é olhado como a restauração dos direitos violados pela opressão.

Face ao Sagrado Direito da autodeterminação dos povos (sagrado no mais estricto dos sentidos) o crime vem no ultraje repressivo, na conduta fraudulenta do ocupante, como nos arremedos caricaturais de pretensa Lei que invoca.

A sentença contra os dirigentes catalães é um crime.

Deve ser vaiada assim, em uníssono, por todos os catalães. Punida com severidade exemplar, quando o momento chegar. Deve ser repudiada pela União Europeia cuja Carta dos Direitos Fundamentais viola, condenada pelo Conselho da Europa e pelo seu Tribunal Europeu dos Dieitos do Homem e merece bem a censura pela mais vasta assembleia representativa dos povos da terra, sim, merece bem uma resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas.
O manequim da Calle de los preciados na Zarzuela já está julgado pela sentença popular, afirmada nas urnas e nas ruas - "A Catalunha não tem rei".
Isso, como um papa de Roma disse de outra coisa e noutra época, isso "está manifestamente provado". Ali estava manifestamente provado que havia um Rei, aqui está manifestamente provado que o não há.

domingo, 13 de outubro de 2019

30ª Vítima de Violência Doméstica




Por
Maria José da Silveira Núncio
PÚBLICO
7 de Outubro de 2019

Talvez seja melhor desistir. Desistir de escrever sobre as mulheres que vão morrendo às mãos daquele que amaram. Desistir de escrever sobre os preconceitos, os estereótipos, os contextos, as mentalidades, a sociedade... Desistir de me indignar com um sistema que não protege e que, ao invés, torna as vítimas cada vez mais vítimas. Desistir de me revoltar contra o voyeurismo macabro, sensacionalista e imundo que noticia cada nova morte. Desistir de me arrepiar com os aproveitamentos extremados que, em nome das mulheres (e que mulheres?), apelam a uma espécie de “guerra civil do género”.

Desistir de me enervar com as promessas (tantas), as comissões (várias), os grupos de trabalho (redundantes) que, compungidos e compenetrados, emergem a cada morte, como sempre emergiram as carpideiras, nos enterros de aldeia. Desistir de me espantar com a indiferença, que vai tomando conta de uma sociedade, ou seja, que vai tomando conta de nós. Uma indiferença que “normaliza” e que, por normalizar, legitima e valida, num encolher de ombros e num suspiro resignado…
Desistir de me zangar porque há mulheres que são, aqui no meio de nós, clandestinas, refugiadas, fugitivas. Mulheres desapossadas da sua identidade e da sua vida e da sua casa e da sua roupa, tentando refazer os pedaços de si mesmas (e os pedaços dos seus filhos) em casas-abrigo, escondidas do mundo. E são tantos os pedaços em que se desfizeram! E estão mortas, também, estas mulheres, ainda que respirem e se alimentem e durmam (a custo) e, às vezes, mas só mesmo às vezes, até sorriam.

Desistir de me enfurecer com os homicidas e com os agressores, pela sua crueldade cobarde e atávica. Desistir de me enraivecer com a lei, os juízes, os procuradores, os polícias, pela sua ineficiência, e pela sua ineficácia. 

Desistir de me desapontar com os teóricos e especialistas vários, pelo seu desfasamento do real, preocupados em encaixar em modelos explicativos a crueza de vidas sem explicação. Talvez seja melhor desistir, pelo respeito por cada mulher que morreu às mãos de quem amou e por cada mulher que sobrevive, compondo os pedaços da sua existência estilhaçada.
E talvez seja melhor desistir, por respeito a uma memória: a memória de uma mulher que conheci em tempos. Uma mulher explorada sexualmente e maltratada pelo seu chulo (que era, também ou sobretudo, o homem que ela amava). Uma mulher que um dia, com o peito coberto dos hematomas da última tareia, me disse que ali, naquele tronco roxo e amarelado, estava a prova do amor. Estava a prova de que ele a amava… É que, explicou-me essa mulher, apesar de tudo, o “seu homem” tinha o cuidado de nunca lhe bater na cara. E isso, afinal, o que poderia ser, senão amor?

Socióloga
Professora universitária ISCSP-ULisboa

sábado, 12 de outubro de 2019

Apenas um desabafo de estupefacção!


