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sexta-feira, 30 de junho de 2023

A (incessante) crise moral


Por
Miguel Alexandre Palma Costa
Professor de Filosofia



1. Quem como eu nasceu na década de 70 do século passado, nos últimos quase 50 anos já se fatigou (e inoculou) do vocábulo “crise”. Arrisco aqui a mencionar (e enumerar) algumas das consecutivas crises políticas nacionais – e respetivas ‘instabilidades governativas’ – do pós-25 de abril, crises que nos acompanham ciclicamente até ao momento presente, todavia, destaco particularmente, as diferentes crises económico-financeiras internacionais. Por exemplo, a crise resultante do embargo petrolífero e geradora do conflito Israelo-árabe (1973-1974); a crise que levou à primeira visita do Fundo Monetário Internacional (FMI) a Portugal e a medidas drásticas de austeridade entre 1977 e 1978, incluindo limites quantitativos ao crédito, mas também a desvalorização do escudo para restaurar a competitividade da nossa economia e produtos. Não olvido a segunda intervenção do FMI, que regressou em 1983, por iniciativa do Governo do Bloco Central e conduziu o país a mais uma recessão fruto da (inconveniente) receita aplicada. Mais recentemente, a famosa crise do Subprime que teve origem nos EUA, no verão de 2007, originada por problemas nos empréstimos à habitação e que atingiu o seu ponto mais crítico em 2008, com a falência do Lehman Brothers – uma das principais instituições financeiras norte-americanas –, crise que se disseminou por várias instituições de crédito portuguesas (Bancos) e que fomos constrangidos a resgatar para prevenir a possibilidade de ocorrência de risco sistémico no sistema bancário. (Este é o mesmo sector que teve no ano passado [2022] lucros acima dos dois mil milhões de euros e que sobe consecutivamente as taxas de juro dos créditos dos seus clientes.) Seguiu-se, então, a dura crise financeira de 2010-2013, em que a desconfiança dos mercados (investidores) relativa às dívidas públicas soberanas se alastrou e o receio sobre a incapacidade de vários países conseguirem cumprir com os seus compromissos levou a uma nova intervenção externa, agora da célebre “troika”, que se fez acompanhar de “insensíveis e firmes” medidas que visavam corrigir os diferentes desequilíbrios económico-financeiros da nossa débil (e muito exposta) economia por forma a restabelecermos a capacidade de nos voltarmos a financiar nos mercados. Para o fim, mas bem mais perto de nós, está – e prossegue – a crise sanitária da Covid-19, provocada pelo novo e célebre vírus “SARS-CoV-2”, uma nova “pneumonia viral” que surgiu (enigmaticamente) na província de Wuhan, na República Popular da China, em finais de 2019, mas que rapidamente se espalhou por vários países da Ásia e depois pelos 5 continentes, colhendo mais de 26 mil mortos em território nacional e que sinaliza o começo de mais uma crise/recessão.

Paralelamente a todas estas “provações”, existiram e subsistem outras que convivem diariamente com todos aqueles que ainda habitam este país (e mundo) – e até aqueles que já o deixaram –, como as crises orçamentais, climáticas/ambientais, energéticas, na habitação, justiça, saúde, demográficas, sociais, de segurança, no desporto, na democracia…, mas evidencia-se uma que é talvez a razão/causa de todas as anteriormente referidas, a incessante crise moral. Neste contemporâneo mundo em que estamos todos deslumbrados, obcecados e entretidos com o prazer, com a velocidade e novidade tecnológica – mas também com o dinheiro e poder –, a (educação) moral já não é relevante.

2. Em todos os momentos e em todas as sociedades existiram – e continuam a existir – comportamentos considerados bons e outros maus. É no seio da comunidade, na relação com o(s) outro(s) que revelamos a nossa moralidade, que ponderamos e decidimos conscientemente, que avaliamos como corretas ou incorretas atitudes e condutas, e que sentimos (ou não) a obrigação/dever de cumprir com as normas, prescrições e orientações instituídas. Somos seres morais na medida em que o nosso agir está comprometido com uma codificação de regras, leis, normas, valores e motivações que nos dizem o que é o Bem e como devemos segui-lo/praticá-lo. Porém, a realidade é que continuamos a errar (e muito), falhar, a cometer deslizes e injustiças. A este propósito, Emmanuel Levinas, filósofo francês do século XX, é muito claro na obra Totalidade e Infinito, quando declara que importa muitíssimo «não nos iludirmos com a moral», pois ela esbate na prova com o real, sobretudo quando vivemos num estado (e economia) de Guerra que “suspende a moral” – por agora, militarmente circunscrita à Ucrânia, mas com impacto económico global –, tal como a praxis política, que “se opõe à moral”.

Apadrinhando a opinião, a fantasia e a ilusão, vivemos hoje num paradigma social que concebe e alimenta uma civilização essencialmente hipócrita onde a Verdade e o Bem parecem já não ter lugar ou apreço. Dito por outras palavras, a mentira parece ser agora um ‘pilar’ moral da nossa época, na medida em que os cidadãos se desinteressam (e abdicaram) do próprio conceito de Verdade… e tudo graças há espantosa quantidade de mentiras utilizadas no dia a dia. De facto, na política, nos negócios, na área da justiça, na “fina” finança e não só, os mentirosos são hoje tão bem-sucedidos e admirados que parece até que a Verdade deixou de ter qualquer categoria/valor moral e epistemológico. Pior, atualmente – e segundo o filósofo americano, Harry G. Frankfurt – tanto a verdade como a mentira foram ultrapassadas por uma nova forma de discurso e de conhecimento: o bullshit, a treta, parvoíce, o disparate, a farsa, a artimanha, a arte de dizer tolices, mentiras, falsidades… porque é do interesse daquele que a exprime (e exclusivo benefício) desprezar os factos, mas sobretudo consolidar o seu estatuto/posição de poder e enfraquecer os adversários. Ora, para quem acompanha a nova novela da Comissão Parlamentar de Inquérito à Tutela Política da Gestão da TAP (mas também poderia ser a ex-Comissão de inquérito sobre alegadas “obras inventadas” na Madeira), percebe que a verdade não passa por ali. O que importa aos vários protagonistas das audições públicas (sejam ministros ou ex-ministros, ex-secretários de Estado, chefes de gabinete, ex-adjuntos, a ex-CEO ou mesmo a antiga administradora da TAP, Alexandra Reis, que alegadamente recebeu uma indeminização choruda pela cessação de funções na empresa) são os efeitos políticos das suas afirmações – verdadeiras ou falsas – em quem as escuta, conhecendo perfeitamente a verdade e sabendo que aquilo que diz é falso e que toda (ou muita) muita gente sabe que é falso. Para além de já estarmos todos “empanturrados” com estas audições sobre a TAP no Parlamento, sabemos que o objetivo principal não é querer dizer (e defender) a Verdade nem ter a aparência de verdade, mas tão só chocar a opinião pública e semear a dúvida entre os cidadãos que se julgam bem informados. A finalidade é “condicionar” (ou mesmo liquidar) putativos candidatos a altos cargos partidários e governativos, e para isso é preciso dizer qualquer coisa, seja qual for a mensagem, verdadeira ou adulterada, pois isso resultará num ruído de fundo incessante nos media – proporcionará capas de jornais, aberturas de telejornal, comentários, crónicas, previsões, análises e até séries de entretenimento – que todos nós, público, vamos consumir. Sobre este assunto, num pequeno texto, Hannah Arendt é clara ao afirmar que abandonamos a Verdade como ideal cultural: “as mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão de político ou demagogo, mas também na de homem de estado” (Verdade e Política). Entramos, livres e voluntariamente, na era da pós-verdade!

Em suma, infelizmente as democracias contemporâneas promovem agora todo o tipo de tretas, mentiras, asneiras, idiotices… a ignorância em geral, e o próprio alicerce da educação já não procura formar o “carácter” dos cidadãos de modo a viverem bem e na/para a Verdade. A moral degenerou num instrumento utilitário, que nos dá prazer e permite ganhar dinheiro, para muitos a coisa mais importante na vida.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Fabricantes do Ocidente perturbados com a qualidade das viaturas chinesas


Por

O salão automóvel de Xangai foi um autêntico choque para os construtores ocidentais. Permitiu-lhes o contacto com o seu atraso tecnológico face à China, neste domínio.



1. Hoje, não vou voltar ao fabrico de aviões em que a China iniciou uma “longa marcha”, recente, de competição com o Ocidente, através da empresa COMAC com sede em Xangai, em que para ser bem-sucedida terá de saber superar várias barreiras, difíceis algumas, aplicando cuidadosa e inteligentemente os trunfos que já adquiriu ao nível do conhecimento técnico, mas não da diplomacia comercial e em especial na sua cooperação com os BRICS (actuais e futuros) e, porque não com a França (?), uma vez que Macron entrou em contacto com Cyril Ramaphosa, Presidente da África do Sul, país anfitrião da Cimeira dos BRICS de 22 a 24 de Agosto próximo, em Johanesburgo, no sentido de nela participar.

