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terça-feira, 21 de abril de 2020

Compreendi, Mário Centeno!



Por
20 Abril 2020

Onde encontrar o financiamento para reconstruir a economia em bases diferentes e em quantos anos? Tudo isto sem contar com a União Europeia, ou contando muito pouco.

A reunião do Eurogrupo

1. Tenho escrito várias vezes que, em todos os momentos significativos da vida, há um antes e um depois, que marcam o processo.
Mário Centeno tem a incumbência, como presidente do Eurogrupo, de evitar o seu “desmoronamento” e de levar o barco a bom porto, perante uma via sinuosa, e o perigo de encalhar e adornar é muito grande. Daí, a explosão, as palmas, de como quem sente, felizmente, ainda não foi desta que o barco se desfez.
O antes foi toda aquela maratona conturbada da negociação com nuvens muito negras a pairar, com os comportamentos impróprios dos políticos holandeses, o que faz parte do seu ADN, todo aquele processo em que a ruptura parecia/seria fatal.
Como resultado, uma saída, sem dúvida, um alívio e uma grande e completa frustração de fundo dos europeus. No limite, evitou-se, por agora, a fragmentação da zona euro. E depois? A grande incerteza.

O pacote aprovado de cerca de 540 mil milhões de euros, aparentemente aparece-nos como uma soma de peso. Não nos podemos esquecer, no entanto, que são muitas as bocas. E comparando com os 750 mil milhões de euros que a Alemanha de motu proprio avançou para apoiar a sua recuperação, a relativa pequenez destes milhares de milhões de euros aprovados no Eurogrupo não escapa ao mínimo confronto.

A Alemanha sozinha dispõe de 210 mil milhões de euros a mais que toda a União disponibilizou! Qualquer coisa aqui não está bem. Umas migalhas para “os fracos” do Sul, com países da dimensão da França, Itália e Espanha! Surreal.

2. Os 540 mil milhões de euros estão divididos por fatias: 100 mil milhões destinados a custear o lay-off (programa Sure) e os horários reduzidos para que as pessoas se mantenham no activo; 200 mil milhões através do BEI traduzem-se em linhas de crédito às empresas, sobretudo de apoio às PME; e, finalmente, a de 240 mil milhões de euros, a mais contestada e a mais gravosa, a tranche que empurra cada país a resolver sozinho a sua situação.
E porquê esta afirmação?
Estes 240 mil milhões de euros traduzem-se em linhas de crédito a obter junto do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), mais conhecido pelo mecanismo da austeridade dos tempos da troika, pela sua política de imposição de programas de ajustamento.
Cada Estado-membro que decida recorrer a este empréstimo pode fazê-lo até um montante equivalente a 2% do seu PIB.
O que ficou então acordado?

Uma taxa de juro mais baixa e a não obrigatoriedade de tal empréstimo estar sujeito a um programa de ajustamento. Foi esta questão de condicionalidade que ia partindo a reunião, que sofreu um alívio contra a vontade da Holanda e inicialmente de outros três países. Mas os 2% continuam. E este crédito apenas pode ser utlizado em despesas directas e indirectas com a saúde, o que já está a originar discrepâncias de entendimento sobre o conceito “despesas indirectas” entre os países membros.

3. Uma vez mais não se entrou a fundo no problema financeiro e de desenvolvimento da UE e, assim, daí decorrem condições desiguais entre as economias mais devedoras e as mais desafogadas.
Vejamos:
O que ficou decidido assenta directamente em dívida a suportar por cada país membro.
Os países com dívida excessiva como Itália, Portugal, Espanha, Grécia vão ter de somar mais dívida à dívida, um agravamento da sua situação presente, tanto mais que se esperam grandes recessões económicas com contracções substanciais do PIB e, subindo o rácio dívida/produto estrondosamente, as condições de mercado vão complicar-se. O rating vai deteriorar-se.
Estes países vão enfrentar grandes dificuldades na obtenção de financiamento a baixo custo, de que tanto precisarão para o seu relançamento económico e para funcionamento normal da economia, e os custos com a dívida vão onerar os orçamentos, limitando-lhes pesadamente a actividade.

Portugal pode contrair dívida um pouco acima de 4 mil milhões de euros, uma gota de água do que vai precisar. Em comparação com o montante do tempo da troika, financiamento aproximadamente no montante de 78 mil milhões, são mesmo muitos mil milhões a menos.

Este acordo, há quem refira, é apenas o princípio. Até admito que seja.
Mas se já foi difícil para um montante tão diminuto que apenas se reduzissem certos aspectos dos condicionalismos de acesso, o que não acontecerá para se avançar com a vaga promessa da criação de um fundo destinado especificamente ao relançamento da economia europeia a ser gerido pela Comissão Europeia?!
Daí que esteja de pé a afirmação do primeiro-ministro António Costa na entrevista à Lusa: “precisamos de saber se podemos continuar com 27 países na União Europeia, com 19 na zona euro, ou se há quem queira sair”e claramente disse que se referia à Holanda.
Em minha opinião, começa a ser tarde para se equacionar uma depuração no seio da União. Não avança, pelo contrário, perde poder na arena internacional com estes dois grupos antagónicos no seu seio. Um grupo que aponta sistematicamente para soluções base na aplicação de medidas de austeridade é castrador de progresso. Ofende princípios fundacionais da União, como a solidariedade.

A dimensão dos impactos na economia

4. O quadro qualitativo dos efeitos na economia da crise pandémica em curso está desenhado.
Quantificar é deveras mais arriscado. Mas várias instituições, como o FMI, já avançam nesse sentido apontando uma queda do PIB de 8% e uma taxa de desemprego de 14% em Portugal, em 2020.
Mário Centeno avançou que, por cada 30 dias úteis de paragem da economia portuguesa, nas condições presentes do seu funcionamento, o impacto no PIB anual é de uma quebra de 6,5%. No défice também o Ministério das Finanças já tem valores estimados.
E qual será no emprego?
Tudo isto está condicionado – à grande incerteza – i.e., ao número de meses em que vamos continuar ao ritmo actual.
E, depois, poderemos pensar em sectores importantes como o turismo, os transportes aéreos, certas zonas do comércio e serviços praticamente congelados e muitos outros, a velocidade reduzida. E as exportações?

Sobre o turismo, a grande questão é: em que situação ficará a economia dos mercados emissores? Lembremo-nos de Espanha que sairá destroçada desta crise pandémica e de outros e outros nossos mercados… Quantos anos demorarão estes países a reerguer-se?

As nossas exportações têm um problema semelhante. Como vai ser possível retomar o seu fluxo ao padrão normal quando os mercados de destino se encontram em situação de ruína? Quanto tempo levará a sua reconstrução?
E, internamente, ao nível do País, que parte do tecido económico será destruída. Ou seja, qual o número de empresas que jamais abrirá nos diversos sectores económicos? E qual a sua importância?
Todas estas dúvidas/certezas qualitativas apontam para a necessidade de um plano estratégico de recuperação da economia e da sociedade. Mesmo com a informação precária existente urge começar. Mas há aqui um outro problema da maior importância. Onde encontrar o financiamento para reconstruir a economia em bases diferentes e em quantos anos?
Tudo isto sem contar com a União Europeia, ou contando muito pouco, pois em vez de uma programação e estratégia de fundo está a perder-se a guerra com divergências insanáveis entre os países. Se não houve entendimento sobre o custeio da pandemia, que deveria ter assumido um carácter colectivo, como haverá para o fundo de reconstrução/relançamento da economia europeia?!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Os jornalistas têm razão... eles não são o vírus!


Não costumo acompanhar as conferências de imprensa sobre o Covid-19, realizadas pelo governo da Madeira. Já tem umas semanas segui uma e considerei-a enfadonha. Prefiro as sínteses que os jornalistas preparam e divulgam. Porém, neste último fim-de-semana, na sequência do caso de Câmara de Lobos, pacientemente, fiquei a olhar para o televisor, pese embora a qualidade da imagem e sobretudo do som. Dei isso de barato, pois interessava-me o conteúdo. E em síntese, dois aspectos tornaram-se-me evidentes: primeiro, que os promotores da conferência de imprensa não gostam de eventuais "verdades inconvenientes"; segundo, não têm noção que uma conferência de imprensa deve ter um tempo próprio e cingir-se ao essencial do dia. Aquela lengalenga sobre o trabalho realizado, acompanhada da leitura de exaustivos números e de acumulados, ao ponto de os dividir em grupos de idade, evidentemente que, em texto, podem servir de apoio através de documento expedido às redacções, nunca para serem lidos da forma como é feito, simplesmente porque, isto é básico, quem escuta, no final, não tem capacidade para cruzar de forma sumária o transmitido. 


Ontem, no final daquela extensa lengalenga de quase uma hora, fui ao computador para ler outras notícias e dei com o texto de um comunicado do Sindicato dos Jornalistas, publicado pelo Dnotícias, cujo conteúdo já tinha sido objecto de um meu comentário. Repudiava o sindicato "qualquer falta de respeito para com os jornalistas em exercício das suas funções" no actual momento de crise pandémica. Mais adiante salientava o texto que "o jornalismo é feito por jornalistas, que respeitam uma carteira profissional e um código deontológico, desconhecidos por muitos dos que de diversas formas põem em causa o trabalho da Comunicação Social regional". Um tiro no centro do alvo, assumo, porque absolutamente concordante com a leitura que nestes dois dias tinha concluído. Há, claramente, uma atitude de falta de respeito, demonstrada no tom de algumas resposta, na subtileza do sorriso de escárnio e até na fisionomia de poucos amigos. 

