Adsense

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

E A IDEOLOGIA, MEUS SENHORES?


Lista de candidaturas sorteadas e publicadas. Uma dúzia e mil e muitos “figurantes”. Partidos concorrentes dezassete, numa Região com 60% da população do concelho de Sintra. Isto, quarenta anos depois de Abril. Esta situação dá que pensar. Alguns interpretam a explosão de candidaturas como um sinal de oportunismo político. Em alguns casos, talvez, mas não vou por aí. Reconheço que é difícil caracterizar todos os interesses em jogo, quando, no essencial, os principais vectores programáticos não diferem de uns para os outros. Todos, certamente, desejam melhor sistema de saúde, melhor acesso e sucesso na educação, melhor proteção social, melhor economia geradora de emprego e, naturalmente, uma diminuição da carga fiscal. As estratégias, essas sim, podem assumir contornos distintos. Mas daí à proliferação de dezassete partidos interessados, bom, quarenta anos depois de Abril a análise exige outro cuidado. 


Uma das possíveis leituras entronca, porventura, nos longos anos de jardinismo. De uma democracia formal, enquistada, que começava e se esgotava no dia de eleições, à custa de muita manobra menos transparente, é possível que se esteja a verificar um desassossego entre os cidadãos, fartos e cheios da música que foi audível durante todos estes anos. Dir-se-á que as pessoas se cansaram e transportam, hoje, o sentimento que foram enganadas.
Aos poucos a canga colocada sobre os seus ombros, baseada na imagem do insubstituível, começou a ruir nas últimas autárquicas. O próprio construtor da sofisticada engrenagem, ainda recentemente assumiu a perversa ideia que “(…) a democracia é a arte de fazer o que eu quero, convencendo os outros de que estou a fazer o que eles querem” (AJJ, ao Diário Económico, 06.02.2015). Porém, doze candidaturas é obra! São legítimas, obviamente que sim, mas preferível seria, julgo eu, metade dos partidos ou coligações, devidamente enquadrados do ponto de vista ideológico. Sinceramente, tenho muita dificuldade em perceber, no espaço ideológico, questão essencial, qual o posicionamento desses partidos políticos? Terão uma sustentável ideologia? Qual é o seu espaço diferenciador, identificador e doutrinário? Porque não basta jogar para o ar umas frases, que não são de direita nem de esquerda, que apenas estão ao serviço do povo, que desejam ir ao encontro das pessoas para solucionar os seus problemas, que é balela se são mais verdes, vermelhos, monárquicos ou qualquer coisa já conhecida, ou, então, “avacalhar” o processo com a utilização de um pobre cidadão que assume, sei lá, pela boca populista de outros: “vendo meias, mas quando estiver a governar não me vou pôr com meias medidas”! A seriedade de um processo eleitoral, o dramatismo que envolve a situação económica e financeira da Região, os preocupantes quadros de pobreza persistente, entre uma mancheia de problemas por resolver, onde a dívida asfixia qualquer manobra, deveria merecer da parte de todos uma outra atitude que não aquela que se circunscreve a uma visão redutora e clubística. É sempre bom assistirmos ao movimento de cidadãos interessados na “coisa pública”, acabando com essa ridícula ideia de “partidos do arco do poder”, todavia, a questão que fica é se não é tempo de conjugar o surgimento de cidadãos na política activa, com novas e substanciais ideias, com a necessária qualidade, mas devida e ideologicamente enquadrados? É que eleger para governar constitui um assunto muito sério.
Artigo, da minha autoria, publicado no Funchal Notícias.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

UM FENÓMENO POUCAS VEZES VISTO

Uma colagem de fotografias para juntar, certamente, a milhares que ao fim da tarde de ontem foi possível captar. Um fenómeno poucas vezes visto e que os especialistas naturalmente sabem explicar. Interessante o facto da luz de fim de tarde ter possibilitado um contraste entre a parte mais baixa da nuvem relativamente ao seu contorno geral. Face à situação, parei o carro e fotografei.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

CONTRADIÇÕES



Ontem, na Assembleia da República, no decorrer do debate quinzenal, o primeiro-ministro Passos Coelho, a propósito das recentes declarações do Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, que considerou que a austeridade atentou "contra a dignidade dos cidadãos gregos, portugueses e irlandeses", disse que dignidade dos portugueses nunca esteve em causa com o ajustamento, leia-se, com as políticas da troika. Curiosamente, ou talvez não, no mesmo dia, o ministro Mota Soares anunciou o reforço de 50 milhões para a rede de instituições sociais. Em que ficamos? Atentou ou não contra a dignidade? É verdade ou mentira que temos de recuar aos anos 60 para encontrarmos os valores da actual emigração? Existem ou não 700.000 desempregados? Um em cada quatro portugueses está ou não em risco de pobreza e quem recebe o salário mínimo ganha ou não menos 12 euros do que em 1974? Por aí fora...
Ilustração:  Google Imagens.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

OLHA QUE APANHAS SE VOLTAS A DIZER AQUILO!


Esta nossa Europa está mesmo de pantanas. Jean-Claude Junker penitenciou-se porque ele e todos os outros "pecaram contra a dignidade dos cidadãos gregos, portugueses e irlandeses". O alemão Schäuble, diz exactamente ao contrário e quer um acordo seco e curto. Servil e hipocritamente, Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque pensam como o alemão e estão contra o Presidente da Comissão Europeia. Entretanto, no FMI, confrontamo-nos com a Senhora Christine Lagarde, uma senhora tipo conforme: umas vezes contra a austeridade, outras a favor, mas mandando sempre os seus técnicos apertarem o pescoço, neste caso o dos portugueses. Junker diz que  (...) "é preciso aprendermos com as lições do passado". Durão Barroso anda caladinho. E António Costa veio ontem sublinhar que "(...) A declaração do presidente Juncker é sábia". Sábia em quê? Então ele não foi Comissário Europeu numa pasta que ajudou a impor a troika e a sua estratégia orientadora? Penitenciar-se, agora, depois de ter ajudado a conduzir a Europa para um pântano? Que dirá Christine Lagarde de tudo isto, depois de tantas vezes avisada? Qual a sua posição política, não apenas relativamente à Grécia, mas também junto de todos os povos que têm sido encostados à parede? 

Olha que apanhas se voltas a dizer aquilo!
E não deveria, António Costa, no plano político, exigir uma posição clara do Presidente Cavaco Silva e do Primeiro-Ministro? Há quanto tempo andam tantos a sublinhar que esta austeridade é o melhor caminho para a ruína? E vem Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, com aquela conversa de treta, com uma no cravo outra na ferradura, colocar-se ao lado de Jean-Claude Juncker e de costas para o PSD, dizendo que a chegada da troika foi mesmo um "vexame" e que houve "hipocrisia" por parte do FMI? E o que dizer de Passos Coelho que, através do seu porta-voz, Marques Guedes, assume que a posição de Junker foi "infeliz"? Expliquem, no essencial, onde está o sucesso através das políticas de austeridade, quando Portugal passou de 96,2% de dívida pública (2009) para 128,9% em 2014? E a Grécia de 126,8% para 176,3%?
Por favor, desamparem a loja, sejam honestos. Ou a Europa regressa aos princípios pensados por Schuman e Monnet, o que me parece completamente improvável, ou caminha para a sua falência, o que será tragicamente lamentável. Um aspecto parece certo: o cidadão europeu dificilmente aceitará este jogo vergonhoso do grande capital que esmaga sem piedade os mais débeis. Será uma questão de tempo. Porque, hoje, há cada vez mais a consciência que o problema foi criado externamente e que as grandes somas disponibilizadas destinaram-se, não a salvar os povos, mas para salvar a banca desacreditada. Entretanto, tenhamos consciência que Tsipras visitou ontem uma fragata chinesa no porto de Pireu e deixou-se fotografar junto às bandeiras da China e da Grécia. Que significado político terá este quadro?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

WOLFGANG SCHÄUBLE PORTUGAL É "A MELHOR PROVA" DE QUE OS PROGRAMAS DE AJUSTAMENTO FUNCIONAM



Ao mesmo tempo que este senhor assume como destino a gravosa e penalizadora austeridade, Junker diz que "pecámos contra a dignidade dos cidadãos gregos, portugueses e irlandeses" (...) e que "é preciso aprendermos com as lições do passado". Junker vai ao ponto de criticar, severamente, os dez anos de Durão Barroso. O curioso disto é que Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque pensam como o alemão Schäuble.
Com todos os erros internos que possam ser imputados à Grécia, a verdade é que a austeridade nada resolveu num País com 35% da população em risco de pobreza. Pavloupolos, eleito Presidente da República grega, exclamou: "(...) Se isto não é uma crise humanitária, é o quê?". E em Portugal, a situação não é também dramática? Como iremos pagar a dívida, insisto, fabricada externamente? Através de uma contínua austeridade que rouba? Cavaco Silva e seus pares deveriam ter a percepção da realidade e de não alinharem nesta loucura destruidora da esperança, em consequência de uma partidarite aguda.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

E SE PASSOS COELHO E MARIA LUÍS ALBUQUERQUE APRENDESSEM COM PAUL KRUGMAN?


Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia de 2008, no seu blog do New York Times: "(...) Não havia qualquer possibilidade de que Tsipras e companhia assinassem esta declaração, que nos faz questionar se os ministros do Eurogrupo sabem o que estão a fazer. Acho que é possível que sejam loucos – que não compreendem que a Grécia de 2015 não é a Irlanda de 2010, e que este tipo de pressão não funciona. Em alternativa, e creio que é o mais provável, decidiram empurrar a Grécia para o abismo. Em vez de darem algum espaço, preferem ver a Grécia forçada ao default e, provavelmente, a sair do Euro, com os previsíveis estragos económicos a servirem de lição a qualquer outro que esteja a pensar em pedir um alívio. Quer dizer: estão a preparar-se para impor o equivalente económico da “Paz Cartaginesa” que a França pensou impor à Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial (...)".



"Krugman diz que na Grécia há um genuíno governo de esquerda. O Economista afirma que ao contrário dos anteriores, o gabinete de Tsipras não irá humilhar-se abandonando as promessas de campanha em nome da “responsabilidade”, porque os seus membros não querem ficar nas boas graças do grupo de Davos e só respondem diante do povo grego". (in Esquerda.net). Porque raio, questiono eu, os gregos e outros países têm de submeter-se à ditadura financeira imposta por grupos sem pingo de sentimento humanista. Criam e refinam as situações, engodam os povos com propostas conducentes a um aparente bem-estar, têm a paciência de esperar e, depois, provoca-lhes, algumas vezes de forma subtil, outras, descaradamente, o cerco, espremendo-os até o tutano. E o que mais me custa em tudo isto é o contínuo resvalar dos partidos socialistas para situações contrárias aos interesses dos povos. Como entender, por exemplo, as posições dos socialistas, presidente do eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, e do Comissário Pierre Moscovici, dos Assuntos Económicos e Monetários na Comissão de Jean-Claud Junker? Difícil de entender, quando o próprio Moscovici assumiu no "exame" para Comissário "(...) tratar todos os Estados-membros, grandes e pequenos, da mesma maneira". Está à vista de todos que todos são iguais, mas há uns mais iguais que outros! Afinal, onde estão os princípios ideológicos e os valores que distinguem aquelas duas figuras centrais, de uma direita que a todos, pacientemente, empurrou para o crescimento de mais milionários à custa da pobreza da maioria? Em que se distinguem dos Barroso's e Junker's desta Europa em decadência? O que os faz impor à Grécia e a outros povos um modelo de austeridade impossível de cumprir, em muitos casos consequência de uma crise fabricada externamente? Modelo criticado e assumido por várias instituições como a resposta certa para um problema errado?  
Krugman, na imagem daqueles dois senhores, é, certamente, um perigoso esquerdista radical! Que tristeza, quando a Europa precisa de credibilização e de confiança. Quando ela precisa de uma nova ordem que assegure crescimento e desenvolvimento, mas nunca à custa do sofrimento de milhões de cidadãos empurrados para as margens! Quando derem por isso, face a tantos e graves problemas por resolver, entre os Estados membros e países vizinhos, poderá ser tarde.
Ilustração: Google Imagens.

"NÃO HÁ TEMPO PARA JOGOS NA EUROPA" - UM ARTIGO DE YANIS VAROUFAKIS


"ATENAS — Escrevo este artigo à margem de uma negociação crucial com os credores do meu país — uma negociação cujo resultado poderá marcar uma geração, e tornar-se mesmo um ponto de viragem quanto aos efeitos da experiência da Europa com a união monetária. Teóricos dos jogos analisam negociações como se elas fossem jogos de divisão de bolos em que participam jogadores egoístas. Por ter, na minha vida anterior, na qualidade de académico, estudado durante muitos anos a Teoria dos Jogos, alguns comentadores precipitaram-se a concluir que, na qualidade de ministro das Finanças grego, estava a conceber bluffs, estratagemas e outras opções, tentando obter uma posição de vantagem apesar de dispor de um jogo fraco. Nada podia estar mais longe da verdade.


Quando muito, o meu passado de Teoria dos Jogos convenceu-me de que seria uma completa loucura pensar nas actuais deliberações entre a Grécia e os nossos parceiros como um jogo de regateio a ser ganho ou perdido através de bluffs e subterfúgios tácticos.
O problema da Teoria dos Jogos, como eu costumava contar aos meus alunos, é o de assumir como dado adquirido os motivos dos jogadores. No poker ou no blackjack, esta premissa não é problemática. Contudo, nas actuais deliberações entre os nossos parceiros europeus e o novo governo grego, aquilo que se pretende no fim de contas é forjar novos motivos. Criar uma nova mentalidade que transcenda divisões nacionais, dilua a distinção credor-devedor em prol de uma perspectiva pan-europeia e que ponha o bem comum europeu acima da mesquinhez política, dogma nocivo se generalizado, e da mentalidade nós-contra-eles.
Como ministro das Finanças de uma pequena nação, com enormes restrições orçamentais, sem um banco central próprio e vista por muitos dos nossos parceiros como devedor problemático, estou convencido de que temos uma única opção: afastar qualquer tentação de tratar este momento decisivo como um ensaio estratégico e, em vez disso, apresentar honestamente os factos da economia social grega, apresentar as nossas propostas para que a Grécia volte a crescer, explicando os motivos pelos quais elas são do interesse da Europa, e revelar as linhas vermelhas que a lógica e o dever nos impedem de ultrapassar.
A grande diferença entre este governo grego e o anterior tem duas vertentes: estamos determinados a combater interesses para dar um novo impulso à Grécia e conquistar a confiança dos nossos parceiros e estamos determinados a não ser tratados como uma colónia da dívida que deve sofrer aquilo que for necessário. O princípio da maior austeridade para a economia mais deprimida seria pitoresco, se não causasse tanto sofrimento desnecessário.
Frequentemente, perguntam-me: e se a única forma de assegurar financiamento for ultrapassar as linhas vermelhas que estabeleceu e aceitar medidas que considera serem parte do problema e não da solução? Fiel ao princípio de que não tenho direito a fazer bluff, a minha resposta é: as linhas vermelhas não serão ultrapassadas. De outra forma, não seriam verdadeiramente vermelhas, seriam um mero bluff.
E se tudo isto trouxer muito sofrimento ao seu povo? Perguntam-me. Está, certamente, a fazer bluff.
O problema desta linha argumentativa é o de partir do princípio, de acordo com a Teoria dos Jogos, de que vivemos numa tirania de consequências. Que não há circunstâncias nas quais devemos fazer o que é correcto, não como estratégia, mas por ser…correcto.
Contra este cinismo, o novo governo grego irá inovar. Iremos cessar, independentemente das consequências, acordos que são errados para a Grécia e errados para a Europa. O jogo do “adiar e fingir”, que começou depois de o serviço da dívida pública grega não poder ter sido cumprido em 2010, vai acabar. Acabaram-se os empréstimos – pelo menos, até termos um plano credível de crescimento da economia para pagar esses empréstimos, ajudar a classe média a recuperar e resolver as terríveis crises humanitárias. Acabaram-se os programas de “reforma” que se dirigem aos pobres pensionistas e a farmácias familiares e mantém intocável a corrupção em grande escala
O nosso governo não está a pedir aos nossos parceiros uma solução para pagar as dívidas. Estamos a pedir alguns meses de estabilidade financeira que nos permita criar reformas que uma extensa camada da população grega possa assumir e apoiar, para podermos voltar a ter crescimento e acabar com a nossa falta de capacidade de pagar as nossas dívidas.
Pode pensar-se que esta retirada da Teoria dos Jogos é motivada por uma qualquer agenda de esquerda radical. Nem por isso. Aqui, a maior influência é Imannuel Kant, o filósofo alemão que nos ensinou que a saída racional e livre do império da conveniência é fazer aquilo que é correcto.
Como sabemos que a nossa modesta agenda política, afinal de contas a nossa linha vermelha, em termos kantianos, é a correcta? Sabemos, olhando nos olhos dos esfomeados nas ruas ou contemplando a pressão sobre a nossa classe média, ou considerando os interesses dos diligentes trabalhadores de cada aldeia, vila e cidade na nossa união monetária. No fim de contas, a Europa só recuperará a sua alma quando recuperar a confiança das pessoas, pondo os interesses delas na linha da frente."
Yanis Varoufakis é o ministro das Finanças da Grécia. Publicado no New York Times
Traduzido no blogue AVENTAR

