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quarta-feira, 13 de maio de 2020

A pena de morte foi abolida há 153 anos


A propósito do horrendo assassinato da pequenina Valentina, sobretudo no facebook, constatei alguns comentários no sentido da existência da prisão perpétua e até da introdução da pena de morte. Tais comentários, embora legítimos, conduzem-me, hoje, a uma breve reflexão sobre tais posições. 


Portugal foi pioneiro na abolição da pena de morte para crimes civis. "O decreto foi aprovado a 1 de Julho de 1867, durante o reinado de D. Luís. A proposta para aboli-la foi avançada pelo Ministro da Justiça, Manuel Baptista, em Julho de 1867 (há 153 anos) e aprovada na Câmara dos Pares do Reino. O Código de Justiça militar, em Portugal, manteve a pena de morte e só a aboliu completamente em 1876". Há uma Carta de Victor Hugo a Brito Aranha, de 15 de Julho de 1867: "Desde hoje, Portugal está à frente da Europa. Vós, os portugueses, não haveis cessado de ser navegadores intrépidos. Ides sempre para a frente, outrora no Oceano, hoje na Verdade. Proclamar princípios é ainda mais belo do que descobrir mundos." 
A Lei que extinguiu a pena de morte, para além de outras considerações, revelava, também, que a pena a trabalhos públicos era suprimida, tendo por base a constatação da "esterilidade do trabalho forçado, que abatendo a dignidade do homem extingue nele a espontaneidade das faculdades individuais e nivela com o do escravo o seu trabalho".

Obviamente que os crimes, de acordo com a sua gravidade, têm de ser punidos. É assim em um Estado de Direito Democrático. Por isso existe, no Código Penal, uma extensa gradação das penas que podem chegar aos 25 anos de prisão, mesmo em cúmulo jurídico. Este é, para mim, um princípio que se me afigura correcto. Já foram 20 anos (1982) e, em 1995, passou para os 25. Aceito, porém, que, em certos casos, pela gravidade dos actos, não seja considerada a liberdade condicional quando atingidos os cinco sextos da pena, resultando daí a liberdade, sensivelmente, aos 20 anos e dez meses de pena. Esse aspecto julgo que possa merecer alguma reflexão. Porque têm de ser dados sinais à sociedade que o crime não compensa.

Portanto, pena de morte ou perpétua, jamais. No caso da Valentina e de todos quantos foram, barbaramente, assassinados, todos eles não regressarão ao mundo dos vivos e julgo, por isso, que não fazem sentido outras mortes como justificação dos actos primeiros. Basta 25 anos anos a olhar para as paredes de uma cela, esperando que exista reflexão e novos enquadramentos no regresso à vida em sociedade.
Mas há quem, politicamente, se aproveite de algumas fragilidades culturais ou de espontaneidades verbalizadas (não consciencializadas) e seja capaz de dizer, na mesma Assembleia que, em 1867, pôs fim à pena de morte, que a perpétua e a pena de morte devem ser reintroduzidas. Quem assim procede, na Assembleia ou por outros canais, é pessoa vazia de ideologia, que apresenta um discurso simplificado e vago, onde é sensível uma clara ausência de valores. Fala de acordo com aquilo que algumas pessoas querem escutar e, por aí, ganhar a sua simpatia. É pessoa que não se submete ao debate, apenas repete e de tanto repetir é capaz de levar alguma água ao seu moinho. Outro traço central é que, ilusoriamente, pretende(!) uma putativa resposta "em situações extremas de crise". Daí que "o populista surja para ordenar a nação e expurgá-la de grupos que diz que fazem mal à nação”, explica a investigadora Paula do Espírito Santo, que acrescenta uma última característica: esses “tendem a ser altamente camaleónicos (...) são líderes que se adaptam às circunstâncias. As suas ideias podem até mudar em função das circunstâncias”. Portanto, do meu ponto de vista, cuidado com esse tipo de gente que sabe muito bem o que diz e para onde deseja caminhar. 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Revoltante e sem perdão


Uma pergunta, com uma só palavra, não me sai da cabeça: porquê? Ou, então, juntando outras, como foi possível?


Todos sabemos que o ser humano é capaz do melhor e do pior. Sabemos, o que acontece(u) por todo o lado. Não indo muito lá para trás, entre grandes e pequenos conflitos, por fundamentalismos diversos, da revoltante história hitleriana nos campos de extermínio nazis, à responsabilidade de Estaline pela morte de milhões, de tantas sangrentas guerras, entre outras, a do Vietname, do selvagem "estado islâmico", dos massacres nos Balcãs, da morte de milhares nas travessias marítimas e da miséria nos campos de refugiados. Sabemos das prisões arbitrárias, das torturas, dos campos de trabalhos forçados e dos mais variados comportamentos que reflectem total desumanidade. Sabemos dos inúmeros assassinatos por violência doméstica, das limpezas étnicas, de crianças a adultos abandonados à sua sorte e abatidos, das lutas sangrentas entre gangues, dos sequestros, das vítimas de abusos sexuais ou da escravização, até outros de menor crueldade perpetrados por causas fúteis.
Todos os dias damos conta da violência. Ela anda à nossa volta, bastando um discreto mas atento olhar para detectarmos a existência de gente mal formada, desde políticos a anónimos. Tudo aquilo e muito mais entra-nos olhos adentro e fixa-se na consciência. Mas não me sai da cabeça, como em tantas outras vezes, como é possível um(a) progenitor(a) matar a sua filha! Revoltante e sem perdão.
Ilustração: CMTV  

segunda-feira, 11 de maio de 2020

A inútil grandeza das nações


Por
Miguel Sousa Tavares, 
Expresso, 
09/05/2020

A Alemanha deu muito à Europa: poetas, romancistas, músicos, maestros, pintores, filósofos, estadistas, inventores, cientistas, médicos, desportistas. E a Alemanha fez muito mal à Europa: devastou-a duas vezes, do Atlântico a Moscovo, no século passado. Da primeira vez, já ninguém se lembra ou é capaz de explicar porquê, não fosse para testar a superioridades dos canhões Krupp. Da segunda vez, para vingar a rendição humilhante de Versalhes, mas também, é forçoso reconhecê-lo, para testar a crença na superioridade da raça alemã, mobilizada por um medíocre líder, mas superiormente proposta nas imagens de Leni Riefenstahl. 


Mas, após 1945, uma Europa destruída pela demência alemã foi generosa perante uma Alemanha vencida e igualmente destruída. Os exércitos aliados vencedores detiveram o Exército Vermelho a meio do território alemão e, numa Berlim isolada e sitiada pelos russos, montaram uma inédita e incansável ponte aérea, que permitiu que o estatuto de Berlim Ocidental livre e a República Federal Alemã pudessem viver e prosperar durante 35 anos fora da Cortina de Ferro. O Plano Marshall, dos americanos, permitiu à Alemanha, em pé de igualdade com as nações que Hitler havia ocupado e destruído, começar a reerguer-se das ruínas da guerra. Os empréstimos que então lhe foram concedidos, contendo uma cláusula que lhe permitia ir amortizando-os apenas à medida que cresciam as suas exportações, garantiu-lhe não ser sufocada pelo serviço da dívida — como, por exemplo, Portugal e a Grécia foram na crise de 2008-14 — e, simultaneamente, fundar a sua reconstrução económica no sector exportador, fazendo dela a potência que hoje é nesse campo. Ao mesmo tempo que, proibida de deter Forças Armadas, pôde canalizar todo o investimento público para a economia e o sector social, tornando-se uma das maiores potências económicas mundiais. Enfim, a criação da então Comunidade Económica Europeia, de que a RFA foi um dos seis membros fundadores, pela mão de Konrad Adenauer — que, juntamente com Willy Brandt e Helmut Schmidt, foi um dos três grandes estadistas alemães e europeus do século XX —, deu à Alemanha um mercado comum, isento de tarifas, para escoar os seus produtos.

Vem isto a propósito da infame sentença do muito venerado internamente Tribunal Constitucional alemão, de Karlsruhe, conhecida esta terça-feira. O Tribunal julgou e deu razão a uma queixa apresentada em 2015 (não estamos sós nos atrasos judiciais!) por um “clube de elite” de cerca de 2 mil juristas, economistas e outros alemães de bem com a vida que invocavam a violação do “princípio da proporcionalidade”, inscrito na Constituição alemã, pelo facto de o Banco Central Europeu ter então decidido acorrer à crise das dívidas soberanas comprando quantidades imensas destas, de modo a evitar a total falência dos Estados endividados. Foi o chamado quantitive easing, de Mario Draghi, na sequência do que também a Reserva Federal americana havia feito e que, junto com a célebre frase de Draghi (“farei tudo o que for necessário”), permitiu salvar o euro e evitar que a Europa do euro entrasse na modalidade do “salve-se quem puder”. E é claro que os alemães podiam: enquanto os juros da dívida pública portuguesa escalavam até aos 12% e os da grega até aos 20%, os da dívida alemã mantinham taxas negativas — os investidores pagavam para ter dívida alemã. Tal qual como agora, assim que foi conhecida a sentença do Tribunal Constitucional alemão: os juros de todos os países do sul da Europa, os mais endividados, deram imediatamente um salto para cima, com destaque para a Itália, enquanto os juros da Alemanha recuavam para terreno ainda mais negativo. Porque os investidores desconfiam, e provavelmente com razão, que se o Tribunal alemão põe em causa as compras de dívida do BCE feitas no passado, também irá pôr em causa as mesmas compras já anunciadas agora e já em marcha pelo mesmo BCE. Ou seja: como é assim que o casino funciona, aqueles juízes, pomposamente vestidos com um traje misto de esbirros do Tribunal do Santo Ofício e Teatro de Marionetes, estavam candidamente a ler uma sentença que tinha o dom de dar uma inestimável ajuda às empresas e à economia alemã, já de si a mais rica da Europa, ao mesmo tempo que ajudavam a tornar ainda mais insuportável a vida actual de milhares de empresas e milhões de trabalhadores que se debatem com uma situação de crise inimaginável, para a qual em nada são responsáveis. Assim é fácil, como se diz na gíria e passe o palavrão, “cagar sentenças”.