Quem ali se senta, pela responsabilidade que tem de informar, não pode ignorar, desde logo, que todas as perguntas são legítimas. E que apenas lhe compete responder, de forma sucinta, clara e objectiva. Não pode haver lugar a perguntas "convenientes" nem a respostas que coloquem em causa o respeito e a idoneidade de quem as faz. O jornalista, por norma, deveriam saber, toca onde sangra, porque reúne dados junto de imensas fontes, portanto, ninguém deve sentir-se incomodado com isso. 

Neste pressuposto, das duas, uma: ou está preparado para uma resposta, ou assume, frontalmente, que não sabe e que logo informará. É mais sensato, humilde e gerador de confiança. É mau, perante as evidências e com formatos de alguma arrogância, dizer não dizendo, que o interlocutor é burro, não sabe do que fala e que a verdade é apenas aquela que interessa ao promotor da reunião. A verdade, excelentíssimos, é múltipla e assim sendo, o que se pede é que, serenamente, quem responde, seja honesto com a sua verdade.
Nas conferências de imprensa que assisti não vi jornalistas à procura do anormal. Vi-os empenhados e a colocar, respeitosamente, as questões. Aquelas que, inclusive, o povo gostaria de ver respondidas, as tais que parecem transportar a ideia que existe muito mais para além do conhecido. Vi jornalistas bem preparados, fazendo o enquadramento dos dados que exigem respostas. Habituem-se! 
Sei que o momento que todos estamos a viver é muito duro e problemático, que estamos a passar um tempo preocupante, que apavora, na saúde e na economia, portanto pede-se sensatez, verdade e serenidade, elementos estes susceptíveis de garantirem a confiança. O dramatismo do momento dispensa caras enjoadas e testas franzidas, porque são eles, os jornalistas e as empresas para quem trabalham, os responsáveis pela transmissão da verdade e da serenidade que todos precisamos.
Ilustração: Google imagens.

domingo, 19 de abril de 2020

A Semana Santa já passou!


Por
19 ABR 2020

Para começar, desenganem-se os espertos saloios que utilizaram este tempo de confinamento social para continuarem a nomear assessores e outros cargos afins para os Gabinetes do Governo Regional. Numa altura em que muitas famílias estão a passar pelo layoff e muitas vão enfrentar o desemprego, estas nomeações foram uma afronta a todos nós. Não pense também quem governa que passou despercebida a primeira medida que anunciaram logo após o início desta crise de saúde pública aqui na Madeira - atribuição de 28 milhões de euros às Sociedades de Desenvolvimento.

É tempo de sermos realistas! Não há folga para desperdícios financeiros e prioridades distorcidas. Todos nós já sabemos o impacto económico e financeiro que a paragem da economia vai ter nas finanças públicas e no dinheiro disponível em todas as instituições. E arriscamo-nos a uma nova austeridade, inclusive na administração pública.
E todos nós já sabemos que isto não vai ficar tudo bem. O “tudo bem” que podemos ambicionar é mantermos a saúde e evitarmos as mortes. E porque isto depende quase exclusivamente de nós, de nos cuidarmos, acredito que na saúde tudo vai correr bem. A luta pela vida deve ser a nossa prioridade!
Depois... Logo veremos como vamos ultrapassar as dificuldades. Esta é a realidade! Não nos faltará garra para ultrapassar as dificuldades. Se aos nossos pais que estiveram na guerra colonial não faltou esperança e garra para vencer, nós, que somos feitos da mesma fibra, somos capazes de fazer o mesmo.
Mas para vencer, nos tempos futuros precisamos de exigir mais como povo. Não há folga para o “deixa andar”. Este vírus veio demonstrar as fragilidades das estruturas sobre as quais a nossa sociedade se baseava, das economias e da ordem mundial. Uma nova geopolítica mundial está a ser desenhada. Mas acarreta em si um risco muito grande – a tendência para a ditadura e a intolerância.
Com esta pandemia e estando todos os países preocupados em resolver os seus problemas de saúde pública, regimes de países como a Venezuela ficam completamente livres para fazerem seja o que for desprotegendo aqueles que lutam por um sistema democrático. Curiosamente, ainda não vi nenhuma iniciativa de deputados luso-venezuelanos demonstrando preocupação na defesa das comunidades portuguesas na Venezuela.
E como começa a ditadura? Começa nos atropelos à lei. Por isso, é inaceitável não cumprir a lei. E é grave ver no Parlamento Regional o Vice-Presidente do Governo afirmar que não se vai preocupar em cumprir regulamentos e leis. Vamos continuar a ser condescendentes com estas situações?
O que deveríamos assistir era vê-lo afirmar que ia tomar todas as medidas para cumprir em tempo recorde os requisitos necessários para o desbloqueamento de todas as verbas necessárias para a retoma económica. Justificaria assim a constituição da sua equipa de confiança de inúmeros assessores, adjuntos, técnicos especialistas e afins.

E já repararam nalguns “tiques” dos membros do Governo Regional nas conferências de imprensa, sempre que um jornalista faz uma pergunta que não agrade? E as perguntas sem respostas? Tomaram gosto pelo Trump? E quando se irritam? Vamos continuar a ser tolerantes com esta forma de discurso?

A confiança conquista-se. E exigia-se agora muita na gestão das contas públicas para um diálogo mais fluido com a República. Ao invés, continuou a apostar-se num discurso azedo de acusação do bicho papão do “Continente”. Acredito que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, homens com verdadeiro sentido de Estado, não vão abandonar-nos. Temos sorte!
Não me agrada a dualidade de critérios e a perversão de valores. Vejamos: aos cristãos praticantes foi pedido que vivessem esta Páscoa de forma diferente. Vimos as nossas igrejas fechadas e assistimos às cerimónias e celebrações eucarísticas por televisão. D. Nuno Brás optou pela segurança do povo em detrimento de um fanatismo religioso. Bem-haja! Demonstrou sensatez e sabedoria.
Por contraponto a esta decisão, decidiu-se levantar algumas restrições, nomeadamente de proibição de ajuntamentos sociais de forma a permitir as celebrações do 25 de abril e o 1.º de maio. E eu pergunto: em quê estas liberdades democráticas são mais importantes do que a liberdade religiosa ao ponto de serem comemoradas com exceções ao confinamento decretado no nosso país?
Não vivemos tempos de exceção? Não podiam estas celebrações serem comemoradas apenas por televisão com os principais intervenientes e com atos simbólicos para lembrar a liberdade, reduzindo ainda mais substancialmente o número de pessoas presentes? Sem convidados?
A matriz futura será diferente. O mundo está em mutação acelerada e não vamos voltar ao passado. É tempo de pensarmos que futuro realmente queremos e o que é necessário mudar. Eu acredito que vamos conseguir ultrapassar as dificuldades. Mas vai doer. Entretanto, cuidem-se. Digam sim à vida!

sábado, 18 de abril de 2020

COVID- 19 – Que fazer no dia seguinte?


Por
Carlos Esperança, 
17/04/2020

Por maior que seja a incerteza quanto à data do dia seguinte e à tranquilidade possível, há na catástrofe natural que nos flagela, razões para reflexão e para que os cientistas de variadas áreas ajudem os governos a planear o futuro no único Planeta que nos coube.


Pode faltar outra chance para ponderar o modelo de sociedade e preservar as conquistas civilizacionais face ao aquecimento global e escassez de recursos. Respeitar o ambiente e reduzir o consumo, contendo a explosão demográfica, a fome e a doença, são as mais urgentes obrigações. Esta pandemia e a provável e incerta repetição, com uma bactéria ou outro vírus, demonstram que as fronteiras são acidentes precários no mundo global, para o bem e para o mal.
Pode não se fazer ideia do que é possível fazer, mas há certezas de erros que não devem ser repetidos. O trabalho e os rendimentos serão bens cada vez mais escassos e que urge repartir, para que as desigualdades obscenas entre países e, dentro destes, entre cidadãos não conservem níveis de injustiça a que o neoliberalismo condenou milhares de milhões de pessoas.
A guerra não é uma fatalidade, é uma fonte de riqueza para alguns e de sofrimento para multidões, que urge erradicar. Os arsenais nucleares são inúteis, perante as catástrofes, e obsoletos os mísseis para lhes porem termo.

É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente crédulo para imaginar que a brutal destruição de bens, de postos de trabalho, do tecido económico e perturbação social não terão reflexos no bem-estar de cada um, num mundo empobrecido onde a satisfação das necessidades básicas se tornará o alvo principal a atingir.

Só o medo da perda da vida pode levar os avarentos a prescindir do supérfluo, e nunca mais deixará de ser o Estado, a nível nacional, regional ou global, a obrigar-se a definir as regras pela quais todos teremos de nos pautar.
Apavora a possibilidade de um Estado totalitário substituir democracias pluripartidárias, e a de outra civilização, alheia à matriz greco/romana e iluminista, acabar por se impor à Europa e a nível global.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A Europa já não está connosco?