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

PROTOCOLO É UMA COISA, JANTAR, OUTRA!


A Senhora Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal estará na Madeira em visita de trabalho. Óptimo, porque há muito a ver e apreciar relativamente aos serviços do Ministério Público na Região. Trata-se, portanto, de uma visita de trabalho, repito. E embora as regras protocolares devam ser respeitadas, há que não esquecer que a Procuradora ocupa o 10º lugar na lista de precedências, enquanto o Presidente do Governo Regional o 15º lugar nessa listagem do protocolo do Estado Português. Porém, justifica-se que a Drª Joana Marques Vidal, por cortesia, seja recebida pelo Presidente da Assembleia Legislativa e, depois, pelo Presidente do Governo Regional. Nunca ao contrário! O que já não é aceitável é que o Presidente do Governo, segundo noticia o DN-Madeira, ofereça um jantar, na Quinta Vigia, em honra da responsável máxima da hierarquia do Ministério Público.


Nem é a Assembleia Legislativa, enquanto primeiro órgão de governo próprio a ter essa iniciativa, mas o órgão executivo presidido por Alberto João Jardim. Isto numa altura que decorrem investigações no processo designado por "Cuba Livre" e que envolve alegadas suspeitas sobre membros dos governos por si liderados. 
Enquanto cidadão preferia ver a Senhora Procuradora distante desses ambientes. A história da "mulher de César...". Uma coisa é o protocolo, outra a convivência à mesa de jantar. Espero que os arguidos de tal processo não estejam sentados lado-a-lado com a Senhora Procuradora. Mas se tal acontecer, sinceramente, não ficarei espantado. Alberto João Jardim é, politicamente, hábil e provocador, tantas as vezes já o demonstrou!
Jantares que têm servido para salamaleques, discursos de circunstância, elogios e para a entrega de "lembranças". Espero que não sirva para amolecer o que cada órgão tem por missão fazer. Aliás, há momentos que se justifica um jantar de boas-vindas, em outros, por diversas razões, directas e indirectas (há uma investigação em curso) a imagem de independência deveria ser totalmente preservada, não querendo com isto dizer que a Senhora Procuradora da República seja influenciável. Mas que não deveria se expor a leituras colaterais, parece-me óbvio. No mínimo, deveria saber o que a casa gasta!
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

UMA EUROPA EM DECADÊNCIA



Este senhor Jeroen Dijsselbloem (à esq), presidente do Eurogrupo, o tal que disse ter um mestrado que, afinal, não tem, em conjunto com muitos dos seus parceiros que alinham no designado "masoquismo económico e financeiro", dá-me a entender que está a esticar o elástico até ao limite. Na reunião de hoje dos ministros das Finanças da zona euro, realizada em Bruxelas, a Grécia rejeitou uma proposta de compromisso face à qual o governo grego teria de prolongar e concluir o actual programa de assistência financeira. Uma fonte do governo grego considerou "absurda" e "inaceitável" tal proposta. A austeridade é o caminho, muito embora tal caminho já tivesse sido condenado por tantos economistas e políticos. Os próximos capítulos serão muito complexos e a Europa corre o sério risco de entrar em colapso. Como mero observador penso que não estão a ver o filme todo. Será apenas paleio ou a aproximação à China e à Rússia é uma hipótese em cima da mesa? Em todo este processo europeu há uma figura que tem passado entre a chuva sem se molhar. Refiro-me a Durão Barroso que presidiu aos destinos europeus durante dez anos. Não serão estas, também, consequências das suas políticas?

FAÇAM ALGUMA COISA... MEXAM-SE!


"Falei da DRAC, mas a Câmara Municipal do Funchal também não deve alhear-se das suas responsabilidades e está ainda a tempo de fazer alguma coisa. Poucas cidades deste país podem orgulhar-se de ter um "filho" com a craveira cultural e intelectual de António Aragão. António Aragão, para além do artista, historiador e homem de letras que foi, dirigiu uma instituição, o Arquivo Regional, a que devemos muito da organização da documentação da nossa história. Apetece-me dizer: porra, falam tanto de autonomia, mas esquecem os homens que emprestaram valor reconhecimento e prestígio à sua afirmação nacional". Texto de Danilo Matos, deixado  na minha página de facebook.


Caríssimo Amigo Danilo, será uma questão de dinheiro ou de insensibilidade? Não sei. Factos que demonstram a insensibilidade através da destruição de património, existem muitos. Nos últimos vinte anos, no Funchal, contam-se dezenas de casos. Tenho elementos que provam-no. Será pela falta de dinheiro? Não, não creio que seja por isso. Portanto, estou mais inclinado para a insensibilidade, esquecendo-se alguns que a cultura é geradora de economia. Sei quanto pago para visitar museus e até catedrais. 
Cada um na sua dimensão, obviamente, tive a felicidade de visitar muitas casas de figuras que nos deixaram inquestionáveis legados. Três exemplos, entre muitas casas que tive o ensejo de visitar: a casa e os jardins de Claude Monet, em Giverny, a norte de Paris; a casa de Shakespeare, em Stratford-upon-Avon ou a de Mozart em Salzburg. Tenho presente os cantos e recantos desses espaços. De tempos em tempos a elas regresso através do vídeo ou das fotografias. Amigo meu com quem viajei durante muitos anos, disse-me tantas vezes: há filas para entrar num estádio de futebol, mas veja aqui, no Louvre, a fila e o tempo que temos de esperar. O mesmo me disse junto aos museus do Vaticano, no Prado ou na Reina Sofia em Madrid, no Van Gogh em Amesterdão ou nas catedrais de Colónia ou de Ulm, na Alemanha. Por todo o lado sente-se que a cultura cada vez mais vende. Tive a felicidade, repito a palavra felicidade, de visitar, por duas vezes, a Galeria Uffizi, em Florença e, com bilhete na mão, esperei mais de quarenta e cinco minutos para lá entrar. Ou, então, o tempo de espera junto à majestosa catedral da Sagrada Família, em Barcelona. Portanto, Caríssimo Danilo, faltou e falta em sensibilidade o que em dinheiro abundou! E que ainda existe. Está é muito mal distribuído, como se sabe. Falo de sensibilidade. Eu visito porque considero importante, para conhecer e aprender (o mesmo se passa com tantos milhões de turistas), embora, no meu caso, não seja, nem minimamente, uma pessoa com a necessária formação para interpretar tanto que as oportunidades me possibilitaram.
Vivi ao lado da casa de António Aragão, na Calçada do Pico. Ele no 35 e a minha família no 37. Conheci o Dr. António Aragão e a sua mulher Estela, recentemente falecida. Julgo que aquela casa poderia ser aproveitada para enquadrá-la no roteiro histórico de S. Pedro, nela figurando a sua obra a par das aquisições por ele realizadas. Dispenso e lá nunca entrarei nessa futura "casa-museu" de Alberto João Jardim, mas não dispensaria ver o essencial da casa de Aragão. E para quem tiver dúvidas sobre a figura que, na expressão do Escultor António Rodrigues, "vai a leilão", deixo um link do blogue do Advogado e Historiador Rui Nepomuceno. Façam uma visita e leiam-no. Entretanto, façam também alguma coisa... mexam-se em defesa das nossas memórias e referências.
http://ruinepomuceno.blogspot.pt/2010/02/antonio-aragao-e-o-experimentalismo.html
Ilustração: Google Imagens. Trabalhos de António Aragão.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

