sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

BAÚ DAS MEMÓRIAS. GUILEJE/GUINÉ BISSAU

Nos últimos dois dias segui um excelente programa da RTP 1, produzido pela jornalista Adriana Andringa. Ontem, o tema central foi a tomada da povoação de GUILEJE, pelo PAIGC, em 1973.Foi a única, de facto, conquistada pelo movimento de libertação. Eu estive em Guileje, no famoso e complexo corredor de Guileje, uma das mais difíceis portas de entrada dos guerrilheiros do PAIGC.Pertenci à Companhia de Caçadores 3477 - "Os Gringos de Guileje". Nessa Companhia comandei um pelotão formado por soldados dos Açores, a esmagadora maioria de Rabo de Peixe. Um pelotão extraordinário, de trabalho, destemido e sobretudo protector. Conheci toda a área circundante nas patrulhas que fazíamos. Foi um tempo difícil de suportar, pelo isolamento e pelo medo dos ataques e emboscadas. Para além dos elementos da Companhia, a população, julgo que rondaria as 300 pessoas. Sendo uma povoação importante pela sua posição estratégica (quase na fronteira com a Guiné Conakry) era muito visada pela intervenção militar do PAIGC, até que, no início de 1973 (estas fotos são de 18.10.1972) o cerco a Guileje fez com que a única possibilidade fosse a de sair pela calada da noite, evitando um inevitável banho de sangue. Toda a população saíu em conjunto com a Companhia permitindo, dias depois, a ocupação da povoação. Quem sofreu esses dolorosos momentos foi a Companhia que nos substituiu já no final de 1972. Foi uma Companhia muito massacrada, segundo soube depois, com muitos mortos em combate. Safei-me dessa e ontem recordei os momentos de tensão que todos passámos nos meses que lá andámos.
Guileje era um lugar muito isolado, onde o abastecimento era feito de seis em seis meses, na época seca, e julgo que, de quinze em quinze dias, através de um avião que deixava cair de paraquedas umas caixas com frescos que davam para algumas (poucas) refeições. Tão isolado que as Companhias nunca estavam mais de doze meses estacionadas. Rodavam para lugar mais seguro. A minha Companhia veio para Nhacra, a 30 km de Bissau. Aqui ficam algumas imagens que fui buscar ao arquivo das memórias. Uma delas com o pequeno Mauro Kindi Columbali, criança a quem me afeiçoei porque um dia, num ataque muito complicado, fui encontrá-lo à porta do meu abrigo, só, apavorado e chorando convulsivamente. Nunca esqueci essa situação, entre o dever de o proteger e as minhas responsabilidades perante o pelotão que comandava. Fechei-o no abrigo, construído abaixo da terra e com paredes de protecção em cimento e ferro. Quando a situação acalmou fui ter com ele e entreguei-o aos pais. Os nossos abrigos, diziam-me ser dos mais resistentes de toda a Guiné. Não sei. Fiquei amigo do Mauro e da sua família. O pai, o Sátala Columbali, que desempenhava funções de guia aquando das patrulhas, acabou por morrer ao desmontar uma mina. Era um homem bom e amigo. Quando vim de férias à Madeira, levei-lhe muitas roupas. Fiz muitos amigos nessa passagem pela guerra colonial.
Um deles o Régulo de Guileje, com quem conversei muitas vezes na minha luta para que as meninas aprendessem a ler. É que ele insistia que a mulher não podia saber mais do que o homem. Ensinávamos os rapazes mas as raparigas não. Não tenho saudades desse tempo pelo que vi e pelo medo que senti em determinados momentos. Recordo esse tempo, apenas na sequência do programa de ontem na RTP que me transportou às memórias dos anos 70 e das pessoas com quem convivi e trabalhei, entre muitas, com o então Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, mais tarde, no Quartel General. Ele desempenhava funções na REPACAP (Repartição de Assuntos Civis e de Acção Psicológica) e eu no Comando Geral das Milícias, chefiado pelo Major Fabião (outro operacional do 25 de Abril), com a responsabilidade dos pelotões de milícias de todo o teatro operacional. Foi um tempo que passou.

6 comentários:

Fernando Vouga disse...

Estive na Guiné, mais propriamente em Bafatá, de 1969 a 1971. Felizmente para mim e para os "meus" soldados que, nessas paragens, a guerra não era muito intensa.
Em Agosto de 2008 voltei à Guiné em solitária romagem de saudade. Mas prefiro não comentar...

André Escórcio disse...

Caríssimo,
Só regressei a esta parte da minha vida pela memória que o programa da RTP1 me aflorou. Também já nutri interesse em lá voltar para rever locais mas, sinceramente, depois do que me têm dito e do que vi na reportagem, penso que não valerá a pena.
Um abraço.

Pica-Miolos II disse...

Senhores Combatentes

Agora percebo por que é que, o Chefe da Macacada Superior, quer apoderar-se do Palácio de S.Lourenço!
Foi lá que "combateu" na Guerra Colonial, e, mais tarde,ferido pelo "fogo amigo" do "efeminado" Coronel Lacerda!
Acho que, no mínimo, deveria ser condecorado com a Cruz de Guerra!

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Só um esclarecimento: apesar de tudo o que me "agradou menos", passe o eufemismo, dei por bem empregue o meu dinheiro.
Ainda não digeri completamente os dias que lá passei em visita. Mas penso que, dentro de algum tempo vou conseguir tecer alguns comentários escritos sobre o que senti. Se houve algo que me desgsostou, houve também alguns aspectos que considero, no mínimo, aceitáveis. Mas é quase impossível vislumbrar o futuro daquela terra. Pelo menos se continuarmos a olhá-la com os nossos olhos de europeus...

André Escórcio disse...

Caríssimo,
Há muitos blogues sobre a Guiné e, particularmente, sobre Guileje. Gostaria de saber se tem algum e qual o endereço.
Obrigado.

Fernando Vouga disse...

Caro amigo

Tenho um blogue orientado para assuntos militares e onde a Guiné aparece muitas vezes. De momento, está um tanto parado. Mas talvez encontre matéria que lhe interesse.

Para aceder, basta "clicar" no meu nome neste comentário.