Por
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sexta-feira, 26 de maio de 2023
Bilderberg: A Câmara Corporativa global
Por
Hugo Dionísio,
Olhar para estas contradições é penoso, revoltante e tortuoso. O olhar deixa-nos revoltados, primeiro, para depois vir a amargura, a frustração, a depressão e, por fim, a indiferença causada pela sensação de impotência. Esta sensação de impotência também pode, no ignorante – sem culpa assim tornado -, ser transformada em ódio, regra geral, contra os menos culpados, contra os elos mais fracos de uma realidade que oprime de forma directa, mas também subliminar… Uma opressão que tantas vezes deixa escondida a sua origem real, a sua natureza e a sua causa. As consequências esmagam-nos com a sua realidade concreta, mas são as causas que oprimem.
É assim que sinto o que se passou em Lisboa, por estes dias, com a realização da 69ª sessão do Bilderberg. Antes totalmente secreto, não foi sem ameaça e vítimas que se tornou visível. Mas, uma vez mais, “visível”, não significa “reconhecível” ou “identificável” em relação ao que realmente é. Uma vez mais, o Bilderberg é uma das causas da contradição que nos esmaga.
O Bilderberg, assim chamado porque nasceu no Hotel Bilderberg nos Países Baixos, por iniciativa das pessoas mais ricas e influentes do mundo. À data, desse mundo constavam gente importante como a coroa britânica, neerlandesa, gente do clube de Roma e muitos outros, tratando-se de um clube restrito que constitui, na prática, a Câmara Corporativa do Império anglo-saxónico, conjugando os mais importantes interesses políticos dos partidos da governação (ministros presentes e futuros), os mais relevantes interesses económicos, comunicação social e defesa. A Indústria, hoje, ocupa um lugar pouco importante, tendo sido trocada pelas tecnológicas da internet.
Para se ter uma ideia do “peso” real destas coisas da “democracia”, de Mário Soares para cá, apenas Passos Coelho não foi pré-aprovado pelo Bilderberg! Nada que não se tenha resolvido com uma presença após a eleição. Mas este facto marca tanto que, Passos não tem poiso nas mais importantes estruturas do poder ocidental. Para além dos Primeiros-ministros, já lá foram receber a bênção imperial e a cassette ideológica muitas outras figuras, de Medina a Rio, passando por Portas e muitos outros possíveis governadores. Apenas contam os dispostos a prosseguir o reinado neoliberal. Ninguém mais. Os identitários, que também os cá temos, disfarçados de “esquerda radical” fazendo o trabalho do Império, ficam na Open Society de George Soros. A Iniciativa Liberal está hoje representada também, através dos CEO’s do costume.
Passar pelo Bilderberg significa a iniciação nas coisas dos Deuses, significa sair da maralha que constitui o comum dos mortais, o acesso aos segredos divinos. E não se pense que é porta aberta a qualquer um que o consiga. Implica passar por determinados locais, principalmente durante a fase de estudo, pois são esses locais que garantem a formação (ou formatação) de ouro, platina ou diamante. Não acreditem quando vos disserem que um determinado “jovem” levantou (raise) milhões em investimento para uma start-up. Esse “jovem” teve de passar por determinados locais, ou não lhe colocam o dinheiro nas mãos. Desculpem revelar-vos que as portas do Olimpo não são igualitárias!
Para se ter uma ideia da importância destas coisas, este ano discute-se a Ucrânia, claro, a desdolarização, como não poderia deixar de ser, a “liderança” dos EUA no Mundo (não lhes chega o Ocidente), inteligência artificial para nos invadir as mentes, a China, India e Rússia, como factores dissonantes…
Se há guerra mundial; se o regime neonazi do comediante louco continua a receber armas, mercenários africanos e árabes a quem prometem dinheiro e cidadania europeia; se o regime que ocupa a Ucrânia continua a receber biliões dos nossos impostos; se o tik-tok é proibido - e com ele o acesso da China às coisas das mentes, do conhecimento e do dinheiro; se os nossos dados pessoais continuam ao dispor da CIA e FBI; se a soberania dos Estados-membros da EU se continua a degradar; se a EU continua a comportar-se como uma região administrativa do estado de Washington DC; se a inteligência artificial é colocada ao serviço da Humanidade ou dos interesses económicos… Entre outras decisões importantes, é ali que encontram a resposta que lhe trilha o caminho subsequente, mais tarde constatável nos “actos” de Úrsula, nas prioridades de Costa, nos ataques de Montenegro, nas efabulações da IL, na propaganda de Portas ou nos achaques de Costa. Nada sai fora da caixa, nem um milímetro...
O site noticioso http://www.epoch.com divulgou a lista de presentes. Entre as gentes da NATO, Comissão Europeia, Casa Branca e muitos ministros, é só escolherem entre banqueiros, CEO’s de tecnológicas, barões da comunicação social e jornalistas (os futuros directores de redacção é aqui que recebem a confirmação de um estrelato programado e recebem a medalha da ordem da propaganda do império), dissidentes russos, chineses e turcos, grandes firmas de advogados, todos, todos, mas mesmos todos, apenas do Ocidente. De Portugal a lista é a seguinte:
• Pinto Balsemão (o pólo de contacto para o país)
• Durão Barroso (não há maior servidor que este!!!)
• José Luis Arnaut
• Duarte Moreira da “Zero Partners” (consultoria financeira)
• Nuno Sebastião da Feedzai (start-up’s tecnológicas, unicórnios e outras formas de exploração)
• Miguel Stilwell de Andrade da EDP
• Filipe Silva da Galp
O quê? Acham que se chega a “CEO” de uma coisas destas, a “partner” de uma coisa daquelas, a ministeriável de um país da NATO, sem a devida bênção de quem realmente detém o poder de criar e destruir, com sanções, embargos, guerras e bloqueios tudo o que vive, nasce, cresce e morre? Acordem, que o processo é muito “democrático”. É esta a “eleição” que realmente conta! Quem ganhar esta “eleição”, passa a poder ganhar as outras todas!
Como? Sim… É esta verdadeira “eleição original”, uma primária a sério, que conta. Ganhando esta, um servidor fica capacitado para receber os milionários apoios financeiros, humanos e logísticos que compram tempo de antena nas TV’s, horas de comentário em hora nobre, convites para conferências e seminários televisionados, avenças em programas de encher chouriços e boa imprensa… Todo um exército a louvar as suas qualidades enquanto “eleito”. Esta “eleição”, a par de outras, como a da ida a Davos, funciona como um sinal apenas reconhecível pelos da mesma espécie. Todos os membros da matilha recebem o sinal, reconhecem-no e sabem como se comportar face ao mesmo. A partir daí, nasce um novo génio da lâmpada que nos passa a ofuscar a vida. Em vez de concretizar desejos, impede-os de se concretizarem. E o facto é que, a cada eleição, o povão afaga a lâmpada e sai sempre a mesma magia: o fim dos seus desejos e a constatação da terrível realidade.
Eis o que significa a “democracia” liberal. Lamento desiludir-vos… Mas, se pensavam que aquelas directivas comunitárias que se discutem no Parlamento Europeu, aquelas iniciativas da Comissão Europeia de que Úrsula tanto se orgulha e tantas agendas para isto e para aquilo que são aplicadas, as “recomendações” do semestre europeu, vinham mesmo do povo, como numa democracia, ou dos representantes do povo, como numa democracia representativa…. Lamento desiludir-vos, uma vez mais. Perante vós apenas tendes servidores e todos os “valores” europeus, não passam de buracos negros vazios de vida que nos sugam para a morte e a desgraça. A governação não passa de um processo de aplicação de regras estandardizadas que têm de ser seguidas, sob pena de punição severa.
Para terem uma ideia da forma como esta gente olha para o mundo e para os seres humanos que têm o “azar” de não pertencerem a esta meia dúzia de brancos iluminados, aqui ficam dois exemplos:
• Na Inglaterra os migrantes passaram a ser monitorizados 24/7 com pulseiras electrónicas como um qualquer cão que leva o chip. A gravidade assume proporções olímpicas quando o Primeiro-Ministro deste país, de ascendência indiana, permite a privatização das políticas de migração, o que levou cinco empresas do sector a afirmarem esta bela coisa: Multimilionário não é sinónimo de “livre”, muito pelo contrário;
• Na Florida (EUA) os cidadãos chineses foram proibidos, por lei, de comprarem propriedade (imobiliária, participações sociais em empresas, por exemplo), apenas e só por serem chineses. Isto acontece num estado governado por um descendente de migrantes Italianos. Se és chinês, levas com um carimbo da foice e martelo e… A ver vamos onde chega. Se não chegará onde tantas vezes já se chegou na história humana.
