terça-feira, 26 de junho de 2012

CONTRADIÇÕES


Curiosamente, este mesmo povo, espoliado dos seus direitos, espezinhado e triturado, com penosas dívidas às costas, públicas e particulares, estando a passar por momentos de profundíssima angústia, desde empresários aos milhares de desempregados, desde os pobres persistentes aos novos pobres, de médicos a enfermeiros, de professores a arquitectos, de engenheiros a advogados, enfim, todos se subjugam a uma paz podre, geradora de náusea, mostrando-se incapazes de um colectivo grito público, de erguer uma bandeira sinónima de que aqui há gente a passar mal e que os políticos não podem utilizar o povo ao pontapé como se de uma bola se tratasse.

Oxalá a equipa portuguesa de futebol atinja a final. E como cereja em cima do bolo que o Engº João Rodrigues, na sua sexta presença olímpica, consiga, na regata de ouro, o resultado que lhe falta na sua brilhante carreira. Ficaria feliz que tal acontecesse, por um lado, pelo portuguesismo da nossa Região, por outro, pela afirmação de dois madeirenses ao mais alto nível no diálogo competitivo internacional. Pese embora o facto de, nem um nem outro, serem consequência de uma política desportiva regional sustentável. Mas essa é outra história.
O que hoje aqui me traz designa-se por contradições. Olho para o parque de Santa Catarina e vejo-o cheio, vibrante, com milhares entusiasmados em redor das cores nacionais. Um movimento espantoso de paixão e orgulho nacional. Manifestações que derrubam a tese da independência, agitada por alguns, no quadro da chantagem política. Curiosamente, este mesmo povo, espoliado dos seus direitos, espezinhado e triturado, com penosas dívidas às costas, públicas e particulares, estando a passar por momentos de profundíssima angústia, desde empresários aos milhares de desempregados, desde os pobres persistentes aos novos pobres, de médicos a enfermeiros, de professores a arquitectos, de engenheiros a advogados, enfim, todos se subjugam a uma paz podre, geradora de náusea, mostrando-se incapazes de um colectivo grito público, de erguer uma bandeira sinónima de que aqui há gente a passar mal e que os políticos não podem utilizar o povo ao pontapé como se de uma bola se tratasse.
Por medo? Por ausência de uma cultura de cidadania activa? Por falta de educação política? Por ausência de uma escola libertadora? Porque a Igreja incentiva a carregar a Cruz? Talvez, um pouco por tudo isto. A infeliz constatação é que o efémero resultado desportivo, seja ele qual for, se sobrepõe aos direitos subtraídos, às agruras e às vergonhosas maldades de um poder que deveria ser colocado em causa. Contradições!
Ilustração: Google Imagens

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Portugal está a ser governado por duas "troikas": uma que domina o Governo; a outra, já antiga, é do Fátima, Fado e Futebol (FFF), que domina o povo.
Será que tal combinação nos vai salvar da desgraça?

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
É exactamente isso. É caso para dizer que estamos "troicados"...
O que lamento é a ausência de cultura de cidadania activa, inteligente, sensata, conhecedora dos direitos e dos deveres, que coloque em permanente sentido quem nos governa. O toma e cala-te se nunca fez sentido, hoje, ainda muito mais.