COM MIGUEL ALBUQUERQUE O DESEMPREGO CRESCERÁ


Em entrevista ao Económico TV, o candidato do PSD, Miguel Albuquerque, a propósito da tão badalada "reforma do Estado" disse muito claramente: "(...) Não deve haver ilusões" (...) "É despedir funcionários públicos, não vale a pena estar com ilusões, 78% da despesa do Estado é com pessoal". Para o candidato do PSD-M, o Governo da República devia ter criado um fundo ou uma bolsa fora do quadro do Orçamento do Estado para pagar os despedimentos e nessa altura "tirava 10, 15, 20, 30, 40 mil pessoas" e fazia a reforma do Estado. Entretanto, o seu secretário-geral divulgou um comunicado que nada desmente, pelo contrário, por outras palavras confirma. E com a subtileza que se trata de uma medida "que não será aplicada na Madeira". Como se a Autonomia ainda existisse e como se, face às conhecidas fragilidades económicas e financeiras, Passos Coelho/Paulo Portas não obrigassem a uma aplicação na Região. Numa aproximação à "batalha naval", o que Miguel Albuquerque disse corresponde a um tiro certeiro em um submarino!


Miguel Albuquerque ao invés de falar de mudança na política económica visando a criação de empresas e de trabalho, fala de despedimento, quando ele sabe, ora se sabe, o que resultou do despedimento de médicos e de enfermeiros (sistema de Saúde), de professores (sistema Educativo), da não contratação de funcionários no sistema de Justiça, enfim, em todos os sectores da actividade da Administração Pública. Os dados estão aí e não vale a pena ignorá-los. Dir-se-á que lhe fugiu a língua para a verdade que alimenta o seu pensamento. E há quem vá nisto. 
Ora bem, o Dr. Miguel Albuquerque tem um "professor" que se chama Passos Coelho. Existe ali um indesmentível cordão umbilical, umas algemas e uma pulseira electrónica que acabam por definir que o caminho da Região é o caminho do País. Ponto final. Tudo o resto é paleio, são fait-divers, são visitas de circunstância aqui e ali para tentar, repito, tentar, dizer que isto agora será diferente. Com ele, não será. Aliás, não se sabe o que Albuquerque pensa das políticas para o sistema de saúde, sistema educativo, sistema empresarial, para o sistema social de combate à pobreza que alastra, do facto da Madeira ter mais instituições de solidariedade social do que freguesias, sobre o que fazer aos 22.000 desempregados, sobre as questões ambientais, sobre as políticas de agricultura e pescas, sobre a dupla austeridade, sobre a gravosa política fiscal, sobre a dívida criada pelo seu partido no governo, superior a seis mil milhões, em síntese, qual o seu pensamento estratégico que arranque a Região da falência em que se encontra. O que é público é que o piano toca a mesma música. Os dedos procuram os mesmos sons. E não é depois das eleições que estes assuntos devem ser conhecidos. Como Passos Coelho o fez, dizendo uma coisa antes e fazendo o seu contrário após o acto eleitoral. Andar de concelho em concelho em visitas para a fotografia é chão que deu uvas. De todos espera-se que digam o que pensam e que se comprometam, porque isto já não vai com campanhas de beijinhos. 
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O ESPÓLIO DO DR. ANTÓNIO ARAGÃO. PEÇAS QUE NUNCA DEVERIAM SER LEILOADAS


São mais de 700 peças que vão a leilão. Assume o leiloeiro que este será “(...) um dos leilões mais mediáticos em virtude de 70% das peças serem peças de museu, peças para coleccionadores”. Leio no DN-Madeira, um trabalho da jornalista Paula Henriques: "são pedaços da vida do conhecido pintor, escultor, poeta, historiador e investigador madeirense, uma figura de relevo das artes e da cultura (...) arte figurativa, abstracta, pinturas do séc. XVII e XVIII, arte sacra com peças desde o séc. XVI. No conjunto há verdadeiros tesouros, como um original de Vasarely – a peça mais mediática do conjunto (...)". Sabia deste leilão e lamento, profundamente, que a Região, através do Governo Regional, não se tivesse posicione.


Não faço qualquer juízo de valor, mas sei que a Região Autónoma da Madeira, salvo erro em 2002, adquiriu um palacete do século XIX, para albergar as memórias de vida de João Carlos Abreu, ex-governante. E não faço, também, qualquer juízo de valor a Alberto João Jardim que herdou a casa da mãe, falecida em 2006, alienando-a à Fundação Social-Democrata por € 140.000,00, que por sua vez está a transformá-la num museu dedicado ao seu antigo proprietário, presidente do Governo Regional da Madeira. A ideia, li algures, é a de "colocar na casa-museu uma exposição das placas, medalhas e outros objectos oferecidos ao governante madeirense (...) recriando o mais fiel possível, a vida e a obra do homem que dirigiu os destinos do arquipélago da Madeira". Percebem-se as razões políticas.
Ora, com o devido respeito pelo percurso de vida destas duas figuras, o de António Aragão é singular. E o governo, moita! Sepulcral silêncio. Aquelas 700 peças deveriam constituir um espaço de memória desta importante figura madeirense. É caro, muito caro, pois é. Mas é um madeirense, nascido em S. Vicente (1921/2008), ex-director do Arquivo Distrital do Funchal (agora Arquivo Regional da Madeira). A sua produção artística não deveria ficar espalhada por aí. A cultura agradecia e seria uma forma de perpectuar a sua memória. O historiador Doutor Rui Carita recordou-o como "(...) uma das grandes figuras da cultura portuguesa do século XX". E a Região da Madeira, moita!
Quando fui Vereador da Câmara Municipal do Funchal, muito antes da sua morte,  propus a Medalha de Mérito Municipal Ouro da Cidade ao Dr. António Aragão. O presidente da autarquia de então, Dr. Miguel Albuquerque e a sua equipa chumbaram a proposta. Ficou-se pela designação de um arruamento. Não fiquei admirado. E, neste momento, estou quase certo que não vou assistir a um movimento que trave este leilão. Fico com pena. Para mim é claro que para a Região a cultura conta muito pouco. Importante é ter futebol profissional e túneis, inclusive, na cabeça das pessoas. (ler aqui um texto do Dr. Rui Nepomuceno)
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

ALUNOS UNIVERSITÁRIOS DESPEM-SE PARA AJUDAR ALUNOS CARENCIADOS


Ao ponto que isto chegou! A necessidade de alunos da Universidade do Minho (entretanto parece que, rapidamente, a iniciativa se espalhou por todo o país), deixarem-se fotografar em nu discreto, a fim de produzirem calendários que visam angariar fundos para atenuar as dificuldades financeiras dos colegas. Não tenho qualquer preconceito relativamente à iniciativa. O nu pode ser artístico e, portanto, de acordo com o que vi, a qualidade supera aquilo que poderia ser considerado uma mera irreverência dos jovens. O que me preocupa é uma outra coisa: é o que a Constituição da República sublinha e aquilo que o governo faz.