Isto são apenas dois exemplos do nível de traição de que esta gente é capaz. Depois falam do “crédito social” experimental na China. Mas poderíamos ir mais longe, nomeadamente a tudo o que é feito que nos trama as vidas (privatizações, PPP’s, perdões e isenções fiscais, concessões de exploração, reformas laborais, reformas dos serviços públicos, etc…), tudo sob a bandeira da “democracia” e “liberdade”, para acabarmos, todos os dias, mais prisioneiros da indigência.
Todos os dias acordamos um pouco mais pobres, todos os dias, pelo menos de há 20 anos a esta parte! Podem agradecê-lo também ao Bilderberg e aos vossos milionários preferidos! Tudo é negociado na Câmara Corporativa Global.
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Estou farto e cansado
Por
Eduardo Marçal Grilo
25 de Maio de 2023
Nota
Esta manhã predispus-me escrever sobre a comunicação social e a política. Escrever que estou cansado de um ambiente verdadeiramente constrangedor. Antes passei os olhos pela imprensa diária e eis que dei com um artigo do Professor Eduardo Marçal Grilo, publicado na edição do PÚBLICO. Concluí que não valia a pena repetir o meu pensamento, porque ali estava e está tudo o que me apetecia desabafar. Convido-vos a lerem.
Sim, estou farto de quase tudo o que ouço e vejo à minha volta.
Mas também estou cansado de ouvir e ler sempre os mesmos a dizerem as mesmas coisas, como se conhecessem as soluções para todos os problemas, mas que nunca nos apresentaram uma única ideia ou proposta para a solução dos problemas com que o país se confronta.
Sim, estou farto de ver os políticos a criar conflitos inúteis, como estou farto de ver as televisões a massacrar os telespectadores com programas de futebol intermináveis e em que para entreter se criam conflitos sobre penalties, expulsões e foras-de-jogo.
Estou cansado de ler as notícias da corrupção que corrói a democracia e alimenta os populismos.
Estou cansado de ver os moderados sem voz e sem presença nos media.
Estou cansado e triste por ver pessoas “queimadas” na praça pública com notícias falsas ou com acusações infundadas.
Estou farto de ver títulos de jornais que não correspondem à notícia a que se referem.
Estou farto de conferências, colóquios e seminários em que os que falam e os que ouvem são sempre os mesmos.
Estou farto dos debates em que nós todos já sabemos o que cada um vai dizer.
Estou cansado e triste quando vejo os militantes dos partidos abdicarem de dizer o que pensam.
Estou farto de ver gente em lugares de responsabilidade comportarem-se como membros de uma associação de estudantes do ensino secundário.
Estou cansado e triste por ver deitados para o lixo trabalhos que foram feitos por organizações credíveis que só querem contribuir para melhores soluções para os problemas do país.
Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.
Como também estou cansado dos excessos em torno da cultura de género.
Estou farto da arrogância de alguns que nos querem impor as agendas das minorias.
Estou cansado das notícias que justificam que os processos judiciais se tornem intermináveis.
Estou farto dos que lucram com todo este emaranhado jurídico dos processos lançados pelo Ministério Público.
Estou também indignado com os processos lançados contra pessoas que, quando julgadas, se provou nada terem feito de mal.
Estou farto de ver incompetentes a exercer cargos para os quais não têm qualquer qualificação.
Estou cansado e farto de ver nas televisões o rigor substituído pelo espetáculo.
Estou farto de ver muita gente mais interessada em estar do lado do problema do que do lado das soluções.
E também estou cansado de ver que em certos casos são eles mesmos o problema.
Como também estou cansado dos que gostam mais de destruir do que construir.
Estou cansado de ver tanta inveja e tanta vontade de deitar abaixo os que fazem qualquer coisa que se veja.
Confesso igualmente que estou cansado das notícias sensacionais que duram menos de 24 horas, porque foram forjadas com objetivos inconfessáveis.
Estou cansado de não ver enaltecido o que de muito bom se faz em Portugal, seja nas empresas, nas universidades, nas escolas ou nos hospitais.
Como estou farto de ver aqueles que, como portugueses, gostam de se autoflagelar.
Estou cansado de ver televisão e até de ler jornais.
Sim, estou cansado de viver num país que adoro, mas que me traz grandes frustrações quase todos os dias.
Tanta frustração deve talvez ser da idade e da falta de paciência que tenho para aturar tantos disparates.
Nota final: estou triste, cansado e farto de muitas coisas, mas não sou um desistente.
Estarei sempre disponível para lutar contra os populismos e contra os inimigos da democracia, procurando que não nos toquem na liberdade e que, sem complexos ideológicos, se encontrem, com moderação, equilíbrio e bom senso, as soluções para os problemas que enfrentamos.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
segunda-feira, 22 de maio de 2023
DE UM EX-PRESIDENTE E ACTUAL CONSELHEIRO DE ESTADO ESPERA(VA)-SE MELHOR
Regressei à base e estou a tentar acompanhar os acontecimentos. Alguns pouco me interessam porque são histórias repetidas até à exaustão; outros, merecem uma reflexão mais séria, quando os protagonistas são figuras de Estado. Neste quadro de preocupações, detive-me na recente intervenção partidária do ex-Presidente da República Doutor Cavaco Silva. Afinal, nada de novo saiu daquela boca. De um Conselheiro de Estado e que pelo exercício da política esteve mais de trinta anos, ressaltou, uma vez mais, um discurso desadequado e de certa forma odiento, aliás, na linha que constitui a sua marca. Respeito quem assim não o caracterize, mas para uma figura de Estado, pelo menos esta é a minha opinião, espera(va)-se visão, sensatez e distanciamento, sem perda de acutilância com palavras e expressões ponderadas. Não foi isso que li. O ex-Presidente foi de gosto amargo! Lamentável.
Entre vários documentos publicados, li um texto no site Estátua de Sal (Cavaco Silva - uma assombração) que aqui deixo para reflexão. E deixo-o simplesmente porque o ex-Presidente não é aquilo que alguns tentam vender. Ele está, no plano político, ao nível de outros que por aí andam a infernizar a vida de todos nós. De um político que foi o mais alto Magistrado da Nação espera(va)-se melhor. Mas é o que temos.
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"Ontem, para fazer esquecer a melhoria da perspetiva da notação da dívida soberana pela agência americana Moody’s, surgida na véspera, apareceu a liderar a oposição de direita o rancoroso Professor Aníbal.
Substituiu Marcelo, convicto de que, à semelhança das águas residuais, que podem ser recicladas, os ativos tóxicos podem ser branqueados.
Aníbal Cavaco Silva, catedrático de Literatura pela Universidade de Goa, Grande Colar da Ordem da Liberdade por desvario de Marcelo, não se livrará do passado onde teve a sorte de as intrigas de Marcelo e as assinaturas falsas o fazerem, na Figueira da Foz, presidente do PSD contra o democrata João Salgueiro.
Marcelo, Júdice e Santana Lopes fizeram-no PM; Marcelo, Durão Barroso e Ricardo Salgado, ingratamente abandonado, prepararam na vivenda do último a sua candidatura vitoriosa a PR.
Mas não se julgue que o político videirinho foi apenas um salazarista beneficiado com a democracia, a que pretendeu abolir, conluiado com Passos Coelho, os feriados identitários do País, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro.
Com o reiterado absentismo na Universidade Nova, para dar aulas na Católica, obrigou o reitor, Alfredo de Sousa, que o fizera catedrático, a levantar-lhe o processo disciplinar que o despediria por faltas injustificadas. Teve a sorte de ter como ministro da Educação João de Deus Pinheiro que lhe relevou as faltas e receberia em recompensa o Min. dos Negócios Estrangeiros.
O ressentido salazarista não foi apenas venal na docência, “mísero professor” no léxico cavaquista, foi igualmente no negócio das ações da SLN, para ele e filha, e no suspeito negócio da Vivenda Gaivota Azul, na Praia da Coelha.
Apesar de exigir que se nasça duas vezes para alguém ser tão sério como ele, há boas razões para pensar que sobra uma. Os seus negócios foram tão nebulosos como as razões do preenchimento da ficha na Pide, com erros de ortografia.
Ontem, o Professor Aníbal veio bolçar o ódio que o devora, depois de ter sido obrigado a dar posse ao primeiro Governo de António Costa, de ter então esbracejado e denunciado à União Europeia o perigo de um PM apoiado pelo PCP e BE. Exigiu que António Costa pedisse a demissão, apareceu nas televisões, rádios e cassetes piratas, e regressou aos sais de fruto enquanto a oposição de direita continuará a ser liderada por Marcelo.
O homem é assim, o salazarista inculto e primário que o marcelista culto, empático e igualmente perverso está a substituir com mais êxito."