Por 
Francisco Louçã, 
in Expresso Diário, 
14/04/2020

Num discurso em 1985, Jacques Delors, então presidente da Comissão Europeia, arriscou um vaticínio distante: “Temos de enfrentar o facto de que em 30 ou 40 anos a Europa constituirá um OPNI, Objeto Politicamente Não Identificado, a não ser que forjemos uma entidade capaz de garantir a cada um dos nossos países que beneficie da dimensão europeia e prospere internamente, ao mesmo tempo que mantém o seu estatuto externo.” Talvez fosse fácil, à distância de várias décadas, ameaçar os seus ouvintes com um fracasso cataclísmico caso não se conjugassem numa União que estava então a começar a pensar numa moeda única e que, sobretudo, acreditava no seu sucesso. Era um tempo de otimismo e a frase sobre o OPNI ficou registada como um detalhe retórico.


No entanto, nos mais de trinta anos seguintes, este discurso de Delors foi sendo lembrado sempre que percalços sucessivos mostraram que a “Europa” não era “capaz de garantir a cada um” dos países membros “que beneficie da dimensão europeia e prospere internamente, ao mesmo tempo que mantém o seu estatuto externo”. Afinal, foi mesmo um OPNI que foi retirando capacidade de decisão soberana ao mesmo tempo que acentuava a desigualdade entre economias por via de regras e estratégias, que consagrou em tratados.
Temendo o efeito dessa distorção, a União foi sempre prometendo compensações, fosse uma reparação histórica (a Alemanha e a França deixariam de se guerrear), fosse um fluxo de fundos modernizadores (“a Europa está connosco”), fosse até uma narrativa de cooperação entre iguais, tudo poderosos objetos eleitoralistas para uso e abuso internos. Portugal viveu essa doçura durante anos, repetida à exaustão por todos os governos. Nenhum governante se atrevia a contrariar o dogma, a União Europeia é a nossa salvação.

E assim se criou a contradição que agora está tão exposta: enquanto as elites e aparelhos governantes na Europa do sul foram educados na veneração destes arranjos institucionais como o único quadro possível de ação e até de pensamento, as soluções que trabalhosamente articularam são destrutivas para essas sociedades. A reunião do Eurogrupo da semana passada, modestamente encerrada pelo autoaplauso dos ministros e apresentada por umas horas aos crédulos como um sucesso, foi um retrato desse paradoxo: os que precisam não podem e os que podem não querem, sabendo que esta é mais uma oportunidade para reforçarem o seu poder e a sua supremacia económica.

Talvez custe dizê-lo, mas num ponto o ministro holandês tem razão: foi ele quem venceu este round. E não precisava de muito, bastava-lhe lembrar que o instrumento do endividamento dos aflitos, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, foi precisamente definido para os disciplinar com programas de austeridade. Ele limitou-se a ser coerente com o que tinha sido votado por todos os outros, teve mesmo a indelicadeza de lhes lembrar que tinham aceitado a regra da peçonha no dia em que aprovaram o Mecanismo.
Claro que, sabendo bem o que tinham feito, os governos aprovaram o recurso a um instrumento em que preferem nem tocar, nenhum quer meter-se na aventura de acender os focos da pirataria financeira sobre a sua economia – merecem de facto um aplauso pela artimanha. Só que ficaram deste modo só com uma mão cheia de promessas e uma pilha de possibilidades de endividamento, ainda por cima caro.
Nesse drama, o primeiro-ministro tem pela frente decisões difíceis. O Eurogrupo desprezou a proposta dos nove governos, limitando-se a oferecer-lhes uma misteriosa frase sobre a discussão futura acerca de “instrumentos financeiros inovadores”. Costa não pode agradecer a Centeno ter sido o mediador da Alemanha e nem sequer quis esconder o seu descontentamento com os resultados da reunião. Percebeu também que a convocação do Conselho para a próxima semana é uma armadilha: a reunião, de tão imediata, não será preparada por negociações, que seriam certamente ardilosas, e portanto dificilmente considerará soluções que o Eurogrupo não tenha apresentado.

Como se percebe, o Conselho reúne-se para fingir unanimidade e consagrar o fecho da discussão, com a chantagem de que um desacordo a esse nível seria uma mensagem de divisão que ninguém quererá arriscar. Mesmo que se possa presumir que, para amaciar os recalcitrantes, venha a ser prometido um pequeno fundo, como o que Macron sugere e a prestidigitação dos comissários já mostrou saber como agigantar (o plano Juncker tinha vinte mil milhões e prometia alavancar 315 mil milhões), não se adivinha outro fôlego. Berlim quer acabar já com os protestos dos países do sul.

Assim sendo, o governo português, como o italiano ou o espanhol, tem somente pela frente três possibilidades: ou consegue um fundo de aplicação imediata e de grande dimensão, com juro zero e uma maturidade longa, ou consegue um quadro orçamental plurianual com transferências volumosas, ou não consegue nada que sirva para responder à segunda vaga da pandemia. As duas primeiras vias são difíceis, pois foi precisamente para as evitar que se consolidou a fronda germano-austríaca-holandesa-islandesa. Aliás, melhor fariam os nossos euroentusiastas em não tecerem encómios a Merkel rezando por um milagre, foi precisamente o seu governo que criou as condições internas para recusar a cooperação europeia.
Restaria aos governos do sul, como no passado, fingirem que uma derrota é uma vitória, que a união prevaleceu e que tudo está bem neste reino da Dinamarca. Não sei se o farão, esticaram muito a corda nas últimas semanas, mas tem sido sempre esse o seu instinto.
Reconhecer que todas as promessas vão ser pagas com austeridade mostraria simplesmente que cada país ficou entregue ao seu destino. Ouvir-se-á talvez a pergunta mais temida: se a União Europeia nos abandonou, serve para alguma coisa? Ou, lembrando Delors, não serão estes trágicos dias da pandemia o tempo em que o OPNI saiu do armário e nos ameaça?

terça-feira, 14 de abril de 2020

Chocantes assimetrias


É uma das fotografias chocantes desta pandemia. O país que se vangloria da Liberdade e das oportunidades para todos, o país que possui um poderosíssimo arsenal bélico, que compra cientistas, explora o espaço e que se arvora em estandarte do planeta, é o país que enterra os seus cidadãos em valas comuns. Não todos, obviamente, mas sobretudo os pobres, os das margens sociais que, por múltiplas razões, entre outras, as de natureza económica, nem as famílias se "atrevem" a reclamar os corpos.  


Tenho ainda presente a situação aterradora vivida e contada pelo enfermeiro Derrick Smith, de Nova York, a zona mais afectada nos Estados Unidos, face a um doente que precisava, desesperadamente, de um ventilador: "(...) As últimas palavras que nunca esquecerei", revelou-as, com natural amargura: "Quem vai pagar isso?", inquiriu o homem, a muito custo, por causa dos problemas respiratórios." (...) "[O paciente] estava com problemas respiratórios graves, tinha dificuldade em falar, mas, mesmo assim, a sua principal preocupação era quem iria pagar o procedimento que poderia ajudá-lo a viver", explicou o profissional de saúde.
Os factos que destaco colocam tudo em causa, dos direitos de um qualquer ser humano, aos deveres que deveriam ser constitucionais em um qualquer país minimamente decente. Não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o lado. Afinal, qual o valor da vida para alguns (muitos) líderes mundiais, pergunto? Os índices de Wall Street parecem estar em primeiro lugar!
Aqui mesmo ao lado, em Espanha (Madrid), onde o controlo da pandemia é dramática, acedi a um vídeo com uma desesperada mensagem, a qual, no essencial, um cidadão, em lágrimas, denuncia o facto de estarem a retirar ventiladores a maiores de 65 anos, alegadamente, para proteger os mais jovens. A declaração vai mais longe, mas não a transcrevo. Palavras que são negadas pelas autoridades e, sublinho eu, oxalá seja falsa, mas perante o mundo que estamos a viver e perante a incapacidade de resposta dos serviços de saúde, deixo-me ficar pelo enormíssimo dilema ético na decisão entre quem vive e quem morre. Tarde ou cedo saber-se-á da veracidade, mas não estranharei, a avaliar por Daniele Macchini, médico no hospital Humanitas Gavazzeni, em Bérgamo, Itália. Li: "(...) onde já se escolhem os doentes que se podem tratar. O relato termina com um apelo fortíssimo a um distanciamento social que é fundamental para conter a propagação".
Entretanto, ontem, com entusiasmo segui uma reveladora entrevista com a filósofa Marina Garcés, doutora em Filosofia, professora da Universidade Aberta da Catalunha. A páginas tantas, o jornalista questionou: 

Cree que la crisis de la Covidien-19 ha mostrado la fragilidad del sistema?

Lo que nos muestra de manera muy cruda la crisis de la Covidien-19 es que el capitalismo global, que parece un sistema muy poderoso, se basa en grandes capas de precariedad económica, social, material, sanitaria… Es una precariedad individual y estructural, porque también afecta el estado en que se encuentran los servicios de atención pública en diferentes países del mundo. Es un sistema basado en la actividad y el crecimiento, pero cuando tiene una patología no puede detenerse, cuidarse ni cuidar de las vidas que cotidianamente expolia y explota. Tampoco las de aquellos que ha dejado al margen, como las personas mayores. Más que la fragilidad del sistema, lo que nos muestra es la desigualdad y la violencia social sobre la que funciona nuestra normalidad.