Resumindo e relembrando: a Europa, que a Alemanha destruiu duas vezes num século, foi capaz de lhe perdoar, de a salvar de cair sob a bota de Estaline e deu-lhe os recursos financeiros e as condições para se reconstruir. E a União Europeia deu-lhe o mercado que fez dela o país mais rico da Europa. Certamente que também houve muito mérito dos alemães, da sua lendária capacidade de organização, de trabalho e de resiliência. Mas há um problema histórico com os alemães: entregues a si próprios e aos seus demónios, eles têm uma tendência para a autodestruição. Pelo contrário, em 75 anos de resgate europeu, a Alemanha viveu o seu mais longo período de paz e de prosperidade. Deve-o aos Estados Unidos, que lhe garantiram a paz, e à Europa, que lhe garantiu a prosperidade.

Mas acontece ainda que a Alemanha é membro da UE e membro do Eurogrupo e de ambas as condições tem retirado benefícios como nenhum outro. Porém, são inúmeras as ocasiões em que políticas de interesse comum ou, pelo menos, largamente maioritário, esbarram nas invocadas “impossibilidades constitucionais alemães”, de natureza económica: a Constituição não lhe permite ter inflação, não lhe permite ter défices, não lhe permite ser solidária com os outros ou consentir que instituições comunitárias, como o BCE, tomem decisões que indirectamente acabam por convocar a solidariedade financeira alemã, em violação do “princípio da proporcionalidade”. E, então, nessas ocasiões, os juízes de Karlsruhe e muitos outros alemães cujas ideias eles reflectem, esquecem-se que o seu país pertence a uma organização que reúne 25 outras nações, ligadas por algumas leis comuns, um parlamento comum, um conselho de governantes comum, uma comissão executiva comum e um tribunal comum — cujas sentenças e cuja legislação aplicável está acima das venerandas casacas vermelhas dos juízes de Karlsruhe. Se é que a Alemanha quer continuar a pertencer à União Europeia. E eu acho que quer, porque as alternativas — os Estados Unidos, de Trump, a Rússia, de Putin, ou esta China, que estamos a descobrir, assustados — não só não são atractivas, como não lhe consentiriam nada semelhante ao papel de liderança que tem na Europa.

Não esqueço que a Alemanha foi determinante na ajuda a Portugal para a estabilização da democracia a seguir ao 25 de Abril, quando Cunhal garantia a Oriana Fallaci que jamais teríamos aqui “uma democracia burguesa”. E não esqueço também que a Alemanha é hoje o maior contribuinte líquido para a UE, mas é natural que o seja porque é a nação mais rica dos 26 e porque não é do seu interesse que mercados importadores dos seus bens vão à falência. Podemos todos, aqui no sul, voltar a andar em modelos populares dos tempos de hoje, como os Seat Ibiza, os Fiat 127 e os Renault 5 de outrora, mas não creio que os alemães gostassem. É difícil explicar isto a um finlandês ou a um holandês, mas a um alemão não devia ser. Lembra-me de um jantar a que fui na embaixada alemã em Lisboa, na época da outra crise. Fiquei sentado ao lado de um alto responsável do Bundestag que, a certa altura, me perguntou, naquele tom desagradável de quem vai dar lições a um menino mal comportado e como se eu, pessoalmente, lhe devesse dinheiro:

— Mas, afinal, como é que vocês se endividaram assim?

Fazendo o meu melhor para me conter, respondi:

— Olhe, reparou nos carros que estavam lá fora, à entrada da embaixada?

— Não.

— Eu reparei: BMW, Mercedes, Audi. Foi assim, em grande parte, que nos endividámos: a comprar-vos carros e outras coisas, a crédito. Crédito vendido pelos bancos alemães aos nossos bancos. A nossa ruína é a vossa fortuna.

Não se trata de querer aplicar à Alemanha a célebre receita para a prosperidade económica de Mariana Mortágua: “Perder a vergonha de ir buscar o dinheiro onde ele está.” Aliás, nem teríamos armas para o assalto. Mas trata-se de insistir e insistir e insistir em fazer ver aos alemães que aquilo em que eles são europeus é muito melhor do que aquilo em que são apenas alemães. Como todos nós, pois esse é o projecto e o destino da União Europeia. Esse ou nenhum outro.

PS 1. Ah, grande ciganito, grande Ricardo Quaresma! Eu, como todos os portistas, sempre venerei este génio da bola, vibrei com as suas fintas, os seus golos que desafiavam a geometria, indignei-me com os truques de secretaria levados a cabo para o tirar do jogo. Mas este golaço que ele agora marcou na capoeira escancarada do galo Ventura, deixando-o no fundo das redes, depenado, esganiçado, ridículo, esbracejando de impotente réplica — ao ponto de apelar às “autoridades” que calassem quem assim o expôs à humilhação pública — este, caro Ricardo Quaresma, foi um golo de levantar o estádio!

PS 2. Foi comovente assistir à forma como o poder político assinalou o primeiro dia dedicado à Língua Portuguesa no mundo. Quatro assessores de outros tantos ministros escreveram-lhes um texto conjunto carregado daquelas banalidades patrióticas que em nada de substancial diferem das do antigamente, e logo acrescentadas por outras banalidades semelhantes de Costa e Marcelo. Mas a única homenagem e o único serviço que poderiam prestar à língua portuguesa e que é há décadas reclamado pela imensa maioria dos que, em Portugal, a utilizam e a defendem — a revogação desse vergonhoso Acordo Ortográfico de 1980, imposto à traição a todos os portugueses por um grupo de sábios desocupados — esse, como sempre, ficou adiado. Por inércia, por cobardia, por falta de visão. Mas, sobretudo, por falta de amor a esta língua maravilhosa que os nossos pais e avós nos deixaram para nos servir e para nós defendermos. Para o ano, por favor, poupem-nos a igual hipocrisia.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

domingo, 10 de maio de 2020

Sai mil milhões para o Novo Banco


Por
Pedro Santos Guerreiro, 
in Expresso, 09/05/2020

O primeiro-ministro sabe tudo. Sabe de cor os apoios a sócios-gerentes e a recibos verdes, o número de disciplinas nas escolas e de máscaras nos transportes públicos, o que vai acontecer nas praias e nos festivais de música, o primeiro-ministro nunca é apanhado em falso numa entrevista. Só não sabe uma coisa: que foram transferidos mil milhões para o Novo Banco.


O mesmo primeiro-ministro que não diz gastar um cêntimo na TAP sem controlar não controla cem mil milhões de cêntimos para o Novo Banco.
Está tudo errado. É chocante saber que nem António Costa abriu os olhos para o dinheiro nem o ministro das Finanças pestanejou em transferi-los. É claro que a oposição vai pôr em causa a justiça na repartição de sacrifícios na pandemia. E é previsível que agora se diga e sublinhe e repita que “para os bancos há sempre dinheiro”. Até porque é verdade. Como verdade é o seguinte: já não podia ser de outra forma, porque todo o sistema de apoios ao Novo Banco foi assim montado.

Chamar ‘banco bom’ ao Novo Banco foi como chamar ‘Pai Natal’ a quem dá presentes. Ambos não existem. O ex-BES carregou milhares de milhões em créditos maus que foi vendendo ao preço da uva mijona, pois era mesmo uva que não poderia dar vinho. Fê-lo porque era preciso. E fê-lo porque pôde: havia capital garantido no Fundo de Resolução (outro nome ‘Pai Natal’, aliás, para dizer que o dinheiro financiado pelo Estado não é do Estado) para cobrir os prejuízos daí resultantes. E como eles se têm empilhado nos últimos anos.

O acordo foi feito com Bruxelas e só tinha, em geral, duas alternativas: ou se deixava o banco falir ou se fazia um aumento de capital gigante à cabeça. Optou-se por garantir o capital ao longo de alguns anos, na esperança, aliás, de que ele fosse vendido. Foi, é verdade; a Lone Star ficou com 75% de mil milhões de euros, que hoje o banco não vale. E nós fomos enchendo a vala às pazadas de mil milhões. É quase tudo dinheiro do Estado, tirando as contribuições de outros bancos, contrariados em subsidiar um concorrente que se aniquilou enquanto BES. Acredita que os bancos vão pagar ao Estado o dinheiro agora emprestado durante 30 anos? Eu não, mas espero estar cá para ver.

No acordo desenhado em 2017 com o BCE, o Novo Banco conseguiu o que provavelmente nenhum banco do mundo tem: que injeções futuras de capital, por estarem garantidas pelo Estado, já contem como capital. Foi assim que os rácios em 2019 foram cumpridos, já incluíam a injeção de mil milhões que fantasmagoricamente foi processada esta semana. E se não tivesse sido feita? Bom, então o banco entrava instantaneamente em processo de recuperação. Percebe a armadilha?