Com toda a certeza, as regras alteraram-se e eu não dei conta. Pode ser o caso. No tempo que pelo exercício da política andei, um qualquer cidadão inscrevia-se no partido, pagava regularmente as quotas e, ao final de um ano, adquiria capacidade para eleger ou ser eleito para os órgãos do partido. Mais tarde, se não estou em erro, de um ano passou para seis meses. Há um processo absolutamente claro e justificável. Estranhei, por isso, que um independente (simpatizante), tivesse assumido, publicamente, foi o que concluí, atenção, preparem-se que vou tomar conta disto.


Repito, porque sou apenas, neste momento, um cidadão não filiado em qualquer partido, que, se calhar, as regras alteraram-se e eu não dei conta. O que aqui deixo escrito, se não corresponde à realidade estatutária, desde já, antecipadamente, a todos peço desculpa. 
Mas sempre adianto mais umas quantas perplexidades, tomando como certo os estatutos que conheci. O último Congresso do PS foi realizado em finais 2017, logo, entre Dezembro e Janeiro de 2019/20, no máximo, deveria ter lugar um novo Congresso Ordinário. Ora, o Senhor Dr. Paulo Cafôfo, ainda independente, julgo eu, não poderá candidatar-se por falta de tempo mínimo de inscrição no partido. Se assim é, continuo a escrever desconhecendo se, entretanto, as regras foram modificadas, as eleições directas e o respectivo Congresso terão de ser adiados para que tal candidatura cumpra o tempo necessário. Isto conduz-me a duas perguntas: a primeira, se não existe no PS-Madeira militantes, com capacidade eleitoral, para que os prazos sejam cumpridos? A segunda, corresponde à minha perplexidade relativamente aos militantes aceitarem esta situação?
Mais um pormenor. Considero absolutamente normal que um cidadão independente possa ser convidado para que, na Comissão Política, desenvolva um qualquer assunto de oportunidade política. Isso, pelo menos para mim, é pacífico. O que já não é, porque considero deselegante e desadequado, antes, durante ou depois da Comissão Política, assumir que irá filiar-se tendo como objectivo liderar o partido, com um "projecto abrangente" (...) "que conta com Emanuel Câmara e Carlos Pereira" (...) que deseja "fazer política de forma diferente" (...) que "irá dar os passos necessários para construir este caminho", enfim, tudo isto nas barbas do actual presidente do partido. (Fonte: edição do DIÁRIO de 10 de Outubro de 2019).
Mesmo que tudo esteja previamente combinado, julgo eu, à luz do bom senso e do respeito por quem lhe abriu as portas do Partido Socialista, desde 2013, exigia-se uma atitude comedida, não dando passos superiores à própria perna. Só que a política está assim, pantanosa, mas se calhar eu é que estou errado. E não me admiraria, neste contexto, que um dos subscritores da filiação partidária seja, exactamente, o Dr. António Costa, com um jantar de homenagem ao "ilustre membro" agora de "cartão passado". 
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

"São paletes" de interesses e de cumplicidades...


Há pessoas que nascem com uma admirável capacidade de adaptação. São enciclopédicas no conhecimento de tudo quanto as rodeia. Por maior que seja a complexidade. Eu diria que pertencem ao grupo do "desenrasca". Crescidos em ambiente político favorável, estão ou vão, alegremente, para onde o padrinho indicar. Com a maior facilidade denunciam que dominam tudo, que é multifacetada a sua competência, embora seja outra a idoneidade profissional. Polivalência e nariz colado ao joelhos é o que mais se vê. E isto é extremamente preocupante, porque é a "coisa pública" e o futuro que estão em causa. Pelo menos a mim deixa-me inquieto, simplesmente porque seria incapaz de aceitar um lugar para o qual não tivesse formação condizente e um passado de experiência, percorrido em vários patamares, que me habilitassem para uma determinada tarefa. Alguns chamam àquilo a "dança das cadeiras", porém, é muito mais complexo do que isso. Na expressão de Herman José, "são paletes" de interesses, de cumplicidades e, em alguns casos, de alguma falta de vergonha. Um cidadão atento é capaz de sentir revolta.