É óbvio que todo o mundo foi surpreendido por este dilacerante surto pandémico, face ao qual, pela sua dimensão, a generalidade dos países não estava preparada. Estou em crer que só lá mais para a frente, após vacinação, se conhecerão as causas e os efeitos devastadores em todos os sectores. Para já, aquilo que a filósofa Marina Garcés sublinha parece-me insofismável. O Covid-19 veio, de facto, uma vez mais, colocar a nu a generalizada precariedade nos serviços de acessibilidade e resposta aos direitos básicos das populações, em alguns casos, por razões ideológicas, mormente no quadro dos sistemas económico e financeiro, que conduzem à secundarização da importância do Estado naquilo que deveria constituir uma intransigente defesa dos direitos dos cidadãos; em outros, pela intencional globalização da pobreza (que, paradoxalmente, produz riquíssimos) que traz no seu bojo gritantes desigualdades. Melhor dizendo, apesar do vírus não escolher classes sociais, quem tem fortuna, tendencialmente, safa-se, quem não dispõe de meios (dinheiro e seguros), obviamente, sofre as consequências da injustiça social. Relembro o infectado que olhou para o enfermeiro: "Quem vai pagar isso?".
Dói, dói muito, mas assim vamos vivendo, de catástrofe, em catástrofe, mas sempre com o vil metal a nortear os comportamentos mais abstrusos. 
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Marina Garcés: “El control social será uno de los grandes ganadores de la pandemia”


La filósofa Marina Garcés cree que con la crisis del coronavirus saldrán reforzados los populismos y los movimientos clasistas y excluyentes. Reflexionemos con ella sobre la huella que dejará la alerta sanitaria en nuestra sociedad. Marina Garcés es doctora en Filosofía y profesora de la Universidad Abierta de Cataluña. Cree que ahora estamos asistiendo, al mismo tiempo, a dos realidades contradictorias: redes de apoyo mutuo y policías de balcón. Ante esto, considera que si gana el miedo y la sospecha entre vecinos, habremos dado un paso más hacia una sociedad autoritaria. Señala también que uno de los grandes beneficiados de esta pandemia será el control social, justificado por una mayor seguridad para la ciudadanía ante los peligros externos.

Cree que la crisis de la Covidien-19 ha mostrado la fragilidad del sistema?

Lo que nos muestra de manera muy cruda la crisis de la Covidien-19 es que el capitalismo global, que parece un sistema muy poderoso, se basa en grandes capas de precariedad económica, social, material, sanitaria… Es una precariedad individual y estructural, porque también afecta el estado en que se encuentran los servicios de atención pública en diferentes países del mundo. Es un sistema basado en la actividad y el crecimiento, pero cuando tiene una patología no puede detenerse, cuidarse ni cuidar de las vidas que cotidianamente expolia y explota. Tampoco las de aquellos que ha dejado al margen, como las personas mayores. Más que la fragilidad del sistema, lo que nos muestra es la desigualdad y la violencia social sobre la que funciona nuestra normalidad.

La alerta sanitaria ha puesto de manifiesto la vulnerabilidad humana?

A mí me sorprende que haya tanta gente repitiendo esta frase, desde filósofos hasta el Antonio Banderas. Me pregunto qué vidas tenían y qué realidades conocen quienes lo afirman. No tienen personas mayores dependientes en sus familias? No conviven con personas discapacitadas o con trastornos mentales? No conocen la realidad altamente vulnerable de muchos barrios y territorios de nuestras ciudades? No sufren el impacto de los cánceres y otras patologías debidos a factores ambientales y sociales? La vulnerabilidad y la interdependencia ya estaban, cada día, como realidad cotidiana para la mayoría. Qué nos impedía verlas y pensarnos desde ellas?

Seres sociales como los humanos, podemos vivir en esta situación de confinamiento mucho tiempo?

Los humanos nos adaptamos a todo si tenemos miedo, y hemos vivido cosas mucho peores. Guerras, asedios, cierres masivos. Hay sectores de la población mundial que las sufren cada día, desde campos de refugiados, desde los países en guerra, guetos, colectivos encarcelados… y la historia nos da también ejemplos constantes. La sociabilidad confinada no es ninguna novedad. Lo que lo es, es su dimensión global y generalizada y el hecho de que afecte aquellos que normalmente tenemos más derecho y acceso a la movilidad.

Durante los últimos días, hemos visto que se han creado muchos movimientos de cooperación colectiva entre vecinos. Pero, por otra parte, este distanciamiento social podría hacer que nos volviéramos más individualistas?

Estamos viendo las dos cosas: redes de apoyo mutuo y policías de balcón. Vecinos que ayudan y vecinos que se delatan. Las actuales condiciones de vida sacan lo mejor y lo peor que podemos llegar a ser. No sólo hay que cuidar, pues, de cada uno de nosotros y de la salud de los nuestros. Pienso que es muy importante que cuidemos el ambiente general en el que estamos viviendo esta experiencia, las representaciones que damos, los imaginarios que saldrán del hecho de haber sido confinados. Si gana el miedo y la sospecha entre vecinos, habremos dado un paso más hacia una sociedad autoritaria.

Si gana el miedo y la sospecha entre vecinos, habremos dado un paso más hacia una sociedad autoritaria

Y los niños, cómo los puede afectar el confinamiento? Cómo volverán a la normalidad?

Lo diré claramente: no entiendo que puedan salir los perros pero no los niños. Entiendo que los padres y madres son los primeros interesados ​​en su cuidado y, por tanto, no exponerlos a riesgos innecesarios. Pienso que el confinamiento sobre los niños es demasiado drástico, teniendo en cuenta que será largo y que muchos niños y niñas viven en infraviviendas, en lugares oscuros y muy estrechos, sin acceso a recursos culturales ni siquiera a un rayo de sol. Me alegro de que haya voces cuestionando esta situación, que puede tener un impacto emocional y físico sobre muchos de ellos. Los hay que están viviendo unas pequeñas «vacaciones» con sus padres… Los hay que están metidos en verdaderos infiernos. Como se reencontrarán? Pienso que antes hay que preguntarse cómo hacer de la experiencia del confinamiento una experiencia compartida ya desde ahora.

Cree que saldrán reforzados los gobiernos populistas, que cierran fronteras y predican la idea de ‘primero los de casa’?

Yo, por desgracia, pienso que sí saldrán reforzados los populismos y también las respuestas clasistas y excluyentes de todo tipo. Esta crisis se añade a las anteriores, como la terrorista y económica, y en las posteriores, como la climática. Son crisis que van debilitando el tejido social y alejando los grupos humanos y las clases sociales en su relación con las expectativas y los futuros compartidos. Ante esta crisis de los futuros compartidos, es fácil que cada uno se proteja detrás de sus privilegios y perciba los demás como una amenaza. No basta, pues, un plan de choque social para paliar los daños de esta crisis, sino un trabajo crítico que nos ayude a percibir colectivamente como hemos llegado hasta aquí y cómo queremos salir como sociedad.

Saldrán reforzados los populismos y también las respuestas clasistas y excluyentes de todo tipo

Cree que tendremos confianza en las instituciones para protegernos o ya no confiaremos?

Esto debe ir por países, pero me parece que a nuestro la confianza en las instituciones siempre ha sido relativa, lo que no me parece mal, porque no siempre estamos en las mejores manos. También depende de qué llamamos instituciones. Una cosa son los servicios públicos como la sanidad y la educación, la asistencia social… que, en general están bien valorados, y son muy apreciados por el conjunto de la sociedad, excepto para aquellos que no los necesitan y se ocupan de menospreciar-los. Otra cosa son lo que llamamos instituciones políticas y que ya hace tiempo que muestran su insuficiencia a la hora de dar respuestas a la altura de los problemas de nuestro tiempo.

Puede que esta crisis haga aumentar el control social sobre la población? Puede que llegamos a normalizar determinadas formas de control social con «la excusa» del virus?

Sí, pienso que el control social será uno de los grandes ganadores de esta pandemia. Si a cambio de una geolocalización, o de un QR o de los datos que sean nos dejan volver a salir de casa, quién no estaría dispuesto, a cederlas? La libertad de movimientos, aunque sea de movimientos vigilados, está en nuestra percepción más valorada que muchas otras libertades.

Los controles telemáticos del teléfono, por ejemplo, de las movilidades, con la excusa de la seguridad frente a las enfermedades, hasta extremos peligrosos?

Ya hace tiempo que estamos regalando datos sin control. Cuesta mucho saber cómo y cuando lo hacemos, porque no es directamente perceptible. Al revés. Pasa a través de dispositivos y aplicaciones de uso individual, que parecen multiplicar nuestra independencia, nuestras comunicaciones, nuestros mundos privados. Incluso nuestros secretos. Pero lo que hacen es contribuir a privatizar nuestras experiencias comunes y su rendimiento económico, político e ideológico… en manos de unos cuantos.

El confinamiento no es igual para todos y esta crisis ha hecho aflorar también la diferencia de clases.

El clasismo del confinamiento me parece una realidad sangrante. Lo dije en un programa de televisión y recibí todo tipo de insultos, como si estuviera negando que el virus puede matar gente influyente o de clases altas. Claro que lo puede hacer y lo hace. Pero hablamos del confinamiento, de la gestión de la crisis, de las consecuencias laborales y sociales, de los metros cuadrados de la habitación de la reina Letizia o de las de sus súbditos… hablamos de quien tiene que salir a realizar determinados trabajos de limpieza y de cuidados, por ejemplo. Hablamos de los autónomos más precarios, hablamos de los pequeños negocios, hablamos de la cultura que parece muy glamurosa pero hace años que acumula deudas y precariedad… Hablamos de migrantes que se han quedado en la frontera o con los trámites a medio camino … Hablamos de todo esto. Me pregunto qué pasará,

El valor de la vida es luchar cada día y son las personas anónimas más castigadas que no han dejado de hacerlo nunca

Qué mundo podemos imaginar más allá de un mundo apocalíptico?