O Novo Banco está a ser salvo por uma máquina comercial com grande força nas empresas e com vendas de ativos tóxicos que supostamente não existiam, que causam prejuízos, que forçam aumentos de capital. Em tempos de pandemia, esperar-se-ia que o Governo pelo menos reduzisse a fatura, diluindo-a por mais anos. O ministro das Finanças percebeu que estava de mãos atadas e o primeiro-ministro de olhos vendados. E como não sabe como há de explicar isto aos portugueses que estão a sofrer na pele a crise económica brutal, há de fazer piruetas políticas.

Os bancos são essenciais nesta crise, porque por eles passa o dinheiro para as empresas, eles decidem quais vivem e quais morrem. Que não morram eles, o que começa por reconhecer que este ano vão ter prejuízos, em vez de mascararem as perdas futuras atrás das moratórias de crédito que o Governo aprovou. Porque de pagar prejuízos futuros estamos fartos. E, no caso do Novo Banco, até os prejuízos passados. Para o ano isto acaba, na última transferência. Ponham um lembrete na agenda do primeiro-ministro, por favor.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Os cabelos de Marques Mendes


Por 
Daniel Oliveira, 
in Expresso Diário, 
06/05/2020

Estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes, que ficou com eles em pé com a eleição de uma deputada do PS para a FPF. É que quando o ex-deputado Gilberto Madaíl acumulou funções na FPF o seu líder parlamentar era Marques Mendes. E quando o ex-deputado Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga o líder do partido era Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar.


Corria o ano de 1996 quando o deputado do PSD Gilberto Madaíl foi eleito presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). E como deputado permaneceu mais um ano, conseguindo a proeza de acumular a presidência da FPF com a da Comissão Parlamentar para o Desporto. Em 2006, o também deputado do PSD Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga e vice-presidente da FPF, por inerência de funções. E acumulou as funções políticas e de dirigente desportivo durante três anos. A promiscuidade entre política e futebol ainda só era tema de gente politicamente marginal. E assim continuou até há poucos dias. Os presidentes de clubes eram namorados pelos partidos do poder, muitos deputados ocupam funções associativas e os painéis de comentadores desportivos forneceram candidatos a autarcas. Como André Ventura, o moralista mais promíscuo da nossa praça.

Tudo continuava nesta pouca-vergonha até o comentador político Marques Mendes ter ficado “de cabelos em pé” com a eleição de uma deputada do PS, Cláudia Santos, para presidente do Conselho de Disciplina da FPF. Visivelmente indignado, o comentador explicou-nos: “Isto é um problema político e ético. Isto é um problema de promiscuidade, de confusão, de ligação perigosa entre o futebol e a política.” Confesso que senti um arrebatamento. Finalmente alguém punha o dedo na ferida, dizia as coisas como têm de ser ditas e tudo o mais que se costuma escrever nas redes sociais quando um demagogo fala para a plateia a fazer figas atrás das costas.

Só que o passado é uma sarna que não larga o hipócrita. E toda a gente tem o seu. Quando trago à baila Madaíl e Loureiro não é para entrar na rábula da troca de cromos ente PS e PSD. Seria um jogo interminável. Apenas estou preocupado com os cabelos de Marques Mendes. É que quando Gilberto Madaíl acumulou funções, o seu líder parlamentar era, nem mais nem menos, o cabeludo Marques Mendes. E quando Hermínio Loureiro foi eleito presidente da Liga, o presidente do partido era, nem mais nem menos, o mesmo Marques Mendes. É preciso ter pontaria e resistência capilar. E a sorte é tanta que os três – Marques Mendes, Gilberto Madaíl e Hermínio Loureiro – foram eleitos pelo mesmo círculo de Aveiro. Ninguém sabe se ele disse aos dois senhores, como aconselhou agora, que aquilo não era “politicamente recomendável”. Ou se propôs que se mudasse a lei. Sei que não agiu nem falou, apesar de ter poder para o fazer, nos dois casos.
Ao contrário de muitos, acho normal ex-políticos fazerem comentário. O comentário é assinado e é para ter posição. E, tenho de confessar, ver Marques Mendes ter sobressaltos éticos com as promiscuidades dos outros é o meu “guilty pleasure”. E, por isso, espero ansioso pelo esclarecimento deste domingo, quando o comentador for confrontado com o que mudou para se ter transformado no guardião da ética que lhe escapava quando tinha poder para a impor. Se o comentário lhe serve para criar factos políticos, que desta vez seja ele o facto político. É que não é Marcelo quem quer, é Marcelo quem sabe. E, como se viu na polémica do 1º de Maio, na arte da fuga e da dissimulação todos são aprendizes ao pé do Presidente.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O SNS e a motosserra do senhor Rodrigo G. de Carvalho


Por 
Domingos Lopes,
in Público, 
04/05/2020

É hoje forte o sentimento na nossa comunidade que o Serviço Nacional de Saúde foi até à data o serviço público que tratou e salvou os doentes covid-19, apesar de descapitalizado, atacado e desprezado pelos vários governos. Sem o SNS, a pandemia teria dizimado muitos milhares de portugueses.


Aliás, os países com um forte SNS responderam muito melhor à crise que os países onde os cidadãos que queiram ter acesso à saúde têm de a pagar. Na verdade, serviços públicos fortes, modernos, desburocratizados e ao serviço das populações são elementos chave de um Estado moderno, democrático e vocacionado para proteger.
Ora esta conclusão óbvia não se encaixa nas ideias dominantes de sobrevalorização do papel do indivíduo prevalecente sobre o da comunidade, que está em sintonia com a elevação da empresa a um novo paradigma de proteção estatal fundado num quase direito natural.
O que parece contar é a sorte das empresas, sobretudo as grandes. O Estado, a entidade “despesista e gastadora”, de repente tem de ir socorrê-las para a sua salvação. O tal Estado malfadado faz-lhes falta quando a iniciativa privada não está capaz de responder aos seus desafios próprio das sacrossantas leis do mercado. Vejamos de outro ângulo – quando há lucros fabulosos a ordem é arrecadar, quando há prejuízos a ordem é para lançar impostos e os cidadãos pagarem.
Há até quem candidamente defenda que o Estado garanta um empréstimo à TAP de 300 milhões de euros para salvá-la e depois entregá-la à sociedade Barraqueiro/Neelman… que grandes capitalistas…
Parece ser uma nova religião que preconiza que o Estado subvencione os mais poderosos e sobrecarregue os que vivem da força do seu trabalho, como se o salário fosse um peso e sempre imerecido. Felizmente que muitos são os patrões que não têm esta visão, mas esses não têm voz nos media.
A iniciativa privada é essencial numa sociedade moderna, mas de acordo com as regras do mercado e não baseada no critério de que na sua atividade o risco é do Estado e o lucro do capital.
Aliás, os lucros de algumas dessas empresas vão direitinhos para os “repugnantes” holandeses, enchendo-lhes os cofres e deixando o maldito Estado português à míngua, mas obrigado a socorrer os mesmos de sempre.
Quando chegar a hora de fazer contas vira o disco e toca o mesmo – austeridade. Não se pode tocar nos lucros, só nos rendimentos dos que trabalham e nesses pode ser à bruta porque aguentam, aguentam, como afirmou o célebre banqueiro...
Dinheiro já (não pode ser amanhã de manhã) a fundo perdido. E a vida das famílias, dos trabalhadores com menos um terço do vencimento? Alguém deu conta da necessidade de remunerar mais dignamente os enfermeiros, os médicos, os cientistas das várias áreas sem os quais as mortes eram aos milhares? Já foi feito o ato de contrição sobre o sair da zona de conforto que levou milhares de enfermeiros e médicos portugueses a sair do país? Um dos rostos desse período negro aparece confortavelmente e todo pimpão, com ares de cientista, pianinho, pianinho, a botar postas de pescada sobre o coronavírus. Refiro-me a sua excelência o “Paulinho das Feiras”, dos retornados, dos ex-combatentes, do irrevogável, do vice-primeiro-ministro que ultrapassou na corrida Maria Luís e todo lampeiro perora na TVI. Ele é que sabe e por isso estendem-lhe a passadeira… Depois de tudo o que foi, agora é virologista formado na Rua do Caldas.

Na SIC, em entrevista à ministra da Saúde, o sr. Rodrigo atirou-se como uma fera a propósito da comemoração do 1.º de Maio da CGTP e instou-a a esclarecer o que lá fazia Jerónimo de Sousa de cima dos seus setenta e três anos. Veja bem, sra. ministra, aquele velho desconfinado, um dirigente do PCP, nas comemorações do 1.º de Maio…

O Sr. Rodrigo estabeleceu uma linha fortificada que ia da Alameda até à Cova da Iria. Queria a todo o custo saber porque não autorizara a peregrinação e a missa no santuário, em contraste com o que se passara na Alameda.
Marta Temido explicou o conteúdo da decisão presidencial contida no estado de emergência sobre aquela data e referiu as conversações com a Igreja que não passaram pelo modelo da Alameda.
Porém, como o sr. Rodrigo se achava portador do inconfessável propósito da ministra, a entrevista tornou-se num interrogatório. Com toda a simplicidade do mundo, um sorriso e um olhar firme, teve de responder ao sr. Rodrigo que estava ali para esclarecer e para tanto esclareceria. Foi então que ele deu conta que se acabara a gasolina da motosserra. Ficou a imagem de Marta Temido feliz com a resposta do SNS.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A União Europeia precisa de um 25 de Abril


Por 
04 Maio 2020

A fuga das grandes empresas aos impostos vai uma vez mais ser caucionada. E serão os mesmos a pagar a crise. A UE tem de construir um espaço de pensamento e actuação solidários.

