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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A FALÊNCIA DO SISTEMA DESPORTIVO REGIONAL (III)

Um leitor deste espaço, a quem agradeço os comentários, pois é sempre bom debater e esclarecer estes assuntos, deixou uma mensagem sobre a distribuição das verbas dos Jogos da Santa Casa. Pela importância do assunto, deixo aqui a minha posição, começando por um breve comentário ao texto do leitor. Vamos a isto.
Eu não coloco o problema dessa maneira, isto é, se o Engº Sócrates é bom ou mau para a Região. Não entro nesse tipo de discussão pois prefiro pensar e analisar por mim próprio, distante de qualquer posicionamento partidário, no pressuposto que gosto tanto da Madeira como qualquer outro que aqui viva. Defendo, intransigentemente, tudo o que constitua direitos nossos, mas não alinho no coro das reivindicações sem razoabilidade que o bom senso aconselha. Penso, à luz dos dados existentes, que não é correcto, reivindicar 2,5% das verbas dos Jogos da Santa Casa em função da população que somos. Estudei este assunto e tive uma longa reunião com o Senhor Secretário de Estado do Desporto e respectivo corpo técnico. Baseado em dados factuais, a este propósito, deixo ao leitor, para reflexão, uma parte de uma intervenção que produzi na ALM, há já algum tempo, com a ressalva dos elementos de então, no que diz respeito aos valores, poderem não ser exactamente os mesmos.
"(...) Tem sido recorrente, por parte do PSD, a questão dos direitos da Madeira no âmbito da distribuição das receitas dos jogos sociais da Santa Casa da Misericórdia. Logo à partida, seria bom para este debate e sobretudo honesto que V. Exas. dissessem aqui quanto é que a Região recebia, não vamos muito longe, no tempo do Primeiro-Ministro Durão Barroso e quanto é que recebe agora. Posso assumir face aos dados que disponho, extraídos dos relatórios da Santa Casa, que hoje, passados mais de dois anos, é o dobro. Em 2006 os tais 0,2% renderam 1.451.751,10 Euros à Região. E é preciso que se esclareça que ao tempo do PSD na República, o PM Durão Barroso excluiu o Euromilhões do conjunto das receitas destinadas ao desenvolvimento desportivo. Com o crescimento deste novo jogo e a significativa baixa de receitas provenientes da lotaria nacional, lotaria instantânea, totobola, totoloto, loto 2 e Joker, os resultados de exploração sofreram uma baixa que só na parte do desporto rondou os 10 milhões de euros. Foi preciso este governo fazer publicar o DL 56/2006 para que se restabelecesse a normalidade com a inclusão do euromilhões, ao ponto de, hoje, a situação ser bem melhor, pois atingiu, em 2006, 54,3 milhões de euros. É por isso que a Madeira recebe mais do dobro do que recebia ao tempo do PM Durão Barroso. Argumentam, ainda, V. Exas. que 0,2% é pouco e que deveria ser 2,5%. Pedir é fácil. Só que as receitas dos jogos sociais da Santa Casa não se destinam, apenas, ao desporto. Há verbas destinadas à Administração Interna, neste caso, à protecção civil e aos riscos sociais; há verbas destinadas ao Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social com um extenso quadro de intervenção que a Madeira também beneficia; há verbas para o Ministério da Saúde e para a Cultura. Replicarão, ainda, V. Exas., mas o Instituto do Desporto de Portugal recebe 7,8%. É verdade que sim. Mas quem é que suporta os contratos programa com as federações desportivas que, por sua vez, apoiam as associações regionais, as representações de Portugal nas competições internacionais e, entre outros, a participação olímpica de Portugal? Nós contribuímos com alguma coisa para isso? Obviamente que não. E mais, para todo o país o Instituto do Desporto de Portugal dispõe de cerca de 70 milhões, 45% dos quais para despesas de funcionamento; a Madeira atribuiu, só em 2005/06, 27,7 milhões em subsídios ao associativismo. Mas queremos dizer mais uma coisa. Os 0,2% que a Região da Madeira recebe deveriam ser para o desporto escolar e para investimentos em infra-estruturas desportivas escolares. Isto está na lei. Seria bom que ficasse aqui esclarecido onde é que tais verbas têm sido aplicadas. No desporto escolar certamente que não, porque são muitas as iniciativas escolares que têm sido canceladas por falta de financiamento.
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,
Regressamos, portanto, à ideia inicial. O problema é de reorganização do sistema desportivo. Por este caminho, os dados estão aí, porque os investimentos percapita na Madeira são assustadoramente maiores que no restante país, cerca de 15 vezes mais, é evidente que tarde ou cedo verificar-se-á o colapso do sistema regional. Daí que o que há a fazer é rever o sistema e gerar um novo paradigma que acabe com as pressões do movimento associativo sobre o governo, que acabe com a utilização do desporto para fins de propaganda política e que, apesar de todos os constrangimentos, sobretudo financeiros, não ponha em causa a representação da Madeira nos planos nacional e internacional. Fica clara a nossa posição. A Região contará sempre connosco para defender causas justas e para corrigir situações de injustiça que ponham em causa os nossos direitos. O contrário, não."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A FALÊNCIA DO SISTEMA DESPORTIVO REGIONAL (II)

Ainda hoje falaram-me que a situação poderia eventualmente ser outra se, na Assembleia da República tivesse sido aprovado o Fundo Nacional de Integração Desportiva. Tratava-se de um penso numa ferida muito grave. Isto, relativamente, à situação de aflição de todo o associativismo desportivo e do próprio IDRAM. A questão não é, em minha opinião, de mais dinheiro, mas de uma aplicação racional dos milhões disponíveis. A este propósito aqui fica o texto que então escrevi:
"Julgo que pela quinta vez o PSD-M, depois de aprovar na Assembleia Legislativa da Madeira uma proposta de Lei à Assembleia da República, cujo fim último é o do pagamento, pela República, das viagens dos atletas da Madeira em competições nacionais, viu tal proposta ser chumbada. Apoio, totalmente, essa decisão dos Deputados da Assembleia da República. Aliás, para que fique claro, quando o PSD tinha maioria no Parlamento Nacional, esta mesma proposta também foi chumbada. Do meu ponto de vista nada mais natural e justo. Não está aqui qualquer discriminação da Região no sentido de impedir que as equipas da Madeira participem nos quadros nacionais. O que está em causa é uma questão de Autonomia, de Orçamento Regional próprio e, sobretudo, de grandes opções relativamente à política desportiva. Este é um assunto que levaria horas, neste caso, muito espaço para desenvolver a defesa do meu ponto de vista (aliás, já publiquei muitos dados a este respeito), mas sempre quero dizer que O DESPORTO REGIONAL NÃO PODE ESTAR CERTO QUANDO A SOCIEDADE ESTÁ ERRADA. E pergunto: será que uma terra destas, pequena, pobre, sem recursos e dependente pode garantir mais de 1600 participações anuais (média de 40 por semana), envolvendo 37 modalidades? Será que pode manter, sob a responsabilidade do erário público, julgo que doze equipas nos quadros nacionais de futebol (fora juniores, etc.)? Será que pode manter mais de duzentos atletas continentais e estrangeiros a integrar as equipas da Madeira para representá-la nos quadros nacionais e internacionais? Será que pode ter cerca de 56 modalidades desportivas subsidiadas? Será que pode ter 21 associações desportivas e 154 clubes, todos dependentes do Orçamento Regional? Será que devemos ter mais seniores que o conjunto das categorias de iniciados, juvenis e juniores? Será que a Região deve andar pelas competições nacionais em detrimento dos quadros competitivos regionais? Será que deve manter um gasto anual por atleta federado de € 2.028,00, enquanto o investimento promocional da Madeira no turismo não vai além dos € 249,00 por cama? Será que devemos ter 16.000 federados (dizem!) e apenas 4.000 no desporto escolar?
São muitas questões que, em tempo de crise (mesmo que não fosse), devem voltar a ser equacionadas e profundamente reflectidas. Esta proposta do PSD-M está aos olhos de quem quer analisar, friamente, a situação surge apenas por uma necessidade de dinheiro fresco para poder manter este insustentável MONSTRO que foi alimentado ao longo de 30 anos.
Nota:
Este texto foi publicado em 20.12.2008

A FALÊNCIA DO SISTEMA DESPORTIVO REGIONAL (I)