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Como complemento, disponibilizo um texto do Engenheiro e Professor Universitário Carlos Paz, publicado em 2014, a que deu o título de "Uma Carta ao Presidente da República". AQUI
segunda-feira, 15 de maio de 2023
Em movimento para as Europeias 2024
Por
João Abel de Freitas,
Economista
Um entendimento para a tomada de poder com repartição de benesses por todos move a união das direitas portuguesas. É a sua mira.
As grandes corporações partidárias em Bruxelas já estão em aquecimento, visando a preparação das Europeias 2024, cujos resultados serão um instrumento privilegiado no “assalto” às instituições da União Europeia.
As estratégias ao longo do tempo que nos separa das eleições, cerca de um ano, vão sendo ajustadas e dinamizadas segundo os dados do momento. Quem arrancou pela calada com alguma sobriedade foi o PPE, a maior coligação no Parlamento Europeu (PE), onde se encaixam os deputados portugueses eleitos no PE, do PSD e do defunto CDS. Mas, no xadrez político global, subsistem incertezas porque, em Espanha e Polónia, dois países importantes, há eleições em finais de 2023.
Incertezas também decorrem das candidaturas aos cargos de topo da União Europeia – Conselho Europeu, Comissão, Presidência do PE e Alto Representante das Relações Externas – e, ainda, se Ursula von der Leyen reúne apoios para se candidatar ou não a um segundo mandato. O Banco Central Europeu não está em causa, agora, porque o mandato é de oito anos.
Muitas incertezas!
A máquina do PPE arrancou sem grande ruído e já fez obra em articulação com a extrema-direita. O grande objectivo parece ser cortar as amarras mais ou menos informais de algum equilíbrio na distribuição de poder com socialistas e democratas nas estruturas da União.
Manfred Weber, Presidente do PPE, reuniu a 5 de Janeiro último, em Itália, com Georgia Meloni, presidente dos Fratelli d’Italia, partido da extrema-direita no poder e, segundo a comunicação social europeia, estão a procurar estabelecer pontes de cooperação no futuro pós-eleições. Aliás, o pedido de namoro do PPE a Meloni é apelativo, porque Itália é não só o terceiro país mais importante e fundador da UE, como uma colaboração concertada faz pender o poder em favor das direitas.
A extrema-direita também não vai perder a oportunidade na conquista de terreno por uma posição mais folgada, por país e no seio da UE. A primeira aproximação concretadeu-se com o aproveitamento do escândalo do “Qatargate”, que levou à prisão de uma vice-presidente grega do PE, socialista, destituída do cargo.
Nas eleições para a sua substituição, muitos deputados europeus do PPE votaram numa candidatura da extrema-direita em sinal de simpatia pela estratégia em negociação. Nos países europeus, está em marcha uma aproximação entre as duas forças e vários acordos (direita/extrema-direita) têm sido celebrados no sentido de segurar ou levar ao poder governos de direita ou de extrema-direita, como na Itália, uma forma de ir asfixiando a democracia.
A extrema-direita nos países da UE
A situação actual apresenta o seguinte figurino. Países governados pela extrema-direita: Itália (Fratelli d’Italia), Polónia (PiS), Hungria (Orban), sendo a Itália um dos fundadores da União; Países com participação da extrema-direita nos governos (Eslováquia, Letónia e Finlândia ainda em acerto de pormenores); Países com governos de direita apoiados no Parlamento nacional pela extrema-direita: Suécia.
A extrema-direita tem vindo a subir nos países da Europa, pelo menos desde 2015, com a crise dos refugiados, aproveitando o ambiente de grande instabilidade económica e social, um terreno ideal para o seu florescimento e, infelizmente, sem resposta consequente das forças democráticas no bloqueio a esta situação.
A pandemia, a inflação, a guerra da Ucrânia, trouxeram dificuldades acrescidas, mas foi essencialmente a falha de soluções para os problemas concretos dos povos que influenciou a implantação das forças de extrema-direita no terreno.
Em alguns países, como em França, a situação é crítica, com Marine Le Pen (terceira força política actual) à frente nas sondagens, com margens esmagadoras, e a esquerda em desagregação.
As pontes em negociação
A nível do PPE, a grande questão é o estabelecimento das pontes com a extrema-direita. A economia é um tema adquirido. A imigração tende a ser outro. A limitação de liberdades em certos domínios também, embora mais complexa.
Tendo em conta a campanha da extrema-direita italiana nas eleições, com o lema “Deus, Pátria e Família” e temas dominantes como as políticas anti-imigração, a diluição da separação de poderes entre os órgãos de soberania, a restrição de direitos de certas comunidades e minorias como a comunidade LGBTQ+ e as medidas recentes que, no governo italiano, estão a ser tomadas no domínio do Estado Social, a flexibilização dos contratos (aumento da precariedade do emprego), o corte de prestações sociais, facilmente se identificam os contornos dos temas que a extrema-direita oferece para as negociações com a direita tradicional.
A situação portuguesa neste contexto
Muitas têm sido as “declarações de afastamento” entre o PSD e a extrema-direita, recentemente proferidas por Luís Montenegro, que até já inventou umas linhas vermelhas para corresponder a Marcelo Rebelo de Sousa. Torna-se pouco crível que, vindo a tornar-se dominante esta linha de tendência na União Europeia, de tudo fazer para um entendimento com a extrema-direita, direita radical,
direita nacionalista, os partidos portugueses do PPE se afastem dela, tanto mais que, sem entendimentos entre si, a direita portuguesa tradicional dificilmente chegará ao poder, apesar da crise política latente em que o País se encontra mergulhado.
Aliás, o governo PSD nos Açores é bem a marca de que, quando cheira a poder, abatem- se as linhas vermelhas. O governo açoriano é um excelente ícone do entendimento entre as direitas portuguesas e até onde desejam ir.
Poderá dizer-se que o namoro agora é só com a Iniciativa Liberal IL). Até houve um almoço muito apresentado às televisões para mostrar, pelos sorrisos, que estão em franca harmonia para formar governo. Foi um almoço para mostrar a Marcelo que estão a trabalhar. Mas a IL, um tanto quanto abalada pelos abandonos, diferencia-se do Chega sobretudo na área dos costumes, mas bem mais radical quanto ao papel do Estado. Saúde e educação privatizadas, impostos iguais para todos. Estado Mínimo
numa palavra.
E se o lençol for curto? O Chega, que está na reserva (encoberto), será chamado à equipa principal? Sem dúvida. Um entendimento para a tomada de poder com repartição de benesses por todos move a união das direitas portuguesas. É a sua mira. Na crise política existente, Montenegro só não solicitou a dissolução da Assembleia da República porque sente que o PSD perderia de novo as eleições. O PR não dissolveu pelas mesmas razões. E entra numa estratégia de desgaste, o que não é difícil face à péssima gestão que este governo vem a fazer do seu mandato. Os dois protagonistas saíram-se mal, apesar da atitude positiva de rebeldia inesperada de Costa, que pôs a claro a tibieza e as frustrações de Marcelo, que andava abusivamente a pisar o campo dos poderes do Governo. O problema de António Costa é que a sua rebeldia não se apresenta escudada num programa convincente e com equipa capaz para a mudança de gestão que o País precisa. E ninguém me diz que esta falha de perspectivas não vá resultar, a prazo, numa dinâmica de esgotamento dos partidos tradicionais de todas as matrizes, como aliás vem
se estendendo na Europa. Uma nova composição partidária a termo com algum pântano de permeio.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.
quarta-feira, 3 de maio de 2023
A mosca
Há quem entenda que o exercício da política tem de assumir os contornos da maledicência, da ofensa gratuita e do rebaixamento dos adversários. Não entendo assim. Quem por esses caminhos envereda demonstra alguma soberba, alguns tons antidemocráticos e, sobretudo, uma clara falta de respeito pelos outros.
Esta semana escutei um desses momentos. O líder da bancada parlamentar do CDS, olhando para um deputado da oposição perguntou-lhe sobre a sua formação (académica, naturalmente) e, na ausência de resposta, terminou dizendo que talvez não tivesse sequer o 12º ano. Quando escutei tamanha deselegância, lembrei-me do poeta popular António Aleixo, falecido no ano que eu nasci:
(...)
Uma mosca sem valor
poisa c’o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.
Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.
(...)
Que grande António Aleixo, Homem "simples, humilde e semi-analfabeto", em discurso directo a todos quantos rebaixam os outros movidos pelos interesses pessoais ou de circunstancial grupo. Ora, na Assembleia estão os representantes do Povo, eleitos em sufrágio universal. A presença dos que lá estão não pode ser colocada em causa. Essa leitura pertence ao Povo e é, constitucionalmente, realizada de quatro em quatro anos. Portanto, o debate nunca pode ser sobre eventuais percursos académicos, mas sobre os conteúdos das propostas ali debatidas. Há deputados com uma auréola de doutor que pouco ou nada adiantam, enquanto outros, sem esse percurso, demonstram estudo, conhecimento e invulgar capacidade de argumentação. No próprio partido do deputado em questão.