Esta solicitação de Macron causou surpresa e desconfiança em todo o mundo. Desde “cavalo de Tróia”, até ideia ousada, atrevida e inovadora na perspectiva de ganhar pontes com um grupo de países com influência cada vez maior no panorama geopolítico global, já tudo se disse. A situação é ainda uma nebulosa, sentindo-se sinais de que esta mostra de alguma autonomia de França, não terá caído bem nos EUA e mesmo em alguns parceiros europeus.

Também é verdade. Macron causou imensa surpresa e interrogações entre os BRICS, até porque a Cimeira tem uma agenda bem conhecida, com um ponto forte: o alargamento. 20 pedidos de adesão estão sobre a mesa. E alguns sonantes como a Arábia Saudita e Irão (recentemente reconciliados), Indonésia, Argentina, México, Turquia, Egipto. …

2. Regresso à China, mas não gostaria de voltar a receber, de gente não identificada, emails pouco recomendáveis, como quando, aqui, há algum tempo, publiquei uns artigos de opinião sobre “o século da Asia”, cujo título nada tinha de original, porque muitos estudos e artigos, por toda a Europa, assim designavam e continuam a designar o século XXI.

Evidente e natural essa abordagem começar pela China, (depois India, Japão …), o país, então e agora, mais em evidência, onde assenta de facto, o motor dessa mudança do Mundo para a Ásia.

O automóvel eléctrico chinês

O tema hoje é a viatura de fabrico chinês. Estamos perante uma situação oposta à da indústria aeronáutica. A China aqui comanda, tendo-se tornado, no primeiro trimestre de 2023, o primeiro país exportador do mundo de viaturas eléctricas.

O salão automóvel de Xangai realizado, em Abril último, foi um autêntico choque para os construtores ocidentais. Permitiu-lhes o contacto com o seu atraso tecnológico face à China, neste domínio, traduzido na construção de viaturas e de baterias a baixo custo.

Mas o que perturbou, rotundamente, os fabricantes do Ocidente, sobretudo os europeus, não foi tanto a quantidade exportada, mas a qualidade do produto que, em nada, deve aos melhores carros eléctricos, construídos no Ocidente.

No entanto, as fábricas chinesas poderem disponibilizar veículos eléctricos de qualidade a 10.000 dólares por unidade, faz grande mossa.

O Ocidente não consegue. Tanto assim é que o Comissário Europeu, Thierry Breton, responsável pelo mercado interno da UE, começou a congeminar “uma investigação” às práticas comerciais das marcas chinesas de carros eléctricos. Antes da investigação, já fala de “dumping”. E mais curioso uma vez que algumas das marcas chinesas são produzidas em fábricas de capital misto Ocidente/Chinês. Por exemplo, a BYD, que é a segunda maior construtora mundial, concorrente da Tesla (primeira), tem capital de Warren Buffet.

Que finalidades procura esta iniciativa de Thierry Breton? Limitar a entrada no mercado europeu de automóveis chineses, aplicando tarifas aduaneiras. Outro contrassenso sobretudo para as empresas americanas que investiram na China, como se referiu.

E isto sobretudo porque as baterias de fabrico chinês saem mais baratas na produção, ao usarem materiais de fabrico próprio sobretudo à base de lítio, ferro e fosfato, enquanto o Ocidente recorre a lítio, cobalto e níquel, minérios estes bem mais caros, mais poluentes e que causam problemas éticos, por exemplo, na República Democrática do Congo devido às condições de extração.

E ainda um outro grande problema de mercado. A China assegura mais de 85%, (há quem refira acima de 90%), dos minerais críticos, utilizados nas baterias, nomeadamente o conjunto de minérios conhecidos por terras raras.

Recentemente, soube-se da existência de reservas de terras raras na Europa, por exemplo na Gronelândia e na Suécia.

Sobre a Gronelândia há toda uma história onde até Donald Trump, em 2019, tentou comprar a grande Ilha, um território autónomo da Dinamarca. É evidente que a China também andou a sondar como se aproximar desse território.

Apesar das reservas detectadas, para além do tempo necessário para efectivar um projecto mineiro, há na Europa, mais que nos EUA, grandes tensões políticas sobre a exploração mineral.

Na Europa, está subjacente uma mentalidade neocolonial. Na exploração de minérios é sempre preferível deixar os estragos fora e comprar limpa a matéria-prima. Tem sido esta tese a predominante.

Porém, no caso da Gronelândia, a situação para além desta mentalidade é ainda mais complexa. Não se dominam os efeitos da exploração por se tratar de uma região polar, o que vem causar muitas interrogações e convém agir sensatamente. De erros grotescos a Europa é especialista como no caso do gás russo em que se corta o consumo e houve que regressar ao carvão. Temporário espera-se, mas regressou-se, com todos os efeitos nefastos.

A dependência da Europa

A União Europeia tem uma elevadíssima dependência em terras raras e em outros minerais críticos, como o lítio. Portugal é o país com maiores reservas de lítio na União, mas o processo de exploração por erros básicos, como a falta de diálogo com autarquias e população criando profundos desentendimentos e instabilidade social, tem atrasado o arranque dos projectos de mineração.

A União Europeia até tem um plano para a produção de baterias desde 2018, mas sem recursos básicos a aposta é a reciclagem podendo, diz, atingir 20% das necessidades do plano. E os restantes 80% como se resolvem, tanto mais que as relações Europa/China já foram bem melhores?!

Independentemente do futuro do automóvel eléctrico, designadamente pelos limites de autonomia, a Europa dificilmente terá uma posição de relevo como ambicionou, apesar dos milhares de milhões de euros gastos, por atrasos e erros estratégicos em muitos domínios. E com esses atrasos tecnológicos e comerciais, concorrer com os EUA e a China é uma tarefa difícil para não dizer impossível.

Mesmo para manter uma posição no carro eléctrico, não de primeiro plano, a União Europeia terá de alterar substancialmente a sua política de mineração, a sua política de reciclagem e de cooperação com a China, que tem vindo a degradar-se nos últimos tempos. Gastar dinheiro sem visão é continuar a bater no muro. Aliás, o Tribunal de Contas Europeu, em relatório recente de 19/06/2023, afirma que a política de Bruxelas para as baterias eléctricas está completamente errada. “O cerne do problema é o risco de escassez de matérias-primas estratégicas para fabricar as baterias e a dependência europeia”.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 25 de junho de 2023

A herança


Por
Pacheco Pedreira
Público
24/06/2023
estatuadesal


Se esta “herança” permanecer intacta, nenhum governo sobrevive sem ter, ou grandes poderes, ou grandes protecções. Vai ser bonito para o ressentimento e a vingança e péssimo para a democracia.



Há-de haver uma altura em que este governo do PS seja substituído por um governo do PSD, muito provavelmente aliado à IL e com qualquer forma de acordo com o Chega. Mas não é a política de alianças para garantir uma maioria a minha matéria de hoje, embora em muitos aspectos os acordos que se fizerem agravam o modo como a “herança” vai ser gerida.

Parto de três pressupostos que muito provavelmente não se vão realizar, mas, para efeito de argumento, servem. Primeiro, é que a “herança”, ou seja, o conjunto de leis, práticas, promessas informais e formais de questionários, inquéritos e controlos, compromissos e intenções públicas, sobre “transparência”, incompatibilidades, extensão às famílias e aos amigos de impedimentos legais quanto à actividade empresarial, e à propriedade de bens e empresas, escrutínio severo de passados e presentes com destaque para qualquer obscuridade, confusão, falta de declaração, numa interpretação maximalista muito para além da lei para o domínio elástico da “ética”, exclusividades também numa interpretação maximalista, para governantes e família, verificação de lugares de residência, trajectos, uso de carros, diversões, futebol (se for natação ou andebol não conta), etc., etc., vai ser recebida pelos governos do futuro. Tudo estará em cima da mesa, reproduzindo a avalanche de rigor, com ou sem base legal, que se aplica nos nossos dias. Esta é a “herança” de que falo.

O segundo pressuposto, é que a comunicação social permanecerá politizada e persecutória como é hoje, misturando casos sérios com trivialidades, ou invenções assentes muitas vezes em denúncias não verificadas, e quase nunca corrigidas, mesmo que seja num canto obscuro, pelo órgão de comunicação, mesmo quando se verifica uma evidente falsidade. Ou seja, continuando a não haver escrutínio no sentido jornalístico da palavra, mas secções de escândalos, misturando tudo, num afã persecutório aos detentores do poder político, dramatizando, com uma linguagem condenatória à cabeça, excessiva e motivada pelas preferências políticas dos órgãos de comunicação, suas redacções e seus proprietários, misturando gente séria com escroques, para dar um contínuo alimento às pulsões populistas. E, convém não esquecer, protegendo pelo silêncio quem querem proteger, seja para manter o alvo político, seja porque são dos “nossos”.


