quarta-feira, 31 de julho de 2013

O RONCAR DOS CARROS FACE AO RONCAR DA CRISE


Não se trata de uma atitude miserabilista, não se trata de uma posição do tipo acabe-se com isto porque há gente com fome, trata-se, antes, de uma posição que, julgo eu, é do mais elementar bom senso, face a um conjunto de necessidades primárias. Pode haver muita gente na estrada ou acampada para ver o rali passar, pode existir algum entusiasmo, porém, quem governa, tem de assumir posições, baseadas no conhecimento da importância do efeito multiplicador dos investimentos. Quando essa consequência não é sensível, melhor é parar, reflectir e corrigir a agulha do investimento público. Não deixo de dizer que me custa aceitar pagamentos em atraso, por muitos milhares em dívida por parte do governo à organização do Vinho Madeira (o que evidencia a limitação em recursos financeiros), um jantar de boas-vindas na Quinta Vigia, enfim, custa-me aceitar estes e outros gastos, repito gastos, não investimentos, quando ao nosso lado, vemos tanta miséria, fome, dívidas e carência de tanta e tanta coisa básica. Mas, enfim, tal como tantas organizações sem sentido e gastos absolutamente supérfluos em várias modalidades desportivas, os carros vão voltar a "roncar" durante muitas horas, para gáudio de uns poucos em função da tristeza de milhares. É o governo que temos.



Esta minha opinião pode encontrar adversários. Encontra, com toda a certeza. Certamente colide com muitos pontos de vista, sobretudo daqueles que gostam do automobilismo, gostam do rali Vinho Madeira, adoram o espectáculo da velocidade e da técnica, apreciam a mecânica e todo o frenesim da dita "festa" que a prova proporciona. Respeito-os. Confesso que não aprecio e não nutro o mínimo de interesse pelo Rali Vinho Madeira. Uma posição que se alicerça, fundamentalmente, no aspecto do transfere para a economia da Madeira. Aliás, há vários estudos (monografias de Licenciatura e dissertações de Mestrado), elaborados com o rigor que se pede a qualquer estudante, e que se encontram, certamente, em arquivo da Universidade da Madeira. Estudos que comprovam que o rali não constitui uma mais valia no quadro da promoção da Região Autónoma. Compaginado com tais estudos, ainda no ano passado, em Março, o Dr. António Trindade, do Grupo Porto Bay, salientou que num inquérito realizado junto de 15.000 clientes, concluiu que o Rali Vinho Madeira não era determinante na escolha dos visitantes hospedados nos hotéis do grupo: 82% dos clientes não sabiam da existência do evento desportivo, sendo que alguns (12%) consideraram-o com impacto negativo na estada. "Isto para responder a uma das perguntas que normalmente questionam. O Rali Vinho Madeira interessa ou não para a Madeira (…) julgo que podemos tirar ilações destes questionários", apontou António Trindade, dizendo que os eventos que não se assumam como prioritários devem ser suspensos.  Mas a verdade é que não são. Continuam a depender, em muito, do dinheiro público, quando, por outro lado, vivemos numa crise sem precedentes.
Não se trata de uma atitude miserabilista, não se trata de uma posição do tipo acabe-se com isto porque há gente com fome, trata-se, antes, de uma posição que, julgo eu, é do mais elementar bom senso, face a um conjunto de necessidades primárias. Pode haver muita gente na estrada ou acampada para ver o rali passar, pode existir algum entusiasmo, porém, quem governa, tem de assumir posições, baseadas no conhecimento da importância do efeito multiplicador dos investimentos. Quando essa consequência não é sensível, melhor é parar, reflectir e corrigir a agulha do investimento público. Não deixo de dizer que me custa aceitar pagamentos em atraso, por muitos milhares em dívida por parte do governo à organização do Vinho Madeira (o que evidencia a limitação em recursos financeiros), um jantar de boas-vindas na Quinta Vigia, enfim, custa-me aceitar estes e outros gastos, repito gastos, não investimentos, quando ao nosso lado, vemos tanta miséria, fome, dívidas e carência de tanta e tanta coisa básica. Mas, enfim, tal como tantas organizações sem sentido e gastos absolutamente supérfluos em várias modalidades desportivas, os carros vão voltar a "roncar" durante muitas horas, para gáudio de uns poucos em função da tristeza de milhares. É o governo que temos.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 30 de julho de 2013