1. Comecemos por Portugal. Valeu a pena o 25 de Abril. Volvidos 46 anos, continua um desígnio nacional a evocação deste dia da Liberdade. Como já escrevi algumas vezes, com o 25 de Abril, Portugal começou a “libertar as Liberdades Fundamentais”. Gosto da expressão “libertar as Liberdades Fundamentais” porque indicia/vinca um processo contínuo, um processo nunca acabado mas em movimento, de luta, sendo as mais difíceis de libertar as peias que existem no íntimo, na mente de cada um.
Nestes 46 anos, muita coisa poderia ter corrido melhor. O saldo é, contudo, bem positivo. Operaram-se mudanças de fundo importantíssimas no País em que vivemos. Desde logo, o direito à liberdade de expressão e manifestação, não ser preso por delito de opinião e jamais correr o risco de ser morto por esses mesmos motivos. Tudo isto parece um absurdo. O problema é que, com Salazar e Marcelo à frente do País, não o era. 
2. Hoje, tudo parece desabar com este coronavírus. As relações, os afectos, o convívio mais simples, tomar um café, tudo mudou. Portugal e o Mundo perante um desafio gigante: abater este vírus. 
Apesar desta calamidade, não podemos, os que sentiram/sentem o 25 de Abril, afastar da mente, por momento algum, o que era Portugal e o que já se conseguiu de Portugal com o 25 de Abril. Neste sentido, esteve bem a Assembleia da República em comemorar esta data em formato ajustado às circunstâncias.
Do 25 de Abril até hoje, Portugal transformou-se em áreas fundamentais como a saúde, o ensino, a investigação científica e o bem-estar social e económico. Não tanto as mentalidades, mas em contacto com o mundo abriu e tem vindo a ressarcir-se lentamente de alguns atavismos bloqueantes. 
A título de exemplo, assinale-se o impacto das primeiras telenovelas brasileiras nos “costumes” nacionais. Cumpriram o seu papel. Agora bem dispensáveis. Façam telenovelas portuguesas. Sobre problemas de natureza social.

Algumas mudanças significativas

3. Portugal atingiu, a nível mundial e europeu, índices invejáveis na saúde. Uma taxa de mortalidade infantil actual de 2,8 por mil contra 38,9 em 1975. Uma esperança média de vida superior à da União Europeia. Qualifica técnicos de elevada qualidade com grande procura no exterior. E, acima de tudo, montou um SNS funcional, embora parco de recursos materiais e humanos, com resultados palpáveis, traduzidos por exemplo nos índices referidos e reconhecido a nível internacional. É a este SNS, apesar da exagerada componente de privatização dos serviços de saúde para onde são desviados demasiados recursos financeiros públicos, que se deve o combate bem-sucedido contra o coronavírus.

O ensino, com relevo para o universitário e politécnico, foi alargado a todas as camadas da população portuguesa. Pecando apenas por uma abertura, em todos os níveis de ensino, menos acompanhada por métodos pedagógicos inovadores e conteúdos mais apetecíveis. 
Na investigação científica, o Portugal de Abril averba progressos significativos. Constituiu centros de investigação e inovação de excelência, alguns em articulação com os sectores económicos. Um bom indicador. Muitos deles com cientistas residentes de outros países. Concorre em projectos internacionais com sucesso. Tem um número significativo de cientistas, muitos bastante jovens, em instituições internacionais de elevado prestígio. 
Criou-se mais riqueza no país, embora, segundo dados da OCDE, Portugal continue a ser um dos países onde a desigualdade na apropriação é gritante, o que significa que grande parte da riqueza criada vai parar às mãos de quem não a gera, pela posição de poder que detém. 
Apesar de, no contexto da União Europeia, se continuar a ganhar tão pouco em Portugal, as remunerações do trabalho apresentam mudanças radicais. Em 1974, a remuneração média andaria à volta de €39/mês. Em 2019, 1.170,3 euros (valores nominais). É evidente que, em paridade de poder de compra, esta diferença não é tão chocante.

Pode haver recuo? Pode.

4. Infelizmente, os tempos presentes são de grande incerteza. O século XXI tem sido muito matreiro para Portugal. Já tivemos os tempos da troika, com a sensação de que o país regredia em toda a linha. Eram bem visíveis as restrições financeiras, a taxa de desemprego a aproximar-se dos 19% e o empobrecimento através dos cortes de rendimento da população em geral, e dos reformados e pensionistas em particular. 

Houve o período posterior com a ‘geringonça’, de alguma recuperação de rendimentos, mas em que a “família grisalha” foi pouco contemplada. Registou-se em simultâneo uma melhoria substantiva das contas públicas, o que trouxe algum desafogo. 
De repente, eis que se abate sobre nós o coronavírus e outra fase difícil começa. Uma economia quase paralisada com as costuras em ruptura. As perspectivas actuais e futuras são de grande negrume. É fundamental enfrentar solidariamente esta situação.

As novas tecnologias

5. Como encontrar novos caminhos? A realidade futura vai ser, direi, tem de ser outra, bem diferente. Que impulso dar às novas tecnologias? Não será que o recurso ao teletrabalho “forçado”, por exemplo, pode abrir uma luz para repensar formas diferentes de reorganização da sociedade, das empresas e da vida das pessoas? A descoberta de novas soluções, que não desumanizem o trabalho e a convivência social, poderá repercutir-se em novos formatos de reorganização das cidades, transportes, família e até proporcionar uma revisitação às condições de habitabilidade! 
Para tudo isto, é preciso pensamento estratégico, planos de enorme arrojo nos domínios da economia e do social bem alicerçados e financiamentos de elevados montantes.
6. Nenhum país tem capacidade, de sozinho, vencer esta situação. Portugal e outros países enquadram a União Europeia. E será positiva a sua sensibilização para esta nova realidade. 
Até ao momento não se vislumbraram momentos promissores. A solidariedade ainda não despertou por aqui. Mesmo o Conselho Europeu de 23 de Abril, de razoável apenas o ter sido breve. Os países limitaram-se a apresentar as posições e a delegar na Comissão a concretização do Fundo de Recuperação da Crise até 6 de Maio. 
Admitiu-se que o montante do Fundo possa andar em torno de 1,5 biliões de euros (12 zeros – milhão de milhões). Tudo o resto ficou no indefinido: será empréstimo, será a fundo perdido ou se for misto em que proporção?! Aqui, o desentendimento é abissal. É voltar ao princípio, com os quatro países do costume a vincar que este montante tem de funcionar como empréstimo. A maioria dos países defende pelo menos uma parte substancial a fundo perdido, e o valor por empréstimo associado a um prazo alargado. Espanha fala de empréstimo perpétuo. 

Este Fundo vai financiar-se no mercado em nome da Comissão – emissões de dívida. Mas o veículo da emissão da dívida ficou na nebulosidade, bem como as condições em que os países decidam acorrer ao Fundo. Enfim, a conclusão final pode levar a uma situação de descalabro para países como Portugal que não reúnem condições para mais endividamento, ou pelo menos, para empréstimos em determinadas condições. Por outro lado, outras fontes de financiamento como o recurso a impostos sobre as multinacionais nem são previstas.

Este problema não é novo. O Parlamento Europeu tem discutido. Não avança por razões ideológicas. Há grupos partidários que defendem que o imposto deve ser cobrado no local em que se realiza a actividade – o argumento da soberania nacional, enfim, de curto alcance, e outros de forma encoberta dão cobertura ao grande capital. 
E, desta forma, muitos milhares de milhões escapam ao erário público. O capital deixa de pagar percorrendo o percurso dos offshores, perpetuando a fuga aos impostos mesmo nos seus países de origem, como os Estados Unidos. 
Em resumo, a fuga das grandes empresas aos impostos vai uma vez mais ser caucionada. E serão sempre os mesmos a pagar a crise. Concluindo, a União Europeia precisa de um 25 de Abril ou, no mínimo, de um Jacques Delors, para construir um espaço de pensamento e actuação solidários.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

domingo, 3 de maio de 2020

AS NOVAS CATEDRAIS E OS MONSTROS SAGRADOS


Por
Padre José Martins Júnior
29.04.2020

Ao título em epígrafe falta juntar o elemento essencial: o verbo ou predicado. Então ficaria assim: “Também caem as novas catedrais e da mesma forma se abatem os monstros sagrados”. Na leitura que lhes faço, os verbos assumem uma nítida conotação reflexa, ou seja, são as catedrais que tombam por si mesmas e os monstros, ainda que sagrados, são eles que a si próprios se desmancham, à luz do dia.