Tempos houve, mesmo antes do 25 de Abril, que, para além da fidelidade partidária tornava-se necessário ter idade, leia-se maturidade, e competência. Hoje, basta andar pelos corredores do poder partidário, fortalecer laços de amizade, acrescido de uma mãozinha de fora para dentro que dá sempre jeito.
Fará algum sentido ser dispensado do governo e na legislatura seguinte regressar ao mesmo local? O que aconteceu de permeio? Fará sentido, a quem foi feita a acusação de "estar a dormir na forma" e, por isso, logo depois dispensada, aceitar pertencer a um governo, ser novamente dispensada e ter caminho aberto para liderar os portos da Madeira, sendo a sua formação na área da engenharia agronómica? Será que gerir uma escola de hotelaria ou de música é a mesmíssima coisa que administrar um sistema de saúde? Faz sentido uma socióloga liderar um instituto de saúde? E um farmacêutico reunirá as condições para liderar assuntos do mar e pescas? Politicamente pode, mas não me parece adequado.  E isto nada tem a ver com as pessoas, que as respeito, mas com a necessária adequação entre a formação, a experiência e a função. São tantos os exemplos.
Mais. Para contemplar interesses diversos, nesta região, de pouco mais de 260.000 pessoas, fará sentido ter um governo que passa de nove para onze governantes? E manter uma Assembleia com 47 deputados? E uma estrutura político-administrativa geral que significa um Estado dentro do Estado? 

Não se deve comparar a dignidade Constitucional de uma Região Autónoma com um concelho. Mas atrevo-me, por mera curiosidade, trazer à colação Sintra que tem mais de 100.000 habitantes que a Madeira e é gerida por um presidente de Câmara e dez Vereadores. Aqui temos, praticamente, um Estado dentro do Estado. Tudo isto deverá ser motivo de estudo que conduza a novos reenquadramentos, desde a divisão administrativa da Região até aos lugares de administração e gestão absolutamente dispensáveis. 
Ganharia a Autonomia e ganhariam as pessoas.

Apenas uma nota: nos Açores, com nove ilhas, distantes 600 km entre a primeira e a última, o governo é composto por um presidente, um vice-presidente e sete secretarias*. Aqui, para governar duas ilhas são necessários onze membros do governo. Está tudo dito.
Mas este texto não visa essa análise, antes a febre por um lugar mesmo que para tal, alguns ou muitos, não tenham a necessária formação. É tempo de pensar nisto, na necessidade de uma profundíssima reforma do sistema político, uma assumida posição contra este claro jogo partidário, onde as peças deixem de rodar de acordo com os interesses, com as cumplicidades, a satisfação de clientelas e, poucas vezes, com a competência.


Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A história de um casalinho


O resultado era esperado. O casamento de conveniência também. Tal como na velha historieta, pergunto-me, se por amor ou por interesse? Neste caso, deduzo, por óbvio interesse, porque amor parece-me não existir. Nunca teriam dado o passo em frente. Foram quarenta anos de péssima vizinhança sempre que assomavam à janela, com ofensas mútuas, só que ela, com o passar dos anos, sentia-se a ficar com os "pés amarelos" e, portanto, aqui chegada, acabou por entregar-se, completa e doidamente, nos braços de quem lhe fez a vida negra. Surgiram as juras e, no altar, engalanado e cheio de convivas, vão dar o passado como tempo perdido. No fundo, apesar da crispação ao longo de todos estes anos em que se cruzaram, ela sempre teve um secreto fraquinho, pensava nele, sobretudo porque adora ser submissa. Contenta-se com pouco. Um dia disseram-lhe que mais valeria ser rainha por um dia do que princesa toda a vida! E ela acreditou.


Ela não se importa de ser obediente ao senhor, rico, cheio de tiques de quero, posso e mando. Acomodou-se e "amochou". Ao nariz empinado fez uma operação plástica. Ficou direitinho. O senhor leva já dezenas de anos a "virar frangos" e sabe como assá-la em lume brando, tornando-a boa menina apesar da idade. Se ela, a mocinha que nunca teve a oportunidade de casar, mas que sempre enfrentou o desejado, com esta mudança de estatuto social, fica obrigada, publicamente, a andar de cabisbaixo, de véu, silenciosa, engolindo em seco o dito e o pensado durante anos, inclusive, as próprias ofensas à família. Infantilmente, sonha que irá partilhar e herdar alguma coisa. Por isso, jamais será a mesma. Jurou fidelidade, nos "pensamentos, actos e omissões", mas não é virgem. É o seu ponto fraco. Em tempos andou com outro, pobre, e dele se desligou na primeira esquina. Não lhe garantia futuro, ouro, jóias, benesses, os encantos das festas e aquele carrinho preto com motorista à porta que tanto gosta. 
O senhor abraçou a noiva, mas sem a olhar de frente. E já lhe disse: ficas com a responsabilidade da cozinha e dos jardins e quero que sejas a governanta daquele espaço lá em baixo, mas não te metas em sarilhos. Aceitou e ajoelhou!
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