O terceiro pressuposto é que o Ministério Público continuará a actuar como faz hoje, noticiando com grande celeridade que abriu um inquérito sobre determinada pessoa ou acção, mesmo quando sabe que não tem qualquer fundamento legal para a penalizar. No momento em que o publicita, está a lançar uma sombra de suspeição e ilegalidade sobre coisas que nunca chegam ao tribunal e que, passado o efeito pretendido, são arquivadas. Igualmente se pressupõe que o Ministério Público, sabendo que as matérias que lhe serviram de pretexto para ouvir telefonemas, controlar mensagens, fazer escutas e vigilância não chegam como prova num tribunal, continue a passar o conteúdo de inquéritos sob segredo de justiça para os programas justiceiros da comunicação social, para que haja condenação na opinião pública de comportamentos que podem ser reprováveis, mas não são ilegais. E também para vir depois dizer que não foi mais longe por “falta de meios”.

Se esta “herança” permanecer intacta, nenhum governo sobrevive sem ter, ou grandes poderes, ou grandes protecções. Se eu imaginar, a partir do dia de hoje, quem possam ser o primeiro-ministro, os ministros e secretários de Estado, do PSD ou da IL, os apoiantes parlamentares do Chega, a maioria não passa sequer no questionário que o PS fez, quanto mais no que já se sabe de suspeitas públicas sobre a sua actividade privada, património, funções autárquicas, comportamentos de tráfico de influências, decisões obscuras em funções públicas, amiguismo e compadrio pessoal e partidário, etc., etc., de novo, como para os casos actuais, sem sequer se tratar de ilegalidades. Esta também é a “herança” da sua responsabilidade.

Há, no entanto, aqui um pequeno problema: é que nenhum dos pressupostos se vai realizar, as leis e práticas referidas vão continuar, mas deixarão de ser um escândalo, a comunicação social, se se mantiver a politização actual à direita, vai respirar de enorme alívio porque “conseguiu” e vai proteger os seus “seus”, e o Ministério Público vai ser posto na ordem, ou seja, só os “outros” é que são um alvo legítimo, o resto é intocável.

O PS e a esquerda farão então o que a oposição faz hoje, mas sem os mesmos meios dado que não têm o aparelho de propaganda jornalístico-político que está hoje montado, e muito menos a sua agressividade. Terão a tarefa facilitada na substância, mas fraca no altifalante. Para além disso, as acusações de “vocês também fizeram” vão ser habituais.

O fundo populista vai continuar em crescendo, mas o populismo pelo seu conteúdo antidemocrático não “come” da mesma maneira o mesmo alimento e vai encontrar elementos de vingança suficientes para continuar a olhar para trás e não para cima. Haverá gente que cuidará disso, e são bons nessa gestão da fúria do escândalo.

Vai ser bonito para o ressentimento e a vingança e péssimo para a democracia.

O autor é colunista do PÚBLICO

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Começou o desafio ao Ocidente no espaço aéreo


Por
João Abel de Freitas
Economista

Na ocupação do mercado mundial, a China vai defrontar-se com vários outros problemas, nomeadamente o da certificação europeia e norte-americana. Mas poderá conquistar fatias de mercado no Sul Global, onde aquela não é exigida.



1. Esta batalha da China ao Ocidente, no domínio do espaço aéreo, vai prolongar-se muito no tempo. Até porque a capacidade de combate da China está no início. Nada tem a ver com Taiwan. Essa está sempre latente a outro nível. Ao nível da guerra, e agita-se sobretudo quando acicatada do exterior, como foi o caso da visita de Nancy Pelosi, tida por provocação, ao romper com o consenso estabelecido.

Esta batalha, iniciada a 28 de Maio de 2023, mas com vários anos de trabalho anterior, com falhanços e entorses de percurso, admitidos pela China, até pouco tem a ver com o papel do Estado/País.

2. Quando se trata de empresas, o Ocidente costuma ajeitar às empresas chinesas o figurino de “espias”, sobretudo no campo das tecnologias em que está em perda, como aconteceu e está a acontecer com a Huawei (no G5), impedindo ou limitando a sua actuação nos mercados.

Lembram-se, de certeza, da célebre entrevista do Embaixador dos EUA em Portugal sobre a Huawei, com ameaças nada veladas ao Estado Português, aquando dos leilões da Anacom, de que não houve reacção oficial, ou sendo concreto, houve um bloqueio silencioso da Huawai.

3. No dia 28 de Maio, o avião C919 fez o seu primeiro voo comercial, Xangai-Pequim, ao serviço da transportadora aérea CEA (China Eastern Airlines), dando início a uma longa batalha de alcance imprevisível com a Airbus (um consórcio europeu) e a Boeing (grande empresa dos EUA), os dois colossos mundiais da indústria de Aviação Civil.

O C919 é um avião comercial de passageiros de média distância, de fabrico COMAC (Commercial Aircraft Corporate of China) com sede em Xangai. Este avião corresponde a um “sonho antigo” da China de começar a discutir a primazia nas alturas e a ganhar autonomia face às duas rivais Boeing e Airbus (senhoras do Mundo neste mercado) e, certamente, corresponder a Xi Jinping que, em 2014, dizia, a China nunca será uma potência mundial, enquanto não construir o seu próprio avião comercial. A China pretende, assim, conquistar uma posição equilibrada na construção aeronáutica civil, como já detém no transporte comercial.

4. A COMAC começou, aliás, por fabricar um, de pequeno porte para curtas distâncias, (transporte regional) que tem alguns clientes externos, como a Indonésia. A COMAC tinha razão. Não era naquele modelo de pequeno porte que se coloca o desafio que lhe interessa desenvolver. Aí competiria, quando muito, com uma Embraer (Brasil), uma Bombardier (Canadá)…

As ambições da COMAC teriam de virar-se para outra gama e, assim, apareceu o C919 que se propõe começar a construir 150 aviões/ano, durante os próximos cinco anos, tendo já 1.200 pedidos de 32 clientes diferentes, o que ultrapassa a produção prevista para os cinco primeiros anos. Não são ambições ainda a fazer mossa a uma Airbus ou a uma Boeing. Mas começa a incomodar, sobretudo no mercado da Ásia.

A COMAC, certificada na China nos três tipos de certificação obrigatória para poder entrar em exploração comercial, está a posicionar-se como alternativa ao 737 da Boeing e ao A320 da Airbus. Por algum tempo subsistirá um problema – a elevada integração de componentes do exterior, EUA e Europa. As empresas concorrentes também o são. A Boeing adquire cerca de 40% a 50% de fora dos EUA. A Airbus até da Malásia integra componentes. A COMAC tem uma incorporação mais elevada, dizem os especialistas, mas a questão basilar não é essa, mas sim o ambiente instável que se vive, a nível do planeta, que pode trazer restrições de entrega ou mesmo de cancelamento de componentes, como tem acontecido com a Huawai e outras empresas chinesas.

Necessidades da China em transporte aéreo de passageiros

5. A China é o segundo mercado mundial da aviação comercial. Tem três ou quatro empresas de transporte de passageiros com grandes frotas, entre as 12 maiores do mundo. Estima-se que, até 2041, precise de 8.500 aviões, equivalente a cerca de 20% do mercado global. Para cobrir estas necessidades, a China recorre sobretudo à aquisição de aviões de fabrico europeu, a Airbus, com parte já encomendada mas agora em redução, o que nos leva a concluir que o primeiro grande colosso da indústria mundial da Aviação a ser afectado pela COMAC será a Airbus.

Aliás, essa é a posição dos analistas de mercado, sem apontarem as razões de fundo. Lemos desta maneira porque a própria COMAC indica a pretensão de ocupar, até 2035, um terço do mercado chinês e 20% do mercado mundial. Na ocupação do mercado mundial, a China vai defrontar-se com vários outros problemas, nomeadamente o da certificação europeia e norte-americana. A certificação em si já é um processo moroso, porque exigente, mas, neste caso, pode ser sucessivamente atrasado, o maior tempo possível, como meio de “reserva” de mercado para os seus aviões.

Mas, certamente, poderá conquistar fatias de mercado no Sul Global, onde a certificação europeia e americana não é exigida, só mesmo a pressão dos governos dos EUA e da União Europeia poderá funcionar.

Mas uma estratégia de cooperação a desenvolver com os BRICS, designadamente na área das componentes, poderá constituir um trunfo importantíssimo. Aliás, o grande elo entre os BRICS é mesmo a economia e não a política, e os BRICS estão com uma dinâmica interessante. No próximo Verão são esperadas decisões significativas, designadamente em termos de alargamento, e existe um leque de países candidatos. Que designação terão “os futuros” BRICS?

O marketing da COMAC

6. Não é fácil pôr a funcionar um marketing global com efeitos imediatos. O problema da confiança/segurança para um produto desta natureza conta muito. Convencer as transportadoras aéreas a fazer a troca de marca leva tempo. 

Em muitas áreas do Sul Global reina uma antipatia forte contra o Ocidente, alicerçada em múltiplas razões e, na sua maioria, com fundamento de natureza histórica, cultural e social, e depois estão em desuso os acordos globais e de longo prazo que os Estados Unidos e a União Europeia praticam e tentam impor aos parceiros.

Cada vez funcionam mais os entendimentos para fins específicos e, neste modelo de parceria, a China é mais expedita. E um trunfo que conta, uma vez ganha a confiança na qualidade do produto, é a agressividade/preço.