VIVA A CIDADANIA E CUIDADO COM AS ALMINHAS SIAMESAS


Não acredito em candidaturas, uma que significa a continuidade, o conhecido, a resposta sempre igual para problemas distintos, o partido que não vai além da horta urbana, a promessa que não se concretiza, o Funchal do bilhete postal e o Funchal das zonas altas; outra, que se mostra zangada com o poder, mas que, no essencial, tem alma política siamesa. São iguais, porque são partidos nascidos um para o outro, que apesar dos arrufos de circunstância, que fazem parte do jogo político, comungam da mesma ideologia e dos mesmos interesses. Basta olhar para a República e analisar o que disseram um do outro durante a campanha eleitoral de 2011, para logo de seguida, fazerem tréguas, casarem, divorciarem-se e voltarem a casar, no mesmo cartório e com a "bênção" do mesmo administrador, com comunhão de bens e com a jura de todos os bens adquiridos, após o casamento, pertencerem igualmente a ambos. No caso em apreço, reparem os leitores, até já pensam juntar os trapinhos para as eleições europeias do próximo ano! Significativo. Assim escrevo, não pela minha costela partidária que integra esta coligação, mas porque 37 anos de um só partido com maioria absoluta é tempo demais para que alguém ainda entenda como necessária a continuidade. Chega. Viva a cidadania.



Ouvi o discurso do Dr. Paulo Cafôfo, candidato da Coligação Mudança à presidência da Câmara Municipal do Funchal, no decorrer da apresentação do mandatário da candidatura, o Arquitecto Luís Vilhena. Depois de escutá-los exclamei: quem poderá dizer que não existe uma alternativa credível, nascida da cidadania, de homens e mulheres livres, que roubam quatro anos às suas rotinas normais de vida para se dedicarem, em exclusivo, aos problemas de uma cidade cheia de complexas situações económicas, financeiras, sociais e culturais por resolver? Há alternativa, pois é evidente que existe. Uma alternativa que não se confunde com interesses menores no quadro dos jogos de poder, uma alternativa onde aquilo que apresenta na montra corresponde ao que guarda no armazém pleno de convicções. Uma alternativa que põe de lado as politiquices partidárias para dar força à inovação, à responsabilidade, ao rigor e ao sentido humano de que tanto as pessoas precisam. Fiquei impressionado com o discurso de Paulo Cafôfo e do seu Mandatário, o Arquitecto Luís Vilhena. O primeiro, porque dele venho confirmando, em crescendo, o homem de bem que é, portador de princípios e de valores, um homem de visão larga, sereno e assertivo, que não precisa de se colocar em bicos de pés para demonstrar as características de líder; o segundo, porque guardo dele, independentemente das suas inegáveis qualidades pessoais, o conhecimento da cidade que me habituei a seguir nos seus artigos "SOBRE(voando) o Território", publicados no DN-Madeira, onde passou em revista as grandes questões do planeamento, da vida, vivência e convivência na cidade. Luís Vilhena escreveu sobre "Cidades Transparentes": "A democracia em que vivemos criou uma série de mecanismos que possibilitam e incentivam a participação dos cidadãos nas decisões relativas a intervenções de transformação e desenvolvimento da sua cidade ou território (Julho 2006) e, no seu blogue, quase em contraponto, um dia sublinhou: "Que pena que eu tenho deste mundo estar cheio de hipócritas...". Ora bem, é pela transparência das decisões na transformação da cidade do Funchal e distante das habituais hipocrisias políticas, que o Arquitecto Luís Vilhena se vincula a um projecto de grande honestidade política liderado pelo Dr. Paulo Cafôfo.
O Funchal precisa desta gente, desta enorme equipa que não se vende ao primeiro da esquina. Só o facto de seis partidos políticos (PS, PTP, BE, PTP, PND, PAN) terem abdicado dos seus interesses partidários para conjugarem esforços no sentido da construção de uma alternativa, tal facto já é merecedor de um grande aplauso. Mas, quando, essa conjugação de esforços decorre de forma serena, sem ambiguidades, com qualidade e com um grande sentido de responsabilidade, obviamente que é de esperar que o povo do Funchal entenda que é chegada a hora de uma "Mudança", enquanto aurora de um novo tempo onde os interesses dos cidadãos sejam colocados em primeiríssimo lugar. Não acredito, pois, em candidaturas, uma que significa a continuidade, o conhecido, a resposta sempre igual para problemas distintos, o partido que não vai além da horta urbana, a promessa que não se concretiza, o Funchal do bilhete postal e o Funchal das zonas altas; outra, que se mostra zangada com o poder, mas que, no essencial, tem alma política siamesa. São iguais, porque são partidos nascidos um para o outro, que apesar dos arrufos de circunstância, que fazem parte do jogo político, comungam da mesma ideologia e dos mesmos interesses. Basta olhar para a República e analisar o que disseram um do outro durante a campanha eleitoral de 2011, para logo de seguida, fazerem tréguas, casarem, divorciarem-se e voltarem a casar, no mesmo cartório e com a "bênção" do mesmo administrador, com comunhão de bens e com a jura de todos os bens adquiridos, após o casamento, pertencerem igualmente a ambos. No caso em apreço, reparem os leitores, até já pensam juntar os trapinhos para as eleições europeias do próximo ano! Significativo.
Assim escrevo, não pela minha costela partidária que integra esta coligação, mas porque 37 anos de um só partido com maioria absoluta é tempo demais para que alguém ainda entenda como necessária a continuidade. Chega. Viva a cidadania.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