NÃO É DIFÍCIL DE ENTENDER



Depois disto e muito mais que pode ser consultado no Diário das Sessões da Assembleia, à luz do que é o exercício da política nos dias que correm, não é difícil entender por que decidiram "juntar os trapinhos". Tudo bem, trata-se de um acto democrático, sendo também muito difícil perceber, hoje, no plano ideológico, onde termina um partido e começa o outro. O desejo é de ambos, portanto, que vivam com decência. Mas não será fácil, porque de um lado e do outro, presumo, serão muitos os sapos a engolir nos próximos tempos! Em todos os sectores e áreas da governação.

sábado, 5 de outubro de 2019

Dr. Tranquada... eles vão dar o nó!


FACTO

"Quem utilizar a presidência da Assembleia para meros jogos de poder, ou de ambições pessoais, distorcendo a vontade maioritária dos cidadãos, presta um mau serviço à democracia e à autonomia" (...) um presidente do parlamento imposto de fora para dentro nunca será amado e respeitado (...)". Fonte: Dnotícias.

COMENTÁRIO

Diz o aforismo: "quem se põe a amar, põe-se a padecer". E assim sendo, tem humor e constitui tiro certeiro a sugestão do Doutor Nelson Veríssimo: "Não sei se a coligação PSD/CDS já tem hino próprio, mas sugiro o «Haja alegria», dos Irmãos Freitas: "(...) haja alegria, muita animação, que o Manel mais a Maria são da mesma opinião (...)".
Dir-se-á, portanto, que as declarações do Senhor Presidente da Assembleia, Dr. Tranquada Gomes estão desfasadas da realidade e feridas de oportunidade. O que ontem afirmou no decorrer da cerimónia do Dia do Concelho de Câmara de Lobos, trouxe-me à memória a alegoria de Spenser Johnson, no livro "Quem mexeu no meu queijo", ou, então, por adaptação, estão a mexer no meu queijo! E a democracia não é isso, Dr. Tranquada. A democracia implica humildade, desprendimento e serviço público à comunidade. Nunca manifestação pública de apego ao poder. E se o Manuel e a Maria são da mesma opinião, ora bem, padeça em silêncio. Não é em uma cerimónia pública, onde há tanto por dizer, entre outros, sobre a Autonomia, sobre as relevantes questões autárquicas, sobre o presente e o futuro da sociedade, o local apropriado para falar de questões partidárias e até pessoais. O presidente da Assembleia, deve falar de queijos, de amor e de respeito, sublinho, junto dos seus, mas nunca, em nome do Primeiro Órgão de Governo Próprio.
Se não entende o seu próprio partido, então, espere pelo divórcio, porque, denunciar que há fendas graves entre os namorados que, apesar disso, tudo leva a crer irão casar, penso eu, é delicado e menos acertado. É que eles vão dar o nó!

Eu naif me confesso


HELDER MELIM
DN- Madeira
04 OUT 2019

O CDS, já foi em Lisboa o “partido do táxi”, aqui e agora é o partido de sidecar (3 lugares)

Apesar dos meus 66 anos, de a vida me ter mostrado quase tudo e o seu contrário, de vez em quando ainda tenho uns laivos de naïveté, e espero que a vida seja ética e honesta e que as pessoas e os partidos se movam por ideologias e princípios e não por interesses. Caso flagrante foi o das recentes eleições para a ALR. Acreditei que o CDS, por já ter sido o principal partido da oposição, por ter sofrido na pele durante 43 anos todas as prepotências e desaforos do jardinismo, por ter assente a sua campanha no slogan “mudança segura”, por ter afirmado repetidamente que “estava de espírito aberto” para negociar à direita ou à esquerda (desde que o PCP e o BE não estivessem incluídos), por ter propagandeado que “respeitaria a vontade do eleitorado” fosse, de facto, capaz de promover uma mudança.