Ilustração: Google Imagens.
terça-feira, 2 de maio de 2023
Chanceler Scholz, chefe de governo desentendido
Por
01 Maio 2023
Cada Estado-membro da UE é livre e soberano de escolher as fontes de energia e a exploração dos recursos como bem entende. Não deve, contudo, tentar manipular, como tem acontecido, para excluir o nuclear do Plano Europeu.
Em 15 de Abril de 2023, a Alemanha desligou da rede as três últimas centrais nucleares. Esta operação, prevista inicialmente para 31 de Dezembro do ano anterior, foi adiada, na sequência da guerra da Ucrânia, com receio do inverno, mas não se deu de forma concertada no seio do Governo, por oposição dos liberais cujo fecho consideraram um erro estratégico. Scholz caiu para o lado dos verdes com maior peso político no governo e que, desde há muito, se batiam por este desfecho.
Os activistas anti-nuclear saudaram o acontecimento, embora sem alardear grandes entusiasmos.
As reacções contrárias foram bem mais expressivas e diversificadas:
Uma carta aberta ao chanceler Scholz, subscrita por físicos, climatologistas e economistas especializados na matéria, incluindo dois prémios Nobel, onde se lia: “solicitamos que as centrais nucleares ainda existentes sejam usadas para alívio da crise energética e contributo das metas climáticas da Alemanha”. Assinale-se que, com a guerra da Ucrânia, devido à escassez de gás natural russo, a Alemanha accionou 26 centrais a carvão para prover necessidades energéticas, com impacto negativo devido ao acréscimo de gás com efeito de estufa (GEE) lançado na atmosfera, sendo a Alemanha, hoje, o país europeu mais poluidor;
O ministro-presidente do estado da Baviera, Markus Soder, mostrou a sua profunda indignação, afirmando que esta decisão de Scholz constituiu um perigo real para a Alemanha, porque perde, a longo prazo, a segurança de aprovisionamento de energia, sem qualquer fundamento científico e contraria a vontade do povo alemão, apenas por uma razão “de pura ideologia ambientalista”;
O líder da oposição Frederich Merz (presidente da CDU) em várias entrevistas à comunicação social afirmou que a saída da energia nuclear faz parte de uma política energética enviesada, quase fanática. “São reservas ideológicas e o mito fundador dos verdes que triunfam sobre toda a razão”.
A fechar este panorama, é de referir uma sondagem específica que mostra uma maioria qualificada do povo alemão contra o fecho dos reactores nucleares. Apenas 26% dos alemães dizem concordar com o seu desligamento.
Fatih Birol e a energia nuclear
Fatih Birol é o director executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), um organismo autónomo ligado à OCDE, criado em 1974. Birol é um economista turco, especialista em energia e considerado, numa lista da Time de 2021, uma das 100 personalidades mundiais mais influentes na matéria.
Há menos de um mês, numa conferência em Paris na Science Po (5 de Abril 2023), Birol apelou aos países da União Europeia (EU) que se opõem ao nuclear a fazer “uma autocrítica séria das suas políticas energéticas” pois entende que, para além da envolvente externa (subentende-se a guerra na Ucrânia), a situação na Europa (atropelos profundos na política energética) se deve a “dois erros estratégicos maiores”, cometidos por alguns Países-Membros e pelas Instituições da União Europeia.
Para Birol, o erro de Bruxelas deve-se à desvalorização da energia nuclear, a que acrescento a sujeição das instituições da UE à posição da Alemanha que se nega a ter em conta os avanços da tecnologia nestes últimos tempos que certificam que a energia nuclear reúne as condições para participar na transição energética e no combate à crise climática e até, em certos domínios, com vantagens sobre as renováveis.
Quanto aos estados-membros, onde a Alemanha pontifica, diz que manteve “inúmeras discussões com o governo alemão e numerosas pessoas interessadas no tema que diziam que, mesmo durante a guerra-fria, a Rússia nunca cortou o gás”, mostrando os poderes públicos, desta forma, uma indiferença, uma posição naif nas questões de soberania energética e de segurança de aprovisionamento. Em seu entender, países houve, como a Alemanha, que puseram “os ovos todos no mesmo cesto a saber na Rússia”.
Cada Estado-membro, no quadro do Tratado de funcionamento da UE, é livre e soberano de escolher as fontes de energia e a exploração dos recursos como bem entende. Não deve, contudo, tentar manipular, como tem acontecido, para excluir o nuclear do Plano Europeu, impedindo o desenvolvimento de toda uma fileira industrial, tão determinante ao desenvolvimento, designadamente através do impedimento de financiamentos europeus e tentar que, por exemplo, não se integre o hidrogénio de origem nuclear na directiva sobre energias renováveis (RED III), no que contou com o apoio de Portugal, entre outros países.
Para a Agência Internacional de Energia, o cenário de neutralidade do carbono prevê que a capacidade da energia nuclear a instalar no mundo duplicará até 2050 e terá “um papel importante para o objectivo zero de emissão” de carbono. A AIE reconhece, assim, um papel importante à energia nuclear na descarbonização da sociedade, ao lado das energias renováveis.
O G7 e a energia nuclear
O G7 inclui a Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, os sete países, tidos como os mais industrializados do Planeta – um conceito algo discutível.
Reunido em Sapporo no norte do Japão, nos dias 15 e 16 de Abril último, o G7 analisou vários temas relativos à energia, não se comprometendo, por exemplo, com uma data para a eliminação gradual do carvão no sector da electricidade, apesar da grande pressão do Reino Unido, que apoiado pela França, avançou uma proposta para o ano de 2030, mas sem sucesso.
No campo da energia nuclear “formou-se”, quase diria, um G6, pois todos os países, com excepção da Alemanha, mostraram-se empenhados no desenvolvimento da energia nuclear, sendo o Japão, o país que mais tem defendido a mudança de política sobre a nuclear, uma vez que após Fukushima (2011) tinha decidido desligar paulatinamente os reactores. O Japão criou um programa de relançamento da nuclear, porque concluiu não conseguir fazer a transição energética sem o seu recurso.
Fatih Birol esteve presente nos debates deste G7.
De tudo quanto se disse, algumas ilações podem ser esboçadas.
A energia nuclear está a ganhar um papel de maior relevo na transição energética, embora, a nível da UE, esse reconhecimento esteja a enfrentar dificuldades acrescidas;
A União Europeia está cada vez mais dividida nesta matéria, tendo-se constituído o clube da nuclear que, neste momento, agrega 14 países;
A Alemanha continua na sua posição destrutiva e unilateral, a tentar boicotar a energia nuclear no “mix energético europeu”, agindo, desta forma, capturada por grupos económicos com grandes interesses nas energias renováveis que dominam e sabendo que, na nuclear, a sua tecnologia não é de primeiro nível.
Pensamos que este não é o caminho certo para uma política de energia sustentada na União Europeia. Pelo contrário, insistir nele pode levar a um cenário algo assustador para o Futuro da União Europeia.
Uma política energética concertada no seio da União, em que a energia nuclear faça parte da equação, em plano de igualdade com as renováveis, é futuro, independente das opções que cada país fizer.
terça-feira, 25 de abril de 2023
"QUE PAPELÃO ESTA GENTE FEZ!"
Não respeito quem assim se comporta. Receber o Chefe de Estado de um país amigo e irmão e insultá-lo constitui uma manifestação de total mau gosto. De total ausência de Educação Básica. Feio, muito feio, seja qual for o posicionamento político que um qualquer grupo partidário possa ter. Para mim, que defendo a Democracia, a tolerância, o respeito e a responsabilidade, não encontro palavras para caracterizar o que vi na Assembleia da República, precisamente no dia que se comemora a LIBERDADE. E aquilo não teve nada a ver com a liberdade, mas com libertinagem. Hoje, perante outros, alguns envergonharam Portugal. Um dia triste.
sexta-feira, 21 de abril de 2023
25 de Abril - O contentamento e a angústia
E já lá vão quase cinquenta anos relativamente à data que marcou o fim de outro quase meio século de uma ditadura que se impôs feroz de forma crescente. Abril trouxe-nos o perfume da liberdade, da democracia, do voto universal e livre; trouxe-nos o combate à chocante pobreza, a inversão da emigração forçada e desqualificada, a luta contra os silêncios impostos, a perseguição, a prisão, a tortura, a clandestinidade, a incultura, as gravíssimas limitações no acesso à escola; Abril trouxe-nos a laicidade, um não à estúpida guerra colonial com as consequentes mortes, estropiados e mais de uma centena de milhar de doentes pós-traumáticos; Abril acabou com os tons negros fascizantes do exercício da política, o "orgulhosamente sós", a escravização da mulher, o controlo total da sociedade, os senhores e os outros, a colonia, o servilismo e o chapéu na mão de tantos de coluna vergada até ao joelho!