Artigo 73.º
Educação, cultura e ciência
1. Todos têm direito à educação e à cultura.
2. O Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida colectiva.
O que o governo faz é exactamente o contrário. Alinha no Processo Bolonha, reduzindo as Licenciaturas para três anos (por um lado, desresponsabiliza-se do financiamento, por outro, ajuda ao pensamento único), aplica uma propina anual aos estudantes, a qual ultrapassa os € 1.000,00, reduz os apoios da Acção Social e explora os Mestrados com propinas absolutamente disparatadas. Pelo meio cresce o financiamento aos privados e reduzem, substancialmente, as verbas para a investigação científica. 
Tenho um Amigo de provecta idade que, ainda ontem, me dizia no meio da nossa longa cavaqueira: apetece-me dizer-lhes tudo terminando em "uta". De facto, ao ponto a que isto chegou. Na Educação é assim e, na Saúde, decorre um banco farmacêutico para recolha de medicamentos visando a entrega em instituições de solidariedade social. Um governo "uta", cuja caracterização máxima está na declaração da ministra das Finanças: "Não se pode ter tudo"! Já agora uma sugestão: que todos os membros do governo se dispam. Homens e mulheres. O problema, certamente, é que ninguém comprará os calendários.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

MADEIRA STORY CENTRE


A gerência da FUN - Centros Temáticos do Funchal informou que o seu centro temático Madeira Story Centre, localizado na Zona Velha do Funchal, encerrará as suas portas definitivamente no próximo dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira. Salienta a gerência que "pese embora todos os esforços, não consegue assegurar a sua sustentabilidade económica e financeira, pelo que terá de encerrar o espaço sobre a História do Arquipélago, loja e café". Mais um pouco de todos nós que desaparece. 


Conheço o espaço e por lá andei uma tarde com os meus netos. Foi fantástico levá-los a descobrir a História lendo os documentos de apoio e explicando-os. Estou certo que ficaram, culturalmente, mais ricos. Não domino os pormenores que vão conduzir ao encerramento, mas de uma coisa estou certo, embora sendo de natureza privada, aquele é um espaço que não deveria encerrar portas. Deveria ser cada vez mais enriquecido. E quando se assiste ao desperdício de tantos milhões para estádios de futebol, piscinas que não funcionam, heliportos desactivados, Jornal da Madeira, obras megalómanas de prioridade muito discutível, a cultura leva mais um rombo. E vêm alguns senhores falar de Autonomia e de transformação de mentalidades! Querem lá saber disso. Tenham vergonha.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

SECRETARIA REGIONAL DA EDUCAÇÃO: UM DESASTRE!


"Com mais de três décadas a investir de algum modo no campo da educação na Madeira, sempre o fiz a partir de um nicho institucional público: em escolas, no Centro de Apoio Pedagógico, na Escola Superior de Educação e, desde a sua criação, na Universidade da Madeira. Para além da formação de centenas de professores e educadores, a UMa tem sido igualmente responsável pela formação ao mais alto nível de mais de 250 Mestres e 25 Doutores em Ciências da Educação, provenientes da Região e do exterior. Bom seria que tivéssemos na Região massa crítica suficiente, capaz de gerar uma percentagem cada vez maior de profissionais apoiados em investigação avançada: gente de espírito livre, independente, com sentido crítico e atuante. Não fosse assim, para quê uma universidade? A opção política pelo ensino universitário, necessariamente mais exigente, faz da UMa uma conquista da autonomia, bastas vezes mencionada pelo executivo regional como sua filha dileta para o desenvolvimento educacional, cultural e social das suas gentes.


Mas, a esta distância, e olhando friamente para a atuação das diversas secretarias regionais de educação no seu relacionamento com a UMa enquanto instituição, pode-se constatar que, para a política da educação, a universidade nunca existiu: 
Nunca foi chamada para dar pareceres sobre qualquer matéria de interesse educacional; 
O simples envio de dissertações de mestrados à Secretaria Regional de Educação (SRE), com resultados de investigações realizadas na Região era encarado como provocatório, tendo a UMa deixado de o fazer;
A avaliação da Escola a Tempo Inteiro, solicitada pela SRE, acabou por não avançar, depois de a UMa ter apresentado uma equipa de avaliadores externos, tendo a Secretaria, em alternativa, optado por pessoal avaliador interno;
Recorreu-se a uma instituição privada “de vão de escada”, do Continente, como barriga de aluguer de uma universidade espanhola, para conferir habilitações rápidas a uma plêiade de “doutores” em Ciencias del Trabajo;
A pós-graduação em Inspeção Pedagógica nunca se realizou porque o desenho curricular não estava de acordo com o que um futuro aluno achava que ela devia ser… e também porque não se concordava com alguns professores indicados, na ideia de que quem paga tem o direito de fazer esse tipo de escolha…
Enfim, tenho assistido, incrédula, a estas e muitas outras situações de ignorância quase ostensiva relativamente à existência da UMa, como se ela fosse uma sua competidora em matéria científica de educação, ao invés de um recurso precioso, próximo e disponível, pago com o dinheiro de todos nós.
Porquê recorrer a privados em áreas cujo know-how existe na Universidade da Madeira?
Quem perdeu e quem ganhou com tudo isto?"
NOTA: Artigo de opinião da Professora Jesus Maria Sousa, publicado na edição online do "funchalnotícias.net", com a devida vénia aqui transcrito. Título: "UMA PERGUNTA IMPERTINENTE"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

PODERES DISCRICIONÁRIOS, NÃO, OBRIGADO!


Paula Teixeira da Cruz, Ministra da Justiça, ao Jornal I: "Quando (Mário Soares) se permite fazer um aviso a um juiz, é óbvio que temo, porque essas declarações revelam que não se interiorizou a separação de poderes". Não, Senhora Ministra, o problema não é esse, o da separação de poderes. O problema está, no quadro da separação de poderes, ter presente que seja qual for o poder, esse poder não pode ser discricionário. Houve tempo que era assim e ali ficavam.


Ah, existem os Tribunais superiores para reclamar. Pois, só que julgo que não se deve privar da liberdade para investigar. O caso em apreço não é um crime de sangue, por exemplo. É o que tenho escutado e lido através de juristas, de especialistas em Direito Constitucional e reconhecidos comentadores.
E quanto ao aviso a um juiz, oh Senhora Ministra, e o que dizer do Senhor Saldanha, o cidadão com Hepatite C, que em plena Comissão Especializada de Saúde da Assembleia da República, olhou para o Ministro da Saúde e depois de pedir que não o deixasse morrer disse-lhe na cara: "(...) mas a si eu vou encontrá-lo". As duas situações são comparáveis: o poder discricionário de privar da liberdade porque um sujeito entende que deve ser assim; o poder discricionário de um Primeiro-Ministro que entende que se devem salvar vidas "mas não custe o que custar".
Julgo que Soares não deveria ter escrito o juiz que "se cuide", mas cruzemos essa declaração que pode querer dizer muito, pouco ou mesmo nada, com a posição do Primeiro-Ministro face a pessoas que estão a morrer! Em ambos, por razões muito distintas, existe uma revolta e é esse estado que, pessoalmente, me interessa analisar.
Ilustração: Google Imagens

domingo, 8 de fevereiro de 2015

MAIS UMA BOLA PARA AS BANANEIRAS!


O secretário regional da Educação e dos Recursos Humanos pediu à União Europeia medidas urgentes de estímulos ao emprego. Isto é, transmitiu a ideia da região precisar de dinheirinho! Li e exclamei: mais uma bola para as bananeiras. Porque, certamente, do outro lado, devem surgir várias perguntas: o que é que os meninos andaram a fazer a tantos milhões transferidos? Que prioridades estabeleceram? Como chegaram a uma dívida de mais de seis mil milhões de euros fora as parcerias público-privadas? No quadro da Autonomia que políticas diversificadas foram implementadas geradoras de emprego sustentável? Quais foram as linhas estratégicas de orientação económica? Terão querido fazer em vinte anos o que deveria ter sido realizado em trinta? E ao nível da política educativa quais foram as preocupações para que hoje exista tanto abandono e insucesso escolar geradores de pobreza e de falta de qualificações?