ESCOLA A TEMPO INTEIRO - A FALTA DE CORAGEM PARA REORGANIZAR A SOCIEDADE


"(...) Muitas crianças portuguesas, entre os seis e os dez anos, trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas. "A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta a investigadora Maria José Araújo. Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 e 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora. Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária". O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado. "A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer. Trata-se sobretudo da forma como as actividades são estruturadas, já que mesmo as actividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização. "O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de actividade lectiva, é preciso descansar e brincar. As outras actividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende. Actualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância".


Ontem caiu-me na caixa de correio electrónica um comentário a um artigo publicado no DN-Madeira. Um comentário assinado por Diane Ribeiro e que tem a ver com a escola que temos e a que deveríamos ter. Um comentário que fala das crianças, do tempo de escola e do tempo lúdico. Trata-se de um texto importante, com muitas citações, sobretudo da investigadora Maria José Araújo e do pediatra Mário Cordeiro que, de certa forma, corroboram posições que aqui tenho vindo a desenvolver. Lembro-me, por exemplo, quando pela a Assembleia Legislativa passei, um diploma que apresentei, em 2010, sob o título: "Regime Jurídico do Sistema Educativo Regional (...)", onde estas e outras preocupações foram enquadradas e... chumbadas. A minha posição de princípio, frontalmente contra as "Escolas a Tempo Inteiro", pela necessidade de reorganização de toda a sociedade e de todo o sistema educativo, encontram, aqui motivos de continuada reflexão. Sem mais delongas, aqui deixo o texto de tal comentário, em comunhão de pensamento com o Professor José Pacheco: "(...) Se eu tivesse o poder que os poderosos têm, contribuiria para a reconfiguração e humanização das escolas, para uma profunda mudança na formação dos professores, que contribuísse para a reelaboração cultural, a dignificação e o prestígio da profissão. Mas, em primeiro lugar, pugnaria pela desburocratização do sistema".
"(...) Muitas crianças portuguesas, entre os seis e os dez anos, trabalham como alunas tanto ou mais do que os adultos, com oito horas diárias na escola a que muitas vezes acrescem trabalhos de casa "repetitivos e inúteis", defendem especialistas. "A vida das crianças a partir dos seis anos não pode funcionar só a partir da escola. A escola é muito importante, mas a educação informal e os momentos de lazer e o brincar são fundamentais", argumenta Maria José Araújo, investigadora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Vendo o tempo médio de trabalho de um adulto, entre 37,5 e 40 horas semanais, percebe-se que muitas crianças trabalham no seu ofício de alunas tanto como um trabalhador adulto. Contudo, enquanto o trabalho profissional dos adultos é seguido de descanso para a maioria das pessoas, o trabalho escolar é cada vez mais desenvolvido dentro e fora da sala de aula, nota a investigadora, em declarações à agência Lusa. Opinião idêntica revela o pediatra Mário Cordeiro, para quem as crianças trabalham mais do que os adultos: "Qualquer sindicato das crianças, se existisse, nunca permitiria tamanha carga horária". O tempo para brincar, descansar e preguiçar é, segundo os especialistas, subvalorizado. "A cultura escolar sobrepõe-se à cultura lúdica", refere Maria José Araújo, que lamenta que o tempo livre das crianças seja invadido pela escola, não deixando que a criança possa descansar e escolher o que fazer.