Como cantou o José Mário Branco:"(...) Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar (...)"
E devagar e, inicialmente, de forma muito conturbada, o que foi natural, o país foi saindo daquela escuridão que Manuel Alegre sintetizou:
"(...) Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio - é tudo o que tem
quem vive na servidão. (...)"
Até que Sophia de Mello Breyner, em 1974, poetizou:
"Esta madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"
E dos escombros políticos, económicos, sociais e culturais fomos edificando um novo Portugal. E quem lá para trás lança um olhar, obviamente que só pode ter uma resposta: valeu a pena. Por isso, curvo-me perante os Homens e Mulheres que sacrificaram as suas vidas, que pagaram com a prisão, a tortura, a deportação e a morte o "atrevimento" de serem oposição a um regime déspota; curvo-me perante famílias inteiras que sofreram o drama de não poder ter nem dinheiro nem voz e curvo-me perante sucessivas gerações a quem lhes bloquearam os sonhos. São dignos do respeito de qualquer cidadão, mesmo daqueles que, não tendo vivido a castração da época, hoje olham em redor com alguma satisfação, mas sem a mínima noção desse tão próximo quanto longínquo passado.
Podíamos estar melhor. Sim, concordo. Em todos os sectores, áreas e domínios da vida. Mas nos três pilares, saúde, educação e segurança social, qualquer comparação com aquele tenebroso e tirano passado torna-se despida de sentido. Só quem viveu e sentiu as agruras, quem foi espezinhado e triturado pode ter uma leitura entre o antes e o depois. Porém, é verdade, continuamos com uma altíssima taxa de pobreza, continuamos assimétricos e muito dependentes, porque sobraram em políticos de circunstância o que nos faltou em estadistas; porque a gritaria e os escândalos políticos "institucionalizaram-se", porque se permitiu, trazendo à colação o eterno Zéca Afonso:
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (...)"
Hoje, o "chupar o sangue da manada", com outros contornos, é certo, é muito evidente. É a inversão das prioridades estruturais; a habitação que se tornou um pesadelo; o escandaloso, eu diria ignóbil assalto perpetrado pela banca; a provocação diária das grandes instituições que impõem o que querem e entendem em claro desprezo pela vida das pessoas; são os corporativismos, proteccionismos e jogos de favor de toda a espécie; é a repetida mentira dita de forma convincente; é a comunicação social que muitas vezes distorce, porque estão em causa a sobrevivência, as audiências ou porque seguem o pensamento do vértice estratégico; são os escândalos no interior da Igreja e a sua ausência de respeito pela Palavra; é a especulação à solta e o mundo económico-financeiro subterrâneo; são os magros salários e pensões que atiram muitos para a periferia social; é a constrangedora situação da Justiça e a falta dela em tempo aceitável; é a ausência de escrúpulos e de confiança na relação entre o Estado e os cidadãos; é a genérica falência de credibilidade e de notoriedade entre os eleitos; são estações de televisão vocacionadas para o zero, para a superficialidade e o embrutecimento; é a falta de senso na organização espacial do território, enfim, todos sabemos o que por aí anda. E à socapa estão a aparecer os vendilhões populistas, os autoritários, os falsos amigos do povo, os que têm, na manga, soluções para tudo, os tais que "com pés de veludo" gritam e tentam, também estes, a seu tempo, pacientemente, "comer tudo e nada deixar".
Atravessamos tempos difíceis, nos planos externo e interno. Faltam-nos referências e uma outra cultura política que influencie os cidadãos de uma forma positiva e persuasiva. Falta-nos representantes "limpos e inteiros". Falta-nos a Escola que está muito para além dos manuais. Faltam-nos professores que estimulem a pergunta e que eduquem muito para além das respostas exigidas nos testes. Falta-nos um desassossego diário perante as inquietações. Falta-nos pessoas que governem e não se fixem nos "casos do dia". Falta-nos princípios, valores, ética e cultura. Falta-nos pensamento estratégico e respeito pelos princípios do desenvolvimento. Falta-nos sentir o País para além do futebol. Falta-nos o desafio das mentalidades. Falta-nos conquistar a felicidade e não a falsa felicidade que nos vendem!
Que regressem, pois, as canções de Abril. Ou relembremos, para já, contextualizando-a nos tempos que correm, a "Tourada", de Ary dos Santos, cantada por Fernando Tordo (1973):
Afugentamos a fera
Estamos na praça
Da Primavera
Nós vamos pegar o mundo
Pelos cornos da desgraça
E fazermos da tristeza
Graça (...)"
Ilustração: Google Imagens.
segunda-feira, 17 de abril de 2023
O manguito
Por
Miguel Sousa Tavares,
in Expresso,
14/04/2023 - A Estátua de Sal
Um artista plástico resolveu fazer a milionésima réplica do manguito do Zé Povinho, de Rafael Bordalo Pinheiro, com dois metros de altura, e colocá-la em frente ao Palácio de Belém, como sinal do “descontentamento dos portugueses pelo desgoverno do país”. Antecipando a sua remoção pelos serviços camarários, Marcelo mandou recolher o manguito e colocá-lo nos jardins do palácio, onde ficará para exposição pública, contemplação presidencial ou ambos os fins. Fez mal. O mesmo Presidente que no início do seu mandato teve a lucidez de pôr a sua popularidade ao serviço do combate ao populismo, não pode agora descer à rua para trazer o populismo para dentro do palácio. Se também ele está descontente com o desgoverno do país, se está farto das brincadeiras dos boys socialistas e impaciente com a falta de alternativas eleitorais de curto prazo, tem outras maneiras mais sérias e adequadas de o expressar (e que, aliás, não se coíbe de usar abundantemente), sem necessidade de cair na demagogia do manguito. Até porque convém perceber de que falamos a tal propósito.
Rafael Bordalo Pinheiro deu berço ao seu Zé Povinho e respectivo manguito na revista “A Lanterna Mágica”, em 1875. É extraordinário, mas eloquente, que, passados quase 150 anos, o imaginário nacional ainda continue a ver na figura do Zé Povinho e no seu gesto de desafio ao poder e aos poderosos um símbolo de virtudes patrióticas e de subtil resistência contra os abusos. Contudo, o próprio Rafael Bordalo Pinheiro tinha caracterizado assim o Zé Povinho: “Resignado perante a corrupção e a injustiça, ajoelhado pela carga dos impostos e ignorante das grandes questões, o Zé Povinho olha para um lado e para o outro e fica como sempre... na mesma.” Ou seja, os 150 anos de glorificação não passam de um embuste: o Zé Povinho não é um herói, é um cobarde. O seu manguito não é feito na cara dos poderosos, mas nas suas costas, quando não o estão a ver; ele não se revolta, conforma-se; é mandrião e ocioso; ignorante mas presumido; invejoso e não lutador; acomodado, dissimulado, maledicente. Mas não admira que este embuste tenha perdurado até hoje e que o mito do Zé Povinho, herói do povo, se mantenha vivo: as redes sociais, as caixas de comentários dos jornais estão pejadas de Zé Povinhos com estas mesmíssimas características e cuja única diferença para o original é não estarem ajoelhados pela carga dos impostos pela simples razão de que, regra geral, não pagam impostos, vivem dos impostos que os outros pagam.
2 A seu tempo, no Governo PSD/CDS, fui contra a privatização da TAP, porque nunca acreditei que ela não poderia receber uma ajuda de 200 ou 300 milhões do Estado para resolver problemas de tesouraria e encerrar a ruinosa subsidiária de manutenção do Brasil, mantida pelas mesmas razões de delicadezas e subserviências diplomáticas pelas quais ainda hoje mantemos o ridículo Acordo Ortográfico. Mas posto que o Governo do PS e da extrema-esquerda resolveram ‘patrioticamente’ renacionalizar a TAP, e que, quando sobreveio a pandemia, dispensaram os accionistas privados de qualquer esforço de refinanciamento da companhia, até lhes pagando para se irem embora, aproveitando para ficarem donos daquilo tudo e conseguirem da tal Comissão Europeia, que antes não autorizara nem 200 milhões de financiamento público, uma injecção de €3,2 mil milhões, depois de terem confiado os destinos da TAP e do nosso dinheiro a essa jovem vedeta socialista que se gabava de ser capaz de pôr os credores da nossa dívida externa a tremer de medo, Pedro Nuno Santos — alguém que nunca tinha tido de viver de um salário ‘civil’ ou de pagar um salário —, e depois de ele, após nove meses de scouting, ter desencantado para CEO da TAP uma francesa que tinha como currículo a falência de uma companhia de aviação regional inglesa e que obviamente não só não falava uma palavra de português como falava e fala um inglês típico, talvez, da Guiana Francesa, a minha fé no futuro da TAP acabou de vez. Cheirou-me a desastre e o desastre é uma evidência: hoje, da bela companhia que outrora nos orgulhava, não resta nada. Já não dou mais para o peditório da companhia de bandeira, do hub de Lisboa (ou de Beja ou de Santarém?), para a ligação com os PALOP ou o abraço aos emigrantes. Qualquer outra companhia fará isso melhor e mais barato do que a TAP. E dos €3,2 mil milhões é claro que não veremos de volta nem um euro. O desastre é inominável, mas era previsível e foi anunciado. Tal como com a CP, a única coisa que a decência manda é saber como pôr fim a este pesadelo. Ter vergonha perante os utentes, pedir perdão de joelhos aos contribuintes.