A COMAC, segundo a informação disponível, produz bem mais barato que a Boeing e a Airbus, e poderá oferecer preço e condições de pagamento sugestivas, o que será bem aceite por alguns países destas economias emergentes com maiores dificuldades financeiras. Um grande trunfo. Mas o lançamento de sustentação assentará, inicialmente, nas transportadoras aéreas chinesas. O que com elas se passar marcará, sem dúvida, o futuro da COMAC.

7. Por último, e a título de informação. A China trava uma outra batalha e esta no mar. A plataforma que colocou a 17 de Maio último para estudo da captura de urânio, existente na água salgada (3.3 microgramas, em média, por litro).

Com esta investigação, se vier a ser bem-sucedida – a China pensa ter resposta até 2035 –, o Mundo passará a dispor de uma quantidade quase infinita de urânio a partir de 2050. Para a China, este sucesso equivale a uma escolha estratégica para sustentar a sua indústria nuclear no futuro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Muito próximo do abismo


É aflitiva a situação dos indicadores de pobreza da Região Autónoma da Madeira. Trata-se do pior desempenho entre as regiões ultraperiféricas.




A ideia que os políticos transmitem, há 47 anos no poder absoluto, é que se respira felicidade, bem-estar e que são marginais os casos de pobreza e de privação, quando comparados com os níveis apresentados pelas outras regiões do país e, concretamente, pelas ultraperiferias: Guadalupe, Guiana Francesa, Reunião, Martinica, Maiote, São Martinho (França), Açores e Ilhas Canárias (Espanha). Mas lá vem o dia que os números são tornados públicos e, consequentemente, as muitas máscaras caem. E esta situação é preocupante.

Há muita vida feita de aparências, de muitas festas, de muito controlo social, de muitos subsídios para atenuar a dor profunda, de muita intervenção política diária, de muitas línguas caladas ou obrigadas ao silêncio, de muita cumplicidade interesseira, de muita economia paralela que disfarça, de muita "guerra" institucional contra a República, eu sei lá o que se esconde por essas ruas, becos e travessas da Madeira real.

Preocupa-me pelo facto de alguns indicadores terem uma óbvia repercussão no futuro. O desenvolvimento não se compagina com situações generalizadas de pobreza, com o círculo vicioso de uma economia com pés de barro, com uma mentalidade que não assenta em valores culturais, tampouco se compagina com o indicador dramático da ausência de saúde. Assiste-se a um crescimento na venda de medicamentos, a ausência de saúde mental arrepia, as milhares de cirurgias e consultas médicas em atraso horrorizam, as várias dependências florescem, os suicídios e as tentativas assustam, o sistema educativo sem norte, construído através de páginas mediáticas, sem rigor, conhecimento científico e estatísticas marteladas, tudo isto, pergunto, aonde levará a população?

E vão falando, como se discursassem para tolinhos, do "Dubai na Madeira", de pioneiros nisto e naquilo, da ilha das flores, dos desfiles e carnavais da ilusão, da "obra" feita, sem conta darem (ou se calhar dão) que também estão a gerar, há muitos anos, indisfarçáveis túneis na cabeça das pessoas. A grande obra teria e terá de ser, em todos os campos, a da edificação do ser humano. Por aí, tudo o resto virá por acréscimo. Mas a população tem uma tendência para tudo perdoar, tudo esquecer e, como mero exemplo, lá virá o dia da inauguração, com música, discurso e foguetes, a "renaturalização" da trágica marina do Lugar de Baixo onde perto ou mais de 100 milhões foram atirados ao mar. Tudo é perdoado pela população. Até a própria pobreza é perdoada! Isto dá que pensar. 

Obviamente que não basta dizer que as outras regiões também não vivem no melhor dos mundos. É verdade. Mas isso, parafraseando, faz-me lembrar a história do Miguel que, no final do ano escolar, chegou junto dos pais e disse: "eu perdi o ano, mas papá, outros sete da turma também perderam!"

Ilustração: Dnotícias.

quinta-feira, 1 de junho de 2023

A busca do anormal

 

Não sei se já atingiu o nível da saturação, mas andará por lá perto. Não me sobejam dúvidas que as ditaduras são especialistas em esconder e calar os assuntos incómodos. E não quero viver num ambiente em que a transparência não seja total. Julgo que qualquer pessoa, democrata e com um mínimo de bom senso, assim exigirá. Mas já ultrapassou o meu limite da tolerância.



Qualquer português bem informado já percebeu que houve trapalhada da grossa no ministério da Infraestruturas. Que é difícil entender como é que políticos com anos nos corredores do poder, que dominam o bas-fond da política, o que se vê e sobretudo o que não se descortina, que facilmente advinham as consequências mediáticas dos seus actos, permitam que determinadas situações resvalem para o inimaginável. E o essencial da novela de má qualidade já conhecemos: sobre o SIS, o ministro Galamba, a chefe de gabinete, quem telefonou a quem naquela noite, a bicicleta, o computador, os arranhões entre pares, sobre a comissão de inquérito, enfim, bastou-me um ou dois dias para perceber e tirar conclusões políticas e outras.

Mas não, ligamos a televisão ou a rádio e a cantilena mantém-se, com paletes de comentadores a escarafunchar onde já não há mais para dizer. "É a velha à volta da pedra e a pedra à volta da velha". Ora, se existe uma investigação em curso através das autoridades e se em curso está uma comissão de inquérito na Assembleia da República, pois bem, deixem o marfim correr até que as conclusões sejam conhecidas. Poupem, por isso, os cidadãos a este massacre pretensamente informativo e à política feita espectáculo. Já não há pachorra para assistir a um emaranhado ao jeito de um pelotão a marcar passo.

Agora foram as declarações escritas pelo Primeiro-Ministro, as quais deram lugar a outras do Presidente da República. E essas posições estão a "render como milho de Cabo Verde". Vamos ter mais uns dias de paleio inconsequente. Há qualquer coisa de podre na comunicação social. Perdeu-se o sentido da medida e da responsabilidade. Fico com a ideia que muitos são conduzidos pelo anormal, pela costela político-partidária e que importante é fazer sangue, aparecer e justificar o que legitimamente auferem. Não gosto!

Já não basta a vergonha que é a transcrição exacta dos registos telefónicos entre entidades sujeitas a investigação, transcrições que ninguém ousa averiguar de onde partem tais fugas de informação que deveriam estar em segredo de justiça; já não basta o julgamento na praça pública antes de qualquer criminalização e condenação e já não bastam as prescrições de processos de alegados prevaricadores, o que diz bem do crónico estado da Justiça, os cidadãos ainda têm de levar com séries do tipo "timex", os tais, dizia a publicidade, que não adiantam nem atrasam.

Portugal é um País com muitos e graves problemas por resolver. Que não são solucionáveis através de um simples estalidado de dedos: os de natureza económica, financeira, de educação, saúde, sociais, laborais, culturais, de industrialização, natalidade, desertificação do interior, problemas sem fim que deveriam merecer outra atenção e debate público. Mas não, ficamos pelo SIS e pelo Galamba. Ao ponto de ter lido numa rede social: "se ligar a televisão e não estiver a dar o Galamba, é porque tem uma avaria".

Bom senso, precisa-se!

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

“O G7 não é bem-vindo”


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

O verdadeiro motor dos últimos G7 pode sintetizar-se numa simples frase: como impedir a China de avançar como pólo dominante, a prazo, no Mundo.



1. Este o título de um cartaz que algumas centenas de japoneses empunharam numa manifestação no dia 14 deste mês de Maio, em Hiroshima, contra a realização da Cimeira do G7 naquela cidade, no fim de semana de 19 a 21 de maio.

As cidades de Hiroxima e Nagasáqui foram alvos de uma bomba atómica, cada uma e em dias diferentes, por parte dos EUA, nos finais da Segunda Guerra Mundial (6 e 9 de Agosto de 1945), sem qualquer justificação, que provocaram instantaneamente centenas de milhares de mortos. Um crime que ficou impune. Uma pura barbaridade, uma demonstração de dono e senhor do Mundo.

As centenas de pessoas presentes parecem um número reduzido, mas para o Japão, segundo a comunicação social europeia, é bem simbólico, pois não é país dado a grandes manifestações.

Os participantes condenavam a cimeira imperialista que se iria realizar ali, a guerra na Ucrânia e defendiam a abolição das armas nucleares. Presentes alguns dos poucos sobreviventes dos bombardeamentos (os hibakushas – termo japonês para designar quem sobreviveu à bomba atómica) e, sobretudo, descendentes e pacifistas que se pronunciavam contra o G7, porque vêem nele um agente promotor do armamento nuclear.

2. O G7 é constituído pelos sete países mais desenvolvidos, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e EUA e a União Europeia que não conta (diz alguma comunicação social, não sei se com alguma ironia!!), representada nesta Cimeira pelos Presidentes do Conselho Europeu Charles Michel e da Comissão Ursula von der Leyen.

O G7 convidou ainda uns quantos países como o Brasil, Índia, Indonésia. Os dois primeiros fizeram-se representar por Lula da Silva e Narendra Modi. É de pensar-se nas razões de um convite, sobretudo no caso do Brasil com Lula da Silva, distante em quase tudo das orientações e actuação do G7.