Los relatos apocalípticos son ideológicos, estén en manos de la religión, de la política o de los medios de comunicación. Quien pueda poner un punto final a nuestras existencias es que está ejerciendo su poder. Por lo tanto, los relatos apocalípticos deben ser desenmascarados y contestados: a quien le interesan? Quién sale beneficiado? Para contestarles, pero, no hay que autoengañarse y decir que ahora sí que con esta crisis aprenderemos el verdadero valor de la vida. Si fuera así, ya la habríamos aprendido en guerras o crisis anteriores. El valor de la vida es luchar cada día, y son las personas anónimas más castigadas que no han dejado de hacerlo nunca.

Cómo podremos recuperarnos como individuos y como sociedad de todo esto?

Recuperarnos es seguir viviendo sin reproducir lo que nos ha llevado hasta aquí. Cómo lo sabremos? O queremos olvidar de golpe todo lo que hemos sufrido? No debemos dramatizar, pero tampoco olvidar. Si no, no habremos aprendido nada.

Elia Pons / catalunyaplural.ca
05/04/2020

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Páscoa 2020 - Às 3 na Cruz da Vida




A tensão no Mundo é preocupante. Vivem-se momentos muito complexos, tempos de conflito, de bombas que caem e de povos em fuga, tempos de violência gratuita a todos os níveis, terror e morte, tempos de poderosíssimos arsenais de guerra, de luta pela conquista de posições geoestratégicas de intenção dominadora, paradoxalmente, incapazes de aniquilar um vírus invisível, tempos de corrupção, desigualdade e escravização de quem trabalha, tempos ganância e permanente mentira, tempos de falência da fraternidade entre os povos e da irmandade entre as nações, tempos de governos impreparados para a nobre tarefa humanizadora do Homem, tempos de ostentação de uns e de miséria para a esmagadora maioria, (entre 2017 e 2018, surgiu um novo bilionário a cada dois dias. Vinte e seis pessoas possuem a mesma riqueza dos 3,8 mil milhões que compõem a metade mais pobre da humanidade (...) e os 10% mais pobres teriam que trabalhar três séculos para ganhar o mesmo que os 10% mais ricos num ano - OIT"), tempos de directórios que reúnem e esmagam com as suas políticas, que acrescentam dividendos e distribuem migalhas, tempos de ditadura do dinheiro que globaliza a pobreza, tempos de descabelados discursos onde a estimativa de morte de 100 ou 200.000 seres humanos, parece ser equivalente a 100 ou 200 dólares na carteira dos negócios, tempos de populismos e de nacionalismos sem sentido, tempos de esquecimento que "só há liberdade a sério quando houver... a paz, o pão, habitação, saúde, educação" (Sérgio Godinho), tempos de agressões ambientais premonitórias de assustadoras pandemias, tempos de confinamento global, de templos vazios e de um Cristo, na gruta, aparentemente só, porque a Sua Mensagem não é escutada (ver fotografia).
Cada um de nós poderia acrescentar muitas outras palavras caracterizadoras desta enorme opressão, depressão e angústia na qual mergulhámos, onde sobretudo os mais vulneráveis sofrem e morrem. Hoje, como corolário, enfrentamos o medo e o pavor.  E estou em crer, oxalá esteja enganado, que esta procissão ainda anda pelo adro! Os senhores do Mundo conhecem bem o seu negócio, são maquiavelicamente pacientes, daí que de nada valerá gritarmos que estão a construir a arma da autodestruição. Nunca a expressão andrógina de Edvard Munch - O Grito) teve tamanho significado.
Este é, portanto, um tempo de reflexão sobre o significado da VIDA, o que implica muitos e diversos questionamentos. E assim sendo, do palco da nossa pequenez, que a Páscoa seja, para todos, mais uma tentativa de LIBERTAÇÃO. E que os políticos tenham presente que "A boa política está ao serviço da paz" - Papa Francisco. Já que dele falo, pensem "que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?", síntese da interrogação que constitui o âmago da Laudato si", da Encíclica ecológica do Papa.
Desejo-vos uma Feliz Páscoa, com reflexão e partilha.

















Nota
Texto elaborado em função de outros já publicados nesta quadra.

Ilustração: Arquivo próprio.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Isto não é uma guerra


Por
Daniel Oliveira
Expresso - 08.04.2020

Passeando a minha cadela pelo centro de Lisboa, onde vivo, subindo e descendo as avenidas desertas, partilhando com todo o mundo a mesma insuportável solidão, vendo gente de máscara, reunindo-me com familiares por skype e olhando para os números estratosféricos da tragédia social que se adivinha, entro num dos muitos filmes distópicos que vi. Pressinto, pressentimos quase todos, a grandeza fundadora deste momento.

Ele será recordado como o momento em que muitas coisas mudaram. De pormenores do nosso quotidiano ao desenvolvimento tecnológico das empresas, da vigilância social ao peso do Estado, dos serviços de saúde aos poderes da polícia, da política à economia, da cultura às relações sociais. Uma experiência como esta – mais de 3,3 mil milhões de humanos enfiados em casa durante semanas – seguida de uma crise económica de dimensões que ainda mal conseguimos adivinhar, marca mesmo a História. Provoca ruturas.
É por pressentimos a grandeza fundadora deste momento que devemos ser cuidadosos com as verdades que fundamos quando o nomeamos. Ainda mais quando nos domina o medo, adubo poderoso de todas as tragédias. Isto não é uma “guerra”. Muitos estiveram dispostos a morrer contra o ódio hitleriano. Aqui estamos apenas dispostos a viver, mesmo que isso implique abdicarmos de alguns valores.

E é por isso que devemos ser cuidadosos com as verdades que fundamos quando nomeamos este momento. Ainda mais quando nos domina o medo, adubo poderoso de todas as tragédias. As palavras são sempre importantes, mas em tempos de enorme incerteza, em que não conseguimos nomear o que temos pela frente, elas transformam-se na própria realidade. E uma palavra tenebrosa tem saído da boca de políticos e jornalistas: “guerra.” Tudo o resto são declinações do vocabulário bélico: linha da frente, soldados, baixas, inimigo... Até as figuras que são usadas como modelo de liderança vêm desse imaginário.

Claro que isto não é uma guerra. O inimigo não é dotado de consciência ou agenda. Ele não chegará a ser derrotado, apenas integrado. Muitos estiveram dispostos a morrer contra o ódio hitleriano. Aqui estamos apenas dispostos a viver, mesmo que isso implique abdicarmos de alguns valores.
A questão não é o rigor da palavra, é o poder da palavra. Esta metáfora tem tudo para ganhar formas sinistras. Porque a própria pandemia tem um tremendo poder metafórico. O vírus estrangeiro vence-se fechando fronteiras, isolando humanos no seu núcleo familiar, cortando todos os contactos físicos de afeto e apelando à disciplina militar de toda a sociedade que se impõe a si mesma uma férrea contenção nas suas liberdades mais íntimas. Como todas as campanhas higienistas, parece um programa político. Esta “guerra” não se vence com bravura, mas com uma contenção social autorrepressiva, onde todos nos vigiamos, recusando a aproximação e reprovando o convívio social. Não me ocorre nada mais perigoso para nos pormos com metáforas. E temo que, saído do medo coletivo e quando se avizinha uma terrível crise, surja a incurável tendência da humanidade para a tirania sempre que sente que o chão lhe foge dos pés. É por isso que a palavra “guerra” tem de ser banida. Seria trágico que fosse ela a palavra fundadora do novo tempo.
E ela não tem de ser usada. Há imagens bem mais interessantes e construtivas, que também têm estado presentes neste momento. Imagens que sublinham a interajuda entre vizinhos, os serviços públicos como elemento central da coesão social de um país, a disciplina autoimposta por solidariedade com o outro, o apoio a outros países que lidam com a pandemia. Da solidariedade humana quando a natureza nos põe em perigo.

Mas ainda mais absurdo do que falar de “guerra” é falar de “economia de guerra”. Isto é exatamente o oposto à economia de guerra. Nessa, a produção de armamento substitui o resto da capacidade produtiva e, não raras vezes, garante crescimento económico e emprego. Agora, as pessoas foram obrigadas a fecharem-se em casa e a pararem de consumir e produzir. 

Depois de uma guerra, vem a necessidade de reconstruir cidades e infraestruturas. São momentos de grande incentivo económico. Nos próximos anos, não haverá nada para reconstruir. Se a comparação com a guerra cria um pessimismo excessivo, a comparação com a economia de guerra alimenta um otimismo deslocado.
Claro que a “guerra” é apenas uma figura de estilo. Mas depois do vírus e das suas vítimas, sobrarão duas coisas: uma brutal crise económica e política e as palavras que darão sentido a este momento extraordinário. E que serão tão poderosas como as memórias pessoais. Porque são elas que moldam a memória coletiva. Pode ser a interajuda comunitária ou redescoberta de necessidade de termos um Estado com funções sociais. Ou pode ser a “guerra”. E a “guerra” calha muito bem a um vírus que reforça todos os fantasmas deste tempo: o medo do outro, a desmaterialização do afeto e o paradoxo de nos globalizarmos através do isolamento doméstico. “Fico em casa” seria o lema ideal para a heroica submissão do povo à tirania.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Utopia, ou a crise da crise


Por
06 Abril 2020

Esta Europa não serve. Não há uma aproximação mínima de interesses entre os seus pares, embora a sua máquina burocrática vá servindo os interesses de alguns poucos países. 