Ao título em epígrafe falta juntar o elemento essencial: o verbo ou predicado. Então ficaria assim: “Também caem as novas catedrais e da mesma forma se abatem os monstros sagrados”. Na leitura que lhes faço, os verbos assumem uma nítida conotação reflexa, ou seja, são as catedrais que tombam por si mesmas e os monstros, ainda que sagrados, são eles que a si próprios se desmancham, à luz do dia.
Da encosta onde me posiciono, declaro que tomo, desde já, torres ou monstros como ícones e metáforas de tantos outros monumentos sócio-económico-culturais que têm balizado os nossos usos e costumes - numa palavra, a nossa civilização – e que, a partir de agora, ficam em hasta pública, à mercê de novos ventos e fortes abalos trazidos pela “insustentável leveza” do coronavírus.
Hoje, porém, compartilho da mesma paisagem que, no dia de ontem, milhares e milhões de portugueses desfrutaram ao ver subir lentamente (ao peso de uma herança quase perdida!) certos corifeus do nosso desporto-rei na escadaria de São Bento, em Lisboa. Houve quem a comparasse a uma segunda edição de nova “brigada do reumático” a caminho de um improvisado hospital de campanha. Ordem de trabalhos: epílogo de campeonatos inacabados.
Não me ocupo do elenco da dita embaixada nem da sua hipotética legitimidade representativa. Nem sequer da dita Ordem de Trabalhos. Preocupa-me tão só o mesmo que preocupa o cidadão comum quando se debruça sobre o estado actual do mundo do futebol – essa floresta tão densa e tão sombria que tanto custa a desbravar e decifrar. A questão que a todos se coloca é esta: o que é hoje o futebol?... Desporto, acção, arte atlética, fraca competição, desenvolvimento integral da personalidade?... Não há muito tempo, um conhecido e abalizado cronista desportivo, no aceso de um debate televisivo sobre a matéria, explodiu (é mesmo o termo, explodiu!) agastado, peremptório: “Isto é só negócio. O futebol nada tem além do negócio”! No decurso do debate, atiraram-se como pedras de chumbo para cima do tampo da mesa acusações e denúncias de transacções, trapaças e jogadas, subornos, traições, todo um enxurro torpe de dinheiro sujo e atentados à dignidade humana…
Pergunta-se: Onde está um lampejo que seja daquele ideal olímpico de que falava o poeta latino Iuvenalis: “Mens sana in copore sano”?
Nos comentários de bancada, do povo que até gosta de futebol, saíram tacadas ácidas, como “Se calhar, estes tipos também vão pedir dinheiro ao governo para pagar aos jogadores”… E logo vêm ao de cima as cifras ciclópicas aos donos das chuteiras, como aquele ilustre Professor da Faculdade de Medicina que, ao saber da transacção feita com Neymar ao PSG, não se conteve: “O quê? Isso é o Orçamento Anual de todo o Hospital de Santa Maria”!!!

A alinhar com esta inflação verdadeiramente obscena, acresce a superinflação da palavra, dos “catedráticos da bola”, com cujas avalanches verbais os nossos canais rebentam pelas costuras… Por outro lado, não deixa de ser notória a “caça” precoce aos jovens, desde tenra idade, criando neles parcas apetências e falsas expectativas num futuro que não ultrapassa a mediania, senão mesmo o vazio cultural. Permitam-me um desabafo: ainda não percebi qual o cabimento pedagógico de transportar menores pela mão para dentro de um “caldeirão”, de todo desaconselhável, onde os esgares descontrolados são a mais vergonhosa cartilha para uma criança!

Não pretendo moralizar nem muito menos dogmatizar sobre o gigantesco fenómeno do desporto-rei. Acompanho apenas o olhar atento dos autênticos observadores dos futuros estádios, isto é, dos novos caminhos que o futebol abrirá no mundo de amanhã. Algo será diferente. O batente que o ‘Covid-19’ estourou na barra dos nossos rectângulos desportivos e em quase todos os quadrantes sociais servirá para queimar a gordorosa e rançosa imundície de que andam vestidos certos figurinos e certas estruturas do nosso futebol. As próprias novas catedrais – os estádios são as novas catedrais da cidade – e os seus monstros sagrados cairão de velhos e gastos se não tentarem rejuvenescer numa outra mundividência do desporto. 
Faço minhas ( e outro objectivo não tenho senão transmiti-las) as judiciosas palavras do Prof. Francisco Sobral: “Toda a actividade desportiva deverá ser equilibrante, estruturante e socializante”. E completo-as com a veemente denúncia de um outro Mestre do Desporto, Manuel Sérgio, acerca dos desvios do mundo em que se movimentava: “Este nosso mundo tecnocrático que rejeita áreas fundamentais e que, ao lado dos “Spitz” e dos “Pelés”, mantém milhões de subalimentados”!
Será desta - pergunto eu - ou teremos nós de esperar por mais uma enorme penalidade do ‘Covid” para darmos outra volta ao mundo do desporto, o futebol inclusive?

quinta-feira, 30 de abril de 2020

1º de Maio, mudança e respeito por quem trabalha


A turbulência social e o facto de agora, amiudadas vezes, falar-se de mudança de paradigma organizacional, não é uma questão que surge na sequência da pandemia que o mundo está a viver. A década de 80 consolidou aquilo que já nas décadas anteriores se adivinhava como uma probabilidade, eu diria mesmo, uma inevitabilidade. Quanto muito, a pandemia veio despertar, ou melhor, pode tornar-se em um acelerador no despertar de um oceano de consciências para a imprescindibilidade de rompimento com processos que a evolução científica e tecnológica determinou e, de forma rápida, está a estabelecer.


Yuval Harari, no livro "Homo Deus - História breve do amanhã" (2015), refere, nas páginas 363/364 (8ª edição): "Em Setembro de 2013, dois investigadores de Oxford, Carl Benedikt e Michael Osborne, publicaram The Future of Employment, em que analisaram a probabilidade de, nos próximos vinte anos, várias profissões virem a ser substituídas por algoritmos informáticos. O algoritmo criado por Frey e Osborne para fazer os cálculos estimou que 47% dos empregos nos Estados Unidos estejam em elevado risco de desaparecer. Por exemplo, há 99% de probabilidades de que em 2033, os operadores de telemarketing e os mediadores de seguros percam os empregos para os algoritmos. Há uma probabilidade de 98% que aconteça o mesmo aos árbitros dos vários desportos, 97% para os caixas de supermercados e 96% para os cozinheiros. Empregados de mesa 94%. Assessores jurídicos 94%. Guias turísticos 91%. Pasteleiros 89%. Motoristas de autocarro 89%. Trabalhadores da construção civil 88%. Auxiliares veterinários 86%. Seguranças 84%. Marinheiros 83%. Empregados de balcão 77%. Carpinteiros 72%. Nadadores-salvadores 67%. E por aí fora. (...) É também evidente que até 2033 poderão surgir muitas novas profissões. (...) No início deste capítulo identificámos várias ameaças concretas ao liberalismo. A primeira é a possibilidade de os humanos se tornarem inúteis numa perspectiva económica e militar. É claro que isto é uma possibilidade, não uma profecia. (...)"

Ora bem, o ano de 2033 constitui, apenas, uma referência temporal ditada por um algoritmo. Tudo pode vir a acontecer mais tarde, mas é óbvio que o século XXI será de ruptura dos formatos tradicionais que enformaram a organização social como a conhecemos. Aqueles investigadores que Yuval Harari traz à colação só estão a "explorar projectos, sonhos e pesadelos que darão forma ao século XXI - desde o vencer da morte à vida artificial".

Ora, a luta gloriosa de Chicago (1886) pela conquista de melhores condições de trabalho, onde se incluía a redução da jornada de trabalho para oito horas, luta onde morreram muitos trabalhadores no confronto com as forças policiais, tem de ser vista como uma referência que "só perde quem deixa de lutar". Só que o mundo do século XIX não é o mundo do século XXI. Aquela apenas foi uma etapa de um processo. Exige-se, assim, uma redobrada atenção ao que se passa neste momento, é certo, mas sem descurar o futuro que está aí ao virar da esquina. E isso implicará substanciais mudanças nas posturas sindicais, que implicarão, necessariamente, uma visão estratégica mais alargada de toda a organização social, refiro-me, de todos os sistemas, económico, financeiro, político, educativo, saúde, social, cultural e até o religioso.

Porém, ao que assisto, não é à emergência de uma preocupação que o futuro se faz agora, mas a um constante adiamento que, obviamente, nos distancia daquele mundo que não pode ser travado. Olho para o trabalho de Carl Benedikt e Michael Osborne sobre o futuro do emprego, distancio-me das percentagens ditadas pelo algoritmo, e uma coisa parece-me evidente: a escola, em 2020, continua a formar para empregos que não vão existir com a dimensão e a importância que hoje ainda assumem. 

Há um sucessivo adiamento do que é essencial e prioritário, preferindo os políticos mascarar o futuro com tentativas de resposta que, contextualizando, logo se percebe serem de todo inadequadas.
Trago em memória o "Admirável Mundo Novo", escrito em 1931, por Aldous Huxley, o romance que prognostica sérios desenvolvimentos, entre outros, na tecnologia, que revolucionaria, profundamente, a sociedade. Um outro, mais recente, A. Tofller, em uma curiosa entrevista publicada na revista Executiv Digest, quando a páginas tantas se referiu aos estabelecimentos de aprendizagem:

“(...) o Sistema Educativo assemelha-se a uma fábrica que produz informações obsoletas de forma obsoleta; não por não ter os manuais académicos actualizados, mas porque, simplesmente, não estão relacionados com o futuro dos estudantes. Se o modelo de produção que lhes é ensinado é a produção em linha, eles ficarão preparados para trabalhar em processos de rotina, repetitivos, que ignoram o indivíduo. Já foi moda, mas nos últimos 100 a 150 anos”. E diz mais: quando iniciou a sua actividade profissional o seu chefe “não queria o seu cérebro mas sim os seus músculos”. Compaginado com este posicionamento, Tom Peters, um guru da gestão, sublinhou: “bem vindos ao mundo do soft e da massa cinzenta”. 