Houve ainda uma presença “star” com Zelensky. Mas, para este, a maior curiosidade é ter-se deslocado num avião oficial de França (pelo menos, era esta a pergunta que alguns jornais franceses faziam no domingo, dia 21/05), embora a sua presença seja bem o símbolo da perigosa escalada de guerra do Ocidente, tanto mais com a decisão de entrega do F-16. Onde irá parar esta escalada?!

Aprofundando um pouco a verdadeira agenda deste G7, em que a inteligência artificial era tema para “compor”, a guerra da Ucrânia também, embora com toda a encenação em torno da presença de Zelensky, o que se releva nesta Cimeira é a procura de um entendimento no G7 para enfrentar e deter a China na sua estratégia de influenciar, de forma persistente, a construção em andamento do Mundo.
A China não esconde os seus objectivos políticos de conquistar papel determinante, nas diferentes frentes e, definiu claramente essa estratégia em documentos aprovados pelos órgãos de governação. Este é o verdadeiro motor dos últimos G7, que se pode sintetizar numa simples frase: como impedir a China de avançar como pólo dominante, a prazo, no Mundo.

Sendo a China a segunda economia mundial, tendo o domínio de muitas cadeias de produção como se viu nos tempos de Covid-19 em que países tão desenvolvidos como os EUA e a Europa até para uma simples máscara tinham de recorrer à China, sendo detentora de terras raras, ou talvez mais correcto, de minérios críticos para a transição energética sobretudo nas energias renováveis, estando na vanguarda tecnológica de vários sectores, o entendimento EUA/Europa não anda fácil, pois a Europa tem um grau de dependência maior e os EUA estão apressados e pouco sensíveis aos interesses europeus.

Não duvido. Mais uma vez, os EUA vão impor os seus pontos de vista, como sempre acontece. Recordemos as sanções económicas à Rússia e os efeitos de ricochete sobre a própria Europa.


E com que Europa se desenrola “este negócio”?! Há cada vez mais dois blocos na UE. Ainda recentemente, o “clube dos países da energia nuclear”, por esta não estar a ser tida em plano de igualdade com as renováveis, bloqueou no Conselho Europeu uma decisão, aprovada antes em vários patamares. E este clube de países é menos dependente das terras raras que o das energias renováveis, comandado pela Alemanha.

3. Interessante referir que, neste mesmo fim de semana, também se realizou a Cimeira China-Ásia central, com uma agenda diferente: revitalização da economia e defesa dos países dessa zona. Uma agenda de cooperação entre países para o desenvolvimento e não de bloqueio ao desenvolvimento de países terceiros. E muitos serão os temas comuns de cooperação possível, onde certamente do lado da China não faltará a sua grande aposta na Nova Rota da Seda.

Interessante, também, referir que os cinco países participantes nesta primeira Cimeira China-Ásia central – que teve como anfitrião Xi Jinping – são antigas Repúblicas da ex-URSS (Cazaquistão, Quirguízia, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão). E, neste contexto, esta iniciativa lá terá a sua leitura.

4. Bem longe da Ásia, aqui em Portugal, o mesmo fim de semana sediou uma Conferência do clube BILDERBERG de cujo teor pouco se sabe, dado o seu carácter secreto, mas que se cruza muito com os interesses do G7, onde também a Inteligência Artificial admito que, de forma mais aprofundada, foi tema, pois é fundamental no domínio do Mundo.

E os objectivos do clube Bilderberg, onde participaram os senhores da NATO, CIA e de grandes Tecnológicas, bem como ex- e Governantes de peso mundial, são bem rigorosos, pois debatem entre si os instrumentos de como aceder ao domínio das instituições mundiais de peso (ONU, FMI, Banco Mundial, etc. etc.) para gerir, a seu modo, os grandes problemas do Planeta.

Para escrever umas linhas mais sobre Bilderberg não resisti a reler algumas passagens do livro “O clube secreto dos PODEROSOS – os planos ocultos de Bilderberg” de Cristina Martín Jiménez (edição em português de 2015), um trabalho de investigação de muitos anos, de onde retirei duas, para mim muito definidoras, que cito: “Bilderberg é uma entidade que une o poder político e o poder económico, formada por pessoas com a capacidade suficiente para influenciar os acontecimentos históricos e converter a sua ideologia em leis parlamentares que mudam o destino da humanidade”.


“O que querem os bilderberg? O poder absoluto. Acabar com todas as liberdades e converter-nos em escravos do império Bilderberg. Os Senhores do poder reúnem-se às escondidas do mundo para alcançar três objectivos: a instauração de um único governo mundial, uma única moeda para um único mercado e uma só religião”. Conseguirão? Como diz a jornalista/autora do livro, há tanta coisa, de início, utopia como a criação da União Europeia (com influência Bilderberg) e ela aí está para o bem e para o mal. Estas cimeiras em simultâneo que todos defenderam um mero acaso devem-nos fazer pensar. Alguém está acossado!

Termino com a declaração de Narendra Modi que referiu ter vindo ao G7 para “amplificar as vozes e as preocupações dos países do Sul” e com uma informação: o peso económico dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) ultrapassou em Abril o do G7 – 31,5% do PIB mundial contra 30%.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Bilderberg: A Câmara Corporativa global


Por
Hugo Dionísio, 
in Facebook
A Estátua de Sal
25/05/2023




As contradições entre o discurso proferido e a prática são tão presentes e monstruosas que, como uma qualquer mobília caseira, por elas passa o povo sem as ver, seguro que está de que, mesmo não as olhando, elas, inamovíveis, inexoráveis, incontornáveis, se encontram lá, intocadas, ocultadas pela indiferença de uns, pela cobardia de muitos e pela ignorância, de outros. É assim! É pelo peso excessivo da sua presença, que as ameaçadoras contradições, que tão árdua e crescentemente moldam as nossas vidas, são mantidas secretas.


Olhar para estas contradições é penoso, revoltante e tortuoso. O olhar deixa-nos revoltados, primeiro, para depois vir a amargura, a frustração, a depressão e, por fim, a indiferença causada pela sensação de impotência. Esta sensação de impotência também pode, no ignorante – sem culpa assim tornado -, ser transformada em ódio, regra geral, contra os menos culpados, contra os elos mais fracos de uma realidade que oprime de forma directa, mas também subliminar… Uma opressão que tantas vezes deixa escondida a sua origem real, a sua natureza e a sua causa. As consequências esmagam-nos com a sua realidade concreta, mas são as causas que oprimem.

É assim que sinto o que se passou em Lisboa, por estes dias, com a realização da 69ª sessão do Bilderberg. Antes totalmente secreto, não foi sem ameaça e vítimas que se tornou visível. Mas, uma vez mais, “visível”, não significa “reconhecível” ou “identificável” em relação ao que realmente é. Uma vez mais, o Bilderberg é uma das causas da contradição que nos esmaga.

O Bilderberg, assim chamado porque nasceu no Hotel Bilderberg nos Países Baixos, por iniciativa das pessoas mais ricas e influentes do mundo. À data, desse mundo constavam gente importante como a coroa britânica, neerlandesa, gente do clube de Roma e muitos outros, tratando-se de um clube restrito que constitui, na prática, a Câmara Corporativa do Império anglo-saxónico, conjugando os mais importantes interesses políticos dos partidos da governação (ministros presentes e futuros), os mais relevantes interesses económicos, comunicação social e defesa. A Indústria, hoje, ocupa um lugar pouco importante, tendo sido trocada pelas tecnológicas da internet.

Gente eleita pelo poder que o dinheiro compra dedica-se, durante alguns dias, a discutir o domínio do mundo e a sua repartição pelos interessados aí representados. Qualquer sinal de democracia é uma mera miragem ou utopia irrealizável. A democracia liberal, na sua forma milenar, garante a eleição dos mais fidedignos governantes que o dinheiro consegue comprar e a comunicação social promover, não mais sendo do que o instrumento histórico que garante um reinado sem convulsões, estabilizadas e desarmadas que ficam nas mentes e nas massas.


Para se ter uma ideia do “peso” real destas coisas da “democracia”, de Mário Soares para cá, apenas Passos Coelho não foi pré-aprovado pelo Bilderberg! Nada que não se tenha resolvido com uma presença após a eleição. Mas este facto marca tanto que, Passos não tem poiso nas mais importantes estruturas do poder ocidental. Para além dos Primeiros-ministros, já lá foram receber a bênção imperial e a cassette ideológica muitas outras figuras, de Medina a Rio, passando por Portas e muitos outros possíveis governadores. Apenas contam os dispostos a prosseguir o reinado neoliberal. Ninguém mais. Os identitários, que também os cá temos, disfarçados de “esquerda radical” fazendo o trabalho do Império, ficam na Open Society de George Soros. A Iniciativa Liberal está hoje representada também, através dos CEO’s do costume.