É preciso ter muita lata para pedir ao associativismo desportivo que vá à banca contrair empréstimos para pagar dívidas que são, efectivamente, da responsabilidade do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira. Diz o Diário, que ronda os sete milhões de Euros! Que vão à banca e que, naturalmente, hipotequem os seus bens pessoais. E no caso do governo falhar, deduzo, que se vão os anéis e que fiquem os dedos.
Qualquer pessoa, político, gestor ou administrativo sabia, desde há muito, que esta política desportiva estava completamente errada. E se não sabiam, porque preferiram assobiar para o lado, demonstram, agora, a mais pura ignorância da realidade da Região aos mais diversos níveis de análise. Sempre sublinhei que esta era uma política desportiva ao serviço da POLÍTICA e não uma política desportiva ao serviço do DESENVOLVIMENTO. A este propósito apresentei, na Assembleia Legislativa da Madeira, um Projecto de Decreto Legislativo Regional que foi chumbado pelo PSD.
Ora, o que aqui se passa não abona um governo que, prioritariamente, deveria olhar para o sector do desporto como bem cultural, deveria olhar, em função dos níveis de pobreza e das carências gerais, deveria olhar para o desporto como um meio de Educação, deveria olhar para os clubes como instituições continuadoras da actividade escolar e veículos de cultura e bem-estar das populações. Simplesmente porque somos (infelizmente) uma Região pobre, com problemas até ao céu da boca, com históricas dificuldades para atender aos dramas sociais que nos rodeia, desde o desemprego, às angústias dos empregadores, até à complexa situação de centenas de idosos quer no que concerne à ausência de alojamento em lares quer na atribuição de subsídios compensadores das magras pensões que auferem. E andam para aqui a jogar um acéfalo jogo de ricos, com milhares de deslocações e de subsídios, com contratualizações de atletas continentais e estrangeiros ao serviço de uma representação regional que não é portadora de futuro algum.
É evidente que não me situo num campo miserabilista, isto é, que não devamos ter direito à participação nacional e internacional. Não é isso que está em jogo. O que não é defensável é a ausência de rigorosas prioridades, o que está em causa é a existência de Sociedades Anónimas Desportivas com a participação de dinheiros públicos (quem quer andar no casino que encontre meios para isso), o que está em causa é o histórico abandono do desporto escolar à míngua de verbas para suportar um trabalho educativo e de qualidade.
O problema não é de agora. Há clubes na falência, há associações que carregam dívidas incomportáveis mas continuam a fazer estádios, a jogar fora o dinheiro dos impostos de todos, como se fossemos uma Região rica, de pleno emprego e com a maioria dos seus problemas resolvidos. Que tristeza! Sinto pena.
Nota: Não me digam que o Engº Sócrates também é o culpado pela política desportiva da Madeira!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A CADEIRA E O TEMPO QUE CORRE CÉLERE

Há muito que defendo que toda a oposição, particularmente o Partido Socialista, deveria estar organizada no sentido de ganhar actos eleitorais mas com o Dr. Jardim no poder. Isso já poderia ter acontecido por mais estável, embora gasta, que esteja a cadeira onde se senta. Não alinho na defesa do princípio que só depois da sua saída da cena política activa a oposição espreitará uma oportunidade. Essa leitura de processo só é entendível à luz da deficiente organização da própria oposição. Não acredito naquele pressuposto por duas razões: primeiro, porque o líder do PSD não deixará a liderança tão cedo. Os múltiplos interesses no seio do partido e da clientela que se move em seu redor, conjugados com a complexidade da situação económica e social da Madeira, não lhe permitem passar o testemunho. Presumo mesmo que os que desejariam para lá caminhar, hoje, colocam sérias reticências face a um quadro que não permite dormir descansado. Alguns, deduzo, sentir-se-ão bem na pele de "funcionários", outros, pensarão que quem comeu a carne que roa os ossos; em segundo lugar, o próprio Dr. Jardim, político que ama o poder, sabendo que conta com poucos apoios (falou de um general sem tropas) para dar um salto de âmbito político nacional, é bem provável que por aqui fique e, aí, só lhe restará manter-se no palco. Mesmo que, por qualquer razão, avente a hipótese de ceder lugar, ele já clarificou que vai continuar politicamente activo. Uma espécie de sombra terrível de quem o substituir no seu partido. Será necessário, digo eu, ter um estômago do tamanho de um boi para digerir as consequências da presença do protector.
Bom, dir-se-á que estas são apenas conjecturas. Por mim pouco ralado estou. E se aqui coloco esta divagação é apenas para regressar ao princípio e sublinhar que é possível derrotá-lo nas urnas. Aliás, este último acto eleitoral, veio provar isso mesmo. Atente-se, por exemplo, no equilíbrio das votações no Porto Moniz, em S. Vicente, em Santa Cruz, em Machico (com todo o esforço financeiro ali aplicado pelo governo) e mesmo em Santana (a votação em S. Jorge), atente-se no equilíbrio que já aconteceu na Ponta do Sol, no Porto Santo e no Funchal e facilmente se perceberá que existe uma potencial população, mesmo nos concelhos mais distantes do Funchal, que evidencia sinais de desejar uma mudança de orientação política. Não tem é havido, apesar de todos os constrangimentos políticos externos, capacidade interna para o Partido Socialista oferecer uma imagem pública de grande consistência e geradora de confiança. E, curiosamente, o Partido tem excelentes quadros mas isso obviamente que não chega. Há uma histórica ausência de sentido organizacional e um medo em assumir um governo sombra que faça, nos sectores fundamentais e com políticos de qualidade técnica, um sistemático contraponto às políticas do governo. Ao mesmo tempo que este tem constituído um sinal negativo não tem existido inteligência e capacidade política para negociar com a restante oposição. Reconheço que não é fácil essa tarefa mas reconheço, também, que tem faltado habilidade na condução das negociações. O sistema político na Madeira chegou a um ponto que não pode continuar com os partidos políticos e eventuais grupos de cidadãos divorciados daquilo que os une enquanto oposição, cada um para seu lado, metidos na sua concha, defendendo e gerindo pequenos espaços de influência, numa manifesta intenção de preservação da sua base eleitoral e pouco mais do que isso. Um certo e latente egoísmo terá de dar lugar à existência de pontes de convergência sob pena de continuarmos, todos, a ajudar à manutenção do jardinismo.
Estamos a vinte e quatro meses de um acto eleitoral determinante para a Região. As eleições regionais de 2011 podem e devem constituir um sinal de viragem na orientação política. É possível a oposição ganhar e abrir espaço para novas políticas. Os sinais que andam por aí de evidente descontentamento, conjugado com o número dos abstencionistas (que significado terá?), podem querer dizer que apenas esperam, desde logo, um PS devidamente organizado, com qualidade política, com projecto sério, com pessoas socialmente reconhecidas. É por isso que terá de haver juízo, muito juízo, repito, para que daqui a dois anos não choremos sobre o leite derramado num permanente regresso aos lamentos de sempre.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A IMPORTÂNCIA DE DESENHAR O FUTURO

Confesso que sinto um enorme desconforto político. Mandam as mais elementares regras da Democracia que se cumprimente os vencedores. Faço-o por dever e respeito até porque aprendi, desde muito cedo, "a ganhar com generosidade e a saber manter o bom humor na derrota". Obviamente, tal não impede uma legítima análise factual e de pendor interno. Raramente a faço. Chegou o momento de dizer basta!
Entendo que um Partido, como decorre da responsabilidade do PS, só tem razão de existir se a sua predisposição for a de ganhar e demonstrar que as suas políticas garantem bem-estar e desenvolvimento em todos os quadrantes. Neste pressuposto, por mais que, pontualmente, nos alegrem as pequenas vitórias, elas não podem esconder o deserto global por ineficácia das políticas seguidas.
Eu sei em que Região vivo, conheço toda a espécie de constrangimentos, sei quanto difícil é discutir um acto eleitoral de igual para igual, mas nem tudo fica a dever-se às particularidades da Região. Podia até o PS ter perdido as onze Câmaras mas deveria, no mínimo, ter ficado a certeza que o caminho estava aberto para a mudança. Ao contrário disso, retrocedeu, fragmentou-se, ficou esfrangalhado por toda a Região. Isto dói a qualquer democrata. Ainda por cima porque não se tratou de uma derrota isolada mas de uma derrota que se sucede a outras tão gravosas quanto esta. Não há que escamotear os resultados, inventar isto e aquilo, apresentar justificações sem sentido que apenas ajudam a enterrar mais o prestígio e respeito que o PS deveria ter no quadro dos eleitores da Madeira e do Porto-Santo.
Que me desculpe o Camarada Dr. João Carlos Gouveia a minha sincera frontalidade, mas depois destes sucessivos terramotos eleitorais, seguidos de devastadores tsunamis, já que os militantes se sentem órfãos e desamparados, esperava eu, ontem à noite, ao contrário das declarações produzidas, que o presidente assumisse que apenas conduziria o Partido até ao próximo acto eleitoral interno. Não foi isso que aconteceu, permitiu que as dúvidas permanecessem sobre a sua continuidade. Isso foi muito mau para o PS e para a credibilidade pública da instituição. Eu sei que as decisões pertencem aos órgãos do partido, mas não é de todo aceitável um posicionamento ambíguo do tipo esperar para ver o que isto dá. Eu não me comportaria assim. Assumia a derrota, lamentava, não voltaria a candidatar-me e, imediatamente, abria o partido a uma solução. Para mim isto é muito claro.
Penso, todavia, que tarde ou cedo tal irá acontecer em função dos superiores interesses políticos da Madeira. O problema está agora em desenhar o futuro. E esse desenho, do meu ponto de vista, não é possível com novas falsas partidas e com candidaturas voluntariosas. O PS precisa de serenidade, necessita que ninguém se coloque em bicos de pés, antes conjugue esforços no sentido de encontrar uma solução duradoura, credível do ponto de vista social e político. O PS precisa de, pacientemente, juntar os cacos, de chamar tanta gente que se afastou ou foi afastada, abrir-se à sociedade, sarar feridas antigas e procurar entendimentos, não os entendimentos possíveis mas os entendimentos geradores de confiança no eleitorado. Há uma grande diferença entre o voluntarismo, a ambição e a realidade. A realidade exige ambição mas rejeita o voluntarismo. A realidade, este sangue que há vários anos brota de muitas feridas internas não estanca, nem estancará, com uma política de penso rápido. Há uma absoluta necessidade de ir às causas, enfrentá-las, removê-las para que das fraquezas emirjam as forças necessárias ao relançamento do Partido. Juízo, muito juízo é o que, humildemente, peço a todos face à delicadeza do momento. Todos são importantes mas, cuidado, cada um tem de saber qual o seu galho. Que ninguém se esqueça que há eleições regionais dentro de vinte e quatro meses e que essa campanha terá de, inteligentemente, começar o mais cedo possível.
Foto: Google imagens.