Não existe caminho alternativo às mudanças que estão a acontecer e à imperiosa necessidade de assumir dois aspectos cruciais: por um lado, a assumpção de uma atitude prospectiva, de antecipação do futuro, planeando e programando em função de um futuro desejável na interligação de todos os sistemas; por outro, o respeito pelos direitos de quem trabalha. 
A lucidez Yuval Harari, no livro "Homo Deus - História breve do amanhã", deve funcionar como uma campainha de alarme. Aliás, com outros enquadramentos, ele segue, por exemplo, entre outros, as construções teóricas que li em Charles Handy, Gary Hamel, Peter Senge, Peter Drucker, Michael Porter e Tom Peters, no quadro da excelência na construção do futuro. E quando escrevo, neste 1º de Maio, sobre a necessidade de um novo sindicalismo que antecipe o futuro e que por ele lute, é também porque, por paradoxal que possa parecer, não alinho em frases emblemáticas que cito de cor: "nada mais certo no futuro que o emprego incerto", ou "a empresa do futuro chamar-se-á Eu, SA", ou então, "só os paranóicos sobreviverão" ou então, ainda, "no futuro só existirão dois tipos de gestor: os rápidos e os mortos". Frases interessantes, que parecendo motivadoras e de espaço no despertar de um novo mundo global, acabam também por serem perversas quando se aprofunda sobre o que significam e o que elas escondem por detrás da sua apriorística leitura.  
Viva o 1º de Maio com mudança, mas com liberdade, equidade, dignidade e respeito por quem trabalha na "sociedade líquida" de Z. Bauman. Se é bom para as empresas, naturalmente que também terá de ser para quem trabalha.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Tudo é legal, mas...


Encolho os ombros ao valor porque lá diz a sabedoria popular que "palavras leva-as o vento". Estão em causa € 18.450,00  + IVA e todo o dinheiro que está em causa é público e, portanto, são os impostos que suportam. Mas, enfim... repito, encolho os ombros porque sei o que a casa costuma gastar! Porém, paradoxalmente, revolto-me porque é o princípio que está em causa. E esse princípio tem uma designação: prioridade estrutural.


Sem delongas, o governo regional, através da vice-presidência, assumiu um "contrato de aluguer de espaços de estacionamento para veículos da Quinta Vigia". O contrato, segundo o Dnotícias, realizado com a Sociedade Promotora e Gestora do Hotel Savoy Palace, prolongar-se-á até 2022 e  tem como contrapartida entre 10 e 20 lugares. 
Ora bem, ainda ontem escutei, na RTP-M, a presidente, na Madeira, do Banco Alimentar Contra a Fome, preocupada com o aumento de pedidos (216) desde meados de Março, quando a pandemia obrigou a novos constrangimentos. Isto significa que muitas famílias estão em desespero, não apenas aquelas que fazem parte dos dados da estatística oficial da pobreza (31%), mas os outros que caíram nesse aflitivo pântano. É, por isso, que me refiro a um dos princípios basilares do desenvolvimento: o da prioridade estrutural. No caso em apreço, porque a fome não pode esperar por amanhã.
Finalmente, "não basta ser, tem de parecer", adaptado a esta situação, vem do tempo do Imperador Romano Júlio César. E por que digo isto? Pois, para além daquele aluguer não ser prioritário, convinha que os governantes tivessem consciência da necessidade de uma rigorosa e transparente separação entre o verdadeiro interesse público e para quem ontem se trabalhou. Tudo é legal, não tenho a menor sombra de dúvida relativamente ao contrato, mas... 
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Ninguém sabe


Por
Miguel Sousa Tavares,
in Expresso
25/04/2020

1 Em 2008 e nos anos que se seguiram, tivemos todos de tirar um curso apressado de finanças públicas, gestão de défice, de dívida, mercados, austeridade. Desta vez, estamos em aulas intensivas de epidemiologia, infecciologia, saúde pública, matemática aplicada ou gestão hospitalar. De manhã à noite, ouvimos e lemos todos os especialistas de todas as áreas envolvidas, de todos os países, de todos os hospitais, de todas as Universidades, médicos, técnicos, cientistas, investigadores, e, em relação às questões essenciais, quase tudo permanece por esclarecer: é melhor a estratégia de contenção inicial à viva força ou a rápida obtenção da imunidade de grupo, através da contaminação livre de grande parte da população? Que medicamentos, dos existentes, são, de facto, eficazes, e em que fase, para conter a progressão da doença? Quanto tempo dura a fase de contágio? Os ditos recuperados podem voltar a ficar infectados?


Nunca tantos procuraram tanto e souberam tão pouco. E foi citando Churchill, após a Inglaterra ter ganho a primeira batalha contra a Alemanha, a meio da II Guerra, que Bill Gates — talvez o ser mais inteligente e mais útil do planeta (e que previu e avisou contra uma pandemia assim, em 2015) — resumiu acertadamente a situação em que estamos: “Ainda não é o princípio do fim, mas talvez o fim do princípio.” Para Bill Gates, há uma má e uma boa perspectiva. A má é que o Monstro só será dominado quando estiver disponível para a maior parte da Humanidade uma vacina eficaz, e isso não acontecerá tão cedo; a boa é que, depois disso, o mundo evoluirá para melhor, haverá melhores instituições internacionais, melhor espírito de cooperação e maiores avanços científicos partilhados.

2 Certas coisas, porém, nunca mudarão e, se calhar, como dizia o Príncipe de Salina, até é bom que assim seja. Por exemplo: no meio deste sufoco do coronavírus, até quase me passava despercebido o 150º aniversário do nascimento de um dos maiores malfeitores políticos da História: Vladimir Ilitch Ulianov, de seu nome. Não fosse a notícia de que Putin tinha aberto uma excepção ao estado de emergência em vigor na Rússia para autorizar os nostálgicos do PCUS a desfilarem na Praça Vermelha perante a mais célebre múmia conservada até aos nossos dias, a seguir à de Tutankhamon, e eu nem tinha dado por nada. Mas a data não escapou, claro, ao nosso PCP: Jerónimo de Sousa gravou um vídeo a proclamar a eterna lealdade dos comunistas portugueses a Lenine, essa “bússola para a orientação da nossa actividade”. 150 anos depois, e nada mudou. Mesmo no meio de uma catástrofe de saúde pública e de uma correspondente catástrofe económica, com as empresas paradas e fechadas por falta de procura e de mercado consumidor, a bússola leninista que orienta Jerónimo de Sousa em qualquer momento ou circunstância diz-lhe que não há nada de novo aqui: é uma ofensiva do “grande patronato, com toda a espécie de arbitrariedades, que tem de ser contrariada com opções que evitem o agravamento da exploração e do empobrecimento”. Venham daí as opções, caro Jerónimo de Sousa! Na certeza, porém, de que, não havendo almoços grátis e não nascendo o dinheiro debaixo da mesa, alguém terá de pagar a conta, no final. Seria interessante que explicasse quem pagará e como. Da mesma maneira que já vi dito que todo este dinheiro que o Estado agora terá de pedir emprestado jamais será pago. E eu pergunto: e, se assim é, quem é o que o vai emprestar?

3 Não é só o PCP que acha que não há razão alguma para pensar diferente do que sempre fez. A Ryanair, por exemplo, diz que se a obrigarem a voar com os aviões preenchidos só a 66%, o seu negócio não é rentável. A rentabilidade do negócio depende de aviões sempre a rebentar pelas costuras, tripulações sempre a voar no limite das horas, passageiros tratados como gado, prioridade de atendimento e tempos de espera mínimo nos aeroportos, e taxas mais baratas em troca da frequência dos voos. Em contrapartida, esta e as outras low cost proporcionam a milhões de passageiros a possibilidade, que de outra forma não teriam, de viajar a custos acessíveis. O seu negócio é a quantidade e não a qualidade. Mas os custos indirectos que acarretam, e que nunca são falados, são imensos: não apenas a poluição que acrescentam, mas também os novos aeroportos, como o do Montijo, que se tornam necessários por sua causa, ou a massificação turística das cidades para que contribuem decisivamente e que é um excelente negócio para a hotelaria e uma péssima existência para os habitantes locais.

Entre um mundo governado por um cientista ou por um estadista, eu prefiro sem hesitar o do estadista. Porque não basta salvar a espécie humana, é preciso que, no final, ela se mantenha humana nos seus valores

A questão que se vai pôr já de seguida, e a uma escala global, é que tipo de recuperação económica queremos e vamos ter. Empresas e empresários como a Ryanair e Paul Ryan vão defender e pressionar para que se regresse imediatamente ao business as usual, garantindo, e talvez com razão, que essa é a forma de assegurar uma recuperação rápida. Porém, há uma grande diferença: agora sabemos. Agora, ninguém pode dizer que não sabe, que não viu, que não aprendeu nada. Acreditar que podemos continuar a ter 14 milhões de pessoas em 230 mil voos nos céus todos os dias, que podemos continuar despreocupadamente a queimar recursos naturais que sabemos ser finitos e a envenenar o ar que respiramos, que podemos continuar indiferentes à sorte de milhões de pessoas que ainda morrem de fome no mundo enquanto tantos vivem no luxo e no desperdício, é acreditar que, depois disto passar, tudo ficará apenas como um susto e não como uma lição.

Talvez ingenuamente, eu acredito que desta vez vamos — as pessoas comuns, os consumidores comuns — querer ter uma palavra a dizer. Que não vamos ser carne para canhão, destinatários obedientes e amorfos de escolhas e gostos que outros fizeram em nosso nome e de que nos convenceram que não poderíamos absolutamente prescindir. Que vamos querer menos e que menos pode ser melhor. Que vamos querer estar mais bem informados, reflectir mais, olhar com olhos de ver, e que, uma vez que já aprendemos que por mais urgente que tudo seja, o tempo pode sempre ser suspenso, vamos ter menos pressa e mais tempo.