Tantas as perguntas que podem ser colocadas a quem vem pedir medidas urgentes de estímulos ao emprego! No essencial, então, para que serviu a Autonomia Política e Administrativa? Para gastar ou para investir criteriosamente? 
Não se torna necessário ir muito longe. Acabo de ler uma entrevista com o Presidente da Câmara do Funchal, Dr. Paulo Cafôfo. A páginas tantas, o jornalista questionou sobre as irregularidades detectadas na Câmara do FunchalA resposta foi clara:
"(...) Esta auditoria detetou irregularidades financeiras com responsabilidade financeira para as pessoas que exerceram aqui as funções governativas. Posso dizer que, por exemplo, no ano de 2012/2013, o aspeto que se realça mais, foi que tivemos faturas sem compromisso ou despesas assumidas sem compromisso no valor de 28 milhões de euros. Isto é grave, como é óbvio, naquilo que é uma gestão da Câmara, uma gestão que encontramos numa situação financeira grave, ao contrário do que vinha sendo transmitido nos últimos anos de que a Câmara dava lucro e tinha uma situação estável. Esta auditoria veio confirmar mais uma vez que isso não era verdade. Nós fizemos uma rutura com aquilo que era a gestão financeira desta Câmara. Em apenas 15 meses, conseguimos reduzir a dívida da câmara em 22 milhões de euros. Isto é uma clara distinção daquilo que era a política do passado e a que é a do presente. Nós queremos uma visão da cidade, queremos que o Funchal seja a melhor cidade do país para se viver em 2020. São várias etapas para atingir esse objetivo e uma primeira etapa é a sustentabilidade e equilíbrio financeiros. Temos agora uma redução da dívida e uma regularização da situação financeira desta câmara. (...)"
Foi gastar à fartazana e a Câmara até dava "lucro" (saldo positivo), segundo o vereador responsável pelas contas. E são essas pessoas que pretendem fazer o mesmo ao mais alto nível da governação regional. Senhor Secretário, não jogue poeirinha para os olhos das pessoas.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

PARABÉNS ESCOLA GONÇALVES ZARCO PELOS DOIS DIAS DE EXCELENTE FORMAÇÃO


A Gonçalves Zarco foi, durante muitos anos, a minha Escola. Continua a ser a minha Escola. Ali se realizaram neste fim-de-semana as III Jornadas Pedagógicas que contou com a presença de mais de cem professores. Por ali passou a Professora Doutora Ana Benavente que foi Secretária de Estado da Educação, que produziu uma intervenção de excelência, entre muitos outros que ajudaram a reflectir o sistema educativo. "Ana Benavente assistiu nos últimos anos ao que diz ser uma grande destruição da escola pública e nesse sentido criticou “o silêncio pesadíssimo dos partidos, dos movimentos, da opinião pública”. Na sua opinião é muito preocupante: “Se nós perdermos o sentido do que é a profissão de professor, então perdemos muito mais do que apenas alguns anos de retrocesso político”. (DN-Madeira)


Convidaram-me e dei o meu contributo. Deixo aqui uma passagem do texto. "(...) Urge uma nova concepção de Escola. Alexandre Quintanilha é um doutorado em Física. Um cientista. Tem uma frase espantosa: “EU VIVO PORQUE SOU CURIOSO”. O problema, Colegas, é que nós andamos a matar a curiosidade nas nossas crianças. No nosso sistema, uma criança que coloca muitas perguntas, genericamente, perturba o planeamento da aula! E não deveria ser assim. Há outras formas de organização.
Li, há muitos anos, em “Professores para quê”, de Georges Gusdorf: “O mais alto ensinamento do Mestre não está no que diz, mas no que não diz”. E no meu relatório de estágio pedagógico, em 1971, escrevi no preâmbulo, uma frase de Bernard Shaw. Lembro-me como se fosse hoje: “Quem pode cria, quem não pode ensina”. Uma escola de receptores e de não participantes é uma escola condenada. E Bernard Shaw nasceu em 1856. Portanto, despertar essa curiosidade só é possível com uma ampla autonomia, um outro sentido organizacional e com um outro enquadramento pedagógico. Não há volta a dar.
E mais vos digo: ao ministério deve competir a definição de um conjunto de objectivos finais de ciclo, que se exprimem em uma folha A4; aos estabelecimentos de educação e ensino os currículos e os programas, a partir de uma matriz de base nacional. Estou a referir-me, particularmente, até ao final do 9º ano, onde o futuro toma forma. Não são palavras minhas, são da OCDE: “Escolas que podem escolher o que ensinam têm melhores resultados”. Porque há mais mundo que não se esgota nos currículos impostos. Eu sei que isto não depende apenas dos professores. Depende da política. Eu sei que é muito difícil romper com consciências adormecidas por anos a fio de rotinas. Mas vale a pena, até pela nossa sanidade mental, agitar ideias e reequacionar tudo de novo. (...)"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

HEPATITE C


"Não me deixe morrer. Eu quero viver" (...) "tenho uma filha e não quero morrer", gritou o homem para o ministro da Saúde. Ele manteve-se impávido e sereno, como se nada tivesse a ver com o desejo do português infectado. O primeiro-ministro já tinha avisado que isto não pode funcionar a qualquer preço. Por aproximação ao que se passa na relação do cidadão com o fisco, primeiro paga e depois reclama, também aqui, o "nosso primeiro", com todo o respeito pelos sargentos, parece dizer: morra primeiro e reclame(!) depois. Aliás, a ministra das Finanças, há dias, já tinha assumido junto dos Deputados do PSD: "não se pode ter tudo".


Chocante a atitude javarda, desculpem-me a palavra, destes governantes de meia tigela. A Saúde é um direito, não é um favor, não é uma  benesse, não é uma dádiva. A Saúde é o primeiro bem que uma pessoa pode dispor. Por isso mesmo pagamos, descontamos balúrdios no IRS, em taxas e sobretaxas e, no caso dos funcionários públicos, para o sub-sistema ADSE. 
Gente que vê o seu semelhante a correr contra o tempo de vida, que vê o tempo de alguns a se esgotar e que não actua em tempo real, preferindo manter esta vergonhosa austeridade, é gente que de humanismo nada sabe. Sabe, apenas, de mercados, de dinheiro, de compromissos sujos alicerçados no exercício de uma política nojenta. Preferem a morte do que salvar vidas, porque o medicamento é caro. Comprem o fármaco e discutam o preço depois. Que gente reles!
Ilustração: Google Imagens. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

UM COMUNICADO PATÉTICO


Pelo que li, a SDM (Sociedade de Desenvolvimento da Madeira) transformou-se em partido político. A leitura do comunicado (DN-Madeira de hoje) sob a forma de publicidade a tal nos conduz. Seria legítimo e democrático, a partir de declarações políticas produzidas em um debate na RTP-M pelo Deputado Dr. Carlos Pereira (PS), sobre o Centro Internacional de Negócios da Madeira, que a tutela (governo regional) se posicionasse no contraditório. Mas não, é a SDM, a concessionária que salta em defesa do "patrão político". 


Só por aí o comunicado deixa de ter qualquer valor político. Trata-se de "publicidade" por quem se sente, desde há muito, acossado com a verdade. Este é o primeiro ponto. Mas há outros. Em segundo lugar, fui parlamentar e sempre assisti a uma acérrima defesa do CINM por parte do Dr. Carlos Pereira, embora não deixando de apontar as fragilidades que deveriam ser corrigidas, mormente a gestão privada. E são muitas as debilidades. Em terceiro lugar, com a ascensão do PSD/CDS ao governo do País, não foi salientado que o(s) drama(s) do CINM seria(m) todo(s) ultrapassado(s)? E, entretanto, não se passaram quase quatro anos e a situação, pelo que li, não só não melhorou como piorou? Então, como é que a SDM se atira, ainda, ao governo do Engº José Sócrates e do Secretário de Estado Sérgio Vasques? 
Mais. Fulanizar a questão CINM traz, complementarmente, a tentativa de encontrar um bode expiatório e a assunção do próprio insucesso. Há, portanto, muita coisa mal explicada e é por isso que este comunicado é patético e erróneo, porque não situa as outras variáveis que estão em causa. E que fique claro que este meu posicionamento é a de um cidadão, não especialista, que apenas olha, segue e descobre contradições que me fazem lembrar o "gato escondido com o rabo de fora".
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A GRAVATA


Matteo Renzi, Primeiro-Ministro de Itália ofereceu uma gravata a Alexis Tsipras, recentemente eleito Primeiro-Ministro da Grécia. Tsipras, risonho, recebeu e prometeu usá-la quando for encontrada uma solução para a dívida do seu país. Pessoalmente, considero uma atitude de mau gosto. Se pretendeu, no plano político, ter algum humor, acabou por ser ridículo e desadequado. É chamar-lhe qualquer coisa pejorativa de uma forma alegadamente "elegante". 