domingo, 11 de outubro de 2009

A FAMÍLIA EM PRIMEIRO LUGAR (II)

A propósito da sociedade desumana que estamos a criar, já aqui escrevi sobre um episódio com um dos meus netos. Esse vive no Porto e, desde muito cedo, devido aos afazeres profissionais dos pais (ambos farmacêuticos), um dia a mãe foi buscá-lo já muito próximo das 19:00 horas. Estava só e com cara infeliz. Perante o quadro, a mãe prometeu que no dia seguinte iria buscá-lo mais cedo. E assim aconteceu. Foi às 16 horas. Ele não tinha ainda três anos. Disse-lhe logo que se reencontraram: "obrigado, mamã, por me teres vindo buscar cedo". Há dias, o mais velho, que vive no Funchal, filho de pais médicos, no meio de uma conversa sobre as coisas que gostava, confidenciou à mãe: "o que eu mais gosto na vida é de passar o tempo com o meu papá e com a minha mamã".
Eu sei o significado e o alcance destas palavras porque tive a felicidade de, desde sempre, por hábito criado, tomar todas as refeições do dia em conjunto e de não preterir qualquer tempo disponível em função da educação das filhas. Felizmente, não passaram, nem permitiríamos um dia inteiro enclausuradas nessa famigerada e penosa "escola a tempo inteiro". É vidente que somos professores e a flexibilidade de horários permitiu sempre o desejável acompanhamento educativo e a vivência de outras importantes experiências culturais e desportivas, desde o ballet, à música, à natação. O que significa isto, retomo aqui as minhas convicções, tudo começa na organização do sistema social. Há países em que, praticamente, tudo encerra às 17 horas. Quem fica até mais tarde é porque não soube organizar as suas tarefas até essa hora. Mais, é indelicado marcar uma reunião de trabalho para as 16:30 horas. Há países onde se entra mais cedo, por volta das 08 horas.
Ora bem, não é o facto de, aparentemente, trabalhar-se mais horas que a produtividade irá aumentar. Tenhamos presente aquela ideia peregrina da União Europeia, felizmente rejeitada, de possibilitar que os trabalhadores pudessem fazer 65 horas de trabalho semanal, ou, então, aquela do Secretário de Estado Valter Lemos, ao apadrinhar uma ideia da Associação Nacional de Pais, para que as escolas estivessem abertas 12 horas. Que falta de bom senso!
É evidente que a produtividade só aumenta pela qualidade do trabalho, pela formação das pessoas, pela tecnologia empregue, pelo rigor e disciplina, pelas remunerações que não sejam de clara exploração, pela mentalidade de quem trabalha e não pelo número de horas de "clausura".
Nos estabelecimentos de educação e de ensino, desde a creche ao ensino secundário, a qualidade da educação e concomitantes resultados também só melhoram quando se concede prioridade ao essencial em detrimento do acessório. Só que para isso necessário se torna a reinvenção de todo o sistema educativo. Tudo o resto parece-me paleio sem consistência que conduz a crianças desasjustadas, a jovens e adutos desesperados. Mas quem altera isto, quando a ideia que subsiste é a de "Maria vai com as outras..."?
Fotos: 1ª Arquivo pessoal; 2ª Google imagens.

A FAMÍLIA EM PRIMEIRO LUGAR (I)

Rigorosamente nada de novo, apenas a confirmação do que há muito se sabe. O que não deixa de ser relevante o facto da jornalista Ana Luísa Correia (DN) ter trazido à colação um problema de extrema complexidade e que a todos deveria preocupar. Salienta a peça jornalística que a maioria dos 3500 adolescentes seguidos pelo Serviço de Atendimento ao Jovem apresentam disfunções familiares. E adianta: "(...) ao contrário do que se possa pensar sobre as pretensas preocupções dos adolescentes (a sexualidade, as saídas à noite, os namoros e a aceitação do grupo), a verdade é que "muitas vezes, o problema dos jovens passa pelo facto dos pais não terem tempo para eles". Não há refeições em família, não há tempo passado em conjunto nem actividades partilhadas por todos os membros do agregado. "As pessoas dispersam-se e isso é um erro", acrescenta. O erro, aliás, não passa despercebido a muitos jovens que acabam por se sentir perdidos, ao 'Deus dará' e que se queixam mesmo" do pouco tempo que passam com os pais, da falta de amor e de diálogo" ao mesmo tempo em que têm de aprender a viver numa sociedade onde imperam as pressões sociais e a competitividade".
Ora bem, num dos últimos dias aqui escrevi sobre a sociedade que estamos a criar. Uma sociedade desumanizada, angustiada, de muito pouca estabilidade no emprego, em que todos correrm não se sabe bem para onde, uma sociedade desorganizada no seu funcionamento, desrespitadora do equilíbrio entre os tempos de trabalho, os lazer e os de estudo, muito pobre na defesa de princípios e de valores, distorcida na mentalidade, uma sociedade do ter antes do ser, uma sociedade de pendor consumista, uma sociedade que não pensa nas gerações seguintes apenas quer safar-se antes que se faça tarde. Uma sociedade que obriga a trabalhar mais e mais, a consumir horas em claro prejuízo de outras importantes funções que a organização familiar carece. Enchem-se uns à custa de uma tal pressuposta competitividade, em prejuízo de muitos e do País em geral. No centro de tudo isto, a Escola, enquanto sistema, permanece redutora, maximizada (não é por mero acaso que sou contra as escolas a tempo inteiro), num autêntico desastre organizacional, curricular e programático, sem interesse, muito pouco apelativa e sem horizontes definidos. Complementarmente, oiço os políticos que por aí andam a liderar estes processos: temos o melhor rácio disto e daquilo, temos o melhor número de computadores por aluno, temos a melhor média de alunos por sala de aula, temos a melhor média de alunos por professor e, afinal, só não assumem as razões que levam a que tenhamos os piores resultados nacionais. Não dizem porque não lhes serve. É assim no sistema educativo, é assim também, no sistema social e de valores.
Há gente com responsabilidades políticas que não sabe o que anda a fazer. O trabalho da citada jornalista, para quem pensa a sociedade, coloca em destaque a "falta de valores, de afecto e de diálogo". Isto é terrível porque apenas conduz ao desajustamento dos mais frágeis e é, por isso, "um retrato que resume numa única frase os mais de 3.500 jovens da Região, com idades compreendidas entre os 12 e os 21 anos, que estão inscritos no Serviço de Atendimento ao Jovem (SAJ) do Centro de Saúde do Bom Jesus". E a tendência será para piorar, com o aumento da pobreza, o crescente desemprego, as angústias vividas no seio das famílias, ao mesmo tempo que parece crescer, entre os mais abastados, a ausência de valores e de redobrados cuidados na formação dos filhos. Voltarei a este inesgotável assunto.
Fotos: Google imagens.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