Trata-se sobretudo da forma como as actividades são estruturadas, já que mesmo as actividades de enriquecimento curricular são pensadas em termos de escolarização. "O ensino formal é muito importante e devemos estimular as crianças para isso. Mas depois de cinco horas de actividade lectiva, é preciso descansar e brincar. As outras actividades que as crianças realizem devem ter uma metodologia lúdica", defende. Actualmente, a escola e a família parecem ter esquecido que a brincar se "aprende muito": "as crianças não brincam para aprender, aprendem porque brincam. Brincar é viver, para as crianças. É necessário respeitar a cultura lúdica e as culturas da infância". Repetir em casa o que se fez na escola, prolongando o tempo de trabalho escolar, é um dos erros que se tem vulgarizado, defende. "Os TPC [trabalhos para casa] são muitas vezes repetitivos e inúteis. Meninos de seis e sete anos andarem a repetir letras e fichas, com o argumento de que eles gostam e precisam, devia ser proibido, como acontece já nalguns países", sustenta Maria José Araújo. Contudo, a investigadora diz que é necessário distinguir entre estudar e fazer TPC: "Estudar é importantíssimo e deve ser ensinado e incentivado. Deve ser mostrado isso às crianças. Mas estudar tem de ter a adesão voluntária de quem o faz. Já os TPC repetitivos podem ajudar a mecanizar, mas afastam a criança do sentido e do valor do conhecimento."
Para Maria José Araújo, os TPC, a existirem, devem ser feitos na escola, eventualmente no apoio ao estudo e nada mais, até porque "representam muito em termos de tempo que ocupam, mas muito pouco em termos de estímulos cognitivos". "Na verdade, se os TPC, tal como os conhecemos, ajudassem as crianças a ter sucesso escolar já se teria notado", indica, sugerindo que se deve antes ajudar as crianças a compreender o significado do conhecimento e das diferentes formas de aprendizagem. "Saber não é só repetir e há muitos educadores que apostam mais nesta versão", defende. Também para o pediatra Mário Cordeiro, a escola, onde os meninos permanecem tanto tempo, tem a obrigação de ensinar "sem invadir o espaço-casa, onde as crianças devem estar sem pressões". "Os TPC diários, na versão "mais do mesmo", são uma invasão da privacidade, na pior hora possível para a família e quando o aluno não tem capacidade de resposta, origina stress familiar e pessoal. Deviam ser abolidos", defende Mário Cordeiro. A crise aumenta pressão sobre as crianças para serem "alguém no futuro". A crise está a fazer com que pais e professores aumentem a pressão que exercem sobre as crianças para serem "alguém no futuro", sufocando-as com exigência e contribuindo para desencadear perturbações obsessivo-compulsivas, constata a investigadora Maria José Araújo.  
"A maioria das crianças tem imensos trabalhos para casa (TPC) para fazer depois do horário escolar e sentem-se sufocadas com a pressão dos pais, da escola, mas também dos centros de estudo e do ATL (actividades de tempos livres), que não compreendem que depois das aulas elas precisam de brincar. Com a crise, a pressão está a aumentar imenso", afirma à agência Lusa a investigadora com experiência de trabalho com crianças nesta área. Maria José Araújo considera que é necessário reflectir sobre a angústia dos pais, sobre o que significa a excelência e o sucesso, já que as crianças são diferentes e têm ritmos de vida que devem ser respeitados. A ideia de que se as crianças trabalharem muito hoje vão ser alguém no futuro não tem, no contexto actual, grande sustentação, além de se ter tornado numa pressão social, refere. "O discurso é todo à volta do sucesso, sem se explicar muito bem de que sucesso estamos a falar. E isto exerce uma pressão enorme. Os pais pressionam os filhos, os professores pressionam os alunos e a sociedade pressiona as crianças", diz. Segundo a especialista, alguns pediatras e psicólogos têm mostrado muita preocupação com esta situação, relatando atitudes de cansaço e angústia nas crianças e comportamentos de grande mal-estar que desencadeiam stress ou depressão. "O receio alimentado pelo espectro do desemprego e pela incerteza económica tem aumentado brutalmente. E aumenta a pressão sobre os pais, que exercem mais pressão sobre as crianças", nota Maria José Araújo. O pediatra Mário Cordeiro defende que o objectivo do sistema de ensino não deve ser "começar a formar cavalos de corrida para a retoma económica". "O objectivo deve ser ensinar, dar informação que permita formar conhecimento, transmitir sabedoria, dar instruções práticas para situações concretas, desenvolver a capacidade de pensar, raciocinar, reflectir, dialogar", declarou. O sistema, diz Mário Cordeiro, deveria tentar que cada aluno sinta brio e vontade de ser melhor e não, como nos quadros de honra e rankings, o melhor de todos.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 28 de julho de 2013