Passar pelo Bilderberg significa a iniciação nas coisas dos Deuses, significa sair da maralha que constitui o comum dos mortais, o acesso aos segredos divinos. E não se pense que é porta aberta a qualquer um que o consiga. Implica passar por determinados locais, principalmente durante a fase de estudo, pois são esses locais que garantem a formação (ou formatação) de ouro, platina ou diamante. Não acreditem quando vos disserem que um determinado “jovem” levantou (raise) milhões em investimento para uma start-up. Esse “jovem” teve de passar por determinados locais, ou não lhe colocam o dinheiro nas mãos. Desculpem revelar-vos que as portas do Olimpo não são igualitárias!

Para se ter uma ideia da importância destas coisas, este ano discute-se a Ucrânia, claro, a desdolarização, como não poderia deixar de ser, a “liderança” dos EUA no Mundo (não lhes chega o Ocidente), inteligência artificial para nos invadir as mentes, a China, India e Rússia, como factores dissonantes…

Se há guerra mundial; se o regime neonazi do comediante louco continua a receber armas, mercenários africanos e árabes a quem prometem dinheiro e cidadania europeia; se o regime que ocupa a Ucrânia continua a receber biliões dos nossos impostos; se o tik-tok é proibido - e com ele o acesso da China às coisas das mentes, do conhecimento e do dinheiro; se os nossos dados pessoais continuam ao dispor da CIA e FBI; se a soberania dos Estados-membros da EU se continua a degradar; se a EU continua a comportar-se como uma região administrativa do estado de Washington DC; se a inteligência artificial é colocada ao serviço da Humanidade ou dos interesses económicos… Entre outras decisões importantes, é ali que encontram a resposta que lhe trilha o caminho subsequente, mais tarde constatável nos “actos” de Úrsula, nas prioridades de Costa, nos ataques de Montenegro, nas efabulações da IL, na propaganda de Portas ou nos achaques de Costa. Nada sai fora da caixa, nem um milímetro...

O site noticioso http://www.epoch.com divulgou a lista de presentes. Entre as gentes da NATO, Comissão Europeia, Casa Branca e muitos ministros, é só escolherem entre banqueiros, CEO’s de tecnológicas, barões da comunicação social e jornalistas (os futuros directores de redacção é aqui que recebem a confirmação de um estrelato programado e recebem a medalha da ordem da propaganda do império), dissidentes russos, chineses e turcos, grandes firmas de advogados, todos, todos, mas mesmos todos, apenas do Ocidente. De Portugal a lista é a seguinte:

• Pinto Balsemão (o pólo de contacto para o país)
• Durão Barroso (não há maior servidor que este!!!)
• José Luis Arnaut
• Duarte Moreira da “Zero Partners” (consultoria financeira)
• Nuno Sebastião da Feedzai (start-up’s tecnológicas, unicórnios e outras formas de exploração)
• Miguel Stilwell de Andrade da EDP
• Filipe Silva da Galp

O quê? Acham que se chega a “CEO” de uma coisas destas, a “partner” de uma coisa daquelas, a ministeriável de um país da NATO, sem a devida bênção de quem realmente detém o poder de criar e destruir, com sanções, embargos, guerras e bloqueios tudo o que vive, nasce, cresce e morre? Acordem, que o processo é muito “democrático”. É esta a “eleição” que realmente conta! Quem ganhar esta “eleição”, passa a poder ganhar as outras todas!

Como? Sim… É esta verdadeira “eleição original”, uma primária a sério, que conta. Ganhando esta, um servidor fica capacitado para receber os milionários apoios financeiros, humanos e logísticos que compram tempo de antena nas TV’s, horas de comentário em hora nobre, convites para conferências e seminários televisionados, avenças em programas de encher chouriços e boa imprensa… Todo um exército a louvar as suas qualidades enquanto “eleito”. Esta “eleição”, a par de outras, como a da ida a Davos, funciona como um sinal apenas reconhecível pelos da mesma espécie. Todos os membros da matilha recebem o sinal, reconhecem-no e sabem como se comportar face ao mesmo. A partir daí, nasce um novo génio da lâmpada que nos passa a ofuscar a vida. Em vez de concretizar desejos, impede-os de se concretizarem. E o facto é que, a cada eleição, o povão afaga a lâmpada e sai sempre a mesma magia: o fim dos seus desejos e a constatação da terrível realidade.

Eis o que significa a “democracia” liberal. Lamento desiludir-vos… Mas, se pensavam que aquelas directivas comunitárias que se discutem no Parlamento Europeu, aquelas iniciativas da Comissão Europeia de que Úrsula tanto se orgulha e tantas agendas para isto e para aquilo que são aplicadas, as “recomendações” do semestre europeu, vinham mesmo do povo, como numa democracia, ou dos representantes do povo, como numa democracia representativa…. Lamento desiludir-vos, uma vez mais. Perante vós apenas tendes servidores e todos os “valores” europeus, não passam de buracos negros vazios de vida que nos sugam para a morte e a desgraça. A governação não passa de um processo de aplicação de regras estandardizadas que têm de ser seguidas, sob pena de punição severa.

Para terem uma ideia da forma como esta gente olha para o mundo e para os seres humanos que têm o “azar” de não pertencerem a esta meia dúzia de brancos iluminados, aqui ficam dois exemplos:

• Na Inglaterra os migrantes passaram a ser monitorizados 24/7 com pulseiras electrónicas como um qualquer cão que leva o chip. A gravidade assume proporções olímpicas quando o Primeiro-Ministro deste país, de ascendência indiana, permite a privatização das políticas de migração, o que levou cinco empresas do sector a afirmarem esta bela coisa: Multimilionário não é sinónimo de “livre”, muito pelo contrário;

• Na Florida (EUA) os cidadãos chineses foram proibidos, por lei, de comprarem propriedade (imobiliária, participações sociais em empresas, por exemplo), apenas e só por serem chineses. Isto acontece num estado governado por um descendente de migrantes Italianos. Se és chinês, levas com um carimbo da foice e martelo e… A ver vamos onde chega. Se não chegará onde tantas vezes já se chegou na história humana.

Isto são apenas dois exemplos do nível de traição de que esta gente é capaz. Depois falam do “crédito social” experimental na China. Mas poderíamos ir mais longe, nomeadamente a tudo o que é feito que nos trama as vidas (privatizações, PPP’s, perdões e isenções fiscais, concessões de exploração, reformas laborais, reformas dos serviços públicos, etc…), tudo sob a bandeira da “democracia” e “liberdade”, para acabarmos, todos os dias, mais prisioneiros da indigência.

Todos os dias acordamos um pouco mais pobres, todos os dias, pelo menos de há 20 anos a esta parte! Podem agradecê-lo também ao Bilderberg e aos vossos milionários preferidos! Tudo é negociado na Câmara Corporativa Global.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Estou farto e cansado


Por
Eduardo Marçal Grilo
25 de Maio de 2023

Nota
Esta manhã predispus-me escrever sobre a comunicação social e a política. Escrever que estou cansado de um ambiente verdadeiramente constrangedor. Antes passei os olhos pela imprensa diária e eis que dei com um artigo do Professor Eduardo Marçal Grilo, publicado na edição do PÚBLICO. Concluí que não valia a pena repetir o meu pensamento, porque ali estava e está tudo o que me apetecia desabafar. Convido-vos a lerem. 



Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.
Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.

Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.

Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.

Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.

Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media.

Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.

Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.

Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.

Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.

Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.

Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.

Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.

Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.

Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.

Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias. 

Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.

Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.

Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.

Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.

Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.

Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.

E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.

Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.

Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.

Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.

Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.

Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.

Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.

Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.

Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.

Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.

Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

segunda-feira, 22 de maio de 2023

DE UM EX-PRESIDENTE E ACTUAL CONSELHEIRO DE ESTADO ESPERA(VA)-SE MELHOR


Regressei à base e estou a tentar acompanhar os acontecimentos. Alguns pouco me interessam porque são histórias repetidas até à exaustão; outros, merecem uma reflexão mais séria, quando os protagonistas são figuras de Estado. Neste quadro de preocupações, detive-me na recente intervenção partidária do ex-Presidente da República Doutor Cavaco Silva. Afinal, nada de novo saiu daquela boca. De um Conselheiro de Estado e que pelo exercício da política esteve mais de trinta anos, ressaltou, uma vez mais, um discurso desadequado e de certa forma odiento, aliás, na linha que constitui a sua marca. Respeito quem assim não o caracterize, mas para uma figura de Estado, pelo menos esta é a minha opinião, espera(va)-se visão, sensatez e distanciamento, sem perda de acutilância com palavras e expressões ponderadas. Não foi isso que li. O ex-Presidente foi de gosto amargo! Lamentável.




Entre vários documentos publicados, li um texto no site Estátua de Sal (Cavaco Silva - uma assombração) que aqui deixo para reflexão. E deixo-o simplesmente porque o ex-Presidente não é aquilo que alguns tentam vender. Ele está, no plano político, ao nível de outros que por aí andam a infernizar a vida de todos nós. De um político que foi o mais alto Magistrado da Nação espera(va)-se melhor. Mas é o que temos.