COM QUE ENTÃO... HÁ EXCESSO DE LIBERDADE NA MADEIRA

Regresso à declaração do Senhor Delegado na Madeira da Comissão Nacional de Eleições, Juiz Paulo Barreto que, segundo li e ouvi, disse que, na Região "(...) não há asfixia democrática (...) mas excesso de liberdade na Madeira". Ora bem, o que é chocante é que não se perceba, no contexto político, que a palavra Liberdade está, indissociavelmente ligada à palavra Democracia. E para qualquer pessoa que pense a Liberdade nunca existirá excesso de Democracia. Outra coisa é ter noção da responsabilidade de qualquer um perante o colectivo social, em todos os campos de análise e do limite que leva a não atentar contra a liberdade dos outros. As duas asserções do Senhor Delegado da CNE são, por isso, absolutamente infelizes porque desadequadas da realidade política e social madeirense. Quando alguém comete um crime, certamente, penso eu, o juiz não olha para o último facto ou para a última folha do processo. Olha para todo o processo, analisa, pondera e decide. Neste pressuposto, o que por aqui se passa, narra todo o desenvolvimento do processo, ouvidas milhares de testemunhas ao longo de muitos anos, é que há asfixia democrática ou défice democrático na Madeira conforme o entendimento de uns e de outros. E se essa asfixia existe de forma sensível a liberdade está, obviamente, coartada. Ainda, hoje, lê-se no DN, a candidata do PS à Câmara da Calheta, Drª Sofia Canha, assume: "(...) um munícipe, pelo medo do sigilo do voto por correspondência não ser absoluto confidenciou-me que o filho sente-se coagido a votar no PSD. Isto distorce a democracia". E adiantou: "que nenhum democrata pode aceitar" este tipo de "pressão" que constitui "uma interferência inadmissível na liberdade de voto das pessoas". Dir-me-á, porventura, o Senhor Delegado da CNE que se trata de paleio eleitoral. Infelizmente, NÃO É. Trata-se de uma realidade, como é aquela de não aceitar candidatar-se porque está à beira de uma promoção e por aí não querer ser eventualmente penalizado, como é o facto do governo pagar, com os nossos impostos, um jornal para aí desenvolver a sua própria propaganda através da distorção da saudável concorrência, como é o facto de todo o associativismo desportivo e cultural estar sob apertado controlo, como é o facto do Regimento da Assembleia Legislativa da Madeira ser castrador da possibilidade de debate sério e profundo.
É, por isto e muito mais que as palavras do Senhor Delegado tiveram o condão de me chocar. Porque todos sabemos que esta aparente democracia está legitimada pelo voto, mas, questiono, significará essa legitimação a dedução clara e inequívoca que se usufrui de uma liberdade e de uma democracia plena? Ora, olhando para processo verifica-se que não. Olhando para o processo é caso para, metaforicamente, falar-se de pena máxima!
Não há excesso de Liberdade quando há fome e não há excesso de Democracia quando há 12.000 desempregados, significativas bolsas de pobreza, angústias sem fim e dinheiro de todos utilizado para fins de pendor mais eleitoralista do que de satisfação das necessidades sociais e culturais. E só mais um aspecto Senhor Delegado: as palavras não são neutras nem aceito que do meu texto, lido e relido, se possa deduzir que existe um aproveitamento político das palavras ditas pelo Senhor Delegado da CNE. As palavras não são neutras. Cada uma envolve um conceito que não podemos ignorar, isto é, não nos podemos despir de todas as convicções e conceitos no sentido de um eventual regresso à pureza inicial das palavras. A palavra, enquanto sinal assume duas grandes componentes: o significado (plano do conteúdo) e o significante (plano da expressão), daí, também, o cuidado que deve existir na organização das mensagens.
Fotos: Google imagens.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

CRESCE A INTOLERÂNCIA E NINGUÉM APRENDE COM O PASSADO

Não aprenderam nada com o que aconteceu na Assembleia Legislativa da Madeira na sequência da história da bandeira nazi, isto é, com o impedimento, por seguranças contratualizados, de acesso de um Deputado às respectivas instalações. Ninguém está a aprender com o crescendo de situações de violência no decorrer das inaugurações de obras públicas. Ninguém quer ver o problema que está a ser criado. Há uma cegueira quase total. São os discursos provocadores, é a desvalorização e aviltamento das forças de segurança, é o reforço através de empresas de segurança privada, é a ordem dada para a mostragem de cartazes ("abram os cartazes que eu estou mandando. Sou eu que estou a mandar. Senhor guarda, não chateie ninguém"), é o impedimento de acesso de alguns cidadãos e políticos aos locais públicos, foi a agressão a soco a um Deputado, enfim, estou muito apreensivo com os próximos desenvolvimentos.
É que se repararmos, as novas situações criadas são mais graves que as anteriores. Não tarda e teremos dois blocos formados: os a favor e os contra. Parece-me absolutamente natural que isso venha a acontecer, quando se sabe, por um lado, que há muita gente desesperada e que nada tem a perder e, do outro, há muita gente defensora do sistema que lidera a Região. Mal comparadamente, ao escrever estas linhas, ocorre-me o que aprendi nas matas da Guiné-Bissau, que meia-dúzia de descontentes mas interpretando o sentimento de muitos, colocavam um batalhão aos tiros. E não levou muito tempo toda a Guiné era teatro operacional. Repito, mal comparadamente, mas quem me lê percebe que o que quero transmitir é o sentimento de insegurança, de madeirenses contra madeirenses, de violência gratuita, de instabilidade e de medo. Ao ver as imagens de ontem, confesso, fez-se silêncio e tive medo. Não é por aqui que se ganha a batalha do nosso futuro colectivo. Não é governando como se quer e entende, discursando com palavras azedas e de permanente ofensa, espezinhando, atiçando, controlando tudo e todos que se coloca a Região na estrada do progresso. Estas causas, aliás, como aqui já escrevi, só podem gerar uma oposição de contraponto violento. Não aceito nem uma nem outra, porque a tolerância, o bom senso, o respeito pelos outros, a vida, vivência e convivência democráticas têm de estar acima desta forma reles de fazer política.
É evidente que o Povo tem a solução nas mãos. O Povo, através de uma pequena cruz no boletim de voto, em teoria, tem o todo o poder para resolver a situação. Mas este Povo, por enquanto, prefere carregar a Cruz, prefere ficar curvado ao jeito do baile pesado a dizer basta, chega, é tempo de mudar. Mas como chegar a esse Povo, a essa Madeira real, fazê-lo entender que não há insubstituíveis, que esses estão todos em S. Martinho e em outros espaços, que a Região já existe há mais de 500 anos e nunca parou nem vai parar, quando se conhece os vários indicadores estatísticos que provam a fragilidade desse mesmo Povo, as suas carências culturais e políticas, as suas dependências e o estado de pobreza em que se encontra. Como é possível o exercício da mudança de refrescamento político quando os dinheiros públicos (veja-se, entre outros, os suplementos de jornal publicados em louvor de um só partido, as dádivas em blocos, cimento, ferro, areia e tintas, os favores) são muitas vezes empregues em obras que nada têm a ver com a construção do Homem feliz agente da construção do seu próprio futuro!
Ninguém deveria ficar de braços cruzados, ninguém deveria ficar calado perante a gravidade das situações que estão a acontecer, ninguém deveria acomodar-se baseando-se no princípio que o problema não é seu. A própria Igreja Católica que conhece melhor que ninguém este Povo que anda a passar muito mal, deveria constituir-se como a principal voz dos que não têm voz. Lamento, profundamente, quando olho para a Palavra e contextualizo-a com a realidade.
Impõe-se uma séria reflexão, porque o problema é de cada um de nós, porque fazemos parte desta terra que amamos.
Nota:
Acabo de ouvir o Delegado, na Madeira, da CNE, Juiz Paulo Barreto. Disse: "não há asfixia democrática (...) mas excesso de liberdade na Madeira". Estou indignado. Esta declaração só pode ser considerada como um momento menos feliz. Há situações que o melhor é o silêncio. Porque tudo o que por aqui se passa deve ser contextualizado à luz da História. Só o estudo das causas mais profundas pode proporcionar uma análise mais fina das consequências. O Juíz Paulo Barreto não fez essa análise. Nem tinha que a fazer, enquanto Delegado e figura independente. Num aspecto estou de acordo com o Delegado da CNE: situações daquelas envergonham qualquer pessoa.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

