
Mas esta situação arrasta consigo outras leituras mais profundas. No essencial, perguntar-se-á, porque motivo isto está a acontecer. Trinta e cinco anos depois de Abril de 1974, era expectável, no mínimo, duas coisas: primeiro, uma exemplar maturidade democrática do povo; segundo, decorrente da primeira, uma assumida liberdade cívica de participar sem qualquer receio de eventuais represálias ou olhos enviesados. Mas não é isto que está a acontecer. O que na prática se verifica é que há um crescente medo e receio de participar. Aliás, começa a ser vulgar, em grupo diversificado, quando a discussão se torna mais acesa, alguém olhar em volta para verificar se porventura estão a escutar. E se lá no meio está alguém adepto do poder instituído, aí o problema ainda é mais sensível. Falo com conhecimento vivido, eu que, perdoem-me a expressão, estou-me nas tintas para quem está a ouvir o que digo. Situações que me fazem lembrar outros tempos de má memória, de bufos e quejandos.
O problema é que isto que está a acontecer na nossa sociedade, de forma branda, é intencional. A maioria política, paulatina e criminosamente, por múltiplos canais, condicionou a população, condicionou os jovens desde os bancos da escola, utilizou todos os meios para que tudo girasse em redor de um homem, de uma imagem, de uma palavra e de uma política. Secou tudo à sua volta. E hoje, os mais antigos, os que sofreram no tempo da ditadura, estão velhos, cansados e assumem que estas já não são lutas para eles; os mais novos, salvo raras excepções, sentem que se torna necessário alguma moderação se não quiserem ver condicionados os caminhos do futuro profissional.
Este quadro é dramático e terá, inevitavelmente, consequências muito graves na construção de uma sociedade livre, respeitadora uns dos outros, verdadeiramente democrática e, portanto, com capacidade de ganhar os grandes desafios que tem pela frente. E o PSD-M, culpado da situação que está criada quer mais Autonomia. Pergunto: com que intenção? Trata-se, de facto de um paradoxo e de um assunto que merece muita reflexão e debate. Antes que tarde se faça.
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