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"Ontem, para fazer esquecer a melhoria da perspetiva da notação da dívida soberana pela agência americana Moody’s, surgida na véspera, apareceu a liderar a oposição de direita o rancoroso Professor Aníbal.
Substituiu Marcelo, convicto de que, à semelhança das águas residuais, que podem ser recicladas, os ativos tóxicos podem ser branqueados.
Aníbal Cavaco Silva, catedrático de Literatura pela Universidade de Goa, Grande Colar da Ordem da Liberdade por desvario de Marcelo, não se livrará do passado onde teve a sorte de as intrigas de Marcelo e as assinaturas falsas o fazerem, na Figueira da Foz, presidente do PSD contra o democrata João Salgueiro.
Marcelo, Júdice e Santana Lopes fizeram-no PM; Marcelo, Durão Barroso e Ricardo Salgado, ingratamente abandonado, prepararam na vivenda do último a sua candidatura vitoriosa a PR.
Mas não se julgue que o político videirinho foi apenas um salazarista beneficiado com a democracia, a que pretendeu abolir, conluiado com Passos Coelho, os feriados identitários do País, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro.
Com o reiterado absentismo na Universidade Nova, para dar aulas na Católica, obrigou o reitor, Alfredo de Sousa, que o fizera catedrático, a levantar-lhe o processo disciplinar que o despediria por faltas injustificadas. Teve a sorte de ter como ministro da Educação João de Deus Pinheiro que lhe relevou as faltas e receberia em recompensa o Min. dos Negócios Estrangeiros.
O ressentido salazarista não foi apenas venal na docência, “mísero professor” no léxico cavaquista, foi igualmente no negócio das ações da SLN, para ele e filha, e no suspeito negócio da Vivenda Gaivota Azul, na Praia da Coelha.
Apesar de exigir que se nasça duas vezes para alguém ser tão sério como ele, há boas razões para pensar que sobra uma. Os seus negócios foram tão nebulosos como as razões do preenchimento da ficha na Pide, com erros de ortografia.
Ontem, o Professor Aníbal veio bolçar o ódio que o devora, depois de ter sido obrigado a dar posse ao primeiro Governo de António Costa, de ter então esbracejado e denunciado à União Europeia o perigo de um PM apoiado pelo PCP e BE. Exigiu que António Costa pedisse a demissão, apareceu nas televisões, rádios e cassetes piratas, e regressou aos sais de fruto enquanto a oposição de direita continuará a ser liderada por Marcelo.
O homem é assim, o salazarista inculto e primário que o marcelista culto, empático e igualmente perverso está a substituir com mais êxito."

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Como complemento, disponibilizo um texto do Engenheiro e Professor Universitário Carlos Paz, publicado em 2014, a que deu o título de "Uma Carta ao Presidente da República". AQUI

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Em movimento para as Europeias 2024


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Um entendimento para a tomada de poder com repartição de benesses por todos move a união das direitas portuguesas. É a sua mira.



Direita tradicional em namoro com a extrema-direita

As grandes corporações partidárias em Bruxelas já estão em aquecimento, visando a preparação das Europeias 2024, cujos resultados serão um instrumento privilegiado no “assalto” às instituições da União Europeia.

As estratégias ao longo do tempo que nos separa das eleições, cerca de um ano, vão sendo ajustadas e dinamizadas segundo os dados do momento. Quem arrancou pela calada com alguma sobriedade foi o PPE, a maior coligação no Parlamento Europeu (PE), onde se encaixam os deputados portugueses eleitos no PE, do PSD e do defunto CDS. Mas, no xadrez político global, subsistem incertezas porque, em Espanha e Polónia, dois países importantes, há eleições em finais de 2023.

Incertezas também decorrem das candidaturas aos cargos de topo da União Europeia – Conselho Europeu, Comissão, Presidência do PE e Alto Representante das Relações Externas – e, ainda, se Ursula von der Leyen reúne apoios para se candidatar ou não a um segundo mandato. O Banco Central Europeu não está em causa, agora, porque o mandato é de oito anos.

Muitas incertezas!

A máquina do PPE arrancou sem grande ruído e já fez obra em articulação com a extrema-direita. O grande objectivo parece ser cortar as amarras mais ou menos informais de algum equilíbrio na distribuição de poder com socialistas e democratas nas estruturas da União.

Manfred Weber, Presidente do PPE, reuniu a 5 de Janeiro último, em Itália, com Georgia Meloni, presidente dos Fratelli d’Italia, partido da extrema-direita no poder e, segundo a comunicação social europeia, estão a procurar estabelecer pontes de cooperação no futuro pós-eleições. Aliás, o pedido de namoro do PPE a Meloni é apelativo, porque Itália é não só o terceiro país mais importante e fundador da UE, como uma colaboração concertada faz pender o poder em favor das direitas.

A extrema-direita também não vai perder a oportunidade na conquista de terreno por uma posição mais folgada, por país e no seio da UE. A primeira aproximação concretadeu-se com o aproveitamento do escândalo do “Qatargate”, que levou à prisão de uma vice-presidente grega do PE, socialista, destituída do cargo.
Nas eleições para a sua substituição, muitos deputados europeus do PPE votaram numa candidatura da extrema-direita em sinal de simpatia pela estratégia em negociação. Nos países europeus, está em marcha uma aproximação entre as duas forças e vários acordos (direita/extrema-direita) têm sido celebrados no sentido de segurar ou levar ao poder governos de direita ou de extrema-direita, como na Itália, uma forma de ir asfixiando a democracia.

A extrema-direita nos países da UE

A situação actual apresenta o seguinte figurino. Países governados pela extrema-direita: Itália (Fratelli d’Italia), Polónia (PiS), Hungria (Orban), sendo a Itália um dos fundadores da União; Países com participação da extrema-direita nos governos (Eslováquia, Letónia e Finlândia ainda em acerto de pormenores); Países com governos de direita apoiados no Parlamento nacional pela extrema-direita: Suécia.

A extrema-direita tem vindo a subir nos países da Europa, pelo menos desde 2015, com a crise dos refugiados, aproveitando o ambiente de grande instabilidade económica e social, um terreno ideal para o seu florescimento e, infelizmente, sem resposta consequente das forças democráticas no bloqueio a esta situação.

A pandemia, a inflação, a guerra da Ucrânia, trouxeram dificuldades acrescidas, mas foi essencialmente a falha de soluções para os problemas concretos dos povos que influenciou a implantação das forças de extrema-direita no terreno.

Em alguns países, como em França, a situação é crítica, com Marine Le Pen (terceira força política actual) à frente nas sondagens, com margens esmagadoras, e a esquerda em desagregação.

As pontes em negociação

A nível do PPE, a grande questão é o estabelecimento das pontes com a extrema-direita. A economia é um tema adquirido. A imigração tende a ser outro. A limitação de liberdades em certos domínios também, embora mais complexa.

Tendo em conta a campanha da extrema-direita italiana nas eleições, com o lema “Deus, Pátria e Família” e temas dominantes como as políticas anti-imigração, a diluição da separação de poderes entre os órgãos de soberania, a restrição de direitos de certas comunidades e minorias como a comunidade LGBTQ+ e as medidas recentes que, no governo italiano, estão a ser tomadas no domínio do Estado Social, a flexibilização dos contratos (aumento da precariedade do emprego), o corte de prestações sociais, facilmente se identificam os contornos dos temas que a extrema-direita oferece para as negociações com a direita tradicional.

A situação portuguesa neste contexto

Muitas têm sido as “declarações de afastamento” entre o PSD e a extrema-direita, recentemente proferidas por Luís Montenegro, que até já inventou umas linhas vermelhas para corresponder a Marcelo Rebelo de Sousa. Torna-se pouco crível que, vindo a tornar-se dominante esta linha de tendência na União Europeia, de tudo fazer para um entendimento com a extrema-direita, direita radical,
direita nacionalista, os partidos portugueses do PPE se afastem dela, tanto mais que, sem entendimentos entre si, a direita portuguesa tradicional dificilmente chegará ao poder, apesar da crise política latente em que o País se encontra mergulhado.

Aliás, o governo PSD nos Açores é bem a marca de que, quando cheira a poder, abatem- se as linhas vermelhas. O governo açoriano é um excelente ícone do entendimento entre as direitas portuguesas e até onde desejam ir.

Poderá dizer-se que o namoro agora é só com a Iniciativa Liberal IL). Até houve um almoço muito apresentado às televisões para mostrar, pelos sorrisos, que estão em franca harmonia para formar governo. Foi um almoço para mostrar a Marcelo que estão a trabalhar. Mas a IL, um tanto quanto abalada pelos abandonos, diferencia-se do Chega sobretudo na área dos costumes, mas bem mais radical quanto ao papel do Estado. Saúde e educação privatizadas, impostos iguais para todos. Estado Mínimo
numa palavra.