Os ‘coronabonds’ 

1. O primeiro desafio que se coloca aos países, no momento actual (e por quanto tempo?) é o combate ao coronavírus, sem dúvida o maior dos flagelos das últimas décadas, pós-Segunda Guerra Mundial. 
Está em causa tudo: a vida humana, o emprego, as empresas, o modo de vida de cada um, em família, em sociedade, a própria sociedade democrática e a economia em toda a linha. 
Poucos países terão capacidade para combater e sobreviver sozinhos a esta pandemia, e regressar rapidamente à situação económica em que se encontravam, dado o elevado grau de paralisação e destruição em curso das economias, nomeadamente pela via dos despedimentos, paragem e fecho de empresas. 
Até os Estados Unidos estão a receber apoio da China ou, por outras palavras, para não ferir susceptibilidades, estão a ser abastecidos pela China em equipamento e material de combate, porque não o têm e não conseguiram abastecer-se junto de outro parceiro comercial. 

2. Só a União Europeia despreza o combate a esta pandemia, ao não reunir de forma articulada na base de uma estratégia do interesse comum, os seus recursos materiais, humanos e financeiros, porque de união cada vez sobra menos… E não reúne as elevadas potencialidades por discordâncias internas de orientação no processo de combate ao vírus e no posterior reerguer das economias. 

Sempre que urge definir estratégias, posições conjuntas de actuação e mudança, a União Europeia deixa de existir. Perante situações graves e de fundo, como aconteceu com a crise 2008/2009, abrem-se as hostilidades entre os países membros quanto às soluções. A grande hostilidade do momento centra-se nos eurobonds ou, em versão mais minimizada, os coronabonds. 

Uma Europa não solidária 

3. Esta Europa não dá. De solidária nada tem.
Foi incapaz de responder a um pedido desesperado de apoio da Itália perante o seu desnorte face ao coronavírus. E havia países com condições próprias para responder e outros pelo menos simbolicamente, sendo que a União Europeia (UE) como um todo também não agiu. Um sinal gravíssimo de falta de coesão e de solidariedade. 

No momento actual, com as economias já em elevado grau de paralisação, temos como pano de fundo uma recessão económica evidente. Só não sabemos a sua profundidade. Ninguém está em condições de saber avaliar. 

Sabemos que os custos do combate à pandemia são muito elevados e os apoios à economia terão de ser pesadíssimos para que o circuito produtivo não se destrua e possibilite a cada cidadão sair da crise, em condições de retomar a sua vida num patamar próximo daquele em que estava. 
Basta olhar para os custos na manutenção dos empregos sem produção real – mas necessários, para se ter uma ideia desse montante. 
Estes custos são investimentos de manutenção do aparelho produtivo, logístico e distributivo das economias, onde a manutenção do emprego assume um papel crucial como meio de evitar a sua degradação e possibilitar a rápida entrada em funcionamento pós crise. 

4. E sabem qual é “o esboço de resposta” da UE, no momento actual? 
Dois grupos antagónicos de países com comandantes próprios a digladiar-se na arena comunitária. Um grupo a apontar para cada país ir à sua vida e tratar dos seus problemas, e o outro a apostar em eurobonds, ou mais limitadamente, em coronabonds. 

Nas situações de crise é sempre este o figurino constatado. Face a isto, o melhor lugar de reunião das diferentes instâncias comunitárias, agora não devido à quarentena, seria de facto marcarem de antemão a arena onde se digladiariam livremente. 
Esta Europa não serve. Nunca vai servir. Não há uma aproximação mínima de interesses entre os seus pares, embora a sua máquina burocrática e pesada vá servindo os interesses de alguns poucos países. 
Porque não romper com a situação? 

5. É melhor começar a pensar em separar/partir. Apontar para duas/três Europas. 
Cada vez vejo menos razão para se andar a perder tanto tempo em reuniões e a manter um aparelho dispendioso que não responde nas horas críticas. A gastar tempo e dinheiro com as burocracias de Bruxelas. 

Vamos ser claros. O que conta entre os quatro oponentes do primeiro grupo/cada um por si é a Alemanha. Embora se diga que hesita, nada disso é assim. Até a presidente da Comissão Europeia, a simpática alemã Sra. Von der Leyen, foi pouco feliz no trato à Itália de que se desculpou, para não falar no “carroceiro” ministro das Finanças holandês. Mas dos dirigentes holandeses é de esperar tudo. Há um ditado popular –“está-lhe na massa do sangue” – quando não se encontra explicação para os comportamentos de uma pessoa. As afirmações soezes contra os países do Sul dos dirigentes políticos holandeses encaixam-se bem nesse ditado. 

Tudo isto são exemplos, embora de graduação diferente. 

6. Se é verdade, como já li, que nove países podem lançar os eurobonds ou coronabonds, mesmo sem a Alemanha, porque não avançam com esse desafio? Seria um grande teste e um abanão profundo a toda a estrutura da União Europeia.
Nove países subscreveram a ideia da mutualização da dívida dos países membros através da emissão dos eurobonds. Li também que mais quatro aderiram, e atenção que três desses nove países subscritores são grandes economias da União, logo a seguir à Alemanha: França, Itália e Espanha. 

O que está em cima da mesa – os eurobonds – não é uma solução mirífica, mas é um avanço. Os eurobonds permitiriam a redução dos custos de financiamento dos Estados, mas não evitariam o aumento da dívida. Havia também que alongar o tempo de amortização das dívidas, por exemplo uns 50 anos, de forma a dar folga aos países que se vão endividar para facilmente sairmos do decréscimo de produção em que o coronavírus colocou os países. 

7. Como nada disto vai acontecer, os países que têm de fazer gastos avultadíssimos vão sair muito fragilizados do combate ao vírus e ter de caminhar sozinhos e enfrentar constrangimentos criados pelos tratados da UE. 
A receita da União Europeia a prazo é bem conhecida – a austeridade, com corte nos rendimentos das pessoas e desemprego. Os países muito empobrecidos e os de economia mais frágil, como Portugal, sairão em situação crítica. Vão ter de voltar atrás, apesar de algumas medidas positivas tomadas, para tornar a subir a escadaria até que chegue outra crise e mais uma vez sem apoio desta UE. 
Importa rejeitar esta receita prevista e procurar desde já uma alternativa. 

Porque não começar a construir uma outra União de Países Europeus, desenhada e negociada na base de uma estratégia económica com objectivos muito claros de desenvolvimento a longo prazo, acordada entre os países aderentes, com um sistema financeiro bem estruturado – onde não terão lugar vários países, como a Alemanha, que estão sempre na oposição, mas têm usado a União Europeia em proveito próprio?! 

Está na hora de pressionar a saída da União desses países que, apesar de estarem em minoria, boicotam, sistematicamente, o andamento da União Europeia em prol do seu desenvolvimento conjunto. 
Utopia… talvez, mas uma forma entre outras de romper com a situação degradante em que a União Europeia se encontra. 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 5 de abril de 2020

E se houvesse menos Estado?


Por
Joaquim Vassalo Abreu, 
04/04/2020

Desde logo não teriamos o SNS que temos! A Saúde e o acesso aos cuidados médicos seriam assim tipo EUA: tem direito (proporcional) quem melhores seguros tem e quem não tem…pois…


Só que há aqui um pequeno pormenor que eu reputo de “pormaior”: Nenhum deles contempla Epidemias ou Pandemias! Como ficaríamos então?
Do mesmo modo quando nos queriam impôr que as nossas Reformas fossem pagas num sistema variável, uma parte indexada aos nossos descontos para a Segurança Social e outra a Fundos e coisas mais…Como estariam elas agora, seus Liberais de pacotilha?
Nos incêndios: seriam todos os Bombeiros profissionais? Quem lhes pagaria? O Estado? O Estado que dizem que falhou? Mas com eles…Mas, com “menos estado”, quem se aventuraria a atear quinhentos fogos num só dia para depois virem dizer que o “ Estado falhou”?
Agora, por exemplo: as Reformas indexadas a Fundos diversos, nesta época e noutras ocasiões de autêntico “crash” , como ficariam? 
E os subsídios de a Desemprego ou Assistência Social, seriam à Americana?
E a Saúde perante esta Pandemia? À “la” Brasileira Bolsonariana?
“Menos Estado” sempre apregoaram apelando ao Estado quando mais necessitaram…é um clássico, grandes e eméritos “ Liberais” de pacotilha…
Mas não me esqueço de 2015 quando Passos apregoava a recuperação económica, esquecendo dramaticamente a situação da Banca, cuja resolução enviou para debaixo do tapete (Novo Banco, Banif, Montepio, Caixa Geral de Depósitos), numa irresponsabilidade sem nome.
Mas fazendo o que sempre outros fizeram é verdade, deixando sempre a responsabilidade para os vindouros, esses “ filhos da mãe dos vindouros”, como arremessou furiosamente o ZÉ Mário no FMI, defendeu, em pleno debate com António Costa, um corte nas Pensões de 600 milhões nas Reformas…
Deviam corar de vergonha, mas isso é atributo que nunca possuíram esses “Liberais” de pacotilha!
Felizmente que, logo a seguir, veio alguém que tudo enfrentou mas com Estado e absoluto sentido do mesmo, e que a tudo ocorreu e conseguiu equilibrar o que para eles, esses “Liberais de pacotilha”, remédio não tinha ! Coisa que o “menos estado” nunca faria! Mas endereçaria para os mesmos de sempre o seu ónus: os Contribuintes…Mas baixando salários e pensões, a sua única imaginativa solução!
Mas há que recordar para ser justo e honesto: Mas que faria agora o “Menos Estado” perante uma situação destas, a desta Pandemia, ainda por cima “democrática” pois não escolhe entre ricos e pobres, famosos e incógnitos, crentes ou não crentes, gordos e magros, magnatas ou refugiados, do sul ou do norte…? Que faria, afinal?