Nunca esperei que o CDS se “enfiasse de cabeça”, imediatamente, à primeira oportunidade, numa coligação com o PPD. Às 19:01h do dia 22, foi “amor à primeira vista” entre o fidalgo espúrio e falido e a filha roliça do lavrador abastado que estava com os “pés amarelos” por estar há 43 nos com o “rabo à porta”. Perante essa realidade, foi fácil ignorar os factos e interpretar os 60,58% de votos conta a continuidade, como sendo uma indicação clara e explícita dada pelo eleitorado para se coligar com o PPD. Nem o revisionismo dos passados 43 anos, nem as “desculpas da treta”, conseguem disfarçar minimamente esta realidade concreta. A ambição e a ganância pura e dura são quem mais ordena. A ética e os princípios só valem para consumo externo e para a campanha eleitoral. Saliento que não houve qualquer tipo de acordo pré-eleitoral entre o PPD e o CDS.
Os 43 anos de agruras e amarguras foram de imediato esquecidos devido às promessas dos “amanhãs que cantam”. A “mudança segura”, base da campanha do CDS, “mudança” essa que era diametralmente oposta à continuidade de Albuquerque, foi, imediatamente abandonada. Daniel Oliveira, escreveu: “...o JPP e o CDS (que passaram para metade), foram vítimas da vontade de mudança.” (Expresso de 23/09/19). Quanto ao “espírito aberto”, foi o que se viu, na primeira reunião com o PPD, na qual, sem hesitar “fechou” logo o “negócio”, sem sequer se dar à maçada de ouvir o que o PS tinha para oferecer. Grande abertura de espírito, não é? Quanto a “respeitar a vontade do eleitorado”, o CDS fez exatamente o contrário do que os eleitores expressamente indicaram.

“Trocando por miúdos”, se considerarmos os partidos que disseram explicitamente que queriam a mudança, quer fosse ela “segura” do CDS ou, “alternativa” do PS, totalizam-se 41,52% dos eleitores, e se a estes, somarmos os eleitores, que tanto à esquerda como ao centro e à direita, não votaram na “continuidade” de Albuquerque, temos 60,58% dos votos (sem falar nos brancos e nulos que também não querem saber de Albuquerque).

Confesso que o erro de análise foi inteiramente meu, embalado pelo “canto de sereia” de Rui Barreto, feito numa voz calma, profunda, pausada, vinda diretamente do coração. “Com papas e bolos se enganam os tolos” e confesso, a mim enganaram-me, levando-me a acreditar na mudança (mas não a ponto de votar neles).
Deixei-me enganar por considerar que a melhor solução governativa seria uma coligação, ou uma espécie de “pacto de regime” entre o PS, CDS e JPP, partidos moderados, um da esquerda, outro da direita e outro de Santa Cruz, que através de negociação e de “check and balances”, conseguissem um consenso sobre um conjunto de princípios com o objetivo de extirpar o Jardinismo da sociedade madeirense, acabar com o compadrio e com a corrupção. Enganei-me redondamente porque o CDS, não está interessado em nenhuma mudança, o que me leva a pensar que, afinal os 43 anos de críticas e “oposição” do CDS, foram apenas uma questão de “inveja pessoal” vulgar de Lineu, pois ao garantirem a sobrevivência do PPD, indissociável do jardinismo, das suas ideologia e praxis, farão com que tudo permaneça tal como está, em vez da “mudança” que reiterada e explicitamente prometeram ao eleitorado. Todavia aí já terão “um quinhão” e tudo passará a estar bem.
Sobre o tema VJSilva no Público de 24/09/19, escreveu “... o CDS que, no entanto, não deixou de celebrar pateticamente esses gloriosos três por cento como a confirmação do triunfo “do centro e da direita” (só porque iriam permitir a Albuquerque salvar por um triz a maioria absoluta perdida pelo PSD?)”.

Que ganhou o CDS com a coligação? Muito pouco. Era expectável uma Vice-presidência, como Passos fez com Portas; Albuquerque, contudo, não “abre mão” de Calado, e este não quer concorrência. Era expectável que o 2º partido da coligação tivesse direito à presidência da ALR, mas Albuquerque não “abre mão da presidência”. Terão direito no máximo, a uns lugarzitos para os boys e girls, a uma ou duas secretarias regionais, de segundo plano e controladas por Calado, como já acontece atualmente.