07 DE OUTUBRO - UMA BREVE REFLEXÃO

Hoje, 7 de Outubro. Era nesta data que, no meu tempo, entrávamos para a Escola Primária, assim se designava. Poucos, muito poucos, antes de perfazerem os sete anos de idade iniciavam-se nas primeiras aprendizagens. Fui um desses. Os meus pais colocaram-me, julgo que aos cinco/seis anos, na Professora Leocádia, uma Senhora que recebia crianças (muito poucas) na sua casa, ali junto ao Castelo do Pico. Aprendi o desenho das primeiras letras e algarismos na ardósia e com o respectivo lápis de pedra. E dali saí para a primária. Muito brinquei nos pequenos espaços disponíveis. Ela contava-nos muitas histórias e o pequeno grupo aprendeu até a cuidar das galinhas, coelhos e não sei que mais. Tudo numa parte do dia, apenas de manhã. Na escola oficial, repito, a partir dos sete anos, entrávamos às nove horas e desenvolvíamos a actividade até às 12:30 e, depois, entre as 13:30 às 15:00 horas. Com vários intervalos pelo meio. Havia todo o tempo do mundo para aprender. Todo o tempo do mundo para brincar e para SER CRIANÇA. Para crescer, jogando, como salienta Jean Chateau. Ou então, na palavra de Schiller "o Homem não é completo senão quando joga".
Tenho alguma saudade desse tempo, pelo que aprendi e pelas regras de respeito e de relação com os outros que interiorizei e que ficaram na minha matriz comportamental. O processo pedagógico evidentemente que, hoje, olhando à distância, vejo quanto frágil era. Também hoje subsistem muitas críticas. Mas há uma coisa que me parece claro na minha análise, é que não se perdia tempo com o acessório, havia objectividade, retirando, obviamente, aspectos absolutamente anacrónicos, entre outros, o de saber as linhas férreas de Portugal, as estações e não sei se os apeadeiros. Ah, e as "reguadas" por tudo e por nada. Afora esses aspectos, entre outros, que o tempo e o conhecimento científico ajudaram a corrigir, recordo-me que havia tempo para SER CRIANÇA.
Hoje, caiu-se no extremo oposto, na desresponsabilização, na indisciplina, na falta de rigor, no brutal aumento da carga horária, na burocratização do sistema e na irresponsabilidade governativa de atirar para a Escola tudo quanto deveria ser da competência das famílias. A este propósito li, há dias, uma curiosa "carta do leitor" publicada no DN subordinada ao título: O ALUNÃO". Escreveu o seu autor: "(...) Depois do papelão, do vidrão, do embalão e do "velhão", apresento-vos o ALUNÃO. O alunão é um depósito de alunos em que, por impossibilidade profissional ou apenas por falta de vontade, os encarregados de educação transformam as escolas de hoje". Acrescento: pela irresponsabilidade de muitos encarregados de educação mas também com a complacência, irresponsabilidade e incapacidade política no sentido de uma melhor organização social, de EDUCAÇÃO e de mentalidade do povo que somos. Há razões de sobra para condenar, por exemplo, a escola a tempo inteiro (ETI). Ela constitui a melhor resposta para um problema errado. Esta via transformou a verdadeira escola no tal ALUNÃO, num depósito vazio de significado e que, ao contrário do que se possa pensar, rouba tempo para SER CRIANÇA. Rouba tempo a um tempo que não regressa.
Este é um assunto que me levaria a longas considerações, desde a organização social (as lógicas em que se dissolve o mundo laboral) até às políticas de família, passando pela organização escolar, curricular e programática. É muito complexa esta abordagem. De uma coisa, no entanto, estou seguro: o sistema educativo não deve (não deveria) assentar numa lógica de penso rápido numa ferida profunda que tem origem na organização social, isto é, a Escola não pode assumir-se como remediadora da ausência de pensamento político, simplesmente porque ela tem uma importantíssima missão que não pode ser confundida com um depósito cheio de coisas mas muito pouco eficiente e muito pouco eficaz quanto à garantia de um melhor futuro. Escolarizar é uma coisa, EDUCAR é outra.
Regresso ao SER CRIANÇA com as palavras de Jean Chateau: "(...) Na criança, o jogo é, antes de tudo, prazer. É também uma actividade séria em que o fingir, as estruturas ilusórias, o geometrismo infantil, a exaltação, têm uma importância considerável." Coisas que certos políticos não entendem, convencidos que estão do seu papel.
Apenas uma breve reflexão!

CHOCANTE

Trata-se de uma peça do puzzle esta coisa de querer protecção policial apenas com agentes nascidos na Madeira. É ridículo e constitui uma posição de alguma complexidade quando interpretada ao extremo. Parece birra de criança e não de adulto com responsabilidades governativas. Por este andar, ou naquele pressuposto, teríamos de mandar embora os três mil e tal educadores e professores continentais, tantos e tantos trabalhadores da Administração Pública que desempenham aqui as suas tarefas, enfim, todos os quadros superiores militares e civis. Até D. Carrilho teria de ir pregar para outro lado. Tudo isto não faz sentido. Pior, ainda, quando o Comando da PSP parece ter cedido à birra. As imagens de ontem mostradas pela RTP-M, com um oficial madeirense em destaque, com duas continências sucessivas e um aperto de mão, parecem provar a cedência ou medo que o próprio Comando demonstra. Ou, então, não está para chatices!
Se há assunto que os políticos devem ter muito cuidado na abordagem, um deles é, certamente, o do respeito pelas forças de segurança. Quando ao mais alto nível político esse respeito não é publicamente evidenciado, que segurança terá a própria instituição policial no cabal desempenho das suas funções e, por extensão, todos os seus membros, no sentido de uma actuação correcta e respeitada junto dos cidadãos?
Há situações que devem ser resolvidas pelos canais institucionais próprios mas compete, única e exclusivamente, à hierarquia de comando estabelecer (estão estabelecidas) a forma como deve actuar em todas as circunstâncias, inclusive, em momentos onde se confrontam posições político-partidárias. Choca-me tudo isto, pelo exemplo negativo que é dado.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

CIDADES E LUGARES 566. HELSÍNQUIA/FINLÂNDIA


Parlamento da Finlândia - Helsínquia

DÍVIDAS, TRÂNSITO E EXPRESSÃO ELEITORAL

Três notas:
1ª Não constitui novidade o facto do governo e das câmaras pagarem, tardiamente, os compromissos assumidos. No fundo, as dívidas significam que governo e as câmaras auto-financiam-se com as dívidas aos particulares. Esperar entre 213 e 256 dias, isto é, entre sete a nove meses pela cobrança das facturas arrasta consigo gravíssimos transtornos para as empresas. Desde logo o IVA que não aguarda pela cobrança tal como outros impostos, os salários que têm dia certo e, portanto, muitas têm que se socorrer do crédito bancário com todos os prejuízos que daí advêm. Gerou-se o péssimo princípio de não honrar os compromissos e de todos deverem a todos. Um círculo vicioso de consequências desastrosas em função do desejável equilíbrio do sistema empresarial. Safam-se os grandes, os de maior poder e ainda assim, sobretudo na construção civil, a fragilidade de tais empresas há muito que é evidente, com as falências e despedimentos em massa.
A listagem das dívidas aos fornecedores por fornecimentos ao governo e câmaras é assustadora e extremamente preocupante. Vive-se numa permanente ilusão, com os responsáveis políticos certamente a dormirem descansados, enquanto cresce o desespero de muitos empresários. O balão, quase no limite da sua elasticidade, continua a encher. Por este andar não leva muito tempo que não se oiça o estoiro.
2ª Uma vez mais as ciclovias. Ontem, o presidente da Câmara do Funchal, anunciou a intenção de construir mais uns metros de ciclovia. Muito tardiamente começa a pensar que a solução para o tráfego e transportes no Funchal terá de passar por novos hábitos a aprender. Só que o problema é muito mais complexo do que a promessa de mais umas centenas de metros de ciclovia. O problema só poderá ser resolvido com uma visão integrada onde as ciclovias surjam como mais um elemento a juntar a tantos outros. A ciclovia não pode ser vista, apenas, como um elemento no quadro do lazer, isto é, de passeio com intencionalidade desportiva, mas como um elemento de transporte no interior da cidade. É assim em todo o lado. A ausência desta perspectiva está, por exemplo, na rua Dr. Fernão de Ornelas, na Avenida Arriaga ou na Avenida das Comunidades, onde os novos arranjos urbanísticos não previram a existência da ciclovia.
Enquanto não se pensar de uma forma integrada, enquanto a política for orientada no pressuposto que basta "um penso rápido" nos problemas, neste particular, o grave problema do tráfego e dos transportes continuará a sofrer a pressão do automóvel sobre a cidade, de nada valendo as novas acessibilidades que desafogam, momentaneamente, mas onde tarde ou cedo tudo volta ao mesmo.
3ª A sondagem que dá nova vitória ao PSD no concelho de Santa Cruz, com resultados na ordem dos 43% significa que o povo continua preso, isto é, dependente de uma monumental engrenagem político-partidária da qual não consegue libertar-se. E o caso de Santa Cruz certamente que, com maior ou menor expressão, multiplicar-se-á pelos outros concelhos e freguesias. Oxalá que não, todavia, a história não prognostica outro quadro. E isto é muito preocupante, porque no mesmo concelho onde a vitória do PSD parece não estar em causa, é o mesmo concelho que teve um autarca condenado e onde as obras prometidas, segundo um levantamento feito pelo DN, não foram além de uma execução de 44,2%. Mais de metade das promessas não foram cumpridas. Ora, quando o presidente do governo regional, no seu artigo de opinião publicado na edição de hoje do JM fala de um "pesadelo nacional" e que Portugal é um "case study", interrogo-me se tal pesadelo e tal estudo de caso não deveria começar pela Madeira!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