Cobraria milhares de EUROS por um teste como na sua sacrossanta América, onde nem os Seguros isso asseguram? Já sei: mandá-los-iam para o Público, o do “menos Estado” que, perante falta de receitas e dotações, seria depois apelidado de ineficaz…e de falhado! “ Liberais de pacotilha, fariseus de “Trampa”.

Eu sugiro, finalmente, que os Marques Mendes, os Paulo Portas, os José Júdice, os Gomes Ferreira e todos os que se apelidam “Liberais” nesta vida, esse enorme saco de gatos onde nenhum assume ser realmente gato e antes se acham onças, formem um governo…assumam responsabilidades…dêem o peito às balas, passem da retórica à prática e façam em definitivo o exame final, aquele do qual, não tenham dúvidas, não sairão com outro título, agora já não de “Liberais de pacotilha” , mas de “ Liberais da “Trampa”! Nada de mais justo…
Mas esqueçam e ao mesmo tempo recordem: “Esta vida“, como dizia Che Guevara, “não é para moles”! Mas é para Poetas, digo eu!
Pois como escreveu PABLO NERUDA: “Entretanto trepam os homens pelo sistema solar… Ficam pegadas de sapatos na Lua… Tudo se esforça por mudar, menos os velhos sistemas… A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais… Teias de aranha mais duras que os ferros das máquinas… No entanto, há gente que acredita numa mudança, que praticou a mudança, que fez triunfar a mudança, que fez florescer a mudança… Caramba!… A Primavera é inexorável!
Sim, a Primavera é inexorável!

sábado, 4 de abril de 2020

Novos tempos: O General Ramalho Eanes e o amor puro


Um texto do Padre José Luís Rodrigues, publicado na sua página facebook e que, pela importância da sua reflexão, aqui transcrevo. Obrigado.

1. Ouvi com toda atenção a entrevista do General Ramalho Eanes na RTP1 a Fátima Campos Ferreira. Não vou comentar a estatura moral, a referência extraordinária de um dos melhores portugueses que conheço, muito menos vou atrever-me comentar tanta coisa que ele nos falou sobre o mundo, a humanidade, a Europa e o nosso país e do muito que deverá ser feito na ocasião que nós todos embevecidos almejamos, o fim da tormenta do tsunami coronavírus. Foi bem claro o apelo veemente à conversão da humanidade e o que reacende em nós a esperança de que esta não seja uma oportunidade perdida.

2. Muito bonito e comovente o seu desprendimento à vida. Reparem na dureza das palavras, caso esteja em falta algum ventilador, nós os velhos de mais de 80 anos (o General tem 85 anos) devemos dispensá-lo para alguém mais jovem que tenha filhos para criar. É duro e não tenho dúvidas que o General Ramos Eanes tomaria essa decisão. A sua história confirma esta estatura e coragem moral.

3. Porém, devemos salientar que melhor seria existirem ventiladores para o idoso e para o jovem. E eu gostava muito de ter ouvido esta denúncia do nosso prestigiado General da actualidade. Não é aceitável esta crua eutanásia, se nos lembrarmos da leviandade nos cortes públicos nos sistemas de saúde nestes vários anos que nos precederam. A tragédia maior que o Covid 19 revelou é que, mesmo entre os mais ricos, ninguém está minimamente preparado para acolher vítimas em momentos de tragédia. Serve para pensarmos e não sermos tão irresponsáveis na hora de eleger os nossos representantes políticos. O encolher de ombros e o desinteresse pela participação cívica provavelmente encontrará neste tempo de Covid 19 algum ânimo para se redimir e fazer mudar comportamentos.

4. Voltemos à entrevista. Pretendo destacar para comentar um pouco duas frases que me chamaram à atenção, dado que fazem parte da minha área de ação. Primeira, «A espiritualidade não está no local de culto, está em cada um de nós e na relação de nós com os outros». Segunda, «Cristo é amor puro, ou seja, estar com os outros em todo o lado e qualquer lado de uma maneira solidária».
5. A quarentena do Covid 19 está a ser um grande desafio para a Igreja Católica e para todos os cristãos. Obviamente, que terão que mudar imensas coisas, embora tenha dificuldade em prever quais… Esta que falou o General parece-me óbvia, só lamento ser apenas ele a dizer, a espiritualidade não está restrita ou confinada aos espaços do culto, mas em cada pessoa, quando edifica a sua vida em função da verdade e da justiça para o bem de todos.

6. O confinamento colocou a vida religiosa também em casa. Estamos a fazer jus à expressão tão cara noutros tempos «a família é a Igreja doméstica». É verdade que os cristãos precisam dos sacramentos de forma presencial, mas não esqueçamos, o nosso corpo já é o templo do Espírito Santo, nós somos o corpo de Cristo (São Paulo) Santo Agostinho dizia que cada cristão é outro Cristo. Por isso, aqui se procura dizer tudo em tão poucas palavras.

7. Toda a vida cristã tem uma Sacramentalidade que não depende dos sacramentos em si mesmos. Por isso, no templo espiritual e glória de Deus Vivo que é cada pessoa, pode ser possível a prática religiosa sem intermediários e sem que necessariamente exista um espaço predeterminado para o culto. Poderão dizer, então as igrejas edifícios não servem para nada? – Ninguém diz isso. Serve este espaço igreja edifício para ser o lugar do encontro das várias espiritualidades que cada pessoa transporta, encontro da fraternidade que nós designamos comunidade, lugar da sensibilização para a dimensão família que é a humanidade inteira e lugar da experiência da paz que cada um deve tomar como alimento para levar para a realidade concreta do seu dia adia. Não descurando a dimensão do sagrado e da (re)ligação ritual ao transcendente que a humanidade sempre procurar estabelecer desde a sua origem.
8. A outra frase é a de Cristo, que se revela ser bastante clara e tão reveladora do que é o Cristianismo. A religião cristã é a descoberta de uma pessoa Divina e Humana, Jesus Cristo, que nos mostrou o que é e como é o «amor puro», que pode estar ao alcance de todos nós, basta perceber sempre e não apenas nesta travessia do deserto chamada Covid 19, «estamos todos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho» (Papa Francisco). Ser cristão é pensar nisto, é procurar viver isto. A espiritualidade cristã, vivida por cada um ou na comunidade reunião, se não desperta esta luz, perdeu o rumo e não está centrada no essencial, que é o Evangelho do Cristo de «amor puro». JLR

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Eu conheço um País..."


Não é que me tire do sério, mas irrita-me. Quando oiço, o que é recorrente, sobretudo no discurso político, "este país" ou o "rectângulo", confesso que tais verbalizações me deixam com alguma brotoeja pelos evidentes sinais de desconsideração e aviltamento. Porque este, para o bem e para o mal, é o nosso país e quanto ao "rectângulo", todos os outros têm configurações mais ou menos geométricas, facto que me leva a pensar que subsiste um sentido extremamente depreciativo  e provocador quando alguém por aí escreve ou fala.


Todos os países, sem excepção, têm as suas potencialidades a par de muitas fragilidades. Olhe-se para os Estados Unidos, com todo o seu poder, como navega nas águas turvas e agitadas no combate à epidemia. Em contraponto, olhemos para a nossa diáspora e tenhamos presente quantos homens e mulheres foram capazes de construir o sucesso em vários sectores de actividade; para o largo conjunto de jovens cientistas espalhados por centros de investigação de topo; olhemos para as artes em geral e para o desporto, em particular, e que orgulho sentimos ao constatarmos o valor dos desempenhos. Mas olhemos, ainda, para toda a nossa História de quase 900 anos, sobre o que fomos e o que fizemos. Ou então, em 45 anos de democracia, a transformação que operámos no país. Sempre bem? Não. Muitas vezes de forma desesperantemente criticável. Por aqui tempos houve de espezinhamento, obviamente que sim. É a nossa História e que deve ser conhecida. Sem pedras no sapato, sem a sensação do coitadinho, nem como arma de arremesso. O país que somos não merece tais epítetos, nem as regiões autónomas, especificamente, podem ser depreciativamente tratadas como "aqueles dos rochedos". 
Ademais, medíocres existem em todos os lugares, aqui e lá; corruptos, idem; gente sem pensamento, obviamente; riquezas mal explicadas, em todo o lado; poderes obscuros e governos globalmente imbecis, nem se fala; incultos, a cada passo. Repito, aqui e lá. Porém, este é o nosso país e a nossa Língua a Portuguesa! Por mais que muitas situações nos arreliem, não somos superiores a ninguém. Nem inferiores. Temos tantas fragilidades como competências de topo, o que me leva a concluir: no plano autonómico supramos as debilidades e construamos o Portugal que desejamos. Sem mesquinhez. 