4 E ainda vamos ter saudades de Angela Merkel. Ela evoluiu muito desde 2008 e, agora, liberta daquele seu sinistro doutor Schäuble — que fazia lembrar o general Millán-Astray, do “Viva la muerte!” — Merkel tornou-se simultaneamente mais humana e mais inteligente. E, logo, mais estadista — talvez o único estadista de uma Europa voluntariamente pequena. No Bundestag, na véspera do Conselho Europeu, ao mesmo tempo que fazia o seu discurso “sangue, suor e lágrimas” aos alemães, dizia-lhes também que esta era a hora de “mostrar quem somos e quem queremos ser na Europa”. Mas não chegou para convencer os que acham que a Europa só lhes interessa como mercado único e território de caça fiscal: Holanda, Finlândia, Áustria e Suécia. Pessoalmente, tenho pena pela Suécia, que é um grande país, de notável gente. Os outros não interessam para nada: a minha ideia de Europa passava bem sem eles.

5 Regresso ao princípio: ninguém sabe. Ninguém sabe como isto acaba e nem sequer se acaba bem. Sendo que há diversas formas de acabar mal e acabar bem. A solução está na mão dos investigadores e dos cientistas, de quem todos esperamos a tão ansiada vacina. Mas isso não quer dizer, ao contrário do que já vi escrito, que a crise devesse ser gerida por cientistas e não por políticos. 

É justamente o contrário: não há crise mais política do que esta, em todos os aspectos que comporta. E, se dúvidas eu tivesse, elas desfizeram-se ao ler aqui, na semana passada, a entrevista à cientista Maria Manuel Mota, Prémio Pessoa, Prémio Pasteur, comendadora do Infante D. Henrique, etc. Diz ela que este é “um vírus bonzinho” porque só mata velhos e portanto a solução é trancar os velhos a sete chaves, proibi-los de ver os filhos e os netos, de sair à rua, de ter vida enquanto não houver vacina. O contrário, sustenta, daquilo que defendeu Angela Merkel, para quem não se pode libertar os jovens e os adultos e prender os velhos.
6 E, já agora, seria bom deixar de usar a horrível palavra idoso, que rima com ranhoso, sidoso, leproso, tuberculoso e outros estados a evitar. Eu sei que faz parte do novo léxico politicamente correcto que obriga a dizer recluso em lugar de preso, toxicodependente em lugar de viciado em drogas ou drogado, invisual em lugar de cego, arguido em lugar de réu, e que, no limite, levava a ex-Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, a exigir ser tratada por “senhora Presidenta”, ou levou o partido espanhol de extrema-esquerda Unidos Podemos a mudar o nome para Unidas Podemos. Mas nem por isso deixa de ser ridículo, apenas o é mais: alguém diz “o meu idoso” em vez de “o meu velho”, quando se quer referir carinhosamente ao pai? Já imaginaram o que faríamos à literatura se aplicássemos a ditadura do idoso a alguns casos célebres: “O Velho Que Lia Romances de Amor”, de Luis Sepúlveda, de que aqui falei a semana passada, passaria a “O idoso que lia romances de amor”; “O Velho e o Mar”, de Hemingway", passaria a “O idoso e o mar”; “Os Velhos Marinheiros”, de Jorge Amado, seriam “Os idosos marinheiros”, e até o nosso ‘velho do Restelo’ acabaria transformado no ‘idoso do Restelo’. Isto, para não rematar dizendo que “idosos são os trapos”. Tenham lá mais respeito pelos velhos!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

segunda-feira, 27 de abril de 2020

A vacina é um mau negócio?


Por
Francisco Louçã, 
in Expresso, 
25/04/2020

(...) Uma reportagem do “Financial Times” desta semana apresenta declarações surpreendentes de alguns dos responsáveis das maiores empresas da indústria farmacêutica. Em resumo, põem em cima da mesa uma chantagem: precisamos de milhares de milhões de dólares nas nossas contas antes de começarmos a produzir qualquer vacina. E acrescentam um apelo, que os governos se entendam para tomar conta da distribuição mundial da vacina, quando ela existir. Esta curiosa combinação de capitalismo ganancioso e de socialismo planificador é o retrato da pandemia.


Começo pela ganância, afinal ela vem sempre primeiro. David Loew, vice-presidente da Sanofi Pasteur, quer rios de dinheiro antes mesmo da certeza de que uma vacina resulte: “Se a indústria não souber como vai estar o mercado daqui a 18 meses, não pode pagar todos os custos.” A preocupação com o mercado, explica Loew, é que se poderia repetir o que se passou com o ébola ou com a gripe de 2009, passado o susto a procura decresce. Ou seja, se os curamos, os doentes passam a ser um problema, não compram mais medicamentos. Christophe Weber, executivo da japonesa Takeda, explica que “o meu medo é que, depois da epidemia, toda a gente se desinteresse”. Yusuf Hamied, diretor da Cipla, grande produtor farmacêutico na Índia, reforça que “não podemos assumir todos os custos”, lembrando que, em 2009, estava a produzir um antiviral cuja procura caiu depois do susto da gripe. David Ricks, presidente da Eli Lilly, e também da Federação Internacional de Produtores Farmacêuticos, apela ao apoio dos governos, explicando com candura que “não deve haver quem obtenha vantagens, concordo a 100%. Mas os investidores dão-nos capital e esperam um lucro”.
O coro de dirigentes da Big Pharma descreve o seu receio. De facto, eles demonstram que a indústria privada é incompetente para conduzir a investigação científica de base. Sem o aguilhão do lucro fácil, os seus laboratórios resumem-se ao mercado imediato e não investem no que demora e mobiliza recursos para medicamentos cuja rentabilidade futura é desconhecida. E o mercado exclui: quando o Brasil e a África do Sul lutaram contra as multinacionais farmacêuticas para disporem de tratamentos para o VIH a preço comportável, foi só quando ameaçaram produzir genéricos sem autorização que as empresas aceitaram negociar. Considerando estas estratégias de lucro, percebe-se porque é que, apesar de a classe dos coronavírus ser conhecida há décadas, estamos ainda desprotegidos perante os seus riscos. O mesmo critério se aplicou a outras doenças: como o ébola ficou no Sul do planeta e não ameaçou os países do Norte, as pesquisas para o tratamento foram desvalorizadas. Assim, se não são laboratórios universitários e públicos a assumir a linha da frente da investigação científica, o mundo fica mais vulnerável.

O PÚBLICO É A NOSSA SALVAÇÃO

E é aqui que entra a versão socialista e planificadora das grandes farmacêuticas, pedem que os governos se entendam e dirijam a distribuição da futura vacina. Têm razão. No mesmo sentido, Seth Berkley, presidente da Gavi, um fundo internacional para as vacinas, diz que “precisamos de um acordo sobre o acesso e produção dado o risco, para comprar grandes quantidades a preços baratos para distribuir nos países com baixo rendimento”. Ou que, “se não houver solidariedade mundial, a pandemia afetará mais algumas regiões e levará a migração”. Severin Schwan, presidente da Roche, suíça, pede um acordo entre os governos para gerir a distribuição de medicamentos.
Considerando o que a Casa Branca já tentou fazer, apropriando-se de carregamentos em aeroportos internacionais e tentando adquirir o exclusivo de remédios preparados em empresas estrangeiras, a disputa pelo stock da futura vacina é um perigo. Só o evitamos se umas Nações Unidas dirigirem a sua distribuição. Não é fácil, mas se não for assim já sabemos quem serão os sacrificados. A ordem mundial do caos é a maior ameaça contra os pobres do Norte do planeta e contra todo o seu Sul. (...)

NOTA
Excerto de um artigo no Expresso.

sábado, 25 de abril de 2020

A propósito do COVID19, a quem o mundo está entregue!



FACTO

Trump sugeriu injectar lixívia para tratar a Covid-19, porque pode matar o vírus ou então submeter o corpo à luz ultra-violeta. "Os cientistas que investiguem os possíveis benefícios da ingestão ou injecção de desinfectantes no corpo dos pacientes". Bolsonaro, por seu turno, disse que não "era coveiro" para saber o número de mortos pela Covid-19. 

COMENTÁRIO

Ora bem, isto traduz a mais completa indiferença pelo ser humano. Um inacreditável desamor pelo semelhante, embrulhado, no caso de Trump, em um atestado de ignorância altifalante. Aquilo faz corar de vergonha toda a comunidade científica dos Estados Unidos (e não só). Ambos completam-se na ignorância e na impreparação para os lugares que ocupam no mais alto patamar da hierarquia política dos seus países. 
Bem esteve Petra Costa, indicada ao Óscar 2020 de melhor documentário: "Ser coveiro é uma profissão digna" (...) “Bolsonaro está mais próximo da figura do serial killer". Para Trump é difícil encontrar uma frase que o caracterize. O povo é que deveria utilizar lixívia pura para desinfectar e tornar mais branca e sem sujidade a casa que ocupa.
Um e outro explicam o ponto a que se chegou. Este é, de facto, o "ground zero" da política imbecil,  ignorante e sem qualidade. Que tristeza!
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

A noite que matou o Estado Velho


Esta é a noite mais linda e duradoura. A noite da esperança. A noite onde acaba o martírio e se abre uma janela para o futuro. A noite que travou o obscurantismo traduzido na ignorância, no espezinhamento social, político e cultural, a longa noite ditatorial, da censura, das prisões arbitrárias, da tortura, do Tarrafal, do exílio e das deportações, da emigração forçada e de uma guerra colonial que matou 8.831 militares e deixou mais de 100.000 incapacitados e cerca de 140.000 afectados psicologicamente. A valores correntes, nos teatros de guerra, enterrámos 21,7 mil milhões de euros. Foram décadas de condenação à fome, à miséria e ao analfabetismo. Eu que nasci no ano que terminou a II Grande Guerra, que senti as suas consequências, eu que servi e vivi o drama nas matas da Guiné Bissau, olho lá para trás e questiono-me sobre o porquê da estupidez de não terem sabido ganhar as asas do desenvolvimento.   