A CPI à TAP, tal como também era mais do que previsível, não se vai ocupar de nada disto. PS, PSD e CDS, os actores principais desta pública vilania, estão e vão entreter-se com um lavar de roupa suja partidária que serve para pôr a nu toda a imensa mediocridade de toda aquela gentalha — governantes, gestores, advogados, intermediários e outros abutres desgarrados —, mas que em nada contribui para ajudar a resolver o essencial: como nos podemos livrar da TAP com um mínimo de dignidade, de danos controlados e de futuro garantido para os seus trabalhadores, a única mais-valia daquela empresa.
Os 150 anos de glorificação não passam de um embuste:
o Zé Povinho não é um herói, é um cobarde
A “verdade doa a quem doer”, de que fala António Costa, a verdade de toda esta suja realidade, não é novidade para ninguém. Mesmo a ‘escandalizada’ imprensa que faz de cada nova ‘revelação’ um inesgotável tema de notícia, de debate, de inflamados editoriais, há muito que sabe ou suspeita que é assim que as coisas acontecem nesse mundinho dos cursus honorum da política, onde os jovens saem das juventudes partidárias, frequentam aqueles cursos de Verão onde os seniores lhes vão pregar umas lições de como subir no partido servindo a pátria, e daí vão para assessores do grupo parlamentar e depois, em o partido chegando ao poder, é sempre a subir: vereador municipal, secretário de gabinete, adjunto de ministro, chefe de gabinete, secretário de Estado. E um dia, sem nunca, sequer, terem gerido a sua assembleia de condóminos, veem-se, deslumbrados, a dar ordens à CEO da TAP, a mandar adiar voos para agradar ao Presidente ou a arbitrar indemnizações de meio milhão com o dinheiro dos contribuintes, e à noite, antes de adormecerem, gabam-se à mulher dos seus feitos do dia e mandam um WhatsApp ao ministro: “Tudo tratado na TAP. Agora, vou-te mandar um draft do discurso contra o capitalismo predador.”
3 Isto somos nós. De um lado, temos o Zé Povinho, que habita nas redes sociais, suspira pelo Chega e alimenta o Chega. O Chega e o Zé Povinho são a face da mesma moeda, o pior que temos: o português da inveja em vez da competitividade, do bota-abaixo generalizado, do boato em vez dos factos, do insulto em lugar da discussão de ideias, da nostalgia por uma ditadura como forma de nivelar todos na mediocridade. Do outro lado, temos os filhos bastardos da democracia, o lúmpen partidário dos carreiristas que não conhecem outro modo de vida senão à sombra da protecção do Estado capturado pelo partido. E aí, louvam-se de pergaminhos que não têm e invocam uma legitimidade que não lhes pertence. Decerto que temos de ser governados por alguém e decerto que ainda não se inventou melhor fórmula de o ser do que por quem ganha eleições livres, organizando-se em partidos políticos que representam diferentes formas de pensar a sociedade e diferentes programas de Governo. Mas as eleições não esgotam tudo, elas são um meio mas não um fim em si mesmo. Não esgotam, nem as obrigações dos governantes nem as do Zé Povinho. Num país a sério os governantes, por mais mal tratados que se sintam, têm, acima de tudo, uma noção de serviço público, e o Zé Povinho, por mais injustiçado que se ache, não tem orgulho na sua ignorância nem se contenta em fazer manguitos nas costas daqueles que considera poderosos. A mim, que desde os 15 anos me considero um social-democrata, o que me custa não é chegar a pagar 48% de IRS dos meus rendimentos de trabalho. Países sociais-democratas, como a Dinamarca, chegam a cobrar 60%. Com duas grandes diferenças: cobram isso a milionários, não à classe média, e, em contrapartida, os serviços públicos são grátis e de excelência. Enquanto aqui, os professores do ensino público batem recordes de baixas e de dias de greve e estão todos ‘desmotivados’, excepto quando aparecem a manifestar-se felizes na televisão; os médicos do SNS bateram recordes de baixa durante a pandemia e depois e, assim que acabam de se formar à custa de dezenas de milhares de euros pagos pelos contribuintes, correm a servir no sector privado; os funcionários judiciais fazem greves de três meses paralisando os tribunais e os conselheiros do Tribunal Constitucional não conseguem sequer cooptar quem substitua os que terminaram o mandato; a querida ‘ferrovia’, exclusivo do transporte ferroviário, transformou-se num insulto sindical feito a centenas de milhares de utentes.
Mas mandamos tanques para a Ucrânia, enquanto nada mais funciona nas Forças Armadas, condecoramos bombeiros por apagarem fogos, enquanto os aviões e os helicópteros estão fora de serviço, e estamos embevecidos a seguir a novela da TAP para descobrir quem vai apunhalar quem amanhã e quem vamos levar ao cadafalso depois de amanhã, em lugar de procurar saber para que serviram os €3,2 mil milhões que lá pusemos e se ainda há alguma salvação para aquilo. Não admira: quanto é que você, Zé Povinho, deu para a TAP?
PS: Outra coisa que começa a cheirar a desastre anunciado é a escolha do local para o novo aeroporto de Lisboa pela tal Comissão Técnica Independente. A avaliar pelo entusiasmo com que a sua presidente acolhe todas as sugestões de locais e até as incentiva, mesmo que o tal futuro aeroporto de Lisboa fique a 90, 150 ou 200 km de Lisboa, isto, na hipótese benigna, vai acabar em anedota. E por isso, ainda dentro do prazo das sugestões e com legitimidade igual aos demais, venho por este meio sugerir para o futuro aeroporto de Lisboa a localização que me fica mais à mão: Moncarapacho. À consideração.
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia
sábado, 15 de abril de 2023
Para onde caminhamos
Basta uma carta anónima, um habilidoso desvirtuamento dos factos, uma publicação e, de um momento para o outro, um sujeito vê a sua notoriedade, credibilidade e reputação mergulhadas no lamaçal. Não me refiro a pessoas e situações em curso nos tribunais, arguidos que são e que terão de justificar a sua total ou parcial inocência. Compete ao órgão de soberania condenar ou absolver. Refiro-me a outras situações que me causam repulsa.
É o caso do Dr. Carlos Pereira, Deputado na Assembleia da República. Foi um mero "avalista" perante a Caixa Geral de Depósitos, de um empréstimo a uma empresa; a empresa não conseguiu cumprir as obrigações contratualizadas; mais tarde, o "avalista" foi chamado a suportar os encargos; seguiu-se uma naturalíssima negociação entre as partes; a dívida foi paga e a Caixa Geral de Depósitos, finalmente, veio dizer que foi ressarcida do empréstimo feito e que não existiu qualquer perdão de dívida ou favorecimento. A considerar tudo o que li, não recai qualquer mancha sobre o "avalista". Mas não, é de nula importância o nome dos empresários, nem me interessa conhecer, mas, publicamente, afundaram o político a coberto do anonimato.
Mas voltemos ao início. Ser "avalista" constitui uma situação absolutamente natural e normal. O próprio governo regional é avalista e existe legislação sobre esta matéria. Daí as perguntas: para onde caminhamos? Quem o fez e com que intenção o fez? A alegada "denúncia" terá partido da Madeira, em ano de legislativas regionais? Não sei!
Não apreciei a posição do Presidente do PS-Madeira, Dr. Sérgio Gonçalves, porque, não se inteirando, enquadrou a situação que, em síntese, apenas denuncia que o PS continua a apregoar uma solidariedade para fora que não tem correspondência no interior da sua instituição política. Lamentável.
Junta-se a isto, indirectamente, a reunião com a CEO da TAP. Que eu saiba (e já foi confirmado) e porque participei em várias comissões de inquérito, é normal acontecerem encontros com as entidades visadas, para que os Deputados se inteirem e cruzem a informação disponível, solicitando-a ou apenas para questionar e escutar. Um Deputado não pode nem deve guiar-se pela comunicação social. Trata de aprofundar o conhecimento sobre uma dada matéria. Há quem não o faça e prefira ir pelos "casos do dia" do que é publicado. Depois, em sede de Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) a história é outra. Munido de dados o Deputado é capaz de ir ao fundo das questões, porque está municiado de informações fundamentais. Por outro lado, a tal reunião ocorreu três meses antes da Comissão de Inquérito. Nessa altura nem havia aprovação da CPI. E segundo se sabe tratou-se de uma reunião normal para a qual o Dr. Carlos Pereira foi convocado e a CEO da TAP participou porque assim entendeu. O grupo parlamentar do PS não a convidou muito menos o Deputado. Não se tratou de um qualquer ensaio para a audição e ela própria assumiu isso. Foi uma reunião para partilha de informação.