IDEAIS DA REPÚBLICA SUSPENSOS ATÉ 11 DE OUTUBRO

Não se trata de uma reserva ou crítica em função do meu posicionamento partidário, mas confesso que tenho muita dificuldade em perceber o Senhor Presidente da República. É uma figura muito estranha da nossa República. Já não me refiro às últimas trapalhadas que envolveram Belém mas a muitas outras situações as quais, do meu ponto de vista, não são nada abonatórias do alto cargo que exerce. É que não basta dizer-se presidente de todos os portugueses, mais importante é aquilo que deriva da sua atitude política. Recordo, por exemplo, a muito pouco abonatória visita oficial à Madeira onde prescindiu de ouvir as várias correntes de opinião em sede da Assembleia Legislativa, antes optou por um jantar com óbvios discursos de circunstância e de enaltecimento à maioria que governa a Região. Paradoxalmente, recordo, ainda, a interrupção das férias para falar ao País sobre o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, demonstrando com essa atitude e pelos desabafos então feitos, as suas enormes reservas sobre as Autonomias insulares. São tantas as situações que, hoje, o Presidente não se livra de ouvir da boca da maioria dos comentadores de rádio e de televisão sérias críticas ao seu desempenho.
Hoje, 05 de Outubro, comemorativo da República, não se dirigiu à Câmara de Lisboa, antes refugiou-se no Palácio de Belém. Não participou porque o período é de eleições autárquicas. Pergunto, o que tem a ver uma coisa com a outra? Será que, parafraseando a Drª Manuela F. Leite que, num determinado contexto, falou da suspensão da Democracia por seis meses, temos, também, que "suspender" os ideais da República até ao dia 11 de Outubro? Não saberá o Presidente falar ao País, enquanto figura insuspeita e respeitada, dos valores que devem nortear a Nação Portuguesa, sem se imiscuir no debate partidário em curso? Não o poderia fazer no lugar certo, porque simbólico, da mesma maneira que o fez do interior do Palácio de Belém? Com as mesmas palavras? Entendo que o Presidente demonstraria a sua independência estando lá, no sítio certo, onde foi hasteada a Bandeira de todos nós e aí proferindo o discurso que entendesse por apropriado.
O Presidente foi eleito com 51% dos votos expressos. Significa que 49% nunca estiveram com ele. Na prática o Presidente tem vindo a dar razão aos 49%. Não é, de facto, o Presidente em que toda a população se reveja. Duvido que este que é o 19º Presidente da República, consiga fazer um segundo mandato como Presidente de todos os Portugueses.

HOJE É DIA DO PROFESSOR

O meu neto mais velho acaba de entrar para o 1º ciclo do ensino básico. Sinceramente, estava expectante, pela sua própria natureza reservada, independente mas muito observadora e perspicaz. Ontem, ao almoço, falámos sobre a sua nova escola, dos seus amigos, da sua professora e do quem tem aprendido. Disse-me: "é estimulante". Estava tudo dito. Percebi que a professora o tinha conquistado e que se tinha aberto uma nova e consistente etapa na sua vida. Em poucos dias a semente começou a germinar pelo engenho de uma mulher de rigor e de exigência mas tolerante e Amiga. Sabes, disse-lhe a Profª Rosita no dia que se apresentaram, eu também quase sou tua "avó", porque o teu papá também esteve sentado onde tu estás agora a aprender. Gerações que passam, princípios, valores e conhecimentos que se transmitem, mas poucos continuam a valorizar e a dignificar a importante função social que os professores desempenham.
É ali que tudo começa de forma compaginada com a família. É por isso que, como sublinha Cláudia Martins:
Ser professor
é ser artista,
malabarista,
pintor, escultor,
doutor, musicólogo, psicólogo...
É ser mãe, pai, irmã e avó,
é ser palhaço, estilhaço,
É ser ciência, paciência...
É ser informação, é ser acção.
É ser bússola, é ser farol.
É ser luz, é ser sol (...)
Ou, então, emerge do poema Só tu, Professor, da autoria da Profª Maria Alice Almeida:
Saber amar,
Saber dar sem nada esperar,
Saber transmitir,
Saber ouvir,
Saber perdoar sem agredir,
Saber fomentar o amor,
Só tu, Professor!
Mesmo sendo o teu trabalho
tantas vezes ignorado,
tantas vezes maltratado,
Entregas-te com o mesmo empenho,
com o mesmo vigor.
Só tu, Professor!
Aquele Deus,
que à criança
deu a beleza de uma flor,
foi o mesmo que te deu
a sabedoria e a paciência
para que um dia
a pudesses ensinar com amor.
Só tu, Professor!
Neste Dia do Professor apenas um desejo junto de muitos políticos da nossa terra, eu que, em Agosto passado, dei por terminada a minha função docente: dignifiquem com actos a função docente, deixem de parte a demagogia, as palavras vãs, os ruídos de fundo, as incoerências discursivas, o agravamento das condições de trabalho, entre outras, por uma burocracia sem sentido, não fujam da negociação e não transformem a questão dos professores numa questão de egoísmo partidário. Sigam as palavras da UNESCO: "Construam o futuro, investindo nos professores, Agora!" e, por favor, Deixem-nos ser Professores!

domingo, 4 de outubro de 2009

FUNCHAL - CIDADE QUALIDADE OU FUNCHAL - CIDADE COM FUTURO?

No próximo Domingo os eleitores do Funchal vão decidir entre dois posicionamentos distintos: entre uma auto-evidenciada qualidade ou uma proposta que visa preparar o futuro para que a qualidade emirja. Trata-se, de facto, de dois caminhos substancialmente diferentes. Ora bem, quando olho para um cartaz e leio "Funchal - Cidade Qualidade" (PSD), tal obriga-me a interpretar e cruzar essa qualidade em termos de decisões políticas, económicas, sociais e culturais. Obriga-me a ir ao encontro da realidade. Infelizmente, não encontro essa qualidade. Porque a palavra qualidade está, indissociavelmente, ligada às exigências e necessidades dos consumidores. E os funchalenses são consumidores, na lógica da oferta e da procura, neste caso, entre as suas necessidades e o que a autarquia lhe oferece.Joseph Juran é um investigador da qualidade. O que é que ele nos diz? Que a qualidade pode ser definida em dois eixos: segundo a óptica dos resultados e segundo a óptica dos custos. Segundo a óptica dos resultados, a qualidade consiste nas características do produto ou dos produtos que satisfazem as necessidades dos clientes e geram lucros. Por aproximação à realidade autárquica, o problema é este: ou satisfazem as necessidades dos cidadãos e gera lucros, isto é, possibilita o bem-estar a todos os níveis, ou então, cresce o desconforto, o "prejuízo". Neste quadro, olho para a Cidade e não sinto essa auto-proclamada qualidade. Questiono, então, se se poderá falar de qualidade quando se calcorreia as zonas altas e se visualiza o desordenamento territorial, a ausência de acessibilidades fundamentais e se constata a existência de gravíssimas bolsas de pobreza por ausência de uma cidade solidária; poder-se-á falar de qualidade quando não se verifica uma resposta eficaz na protecção dos idosos; quando não existe uma visão global e estratégica para a mobilidade dos cidadãos; quando, ao contrário de uma cidade que liberta, dispomos de uma cidade que oprime; quando ao invés de uma cidade a favor do cidadão temos uma cidade contra o cidadão; quando não existe uma cidade respeitadora dos direitos humanos; quando há um evidente divórcio na defesa do património assumindo a cultura como libertação individual; poderá existir qualidade quando se desrespeita o solo urbano e quando não existe um compromisso com os cidadãos? Obviamente que não há qualidade. A qualidade não se determina por um passeio na Aveniga Arriaga e um café no Golden!
Mas a qualidade também pode ser vista na óptica dos custos. E aí significa ausência de defeitos. Qualidade significa um desempenho autárquico de excelência. E neste aspecto, Philip Crosby, autor que defendeu o conceito de “zero defeitos”, diz-nos que zero defeitos deveria ser um standart no desempenho da gestão e não apenas um slogan. E diz-nos que os responsáveis pela falta de qualidade são os gestores de topo pois acredita que a qualidade deve vir de cima para baixo. Ora bem, pelo que salientei não só não existe ausência de defeitos como a dívida da Câmara é hoje absolutamente disparatada e fora de controlo. Digamos que os "investimentos" não são proporcionais aos resultados no âmbito dessa ideia de qualidade defendida pela candidatura do PSD. Talvez porque, numa aproximação a Philip Crosby, estes autarcas nunca foram "vacinados" com "uma vacina preventiva que deveria conter três ingredientes: determinação, formação e liderança".
O problema reside aí, creio. De facto, tem sido evidente a falta determinação no sentido de novos reenquadramentos em função das novas lógicas que devem estruturar a cidade e que exigem um novo olhar para a dicotomia cidadão-autarquia; falta, certamente, formação, no que diz respeito a um debate mais profundo que a todos desperte e envolva num projecto que rompa com o passado, com a ideia estratégica de cidade que temos. Falta, finalmente, liderança, porque um projecto de mudança implica, necessariamente, capacidade para orientar de uma forma consistente. Acredito, portanto, porque mais profundo e audacioso, num "Funchal - Cidade com Futuro" (PS). Este slogan de campanha é muito mais que uma mera conjugação de palavras. Ele arrasta consigo duas ideias-chave: primeiro, porque não se remete aos erros do passado; em segundo lugar, porque descobre na cidade virtualidades que a podem catapultar a prazo para uma posição distintiva entre as demais. Entre uma e outra situações há um percurso e, naturalmente, um programa baseado em três perguntas fundamentais: onde estou, onde quero chegar e que passos tenho de dar para lá chegar? É o que deduzo do programa apresentado pelo Dr. Rui Caetano. Leio e sinto que ali não existe palavreado de campanha, produto fora de prazo, antes um compromisso com a cidade, um pensamento adequado nos vários componentes da cidade, uma ambição calculada, um humanismo sincero, um combate nas causas de uma cidade infeliz. Para o Dr. Miguel Albuquerque a Qualidade significa luxo e notoriedade. Para o Dr. Rui Caetano, pelo contrário, a qualidade é um processo e não um programa. É um processo de construção contínua, de aprendizagem no terreno, mas também de destruição de barreiras que impedem a própria mudança.
Foto do Funchal: Google imagens.