Esta é, portanto, a noite libertadora, do rompimento das grilhetas, dos ferros que travavam ou nivelavam o pensamento, da falência da ideologia estatal, da repressão policial, das escutas telefónicas, da violação da correspondência, dos julgamentos sumários de opositores políticos, da denúncia, das perseguições e da colossal mentira assumida por autocratas e corporativistas, tudo, diziam, "A Bem da Nação". 

Esta foi a noite que matou o Estado Velho. A noite que matou a violência própria de um regime fascista. 

E há, ainda, para meu espanto, quem deseje branquear a memória, que sinta saudades de alguns crápulas, justificando, também oiço amiúde, que tínhamos os cofres cheios de ouro! Perante a treta de uma alegada "fortuna", lamento o facto de nunca ter sido feita uma séria e justa responsabilização judicial.
Mas estamos em 2020, decorridos que são 46 anos após a noite de todas as noites. A caminho de cinco décadas de um novo Portugal. No essencial, cumpriu-se Abril. Com muitos e preocupantes desvios, é certo, o País que éramos não é o País que hoje desfrutamos. Mudámos muito e para melhor. Em todos os sectores, áreas e domínios. E Portugal soube, finalmente, perceber a necessidade da existência de Regiões Autónomas. 
Mas faltou-nos rigor, disciplina, uma atitude atempada contra os factores geradores de corrupção, faltou-nos uma política social integradora, uma escola voltada para o futuro que não se esgotasse nos anos de escolaridade obrigatória, faltou-nos gerar uma outra mentalidade, disciplina e sentido de responsabilidade. Faltou-nos Justiça a todos os níveis. Faltou-nos capacidade para planear e para travar a onda de oportunistas. E mais, não fomos capazes de impedir que os medíocres atingissem posições de enorme responsabilidade na decisão política. Hoje, faltam-nos referências, pessoas de uma credibilidade superior em quem possamos acreditar. A nossa grande fragilidade, é minha convicção, está aí, porque  tendencialmente, afastámos os melhores.
Que os desígnios de Abril se cumpram e que a onda populista seja travada. Por isso, deixo aqui uma parte da versão integral do poema escrito por Manuel Alegre, em 1963, e incluído no livro Praça da Canção (1965). 

(...)

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

(...)

A foto, da minha autoria, expressa o meu 25 de Abril. Que cada um retire a leitura que melhor entender. Eu tenho a minha, naturalmente.

Ilustração
Foto de uma secção, com os efeitos de luz, de uma das 43 colunas interiores (todas diferentes) do Azkuna Zentroa (43.000 m2), em Bilbao, projectado pelo arquitecto francés Philippe Starck. Trata-se de um moderno centro de arte contemporânea, onde emerge a diversidade estilística de cada uma das colunas.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

"Testados em segredo"


Foi primeira página do Dnotícias: "Testados em segredo". Referia-se ao facto dos membros do governo regional terem sido submetidos, presumo em grupo, a um teste à Covid19. Notei um certo alarido público relativamente a esta decisão. Do meu ponto de vista, completamente desajustado. Foram testados e ainda bem.


O problema só reside no alegado secretismo que rodeou a operação de despiste que incluiu uma "viatura descaracterizada com vidros fumados". Obviamente que deveria ter sido publicitada, colocando um ponto final na especulação. De resto, porque são membros do governo, mesmo que assintomáticos, já deveriam ter sido submetidos ao teste. São várias as reuniões diárias, múltiplos os contactos com entidades diversas e o vírus anda por aí à "espera" do mínimo descuido. Da mesma forma que não se deve criar condições para que esse tenebroso e invisível monstro se instale, também é certo que a Região não pode prescindir do governo, seja ele de que cor partidária for. Bem ou mal, com aplausos ou com críticas, alguém tem de estar ao leme dos vários sectores de actividade, muito mais em um momento preocupação constante. Tenhamos presente, entre outros, o caso de Boris Johnson.
Diz o DIÁRIO que terão sido negativos e eu digo, ainda bem. Se assim não fosse, a pergunta lógica seria esta: apenas através de um, quantos já teriam sido infectados? Outra coisa é a história do número de testes, segundo alguns, ser muito reduzido. Aí não teço uma única palavra, porque não conheço a estratégia nem percebo de pandemias.
Ilustração: Google Imagens.

Gestos de amor sentido


Diariamente dou(amos) conta da solidariedade dos portugueses do Minho ao Corvo. Algumas peças jornalísticas, creiam, emocionam-me. Gente voluntária, jovens e menos jovens, que se entregam para minimizar os contratempos desta quase clausura forçada. Emociona-me a preocupação em preparar refeições para tantos milhares em confinamento obrigatório ou porque a idade e a saúde diminuíram a capacidade de resposta à vida. Apesar dos constrangimentos, há sempre quem esteja atento ao outro. Em outras circunstâncias, muitas vezes olho em redor e parece-me que cada um está para o seu lado, vivendo a sua vida envolvida em problemas mil, entrando e saindo dos edifícios de forma fria, como se fossemos apenas matéria. Mas ao menor sinal de convulsão, de instabilidade, esse povo que parece distante e individualista, emerge, abre-se e multiplica-se em gestos que explicam os verdadeiros sentimentos, os mais genuínos, que nos caracterizam enquanto povo quase milenar.

Dir-me-ão que há excepções. Muitas, infelizmente. Sobretudo os que se aproveitam das fragilidades. Os que olham para a desgraça e descobrem uma oportunidade de negócio. Obviamente que sim. Mas Mariza canta em "A Chuva":

"(...) Há gente que fica na história
Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir (...)


Interessa-me os que ficam na história, pois consola-me, dentro da turbulência, ver quem se levanta e parte ao encontro do outro em um quadro de responsabilidade recíproca. São de uma nobreza incalculável esses gestos. Mesmo em situações de razoável normalidade, quantos andam espalhados por instituições que promovem a ajuda ao semelhante fragilizado por carências várias, sem-abrigo ou com uma saúde debilitada? Centenas ou mesmo milhares. Somos, de facto, um povo fantástico. Sobretudo aquele povo que tem uma exacta medida do dinheiro, que sabe que não é por muito ter que se alcandora a um ser de reconhecido mérito, que sabe que a vida é efémera e que só tem um estômago! 
Vejo tantos de medalha ao peito ou na fila para obtê-la e trago em memória Rui Veloso:

"(...) Quem és tu, de onde vens?
Conta-nos lá os teus feitos
Que eu nunca vi pátria assim
Pequena e com tantos peitos (...)"

E vejo tantos, anónimos, correndo a maratona da solidariedade, dando a camisa se preciso for e oferecendo gestos de um inesgotável amor em estado puro. Raramente o País se lembra deles, mas esses ficam "na história da gente". Excluindo os portugueses de eleição, os outros são, em uma grande parte, apenas os outros, as peças de uma máquina de gigantescos interesses. São tantos os que, um dia, cumpriram o refrão da "Valsinha das Medalhas": (...) Encosta o teu peito ao meu, sente a comoção e chora (...)", e mais tarde viemos a saber quem de facto eram: corruptos e trafulhas. Em contraponto, há tanta gente boa que parte e reparte!

Aproximam-se tempos muito complexos. Estou certo que vamos somar pobreza à pobreza existente. Se hoje, na Região, dizem os indicadores estatísticos, que ela atinge cerca de 81.000 pessoas, fácil será adivinhar que este número subirá na sequência do desemprego, dos compromissos assumidos e que deixarão de ser pagos, da habitação que será abandonada, das crianças que passarão dificuldades e dos menos jovens que vão voltar a sofrer as consequências, agora, desta maldita epidemia. Em crer estou que nos próximos quatro a cinco anos, não será possível a retoma de uma dita normalidade.  

Tempos duros para quem mergulhou no pântano do desemprego, vive de pensões baixíssimas ou de salários muito àquem das necessidades mínimas. Tempos difíceis para muitos empresários que sentem o peso dos impostos e a responsabilidade de cumprir obrigações diversas, face às receitas que, naturalmente, não serão as melhores. Isto para dizer que os gestos de solidariedade são sempre bem-vindos, sobretudo porque a fome não pode esperar e a esperança morrer. Porém, não chega. Exige-se uma  presença activa das instituições públicas, através de um princípio tão simples quanto este: o da prioridade estrutural. Em um quadro europeu que se desmorona e com as finanças do país e da região  no vermelho, não faz qualquer sentido destinar milhões para obras que não são prioritárias, engrossar as estruturas de governo com mais colaboradores e assessores, enfim, não faz sentido cumprir "promessas" eleitorais em tempo de vacas magríssimas. Haja bom senso, equilíbrio na decisão política e respeito pelos mais frágeis da sociedade. Todos os cêntimos têm, hoje, um valor acrescido, para promover o emprego sustentável e a felicidade roubada por um invisível.
Ilustração: Google Imagens.