As pessoas não valem pela gravata ou pelo lenço que usam. Não valem pela roupa e sapatos de marca que ostentam, ou pelo penteado de um reconhecido cabeleireiro. Pode-se ter uma grande dignidade, mesmo em momentos oficiais, sem salamaleques e respeito por convenções que são apenas isso, convenções. As pessoas valem pelos princípios e pelos valores que defendem, pelos seus comportamentos e verticalidade na vida. Quantos engravatados nos têm andado a tramar? Passemos os olhos pela Europa, por governantes sem escrúpulos e vergonhosos banqueiros! Todos no topo da moda. A lista é infindável. O Primeiro-Ministro italiano que olhe para dentro de casa e analise o "ultra bem vestido" Silvio Berlusconi. De que vale a montra se a loja e o armazém são um desastre?
Uma boa atitude não se mede pela gravata. Convencionou-se que a gravata é um adereço normal e "obrigatório" no vestuário de um homem. Mas isso não traduz a valia e a grandeza de um homem. Olhemos, por exemplo, para José Alberto Mujica Cordano, conhecido como Pepe Mujica, o Presidente do Uruguai que deixa o cargo no dia 01 de Março. Mujica disse à CNN: "o presidente é um funcionário que foi eleito pelas pessoas para um momento e uma etapa" e "ninguém é melhor que ninguém". Em relação aos políticos que gastam muito dinheiro, defendeu que "têm de ser corridos" porque "são um perigo". A política, referiu, "é a luta pela felicidade de todos". Princípios, digo eu, que a gravata e a aparência não resolvem.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ONDE ESTÃO AS FAMOSAS PROVAS OU OS FORTES INDÍCIOS DOS CRIMES QUE ME IMPUTAM?


"José Sócrates diz, em entrevista divulgada esta noite pela SIC, que é esta "a resposta que falta". O antigo primeiro-ministro volta a criticar as fugas ao segredo de justiça e a teatralidade da sua detenção. O ex-primeiro-ministro, detido preventivamente desde Novembro por indícios de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, volta a criticar a investigação e "as suas presunções" numa entrevista divulgada esta noite no "Jornal da Noite", da SIC. José Sócrates caracteriza o perigo de fuga que fundamentou a sua prisão preventiva como um "absurdo", refere-se à sua detenção como um "espetáculo", e critica as fugas ao segredo de justiça que, diz, "mostram que este processo assenta muito mais em teorias e presunções do que em provas e indícios concretos".

Reafirmando que "esta prisão preventiva é abusiva, desproporcionada e ilegal", Sócrates defende que há uma pergunta a que a acusação deveria responder. "Onde é que estão as famosas 'provas' ou os 'fortes indícios' dos crimes que me imputam? E, ao certo, de que crimes concretos é que estamos a falar?", diz, considerando que enquanto faltar esta resposta "nem esta prisão preventiva se justifica nem este processo pode ter futuro".
"É cada vez mais claro que neste caso se prendeu para investigar. O que aconteceu aqui foi uma total precipitação de quem estava tão cego pela sua intenção persecutória ou tão convencido da sua teoria e das suas presunções que avançou sem provas ou sequer fortes indícios de quaisquer crimes", afirma.
O antigo chefe de governo recusa entregar-se "ao exercício voyeurista" de descrever o seudia-a-dia no Estabelecimento Prisional de Évora, mas tem muito a dizer acerca das fugas ao segredo de justiça, de que também é acusado pelas entrevistas que tem dado. "Sou obrigado a defender-me na praça pública porque é também na praça pública que estou a ser acusado e julgado", justifica. "Era o que mais faltava que eu tivesse de assistir em silêncio à divulgação criminosa de informações manipuladas e objetivamente difamatórias sem fazer nada em defesa da minha honra e do meu bom nome", insurge-se.
"E não é só a violação do segredo de justiça, são as mentiras: malas de dinheiro que iam para Paris; o milhão descoberto num cofre que nunca foi meu; e agora um fundo que eu teria para "esconder" os imóveis que nunca tive. Tudo invenções e mentiras", realça, defendendo que o teor das violações do segredo de justiça é "sempre favorável à acusação". "Parece que o Ministério Público acha que o que realmente perturba o inquérito é o exercício legítimo do direito de defesa da honra. Logo, a seguirmos esse raciocínio, a defesa do arguido é, em si, 'perturbadora'. Lindo!", censura. "O ideal do Ministério Público será, portanto, o de um processo onde o arguido esteja em respeito, viradinho para a frente, sem se defender. Porque defender 'é perturbar', acrescenta.
Referindo-se a Afonso Camões, atual diretor do Jornal de Notícias (do mesmo grupo a que pertence o DN), que admitiu ter avisado José Sócrates, em maio do ano passado, de que estava a ser investigado, o ex-primeiro-ministro garante que, na época, reagiu com "o desprezo e a indiferença" que, diz, sempre lhe mereceram os boatos e os rumores. "Não lhe dei mais importância que isso. No entanto, essa conversa ganha, hoje, outra relevância, tendo em conta o que entretanto se passou", admite.
Salienta, contudo, que a denúncia de Afonso Camões "significa que, ao menos neste caso,as violações do segredo de justiça vieram precisamente daqueles a quem compete fazer justiça e aplicar lei". De seguida, apresenta quatro factos que, na sua opinião, demonstram isso mesmo: "este processo está à guarda do procurador e do juiz; todas as 'fugas' ao segredo de justiça têm sido favoráveis à acusação; um diretor de jornal escreveu expressamente num editorial que os jornalistas obtêm informações deste processo junto dos próprios responsáveis pela investigação"; e, um artigo do jornal "Público" onde se lê "preto no branco", que as informações foram obtidas junto de "fonte judicial".
José Sócrates repete que o amigo Carlos Santos Silva, também em prisão preventiva no âmbito da Operação Marquês, lhe fez empréstimos, os quais tenciona pagar. "Essa é a verdade e não constitui crime, nem aqui nem em lado nenhum do Mundo", reafirma. "Ao contrário do que se pretendeu fazer crer, não há nenhuma contradição entre a existência desses empréstimos e o outro que também contraí, e entretanto paguei, junto da Caixa Geral de Depósitos. Tal como o facto de ter tido dificuldades de liquidez num certo período da minha vida não significa que não tivesse um horizonte financeiro, pessoal e familiar, compatível com o meu nível de despesas. Mas, já agora, sem querer 'perturbar' esta tão interessante discussão das várias teorias sobre a minha vida pessoal e financeira, talvez valha a pena recordar que estamos no âmbito de um processo criminal, que é suposto investigar crimes e sustentar-se em factos, não em opiniões sobre a vida dos outros", acrescenta.
Questionado sobre se alguma vez ajudou os negócios do Grupo Lena, mesmo depois de deixar o Governo, Sócrates responde: "Nunca, em nenhuma circunstância, durante todo o tempo em que exerci funções governativas, tomei qualquer iniciativa, diretamente ou através de terceiros, para favorecer as empresas do Grupo Lena ou do meu amigo Carlos Santos Silva. Não tenho nada que ver com a vida empresarial dele, ele nunca me pediu nada enquanto fui membro do Governo. A nossa relação fraterna é pessoal não é profissional".
O antigo governante confirma que, neste último verão, num almoço com o amigo Carlos Santos Silva e um administrador do grupo Lena, lhe perguntaram se poderia "diligenciar para que essa empresa fosse recebida" pelo vice-presidente angolano, Manuel Vicente. "Acedi ao pedido por mera simpatia e fiz esse contacto com gosto, sem nenhum interesse que não fosse ajudar uma empresa portuguesa, como, aliás, fiz com outras", garante.
Nesta entrevista à SIC, José Sócrates diz ainda que aguarda explicações do diretor do DCIAP (Departamento Central de Investigação e Ação Penal), Amadeu Guerra, em relação a um e-mail que diz ter enviado a às 15h54 de 21 de novembro em que se mostrava disponível para dar todos os esclarecimentos sobre o caso, o qual só foi oficialmente recebido às 16h04 do dia 25. "Esse pequeno truque - ignorar o e-mail e sustentar o perigo de fuga - é muito revelador", considera, dizendo que "não é preciso ser adivinho" para saber que estava a ser investigado depois das buscas em casa do filho e da notícia da detenção de pessoas próximas.
Garantindo nunca ter fugido de nenhuma dificuldade, o antigo primeiro-ministro considera que alguém está a esforçar-se muito para não ver o óbvio quando se invoca o perigo de fuga como um dos fundamentos da prisão preventiva. "Eu vinha a entrar, não a sair!", diz acerca da sua detenção no aeroporto de Lisboa, "com todo aquele espetáculo mediático".
"A verdade é esta: a minha detenção nada teve a ver com Justiça, mas com espetáculo. Não se tratou de cumprir um qualquer objetivo jurídico legítimo mas teatralizar politicamente uma ação judicial", defende".
NOTA
Texto publicado no MSN e aqui reproduzido com a devida vénia.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