Em troca deste “prato de lentilhas”, devido a Rui Barreto estar “esgalgado” pelo poder, perdemos a oportunidade de ouro de mudar a Madeira. Daniel Oliveira dixit: “ Bem diferente seria se tivesse conhecido uma liderança que não se servisse dos recursos públicos para enriquecer uma pequena elite refém do seu poder pessoal. Estas quatro décadas foram marcadas pelo poder de um egomaníaco desqualificado que transformou a política local num chiqueiro boçal.”) (Expresso - Daniel Oliveira 23/9/19).
Penitencio-me mais uma vez por num fugaz momento ter-me deixado iludir e acreditado que um partido apologista de um conservadorismo social (estratificação e costumes), fiscal (diminuição dos impostos para os ricos), Liberalismo económico (mercado sem regras ou reguladores), populista de direita (a culpa de tudo é das esquerdas, nós daremos tudo a todos), fosse capaz de fazer qualquer “mudança”. O CDS fez apenas o que os neoliberais fazem de melhor, ou seja: “aproveitar-se da situação” sem o mínimo escrúpulo, coligando-se se necessário com o diabo, desde que isso lhe garanta o acesso ao poder e a servir os seus interesses bem como os da sua clientela.
Rui Barreto e “sus muchachos”, conseguiram colocar 60,58% dos votantes (86.742) com cara de “idiotas”, porque tiveram a veleidade de pensar que podiam mudar para melhor.
O CDS, já foi em Lisboa o “partido do táxi”, aqui e agora é o partido de sidecar (3 lugares), neste caminho rapidamente será o partido da scooter, do skate ou até, de andar a pé como aconteceu com o BE e o PTP. No próximo domingo logo veremos. (Escrito em 29/09/19).

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

"Freitas do Amaral: o 'senador' que foi quase tudo"


FACTO

"Foi líder do CDS, primeiro-ministro interino, ministro em governos à esquerda e à direita, presidente da Assembleia-Geral da ONU, Freitas do Amaral foi quase tudo na política portuguesa". O distinto Professor Universitário, o académico de reconhecida competência, faleceu aos 78 anos.

COMENTÁRIO 

A História não se apaga. Os hipócritas, esses, não têm emenda. Infelizmente. "Freitas do Amaral saiu pelo seu próprio pé do CDS (partido que fundou), não sem antes lembrar ao então líder da sua família europeia, Wilfred Martens, que "a colaboração de um democrata-cristão (independente) com um partido socialista nada tinha de extraordinário". Mas houve quem quisesse apagar a História deste Homem que serviu Portugal. Apesar de, ideologicamente, eu não comungar da generalidade dos princípios, nutria por esta figura um enorme respeito. Escutava-o com atenção, tal como o faço, por exemplo, com uma outra figura que foi presidente do CDS, o Doutor Adriano Moreira. 
Ideologias de lado, certo é que o Professor Freitas do Amaral foi uma respeitável figura da Democracia Portuguesa. Hoje, hipocritamente, assisto a louvores públicos vindos do interior do CDS, como se, em 2005, nada se tivesse passado. Porque a História não se apaga e para que a memória esteja presente, aqui fica parte de um texto que explica bem o que alguns são capazes.

"Março de 2005. O CDS envia retrato de Freitas ao PS. Seguiu-se o comunicado: o CDS “não quer reescrever a história”, mas Freitas do Amaral, fundador do partido, perdeu o direito a ter a sua fotografia , à entrada da sede nacional, no Largo do Caldas, em Lisboa, ao lado do busto de Adelino Amaro da Costa, e dos retratos de Lucas Pires, Adriano Moreira e Manuel Monteiro. A decisão de retirar o retrato de Freitas do Amaral da entrada da sede do partido e enviá-la, por correio, à sede do PS, no Largo do Rato, em Lisboa, foi tomada, anteontem, pelo secretário-geral do CDS, Luís Pedro Mota Soares, depois de ouvido o líder do partido demissionário, Paulo Portas. Mota Soares explicou ao CM que foram três os motivos que concorrerem para esta decisão: “Primeiro, porque nós [CDS] temos muitos jovens que aderiram ao CDS e que não compreendem que tenhamos à porta o retrato de uma pessoa que já apoiou o PSD, o BE, o PS e agora é membro de um governo socialista.” Segunda razão: “Há milhões de portugueses, fora e dentro do CDS, que não entendem aquela lógica ‘dá-me o teu apoio que eu dou-te um Ministério”. Terceiro e último motivo: “Combater a hipocrisia política.”. Ler aqui.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