E se o lençol for curto? O Chega, que está na reserva (encoberto), será chamado à equipa principal? Sem dúvida. Um entendimento para a tomada de poder com repartição de benesses por todos move a união das direitas portuguesas. É a sua mira. Na crise política existente, Montenegro só não solicitou a dissolução da Assembleia da República porque sente que o PSD perderia de novo as eleições. O PR não dissolveu pelas mesmas razões. E entra numa estratégia de desgaste, o que não é difícil face à péssima gestão que este governo vem a fazer do seu mandato. Os dois protagonistas saíram-se mal, apesar da atitude positiva de rebeldia inesperada de Costa, que pôs a claro a tibieza e as frustrações de Marcelo, que andava abusivamente a pisar o campo dos poderes do Governo. O problema de António Costa é que a sua rebeldia não se apresenta escudada num programa convincente e com equipa capaz para a mudança de gestão que o País precisa. E ninguém me diz que esta falha de perspectivas não vá resultar, a prazo, numa dinâmica de esgotamento dos partidos tradicionais de todas as matrizes, como aliás vem
se estendendo na Europa. Uma nova composição partidária a termo com algum pântano de permeio.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

A mosca


Há quem entenda que o exercício da política tem de assumir os contornos da maledicência, da ofensa gratuita e do rebaixamento dos adversários. Não entendo assim. Quem por esses caminhos envereda demonstra alguma soberba, alguns tons antidemocráticos e, sobretudo, uma clara falta de respeito pelos outros.



Esta semana escutei um desses momentos. O líder da bancada parlamentar do CDS, olhando para um deputado da oposição perguntou-lhe sobre a sua formação (académica, naturalmente) e, na ausência de resposta, terminou dizendo que talvez não tivesse sequer o 12º ano. Quando escutei tamanha deselegância, lembrei-me do poeta popular António Aleixo, falecido no ano que eu nasci:

(...)
Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
(...)

Que grande António Aleixo, Homem "simples, humilde e semi-analfabeto", em discurso directo a todos quantos rebaixam os outros movidos pelos interesses pessoais ou de circunstancial grupo. Ora, na Assembleia estão os representantes do Povo, eleitos em sufrágio universal. A presença dos que lá estão não pode ser colocada em causa. Essa leitura pertence ao Povo e é, constitucionalmente, realizada de quatro em quatro anos. Portanto, o debate nunca pode ser sobre eventuais percursos académicos, mas sobre os conteúdos das propostas ali debatidas. Há deputados com uma auréola de doutor que pouco ou nada adiantam, enquanto outros, sem esse percurso, demonstram estudo, conhecimento e invulgar capacidade de argumentação. No próprio partido do deputado em questão.

Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 2 de maio de 2023

Chanceler Scholz, chefe de governo desentendido

 

Por
01 Maio 2023


Cada Estado-membro da UE é livre e soberano de escolher as fontes de energia e a exploração dos recursos como bem entende. Não deve, contudo, tentar manipular, como tem acontecido, para excluir o nuclear do Plano Europeu.



Em 15 de Abril de 2023, a Alemanha desligou da rede as três últimas centrais nucleares. Esta operação, prevista inicialmente para 31 de Dezembro do ano anterior, foi adiada, na sequência da guerra da Ucrânia, com receio do inverno, mas não se deu de forma concertada no seio do Governo, por oposição dos liberais cujo fecho consideraram um erro estratégico. Scholz caiu para o lado dos verdes com maior peso político no governo e que, desde há muito, se batiam por este desfecho.

Os activistas anti-nuclear saudaram o acontecimento, embora sem alardear grandes entusiasmos.

As reacções contrárias foram bem mais expressivas e diversificadas:

Uma carta aberta ao chanceler Scholz, subscrita por físicos, climatologistas e economistas especializados na matéria, incluindo dois prémios Nobel, onde se lia: “solicitamos que as centrais nucleares ainda existentes sejam usadas para alívio da crise energética e contributo das metas climáticas da Alemanha”. Assinale-se que, com a guerra da Ucrânia, devido à escassez de gás natural russo, a Alemanha accionou 26 centrais a carvão para prover necessidades energéticas, com impacto negativo devido ao acréscimo de gás com efeito de estufa (GEE) lançado na atmosfera, sendo a Alemanha, hoje, o país europeu mais poluidor;

O ministro-presidente do estado da Baviera, Markus Soder, mostrou a sua profunda indignação, afirmando que esta decisão de Scholz constituiu um perigo real para a Alemanha, porque perde, a longo prazo, a segurança de aprovisionamento de energia, sem qualquer fundamento científico e contraria a vontade do povo alemão, apenas por uma razão “de pura ideologia ambientalista”;

O líder da oposição Frederich Merz (presidente da CDU) em várias entrevistas à comunicação social afirmou que a saída da energia nuclear faz parte de uma política energética enviesada, quase fanática. “São reservas ideológicas e o mito fundador dos verdes que triunfam sobre toda a razão”.

A fechar este panorama, é de referir uma sondagem específica que mostra uma maioria qualificada do povo alemão contra o fecho dos reactores nucleares. Apenas 26% dos alemães dizem concordar com o seu desligamento.

Fatih Birol e a energia nuclear

Fatih Birol é o director executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), um organismo autónomo ligado à OCDE, criado em 1974. Birol é um economista turco, especialista em energia e considerado, numa lista da Time de 2021, uma das 100 personalidades mundiais mais influentes na matéria.

Há menos de um mês, numa conferência em Paris na Science Po (5 de Abril 2023), Birol apelou aos países da União Europeia (EU) que se opõem ao nuclear a fazer “uma autocrítica séria das suas políticas energéticas” pois entende que, para além da envolvente externa (subentende-se a guerra na Ucrânia), a situação na Europa (atropelos profundos na política energética) se deve a “dois erros estratégicos maiores”, cometidos por alguns Países-Membros e pelas Instituições da União Europeia.

Para Birol, o erro de Bruxelas deve-se à desvalorização da energia nuclear, a que acrescento a sujeição das instituições da UE à posição da Alemanha que se nega a ter em conta os avanços da tecnologia nestes últimos tempos que certificam que a energia nuclear reúne as condições para participar na transição energética e no combate à crise climática e até, em certos domínios, com vantagens sobre as renováveis.

Quanto aos estados-membros, onde a Alemanha pontifica, diz que manteve “inúmeras discussões com o governo alemão e numerosas pessoas interessadas no tema que diziam que, mesmo durante a guerra-fria, a Rússia nunca cortou o gás”, mostrando os poderes públicos, desta forma, uma indiferença, uma posição naif nas questões de soberania energética e de segurança de aprovisionamento. Em seu entender, países houve, como a Alemanha, que puseram “os ovos todos no mesmo cesto a saber na Rússia”.

Cada Estado-membro, no quadro do Tratado de funcionamento da UE, é livre e soberano de escolher as fontes de energia e a exploração dos recursos como bem entende. Não deve, contudo, tentar manipular, como tem acontecido, para excluir o nuclear do Plano Europeu, impedindo o desenvolvimento de toda uma fileira industrial, tão determinante ao desenvolvimento, designadamente através do impedimento de financiamentos europeus e tentar que, por exemplo, não se integre o hidrogénio de origem nuclear na directiva sobre energias renováveis (RED III), no que contou com o apoio de Portugal, entre outros países.

Para a Agência Internacional de Energia, o cenário de neutralidade do carbono prevê que a capacidade da energia nuclear a instalar no mundo duplicará até 2050 e terá “um papel importante para o objectivo zero de emissão” de carbono. A AIE reconhece, assim, um papel importante à energia nuclear na descarbonização da sociedade, ao lado das energias renováveis.

O G7 e a energia nuclear

O G7 inclui a Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, os sete países, tidos como os mais industrializados do Planeta – um conceito algo discutível.

Reunido em Sapporo no norte do Japão, nos dias 15 e 16 de Abril último, o G7 analisou vários temas relativos à energia, não se comprometendo, por exemplo, com uma data para a eliminação gradual do carvão no sector da electricidade, apesar da grande pressão do Reino Unido, que apoiado pela França, avançou uma proposta para o ano de 2030, mas sem sucesso.

No campo da energia nuclear “formou-se”, quase diria, um G6, pois todos os países, com excepção da Alemanha, mostraram-se empenhados no desenvolvimento da energia nuclear, sendo o Japão, o país que mais tem defendido a mudança de política sobre a nuclear, uma vez que após Fukushima (2011) tinha decidido desligar paulatinamente os reactores. O Japão criou um programa de relançamento da nuclear, porque concluiu não conseguir fazer a transição energética sem o seu recurso.

Fatih Birol esteve presente nos debates deste G7.

De tudo quanto se disse, algumas ilações podem ser esboçadas.

A energia nuclear está a ganhar um papel de maior relevo na transição energética, embora, a nível da UE, esse reconhecimento esteja a enfrentar dificuldades acrescidas;

A União Europeia está cada vez mais dividida nesta matéria, tendo-se constituído o clube da nuclear que, neste momento, agrega 14 países;

A Alemanha continua na sua posição destrutiva e unilateral, a tentar boicotar a energia nuclear no “mix energético europeu”, agindo, desta forma, capturada por grupos económicos com grandes interesses nas energias renováveis que dominam e sabendo que, na nuclear, a sua tecnologia não é de primeiro nível.

Pensamos que este não é o caminho certo para uma política de energia sustentada na União Europeia. Pelo contrário, insistir nele pode levar a um cenário algo assustador para o Futuro da União Europeia.

Uma política energética concertada no seio da União, em que a energia nuclear faça parte da equação, em plano de igualdade com as renováveis, é futuro, independente das opções que cada país fizer.