sábado, 3 de outubro de 2009

CHEIRA-ME A ESTURRO...

Mas, afinal, quem tutela a "Madeira Parques Empresariais"? Não é o Senhor Vice-Presidente do Governo? Estranha, ou talvez não, esta súbita atitude do Presidente do Governo Regional ao criticar a forma como aquele organismo, da responsabilidade do seu vice, tem gerido a ocupação dos solos infra-estruturados para fins empresariais. Cheira-me a esturro.
Mais do que sacudir a responsabilidade pelo inêxito dos parques industriais, atirando-se ao respectivo Presidente do Conselho de Administração, ao sublinhar que a Madeira Parques não precisa de pessoas "sentadas à secretária à espera que apareçam clientes", antes têm é de os "arranjar", estou em crer que o presidente atirou-se ao mais fraco para atingir o seu lugar-tenente. A curiosidade está em conhecer as razões. Desconheço-as, mas uma situação destas pode significar uma preparação do "terreno" para continuar para além de 2011. Para quem ama o poder o principal verbo a conjugar é "afastar". Absurdo? Talvez não. Situação que a seu tempo será clarificada.
O que não deixa de ser politicamente lamentável é que só agora o presidente do governo tenha percebido a situação dos doze parques existentes. Isto quando, desde há muito tempo e com visitas aos próprios locais, tantas posições têm sido assumidas pelos vários partidos da oposição, várias têm sido as iniciativas na Assembleia Legislativa, onde têm ficado claras as múltiplas causas que subjazem à ausência de interesse dos empresários. Portanto, dir-se-á, só agora?
Foto: Google imagens.

UM "COCKTAIL" AMARGO E EXPLOSIVO

Penso que a procissão ainda vai no adro. Eram previsíveis as cenas muito desagradáveis, pelo confronto físico que se verificou, mostradas pelas televisões, aquando da inauguração da via expresso ao porto do Funchal. Era uma questão de tempo, depois da declaração do presidente do governo, há dias, em momento congénere, que a presença daqueles "fascistas" (referia-se aos militantes do PND) tinha passado "a ser um assunto do povo".
Não vou aqui tecer considerações sobre o "modus operandi" político dos dirigentes do PND. Apenas ao partido diz respeito. Estou mais interessado em apreciar factos, as suas causas e respectivas consequências. E desde logo o que se deduz é que este confronto tem causas e raízes muito profundas. As consequências são aquelas que ontem se verificaram e que, infelizmente, penso eu, constituem apenas o rastilho de situações provavelmente muito mais graves. Diz a sabedoria popular que "quem semeia ventos colhe tempestades". Ora, aquilo que é sensível é que, de uma forma crescente, à medida que, por razões múltiplas, crescem os sinais de desconforto no seio do partido maioritário, promovem a ventania pelo que não me admira que, tarde ou cedo, um tufão ponha em cacos esta maneira de fazer política. A ver vamos.
O descarado controlo sobre toda a sociedade, a necessidade de manutenção do poder a qualquer preço, o tom e as descabeladas atitudes discursivas, aquilo que, grosso modo, se passa na Assembleia Legislativa da Madeira no que diz respeito ao condicionamento da palavra e à forma como se votam importantes propostas, a fuga ao debate aberto olhos nos olhos e cara-a-cara com os madeirenses e porto-santenses, tudo isto e muito, muito mais está a gerar posições extremadas entre madeirenses. Simplesmente porque não há diálogo, negociação e tolerância. Há, apenas, poder absoluto. Dir-se-á que para o poder maioritário as oposições devem ser mansas, devem falar baixinho, criticar qb, pois servem, apenas, para legitimar o seu próprio poder. A razão da sua existência é a da legitimação de uma espécie de ditatura branda legitimada pelo voto popular.
A este genérico quadro juntam-se os milhares de pobres e excluídos e os desempregados. Daí que, politicamente, o "cocktail" de sabor bem amargo esteja feito e, portanto, sendo esta conjugação uma mistura explosiva, o mais provável é que perante a intolerância de um poder de tons absolutos a resposta assuma contornos de violência. Por um lado, provocada, quando se critica a Polícia, por outro, quando se abrem as portas à "justiça" feita pelas próprias mãos. E quanto maior for a dose distribuída daquele "cocktail", inevitavelmente, maiores serão os estragos. Foi assim em toda a parte. Lamento, porque nesta terra é possível haver crescimento e desenvolvimento sustentáveis em todos os sectores e áreas, respeito, disciplina e rigor, paz, sossego, bem-estar, vida, vivência e convivência democrática e normal alternância no poder, distante dos sinais de agressividade resultantes da intolerância.
Foto: Google imagens.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

CIDADES E LUGARES 565. HELSÍNQUIA/FINLÂNDIA

Pormenor da fantástica igreja Temppeeliaukio, construída em pedra, na cidade de Helsínquia - Finlândia.
A construção da igreja foi iniciada em 1939 e suspensa na Segunda Guerra Mundial. Foi continuada em 1968 e concluída em 1969. A nave é em vidro, pelo que a igreja é iluminada por luz natural.

"(...) E JÁ AGORA, É BOM QUE NÃO SE ESQUEÇA QUEM A AJUDOU A GANHAR AS ELEIÇÕES NO DITO SINDICATO"

Foi público, e sobre esse assunto aqui teci algumas considerações, o post-scriptum inserto num recente artigo de opinião do Dr. Alberto João Jardim, a propósito das eleições no Sindicato de Professores da Madeira. Disse o articulista, dirigindo-se à Professora Marília Azevedo, Coordenadora do SPM: "(...) E, já agora, é bom que não esqueça quem a ajudou a ganhar as eleições no dito Sindicato!...". Mais tarde, veio a citada dirigente sindical falar sobre o assunto mas sem que daí colocasse o Sindicato a coberto de qualquer suspeita. O mínimo que se exigia era um pedido para que o autor do texto, presidente do governo regional, explicasse o porquê e fundamentos daquela declaração e quais os meios de ajuda que foram utilizados no sentido de garantir a vitória eleitoral. Era esta a posição que eu esperava que o SPM tomasse, no sentido do bom nome das pessoas e da instituição.
Pessoalmente entendo que o assunto é muito grave em função da suspeita lançada. Tenho muita consideração pelas pessoas eleitas e apesar de não as ter apoiado nessa candidatura (apoiei e votei na lista liderada pelo Dr. João Sousa por entender ser necessária uma mudança) quero acreditar que o PSD (politicamente) nada teve a ver com essa vitória. Para mim, a lista liderada pela Professora Marília Azevedo ganhou e ponto final. Porém, a questão é muito mais vasta pois foi lançada lama sobre uma instituição e sobre uma pessoa. Neste pressuposto, a confirmar-se essa "ajuda" ela prende-se, por um lado, com a preocupação de um partido exercer um controlo sobre todas as instituições, por outro, com o eventual condicionamento que doravante existirá em termos de liberdade sindical. Os professores, independentemente do seu posicionamento partidário, precisam de acreditar no Sindicato de Professores da Madeira. Sendo assim, deve o SPM exigir que o Dr. Alberto João Jardim clarifique esta situação. Se mentiu, retrate-se.