"MAIS RÁPIDO, MAIS FORTE, MAIS ALTO"


Os testes de laboratório realizados a Cristiano Ronaldo mostram a sua capacidade acima da média na impulsão, na velocidade e na força de remate. Dizem que, do ponto de vista atlético, o que mais distingue Cristiano Ronaldo é a potência. E concluem que o lema olímpico “citius, altius, fortius” “serve na perfeição para descrever o que, do ponto de vista atlético, mais destaca Cristiano Ronaldo dos outros futebolistas” (Público, 12/01/2015). 


O “citius, altius, fortius” idealizado pelo frade dominicano Henri Didon (1840-1900) tem as suas origens naquilo a que, em Inglaterra, em meados do século XIX, ficou conhecido como “cristianismo muscular”, um movimento que associava a cultura desportiva ao desenvolvimento espiritual da fé cristã: Vencer por Cristo e jogar por glória Dele. Este movimento, numa rutura com um passado que, por motivos religiosos, colocava entraves ao desenvolvimento das práticas desportivas, acabou por merecer a aderência tanto da Igreja Católica quanto da Protestante. Teve como principais promotores Charles Kingsley (1819-1875) que via na prática desportiva o contraponto do ensino livresco e Thomas Hughes (1822-1896) que, com o livro “Tom Brown`s School Days” uma espécie de mensageiro da escola pública de rugby, se opunha à promoção do “homem muscular”, quer dizer, de um desportista desprovido de espiritualidade.
Pierre de Coubertin foi fortemente influenciado não só pelo modelo inglês das escolas públicas, “amat victoria curam”, que quer dizer: “a vitória ama o esforço”, de Thomas Arnold (1795-1842), bem como pelo frade Didon um entusiasta da educação desportiva enquanto método energético de envangelização através dos valores educativos do esforço físico, da conquista pessoal e da persistência da vontade de vencer, quer dizer, da força moral que comandava a educação pelo desporto de Inglaterra de meados do século XIX. Por isso, Coubertin, por diversas vezes, na vasta obra que publicou, expressou, quer direta, quer indiretamente, a sua visão do sentido transcendental do desporto que considerava o instrumento pedagógico da religião laica que era o Olimpismo. 
Neste sentido, os Jogos Olímpicos renovados sustentavam-se em quatro princípios:
1. Serem uma religião, quer dizer, uma adesão a um ideal de vida superior que aspira ao aperfeiçoamento;
2. Representarem uma elite de origem totalmente igualitária que traduz a diferença dos méritos relativamente à igualdade de oportunidades;
3. Promoverem um momento de tréguas, pela celebração quadrienal da primavera humana;
4. Glorificarem a beleza pela celebração dos jogos das artes e do pensamento.
Por isso, como Coubertin afirmou no Almanaque Olímpico (1920) a vida é simples porque a luta é simples. Pelo que, um bom lutador:
1. Recua, mas jamais abandona a sua posição; 
2. Pode ceder, mas nunca renunciará;
3. Perante o impossível contorna-o e vai ainda mais longe; 
4. Se lhe falta o folego, repousa e espera uma nova oportunidade;
5. Se é posto fora de combate, encoraja os seus companheiros com a sua palavra e a sua presença;
6. Mesmo quando, à sua volta, tudo se desmorona não se deixa tomar pelo desespero.
Repare-se que a divisa olímpica foi, pela primeira vez, citada por Michel Bréal durante o primeiro Congresso Olímpico (1894) mas como se pode verificar no nº 1 do Boletim do Comité Internacional dos Jogos Olímpicos com uma ordem diferente das palavras: “citius, fortius, altius”. Como refere Conrado Durántez, de acordo com a ideologia do “cristianismo muscular”, a intensão era dar à divisa um sentido de elevação aos Céus.
Assim sendo, a divisa olímpica encerra um sentido de transcendência pelo que não pode ser simplisticamente, por motivos de mera oportunidade, reduzida à potência que um qualquer atleta demonstra nas circunstâncias de um teste laboratorial. 
Cristiano Ronaldo viu um vermelho direto no jogo entre o Real Madrid e o Athletic de Bilbao, na 22ª jornada da Liga espanhola por agressão a um adversário. Mas, depois do “calor da batalha”, não levou muito tempo a reconhecer o erro. E disse: “peço desculpa a todos e especialmente, ao Edimar pelo meu ato irrefletido no jogo de hoje” (A Bola.pt, 24-01-2015). Ora, para além de todos os dados do domínio biológico que se possam encontrar no atleta, é esta a grandeza humana que está contida no “citius, altius, fortius” pelo que, numa lógica cartesiana completamente fora do tempo e do conhecimento, é impróprio reduzir a máxima olímpica a um simples biologismo sem qualquer sentido humano. Por isso, na humildade de pedir desculpa, Ronaldo preservou a máxima do apóstolo Paulo que consubstancia a filosofia do “cristianismo muscular” que, um dia, no final da sua carreira de grande futebolista, há de também celebrar: “lutei num bom combate, terminei a corrida, mantive a fé”.
O humanismo em Coubertin, como se pode verificar na sua vasta obra, desenvolveu-se entre a tradição católica e a modernidade laica, numa permanente interrogação cultural. O problema é que, nos tempos que correm, uma das “doenças da alma” humana expressa-se na desvalorização do discurso da cultura relativamente ao imediatismo superficial e reducionista das imagens, com dramáticas consequências para o desenvolvimento do Movimento Olímpico (MO). Desde logo porque o desenvolvimento do MO se faz com cultura e não com capacidades físicas sem significado para além delas próprias.
Hoje, a expressão “citius, altius, fortius” tem um sentido em que:
• O “citius” não significa só velocidade atlética mas um espírito vivo e decidido perante os desafios da vida; 
• O “altius” não significa só um objetivo desportivo mais elevado mas a própria elevação do indivíduo aos mais nobres valores do homem e da vida; 
• O “fortius” não significa só ser-se mais corajoso no combate desportivo mas em todos os combates da vida. 
É nesta perspetiva e só nesta que o “citius, altius, fortius” pode caracterizar Cristiano Ronaldo enquanto ser humano e desportista. Tudo o mais, pouco ou nada tem a ver com divisa olímpica.
A sociedade tem de olhar para os seus atletas enquanto heróis do nosso tempo mas, sobretudo, enquanto seres humanos. Quer dizer, com respeito. É uma tarefa que cabe aos Comités Olímpicos Nacionais mas também a todos aqueles que, nas Escolas, nas Federações, nos Clubes e, entre outros, nas Universidades, de acordo com a Carta Olímpica, fazem parte do MO. Se assim não for, à revelia do credo subjacente ao “citius, altius, fortius”, os atletas, como refere Manuel Sérgio, correm o risco de serem reduzidos à condição de “bestas esplêndidas”. 
NOTA:
Um artigo publicado no Jornal A BOLA, assinado pelo Professor Doutor Gustavo Pires, que aqui transcrevo com a devida vénia.