Sou Amigo do Dr. Carlos Pereira desde o tempo que trabalhámos juntos. É um Homem íntegro, um político de mão cheia, sou capaz de dizer que não vejo ninguém na Região com mais capacidade e sustentabilidade nas políticas económica e financeira. Ele sabe do que fala, é profundo, não diz disparates, não anda ao sabor dos interesses políticos de circunstância, não se esconde por detrás da sebe, antes fala cara na cara, estuda os dossiês como ninguém e tem um discurso fluente. Foi ele, recordo, que quando o governo regional apontava para uma dívida de 1 000 milhões, depois, a muito custo, 2 000 milhões, ele assumiu que a realidade era outra: 6,3 mil milhões. Caiu o "Carmo e a Trindade" e foi preciso o ex-Ministro das Finanças, Dr. Vítor Gaspar (PSD), confirmar e dizer que "a situação da Madeira era insustentável". Na sequência disso, com dados, escreveu o livro "A Herança - saiba como o governo da Madeira escondeu a dívida", onde em 316 páginas justificou, com dados oficiais o seu pensamento. Ninguém o contestou.
Preocupa-me o Amigo e a sua família e sobretudo esta mórbida vontade de espezinhar quem tem valor. Por aqui e um pouco por todo o lado. Há uma ânsia em afastar pessoas e esquece-se que, tarde ou cedo, tudo isto poderá ficar entregue à mediocridade. Não vou por aí. Quero ser governado pela competência e pela transparência.
Ilustração: Google Imagens
sexta-feira, 14 de abril de 2023
ABU DHABI - PALÁCIO PRESIDENCIAL
UM PALÁCIO
ABSOLUTAMENTE FASCINANTE
"Qasr Al Watan é um dos mais importantes edifícios dos Emirados Árabes Unidos. Construído entre 2010 e 2017 para hospedar dignitários e líderes, o palácio presidencial possui mais de 1 milhão de metros quadrados de intrincados trabalhos em pedra, além de diversos elementos decorativos no estilo da era Mughal. “Qasr” significa “palácio” em árabe e “Al Watan” significa “a pátria” e, portanto, a tradução seria “Palácio da Pátria”.
Em 2020, o Palácio Presidencial Qasr Al Watan foi nomeado para o World Travel Awards como a principal atração turística cultural no Oriente Médio." https://viajonarios.com/qasr-al-watan/
Partilho-o convosco com os desejos de um excelente fim-de-semana.
Vídeo: Arquivo pessoal
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Páscoa... para que não se fique pelos ovinhos, amêndoas, cabritinho e coelhinhos
Tenho muita dificuldade em abordar o tema Páscoa, explico, porque os anos, centenas de anos já passaram e "desespero" por uma verdadeira "passagem" que venha ao encontro das minhas preocupações e controladas angústias. Os rituais sucedem-se onde são, meticulosamente, dissecados, pela enésima vez, os passos, as palavras, o assassinato e a Ressurreição daquele Homem que, acredito, em síntese, quis uma Terra de paz, concórdia, tolerância, amor e fraternidade. Porém, a Páscoa não acontece! A "passagem", significado primeiro daquela palavra, não acontece!
E a verdadeira Libertação dos Povos não acontece. Pelo contrário, os sinais com os quais nos confrontamos apontam exactamente no sentido oposto: guerras, desenfreada corrida aos armamentos, mortes, fome, pobreza, incontroláveis depressões, milhões em fuga, refugiados aos magotes, fundamentalismos religiosos, destruição do planeta por diversas vias, assimetrias sociais que constrangem, eu sei lá o que o vaguear dos nossos olhos conseguem ver e interpretar. Os sinais de "passagem" para um novo tempo acaba por ser apenas uma miragem. A celebração da "passagem da morte para a vida", do espezinhamento para a dignidade dos povos, infelizmente, não acontece. E, no entanto, os rituais permanecem na esperança que, um dia, talvez por "imposição" Divina, a Páscoa aconteça. Uma insanável contradição!
Por isso mesmo distingo dois campos: por um lado, o da justificável celebração da memória; por outro, o caminhar no sentido de um novo mundo gerador de paz e respeito total pelo ser humano. A celebração da memória, com aqueles ou outros contornos, à luz da Igreja, faz sentido. Quem sou eu para dizer o contrário? Agora, não me parece que seja por aí que qualquer "passagem libertadora" aconteça. Ela poderá acontecer, passo a passo, se o Homem que aqui habita olhar para si próprio e tomar consciência que as mudanças de rumo poderão se tornar realidade, a partir dele próprio e não por uma outra qualquer inspiração. A desejável "passagem" tem, por isso, uma natureza eminentemente política. É aos senhores que manuseiam os cordelinhos políticos do mundo que compete as grandes mudanças de paradigma político, económico, financeiro, cultural e social que venham a determinar a transição, a tal Páscoa (passagem) que liberte o Homem das amarras em que se encontra globalmente envolvido.
É ao exercício da política que o Homem deve exigir a verdadeira Páscoa. Aos que traficam influências, aos que produzem leis protectoras, aos que corrompem, aos especuladores, aos que apenas olham para os seus interesses, aos insensíveis que não conseguem perceber as desigualdades, aos promotores e financiadores da morte através dos conflitos armados, aos que não têm coragem para travar o jogo sujo da banca exploradora, aos ditadores, aos imperialistas, por aí fora, é a esses que o Homem deve exigir, no plano da democracia, a "passagem" para um novo tempo. À Igreja compete-lhe a permanente denúncia em defesa da Palavra.
E porquê? Para que a Páscoa não se fique pelos ovinhos, amêndoas, cabritinho e coelhinhos.
Ilustração: Google Imagens.
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Parabéns Doutor Edgar Silva por mais um passo no conhecimento
Desde há muitos anos, 1993, por aí, criámos uma salutar empatia. Apesar de não convivermos, isto é, de sermos pessoas que diariamente se cruzam, a nossa proximidade acaba por ser enorme. Nutro por ele uma grande consideração e respeito sobretudo a dois níveis: primeiro, pela sua inegável luta, com sacrifício pessoal, é preciso dizê-lo, quando desde sempre se colocou ao lado dos "descamisados" da vida. As periferias sociais sempre foram uma preocupação maior e isso, aos olhos de algumas hierarquias, foi sempre visto com desconfiança. Pouco se ralou e continuou; em segundo lugar, pela sua cultura, pelo Homem que sabe produzir as sínteses necessárias no cruzamento dos caminhos e nelas mergulhar e defender. Basta ler os livros que publicou ou passar os olhos pelo seu currículo de vida. Quem não se lembra, entre outros, dos projectos Arco, MAC (escola aberta), a luta contra a exploração sexual e o trabalho infantil!
Aquando da minha passagem pela Assembleia Legislativa, não me lembro de uma única vez, uma proposta minha, sobretudo no sector da Educação, tenha sido chumbada pela sua bancada. Sempre foi sensível aos argumentos de um Sistema Educativo ancorado num pensamento que nada tinha de partidário, mas de visão sobre o futuro. Não esqueço essas suas atitudes que muito me orgulhavam.
O agora Doutor Edgar Silva, depois do grau de Mestre em Teologia Sistemática, atingiu o mais alto grau da formação académica com uma tese "Vendaval de Utopias" - do catolicismo social ao compromisso político em Portugal (1965/1976). Desconheço os traços gerais da sua Tese, mas esta expressão, "vendaval de utopias" trouxe-me logo ao pensamento o diálogo entre o cineasta Fernando Biri e o ilustre escritor e pensador Eduardo Galeano: a utopia está no horizonte. Dou dez passos e o horizonte distancia-se dez passos; dou cem passos e o horizonte distancia-se cem passos. Para que serve, então, a utopia? Serve exactamente para isso, para caminhar.
Parabéns meu Caro Amigo, continue com as exigências das múltiplas utopias face a um Mundo turbulento, assimétrico e de pornográfica pobreza.
Ilustração: Google Imagens.
terça-feira, 4 de abril de 2023
O motor económico da Europa em risco de gripar
Por
02 Abril 2023
Estima-se que, em cada ano, deixam a Alemanha cerca de 180.000 altos quadros e empresários que ajudam a desqualificar a sociedade alemã pelos múltiplos efeitos no funcionamento da economia do país.