AS RAZÕES DO MEU VOTO EM CARLOS PEREIRA


Domingo próximo os cidadãos são chamados a votar para a nova composição da Assembleia da República. Dali sairá um governo para os próximos quatro anos. Para o País, no seu todo, estas são eleições extremamente importantes atendendo aos mais variados sectores de análise, onde se destaca, naturalmente, as responsabilidades com a dívida pública que se situava, em Maio último, em 252,5 mil milhões de euros, o que significa cerca de 123% em percentagem do PIB (em 1995 era de 61,6% do PIB). Conjugado com este valor estão as necessidades reivindicadas pelos trabalhadores em geral, a grave situação de pobreza, com milhares de pensionistas vítimas da conjuntura (e não só), as questões da educação, saúde e segurança social! Entre outros, harmonizar estes aspectos com as necessidades de crescimento e desenvolvimento do interior, o combate à desertificação em contraponto com os grandes problemas nas cidades, as preocupações com o saldo fisiológico, as políticas empresariais geradoras de emprego mais estável, a justa reivindicação pela diminuição da carga fiscal, compreende-se que, tudo isto e muito, muito mais não constitui tarefa fácil. Se nos últimos quatro anos assistimos a uma significativa recuperação de alguns direitos, claramente extorquidos entre 2011 e 2015 (e até um pouco antes), o próximo passo pode ser determinante nesse caminhar por um Portugal onde não exista mais direitos do que justiça social. Depende de todos nós e daqueles que nos representam, muito para além dos partidos a que pertencem.


Para a Região da Madeira a eleição dos deputados é fundamental, simplesmente porque é no hemiciclo de S. Bento, talvez mais do que no seio do futuro governo, que alguns dossiês podem ser analisados e discutidos com vantagem para a Região. 
É que, se nunca foi, agora mais do que nunca, a solução dos problemas não passa por uma gritaria histérica e por ofensas gratuitas da ilha para o espaço continental, mas por uma pressão inteligente e pela capacidade negociadora; não vai através de repetidos "casos do dia" enquadrados mais na lógica de apresentação pública de serviço partidário do que na solução dos problemas. Vai, estou convicto, pela intervenção com rigor, qualidade técnica, científica e política capaz de trazer a água ao moinho, com dignidade e sem o "chapéu na mão". Ademais, hoje, as questões mais substantivas são de natureza económica e financeira e essa formação académica parece-me determinante.
O meu voto será depositado na candidatura do Dr. Carlos Pereira. Votarei na pessoa, porque ela concede-me as garantias necessárias para ajudar a resolver os problemas da Região, ao longo desta legislatura que se adivinha muito complicada. Aliás, na Assembleia da República, no último mandato, Carlos Pereira foi uma figura determinante ao ponto de ser reconhecido pelos seus pares, pela qualidade da intervenção, notável capacidade argumentativa, inteligência, eficácia e pela aptidão na negociação, sem necessidade de andar a gerar guerras e desconfortos que a nada conduzem. 
Faz HOJE quatro anos (30.09.2015) que escrevi um texto a propósito da candidatura do Dr. Carlos Pereira. Transcrevo-o, passado este tempo, porque, na verdade, não me enganei.

"O Dr. Carlos Pereira não é um político de aviário. Não apareceu nestas eleições porque estava a seguir na listinha dos "boy's" ou para contentar uma qualquer facção. A sua luta vem de longe, com muitas contrariedades pelo meio e muita maldade de gentinha sem escrúpulos que fizeram abalar a sua vida profissional. Por aqui, fecharam-lhe portas ao jeito de para aquele nada. O poder, do tipo "duracel", foi mais forte e cumpriu, na íntegra, o que sempre, perversamente, soube fazer: "para os amigos tudo, para os inimigos nada e, para os restantes, aplique-se a lei". Carlos Pereira não se deu por derrotado e fez dessa tentativa de amesquinhamento as forças necessárias para seguir o seu caminho profissional e o das suas convicções político-sociais. Tenho presente todas as suas lutas por uma sociedade melhor. 