NOVO ANO ESCOLAR: A POLÉMICA NÃO DEVE PREOCUPAR; OS SILÊNCIOS É QUE SÃO PREOCUPANTES

Na última edição do Tribuna da Madeira, a propósito do início do novo ano escolar, a jornalista Carmen Vieira colocou-me três questões. Aqui ficam as respostas:
- Na sua opinião, quais são as principais preocupações que se apresentam neste novo ano escolar na Madeira?
Ano novo, velhos problemas por resolver. A questão é muito complexa, simplesmente porque não basta que a Escola funcione. Interessa saber como funciona, se ela responde ou não a um quadro de princípios e de valores que, hoje, devem configurar o sistema educativo de qualidade. Era o que faltava os estabelecimentos de educação e ensino não abrirem a tempo e horas, se considerarmos que o sistema está regionalizado, existem edifícios, professores, estudantes e administrativos. A questão central é, por isso, muito mais profunda, prende-se com uma ideia maior, eu diria, estratégica, no que diz respeito à parte organizacional, curricular e programática. Há uma sensível e histórica incapacidade para definir um rumo para a escola madeirense ancorada que deve estar, obviamente, nos desígnios nacionais. Quero sublinhar que o Português e a Matemática, entre outras, têm uma abrangência do Minho ao Corvo, mas que podemos e devemos dar passos no sentido de um sistema próprio, sobretudo ao nível do ensino básico.
- Pelo que tem conhecimento, o novo ano escolar arrancou dentro da normalidade na Região?
Eu diria que se registou uma normal anormalidade. Esta não é, do meu ponto de vista, a Escola que deveríamos ter. Eu diria que é a Escola possível porque ela está assente em uma estrutura que despacha horários de trabalho mas onde os alunos não estão no centro das preocupações educativas. É evidente que esta Escola está cheia de coisas, cheia de actividades, mas está vazia de significado, por ausência de preocupações a montante do sistema, isto é, junto dos graves problemas de natureza económica, social e cultural das famílias e, a jusante, no interior da escola, por ausência de uma cultura de desempenho apelativa para o conhecimento. Há uma significativa leviandade ao permitir-se que o acessório domine em relação àquelas que deveriam ser as preocupações essenciais, o que me leva a dizer que é sensivelmente dissonante a relação que a Escola estabelece entre os eventuais fins educativos e os procedimentos pedagógicos. O sistema está bloqueado, tornou-se repetitivo por falta coragem para actuar no âmago dos problemas. Junta-se a isto a peregrina ideia de tornar as escolas todas iguais quando elas devem crescer e afirmarem-se com identidade própria.
- Teme que este novo ano lectivo volte a ficar marcado pelas polémicas à volta das lutas laborais dos professores?
A polémica não deve incomodar. Os silêncios é que são preocupantes. De resto, o sistema é um mix e, por isso, deve interagir com todos os outros sistemas, desde o social ao político, passando pelo económico, cultural, religioso, etc.. E todos devem perceber isso e assumir que uma coisa é a audição, outra a negociação. O desconforto que existe na classe tem raízes profundas que começa na concepção do sistema até à sociedade que não está bem e, por isso mesmo, a Escola não pode estar melhor. Há inevitáveis desencontros que, mais tarde, se reflectem nos pobres indicadores que apresentamos, concretamente, nas taxas de insucesso e abandono, analfabetismo e qualificação profissional, entre outras. Raramente os docentes reivindicam tabelas salariais mas queixam-se por muitas outras razões. O dilema é que não tem havido sensibilidade para compreender e atenuar os desencontros dos vários parceiros do sistema. É pena, porque vamos continuar a pagar caro a auto-suficiência e o balofo caminho que vem sendo seguido na Região.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

XXXI OLIMPÍADA: RIO DE JANEIRO OU CHICAGO?

Os mega eventos como os Jogos Olímpicos estão cada vez mais em evidência devido ao seu potencial para o desenvolvimento social, económico e ambiental dos países que os organizam e sediam. Os Jogos Olímpicos, em especial, têm uma influência muito grande nas mais diversos países e regiões, não só por estarem relacionados com modalidades desportivas largamente conhecidas e praticadas, mas, também, pelo legado positivo que de uma maneira geral deixam após a sua realização.
No próximo dia 2 acontecerá, durante a realização em Copenhaga, da 121ª sessão da Assembleia Geral do Comité Olimpico Internacional (COI) a decisão relativa à cidade que vai sediar os Jogos Olímpicos da XXXI Olimpíada. Na ocasião, será escolhida a vencedora entre as quatro cidades que atingiram a fase final da competição. São elas: Madrid, Tóquio, Chicago e Rio de Janeiro.
Entre estas cidades, destaca-se o Rio de Janeiro, principalmente no que diz respeito ao entusiasmo dos brasileiros quanto à realização dos Jogos Olímpicos no seu país. E os brasileiros dizem: “enquanto o Rio avança, Chicago está perdendo chão”.
De facto, o que parece certo é que as cidades que, de momento, estão melhor colocadas para ganharem a competição para sediar os Jogos de 2016 são o Rio de Janeiro e Chicago. A posição de destaque destas duas cidades se deve a diferentes razões e não, obviamente, a um entusiasmo generalizado de seus habitantes. Entretanto, muito embora exita uma grande euforia de muitos milhões de pesoas, a realização dos Jogos Olímpicos nestas cidades estão também debaixo de enormes críticas e possuem fortes oposições.
No que concerne às duas candidaturas restantes, Madrid e Tóquio, a questão parece, de alguma maneira, estar arrumada, quer dizer, as hipóteses são muito reduzidas. No entanto, apesar de todas as conjecturas que possam ser realizadas, tudo está em aberto e qualquer uma das cidades pode ser a escolhida.
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O "RECTÂNGULO"

Ouvi o presidente do governo regional, uma vez mais, falar do "rectângulo". Disse: "cada vez tenho menos a ver com o rectângulo". Confesso que esta palavra "rectângulo" referindo-se a Portugal Continental mexe comigo. Irrita-me. Talvez o que ele, lá no fundo, queira dizer é que cada vez tem menos a ver com os portugueses. Talvez! Se assim é, deveria deixar-nos em paz.
Mas aquela palavra tantas vezes dita em discursos na Assembleia Legislativa da Madeira, traz no seu bojo a ofensa, a desonra, a baixeza, a descortesia, o aviltamento da Pátria comum e o desprezo pelas raízes. Pior do que isso, conduz à transmissão de um sentimento que se generaliza, que entra na escola, na formação dos nossos alunos, que distorce, corrompe e compromete um sentimento de unidade nacional.
Penso que esta forma de actuar não é inocente. Ela faz parte de um contexto político desenhado a longo prazo e de um percurso que exige, em função desse desenho, a guerrilha permanente e a manutenção discursiva que centra no inimigo externo a causa de todos os males. Irrita-me isto porque há vileza e não um comportamento político adulto. O diálogo institucional, reivindicativo, obviamente, não existe. O que sobressai são as pedras no sapato e os bolsos cheios de pedras que apenas servem para atirar. De pedras quadradas que não rolam no sentido de resolver os graves problemas da Região. Importante é incendiar.
Foto: arquivo pessoal.

VENDA DE PEIXE FORA DE PRAZO

O presidente do governo regional assumiu, ontem, que os investimentos públicos evitavam o colapso económico. Afirmou: "quando um Governo e uma Câmara fazem política de obras públicas têm de contratar as empresas privadas que vão fazer essas mesmas infra-estruturas. E nessas empresas privadas é necessário haver trabalhadores que vão ter emprego e salários, que depois vão fazer compras no mercado, no supermercado, nas lojas. Nesses estabelecimentos estão, portanto, também outras pessoas empregadas que, caso não existe clientela, não tinham emprego". Falou do óbvio mas sem profundidade, isto é, distante de uma teoria portadora de futuro. Ninguém questionou: e sendo o espaço geográfico da região muito limitado como sobreviverão as pessoas quando as ditas obras públicas, inevitavelmente, sofrerem (já estão) um significativo abrandamento? Por extensão, estará ou não em causa o modelo económico muito dependente do sector público? Por quanto tempo mais a monocultura (assente na teoria keynesiana, "como se Keynes tivesse sido empreiteiro", na feliz síntese do Dr. Carlos Pereira) terá sucesso? Uma significativa parte do número de desempregados não será consequência da ausência de diversificação da economia? E que tipo de desenvolvimento económico nos interessa? Enfim, tantas questões que poderiam e podem ser colocadas naquela como em outras oportunidades congéneres. Apenas ele fala e vende o seu peixe. Pelo preço que quer. E a maioria engole.
Diz o Professor de Economia Carlos Santos sobre o básico do keynesianismo: "a oferta de produtos de maior valor acrescentado só surge se houver uma expectativa por parte dos empresários de procura. Ninguém vai criar empresas para produzir e acumular indefinidamente stocks porque não espera vender nada. As expectativas são tudo na economia". Ora, o presidente do governo não diz como vai promover expectativas de procura de bens e serviços quando se mantém numa lógica de crescimento que é, obviamente, finita. Acrescenta o Professor: "há desprezo completo das expectativas empresariais" pelo que o Dr. Jardim, digo eu, não compreendeu ainda as lições do fracasso de algumas economias.
Foto: Google imagens.