Um artigo de Rainer Zitelmann, publicado no “Contrepoint” (26/03/2023), é muito pouco abonatório da saúde da economia alemã, sob vários ângulos de análise.
Certamente, o nome do autor diz-nos pouco. Mas trata-se de um historiador alemão, politólogo, investigador, sociólogo e um conferencista de renome, participante e organizador de seminários sobretudo para empresários em todo o mundo, em países tão diferentes como a China, Vietname, EUA, Alemanha, Brasil, Chile, França …, pago com certeza a peso de ouro, autor de um livro recente a publicar para já em 30 países, que se intitula “Em Defesa do Capitalismo”.
O artigo alerta para um problema crítico, a Emigração de quadros empresários jovens, na sua maioria à volta dos 40 anos, experientes e bem-sucedidos na profissão.
Conta-nos o autor que a taxa de Emigração na Alemanha neste tipo de quadros empresariais é a terceira mais elevada das 38 principais nações mais industrializadas, pormenorizando ainda que 3/4 destes emigrantes têm diploma universitário.
Até os países mais avançados e de melhor nível de vida deixam “fugir” os seus quadros. Afinal, não é só Portugal que deixa escapar muitos quadros de que tanto precisa, sobretudo da área da saúde.
Um problema que dá que pensar
Este artigo reflecte, de forma ligeira embora, o sentir dos conferencistas de dois seminários por ele realizados em Berlim. No primeiro, os participantes eram na sua maioria empresários de diferentes sectores económicos onde destaca um comerciante de vinhos, um grande fabricante de brinquedos e um outro ainda a trabalhar na energia.
Face à pergunta de quem já tinha colocado a si próprio deixar o país para exercer a actividade num outro, diz que ficou chocado, quando quase todos levantaram o braço.
Dias depois, no outro seminário, também predominantemente de empresários e na sequência do anterior, “Plano B – e se a Alemanha bater contra o muro”?
Um agricultor declarou: “Os políticos não têm qualquer ideia do que é a agricultura”. Todos os dias nos aborrecem com regulamentos e mais regulamentos, cada um mais absurdo que o anterior. “Já os aturei o suficiente”. Agora estou a preparar-me para sair para outro sítio, onde possa trabalhar.
Desagrado e desencanto sem dúvida. Se se poderá generalizar, é uma outra questão! Mas, não deixa de ser um alarme de que algo anda mal. Mas, comenta, nem todos os empresários vão deixar o país, mesmo aqueles que têm muita vontade de o fazer.
Há muitas barreiras à saída, a complicar uma tomada de decisão. Há um “muro fiscal”, que coloca graves impedimentos. Os alemães têm bem mais experiência de outros muros, mais físicos, que se viam!
Segundo o autor do artigo, quando o empresário deixa o seu país é tratado, como se tivesse vendido a sua empresa ou as suas acções e realizado “um lucro” que, de facto, não existiu e sobre ele é taxado.
E ainda acentua. “Este imposto tornou-se mais rigoroso para os alemães que se mudam para países da UE”. Não queria acreditar. Fui à procura de informação e encontrei referências várias a este “muro fiscal” na imprensa europeia. Não aos procedimentos em pormenor.
Pergunto-me. Este procedimento é compatível com as normas comunitárias ou a Alemanha é tão dominante que se isenta a ela própria das regras comuns?!
Presentemente, cerca de 3,8 milhões de alemães vivem fora da Europa, correspondendo a uma taxa de emigração de 5,1%. Estima-se que, em cada ano, deixam a Alemanha cerca de 180.000 altos quadros e empresários que ajudam a desqualificar a sociedade alemã pelos múltiplos efeitos no funcionamento da economia do país.
Uma imigração muito menos qualificada ocorre em sentido inverso para postos de trabalho de base ou de nível intermédio, atraída muitas vezes sobretudo pela protecção social existente no país. Por outro lado, um estudo da OCDE indica que a Alemanha pratica a carga tributária e social, mais alta do mundo.
O autor defende que não são apenas as condições económicas que fazem os alemães deixarem o país e aponta um indicador deveras curioso, o da inveja social, em que, por acaso, a Alemanha se posiciona em segundo lugar, sendo a França o primeiro e em terceiro a China, entre os 30 que entram para o cálculo de comparação. Este indicador é determinado através do diferencial entre níveis de rendimentos.
As empresas
A situação a nível de empresas não é menos dramática. E neste quadro são tidos em conta múltiplos aspectos, com relevo para a burocracia do Estado, a elevada regulamentação e o custo dos factores de produção, onde a energia assume um peso determinante.
A BASF, a maior empresa química do Mundo, fez deslocalizar para a China, muito recentemente, parte de suas produções e justifica que o fez por excesso de regulamentação, demasiada burocracia e os elevados custos de energia que lhe retiram a competitividade e a todo o sector do ramo implantado na Alemanha.
O CEO da BASF argumenta que não foi a guerra da Ucrânia que afectou os custos da energia, pois os empresários alemães já a pagavam, muito antes da guerra, 50% mais elevada que nos EUA. Em seu entender, foi a errada política energética (EnergieWende) de responsabilidade de Merkel que começou a arrasar a indústria alemã.
O tipo de transição energética protagonizada pelo governo alemão, nos últimos doze meses, vem afundar ainda mais a indústria a prazo, porque não é tecnicamente credível para a descarbonização da sociedade e entende que o mecanismo de formação dos preços da electricidade tem de ser reformulado.
Concluindo, a energia é um tema basilar para a Europa, onde a Alemanha tem demasiadas culpas do caos em que se encontra. E insisto, sem um entendimento na mudança de rumo, não só o motor da economia europeia gripa bem como arrastará toda a União a uma situação crítica. E da Comissão nada a esperar para melhor, pois segue a voz do dono.
E sobre a energia, até o primeiro-ministro português se pronunciou sobre a ineficácia das medidas recentes avançadas pela Comissão Europeia.
Mas, se a UE continuar incapaz de resolver o problema da energia em profundidade, como até aqui, as eventuais medidas que se tomem ao nível de país ou por grupos de países-membros só poderão ampliar ainda mais a falta de coesão comunitária.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.
domingo, 2 de abril de 2023
II ENCONTRO BANDOLINS DE MACHICO - MADEIRA
II ENCONTRO DE BANDOLINS DE MACHICO
PADRE JOSÉ MARTINS JÚNIOR
Foi uma noite de emoções muito fortes. A música tem esse condão, toca-nos fundo, desde a sua sua beleza ao relaxamento que provoca. Basta que se goste das sonoridades e nos deixemos embalar na harmonia. Foi isso que eu senti. Parabéns à Câmara Municipal de Machico por este II Encontro de Bandolins.
Uma palavra para a excelência da orquestra bandolinística ribeirabravense e para o exemplar e emotivo desempenho do Duo Norberto Gonçalves da Cruz e Jorge Vidal. Um momento sublime.
Mas não é o espectáculo propriamente dito que aqui me traz. É outra a história. Tal como há livros e textos intemporais, ontem, uma vez mais, concluí que o Padre José Martins Júnior é uma daquelas figuras que jamais a História da Madeira apagará. Todos nós, tarde ou cedo, desaparecemos do palco da vida. Porém, a obra fica, neste caso, imortal. Ao contrário das obras físicas, ainda há dias, por aí foram destacadas 500 obras lançadas pelo governo, o Padre José Martins Júnior tem, ao longo da sua vida, uma só obra quase concluída: a da celebração do ser humano. Aos 84 anos continua, através da música, da poesia, da excelência dos seus textos, da humildade, das reflexões que produz, da lucidez, da racionalidade do pensamento e da sua abertura ao mundo, juntando a sua voz aos muitos desconfortos sentidos, que tornam a pobreza numa paisagem, aos 84 continua, dizia eu, a celebrar a VIDA, enquanto outros apenas "obram".
Não pelo facto de ser seu Amigo, dos nossos diálogos terem o tempero saboroso que o prazer da escuta proporciona, mas por aquilo que ele realmente é. Já aqui o disse uma outra vez que as suas preocupações com o ser humano não são dali, do vale de Machico, da Ribeira Seca, mas de toda a Madeira, de todo o País, porque é uma voz para o Mundo. Que bom seria que as vozes se multiplicassem e produzissem efeitos! Ainda ontem, subtilmente, no dia do miserável e tenebroso ataque a Bucha (fez um ano), pediu que todos, de pé, escutassem o Hino da Ucrânia.
Ele é um Homem atento, um Ser Humano excepcional que não morrerá, apesar de alguns ares enviesados que lhe deitam. Sobretudo os que confundem o exercício da política, pelos interesses que defendem, com a "honestidade intelectual, pedra angular do discurso ético" - Louis M. Guenin.
Convido-vos a seguir este excerto do espectáculo de ontem.
Vídeo: Arquivo próprio
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