Mas muito mais do que isso: tenho presente o político, que me habituei a seguir, que não fala de cor, que não manda para o ar umas frases feitas, antes estuda os problemas e apresenta soluções. Com o devido respeito por todas as candidaturas, ninguém se iguala à consistência técnica e política de Carlos Pereira. 

Quando uns falam de assuntos que são de junta de freguesia ou de câmara municipal, ele fala do País e da Região nas vertentes política, económica, social e cultural que a todos afecta; quando uns prometem "Autonomia Sempre" quando, na verdade, devolveram-na ao Terreiro do Paço, Carlos Pereira fala do resgate da obra maior do 25 de Abril, a possibilidade de sermos nós, madeirenses, autonomamente, com responsabilidade, a desenharmos o nosso futuro; quanto uns falam de anos de experiência (sempre repetida, diga-se), Carlos Pereira apresenta-se com a experiência sempre actualizada e portadora de futuro (...)".

Por isso, não tenho a menor dúvida que ele irá continuar o seu trabalho, no quadro do que há muito diz: SEMPRE PELA MADEIRA.

domingo, 29 de setembro de 2019

Os pegadores


Por
DN - Madeira
28 SET 2019

Se de manhã tinha votado por dever mais do que por convicção, à noite só me apetecia vomitar.

Até agora não saí do pasmo! Há uma semana que ando às voltas para arrumar o assunto mas ainda não consegui, apesar de já ter idade para conhecer os meandros do caráter humano – ou, melhor, da falta dele – e deixar de lado a ingenuidade que persiste em me fazer crer no brio, na honra e, sobretudo, na dignidade do ser humano. Qualidades superiores que, sem dúvida, inspiram o respeito, mas que, na fome desesperada de poder, são letra morta como ficou mais do que claro no passado domingo, quando foram dados a conhecer os resultados eleitorais.
Confesso que se de manhã tinha votado por dever mais do que por convicção, à noite só me apetecia vomitar face à náusea que tomou conta de mim ao assistir em direto às reacções dos partidos, a maioria dos quais vencedores não sei bem de quê, perante os resultados. Ainda, aliás, ecoam na minha cabeça os gritos descontrolados na sede do PSD/Madeira, onde era traçado o panegírico a Miguel Albuquerque por figuras da nossa praça que, esquecendo-se do seu estatuto e do dever de guardar a sua imagem, só faziam lembrar, parafraseando um dos críticos mais acutilantes da atualidade, gente que (dignamente) não sabe estar. E se, do outro lado do charco, também havia quem aclamasse a vitória de Paulo Cafôfo e do PS/Madeira, que em termos práticos ficou rigorosamente igual (ou pior) a como estava antes das eleições, deste lado mais asco suscitou assistir a um quadro verdadeiramente surrealista pintado na sede do 

CDS/Madeira que, em vez de chorar a mais do que óbvia derrota enquanto partido, clamava uma vitória própria dos fracos e de quem não olha a meios para chegar ao poder. Sorrisos desbocados, rostos rosados e anafados, punhos cerrados vitoriosos, declarações inflamadas, chantagens anunciadas, tudo foi absolutamente absurdo na reação dos centristas, alguns dos quais com indignas histórias de bastidores para contar e que, salivando devido à possibilidade do poder, celebraram a suposta vitória de um partido, o PSD, que até há poucos dias era um alvo a abater. Haja vergonha, pelo menos!

A este propósito, lembrei-me de Vieira, não do Ricardo que liderou o CDS em tempos idos, mas do padre que, à semelhança de Santo António, pregou aos peixes, invocando entre eles os pegadores que, “sendo pequenos, não só se chegam aos outros maiores, mas de tal sorte se lhes pegam aos costados, que jamais os desferram”... Um “modo de vida”, política acrescento eu, que segundo o missionário seiscentista traduz uma forma de ser “mais astuta que generosa”, própria dos parasitas oportunistas que se “arrimam” aos mais fortes para que “lhe[s] matem a fome”. Grande Vieira, cuja intemporalidade quase assusta mais do que fascina!
Por isto tudo, desenganem-se aqueles que pensam que alguém ganhou as eleições. O único vencedor que houve foi o “tacho” e os vencidos fomos nós, contribuintes, que, ao longo de mais quatro anos, sustentaremos os “favores” e a vil ganância de pegadores e não só. Com maior ou menor pasmo, claro.