Texto do Jornalista
NICOLAU SANTOS
Publicado na Revista UP da TAP

O texto que a seguir publico, da autoria do jornalista Nicolau Santos, é de Março de 2011. De então para cá muitas coisas se alteraram, obviamente. Porém, no plano global, constitui um excelente retrato síntese do nosso Portugal. 

«Eu conheço um país que em 30 anos passou de uma das piores taxas de mortalidade infantil (80 por mil) para a quarta mais baixa taxa a nível mundial (3 por mil)
Que em oito anos construiu o segundo mais importante registo europeu de dadores de medula óssea, indispensável no combate às doenças leucémicas. Que é líder mundial no transplante de fígado e está em segundo lugar no transplante de rins.
Que é líder mundial na aplicação de implantes imediatos e próteses dentárias fixas para desdentados totais.
Eu conheço um país que tem uma empresa que desenvolveu um software para eliminação do papel enquanto suporte do registo clínico nos hospitais (Alert), outra que é uma das maiores empresas ibéricas na informatização de farmácias (Glint) e outra que inventou o primeiro antiepilético de raiz portuguesa (Bial).
Eu conheço um país que é líder mundial no sector da energia renovável e o quarto maior produtor de energia eólica do mundo, que também está a constuir o maior plano de barragens (dez) a nível europeu (EDP).
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o primeiro sistema mundial de pagamentos pré-pagos para telemóveis (PT), que é líder mundial em software de identificação (NDrive), que tem uma empresa que corrige e detecta as falhas do sistema informático da Nasa (Critical)e que tem a melhor
incubadora de empresas do mundo (Instituto Pedro Nunes da Universidade de Coimbra)
Eu conheço um país que calça cem milhões de pessoas em todo o mundo e que produz o segundo calçado mais caro a nível planetário, logo a seguir ao italiano. E que fabrica lençóis inovadores, com diferentes odores e propriedades anti-germes, onde dormem, por exemplo, 30 milhões de americanos.
Eu conheço um país que é o «state of art» nos moldes de plástico e líder mundial de tecnologia de transformadores de energia (Efacec) e que revolucionou o conceito do papel higiénico (Renova).
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial e que desenvolveu um sistema inovador de pagar nas portagens das auto-estradas (Via Verde).
Eu conheço um país que revolucionou o sector da distribuição, que ganha prémios pela construção de centros comerciais noutros países (Sonae Sierra) e que lidera destacadíssimo o sector do «hard-discount» na Polónia (Jerónimo Martins).
Eu conheço um país que fabrica os fatos de banho que pulverizaram recordes nos Jogos Olímpicos de Pequim, que vestiu dez das selecções hípicas que estiveram nesses Jogos, que é o maior produtor mundial de caiaques para desporto, que tem uma das melhores seleções de futebol do mundo, o melhor treinador do planeta (José Mourinho) e um dos melhores jogadores (Cristiano Ronaldo).
Eu conheço um país que tem um Prémio Nobel da Literatura (José Saramago), uma das mais notáveis intérpretes de Mozart (Maria João Pires) e vários pintores e escultores reconhecidos internacionalmente (Paula Rego, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva, João Cutileiro).
O leitor, possivelmente, não reconhece neste país aquele em que vive ou que se prepara para visitar. Este país é Portugal. Tem tudo o que está escrito acima, mais um sol maravilhoso, uma luz deslumbrante, praias fabulosas, ótima gastronomia. Bem-vindo a este país que não conhece: PORTUGAL.»

NOTA
A lista é longa e foi complementada neste blogue:
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Este artigo não é sobre a COVID-19, é sobre um crime bárbaro seguido de uma aberração

Por
Daniel Oliveira,
in Expresso Diário,
31/03/2020


Foi em meados de março, ainda não havia estado de emergência mais já o país estava concentrado na epidemia. Um ucraniano a quem não foi permitida a entrada no país e esperava para embarcar para a Turquia, terá provocado distúrbios no Centro de Instalação Temporária (CIT) do Aeroporto de Lisboa. Faltam algumas peças no puzzle, mas sabe-se que a dada altura foi levado para uma sala de assistência médica por três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Segundo a TVI, os três homens terão espancado o imigrante até à morte, com recurso a pontapés, mesmo quando ele não podia resistir. Foi encontrado no dia 12, em agonia, algemado de barriga para baixo. Segundo a Policia Judiciária, os três suspeitos tentaram ocultar os factos. A autópsia foi conclusiva: o homem foi alvo de agressões que levaram à asfixia e provocaram a sua morte.

A gravidade deste caso é tal que levou à imediata demissão do diretor e subdiretor do SEF de Lisboa (Aeroporto) e à abertura de processos disciplinares aos dois dirigentes e, claro, aos envolvidos. Não fosse a COVID-19, este seria o tema de debate desta semana. O que me faz pensar em todos os abusos que nos estarão a escapar neste momento. Como a democracia pode mesmo estar suspensa por falta de atenção. Muito para lá do que estipula o estado de emergência.
É importante perceber que o CIT é um espaço temporário onde, apesar do nome pomposo, ficam detidas pessoas que não têm qualquer possibilidade de defesa, invisíveis a todos e sem tempo ou conhecimentos para fazer valer os seus direitos. A Provedora de Justiça chamou-lhe “no man’s land contemporâneo”. Aquelas pessoas estão muito mais desprotegidas do que qualquer prisioneiro. Esses conseguem ter contacto com o exterior e com advogados. Estes imigrantes nem reclusos são. E, em violação das regras das Nações Unidas, até crianças ali são detidas, em condições totalmente desadequadas para menores. Se isto é assim em tempos normais, imaginem agora, com a arbitrariedade tolerada por quase todos e para quase todos. Imaginem o que estes três inspetores podem já ter feito a outros imigrantes.

Tudo isto é especialmente triste quando o governo decidiu, como medida extraordinária, regularizar a situação de todos os imigrantes que estavam à espera de autorização de residência. Medida que levou Roberto Saviano, o autor de “Gamorra” que vive com um alvo da mafia nas costas, a escrever que “em Lisboa nasce uma nova Europa”. Infelizmente, a velhíssima Europa nunca desiste.

Como se a história não fosse suficientemente macabra, a decisão tomada pelo tribunal é ainda mais extraordinária: a juíza decidiu que os três suspeitos aguardariam o julgamento em casa. Em prisão domiciliária, que é como estamos todos neste momento. O argumento para esta decisão terá sido o de evitar qualquer tipo de infeção nas prisões. Compreendo, mas este caso tem uma gravidade que obrigaria a outro tipo de abordagem, com uma quarentena em estabelecimento prisional, no hospital-prisão ou noutro espaço qualquer. Não estamos a falar de um crime comum, mas de um homicídio de violência extraordinária. Não estamos sequer a falar de criminosos comuns, mas de pessoas que terão matado ao serviço do Estado. O facto dos alegados homicidas serem agentes da autoridade e a vítima ser alguém incapaz de se defender torna o crime muitíssimo mais grave, pondo em causa a segurança do Estado e a confiança nas instituições e na lei.
Há guardas prisionais que entram e saem todos os dias das prisões e sempre houve presos com especial proteção. Ex-polícias, por exemplo. É difícil acreditar que era impossível prender estes três suspeitos de um crime bárbaro, mantendo-os distantes dos restantes reclusos durante o período de quarentena. O que parece é que a juíza tratou este caso como trataria um outro crime qualquer. E isto está longe de ser um crime banal.
O país não aceitaria, e com toda a razão, que três cidadãos com fortíssimas suspeitas de ter espancado a pontapé até à morte um polícia fossem mandados para casa. A gravidade é a mesma, por envolver um homicídio de extrema violência e pôr em causa o respeito dos cidadãos pela autoridade do Estado.
As prisões são uma bomba relógio. Graças às inaceitáveis condições em que estão presos milhares de cidadãos (sim, são cidadãos), esta pandemia pode levar à prda de muitas vidas. Sou obviamente sensível a isso. Mas, perante este perigo, a ministra da Justiça recusou, por agora, libertar alguns reclusos, como recomenda a ONU. Poderíamos estar a falar de presos em fim de pena ou com crimes de menor gravidade. Espanha colocou em casa autores de crimes com penas inferiores a dois anos.
A ministra vai decidir esta semana o que fazer, mas explicou que “é importante considerar a natureza dos crimes praticados” e o “sentimento de insegurança que uma medida destas pode eventualmente causar ao nível da população”. Não me ocorrem muitas coisas mais graves do que três agentes da autoridade pontapearem até à morte um homem indefeso em instalações do Estado. Se estes suspeitos (com fortíssimos indícios, como diz a PJ) estarem em liberdade – que é como estão, realmente, neste momento – não cria alarme social, quer dizer que estamos mesmo preparados para tudo. E isto não é estado de emergência, é estado de anarquia e arbitrariedade. Com a decisão desta juíza, foi dado o pior sinal às autoridades num momento em que aceitámos reforçar-lhes os poderes e limitar as nossas liberdades.