O DESNORTE NO SISTEMA EDUCATIVO OU O "CRATÊS" NO SEU PIOR


Os resultados, não apenas os da 1ª fase, mas também os da 2ª fase dos exames do 1º ciclo do Ensino Básico, testemunham que este Ministério da Educação, liderado por Nuno Crato, não sabe o que anda a fazer. E, por aqui, ao nível da Secretaria da Educação, pior ainda, porque, depois de trinta e tal anos de Autonomia e regionalização do sistema educativo, ainda não conseguiu estruturar o sistema à luz do conhecimento existente neste sector. Têm preferido andar a reboque, porque é mais fácil do que assumir posições. Ora, na 1.ª fase dos exames nacionais de 4.º ano a média nacional foi de 49% a Português e de 57% a Matemática. Na 2.ª fase, dos 3189 alunos que realizaram a prova de Português, apenas 322 obtiveram aprovação e, dos 5296 que fizeram o exame de Matemática, só 1076 conseguiram nota igual ou superior a 3, numa escala de 0 a 5. Estes resultados demonstram que a Língua Portuguesa apenas 7% dos alunos obtiveram classificações positivas e em Matemática 20%. Só uma palavra caracteriza a situação: descalabro. 


A minha posição sobre matéria de exames nos primeiros ciclos de estudo pode ser lida aqui.
Por outro lado, na passada semana li um artigo, no EXPRESSO, da autoria de João Rangel de Lima, Director do Externato "As Descobertas". Vale a pena lê-lo, porque caracteriza a linha de pensamento e o completo desnorte deste Ministério da Educação.
Entretanto, na Madeira, o governo demonstra não ter uma posição política sobre esta matéria. Nem nesta nem em outras. Prefere divulgar a Escola a Tempo Inteiro, a qual, do meu ponto de vista e de muitos que se preocupam com a Educação, constitui uma boa resposta para um problema errado. Sobre este tema, pode o leitor, na barra de busca, no campo superior esquerdo do blogue, digitar "escola a tempo inteiro" e aí surgirão uma série de textos a propósito desta opção, como já alguém disse, pela "escola a tempo inteiro e pais a meio tempo"!

Ilustração: Google Imagens.

sábado, 27 de julho de 2013

"EM SETEMBRO HÁ UM DIA ESPECIAL"


"(...) enquanto eles, em Portugal, foram fazendo asneiras, aqui na Madeira a grande preocupação foi andar depressa, fazer tudo o que se podia fazer para aproveitar fundos europeus", como se o caso da estrada inaugurada, digo eu, resolvesse, mesmo que minimamente, os dramas das necessidades básicas das famílias. Ainda há dias (25/07/2013) soube-se que 23.000 pessoas recebem ajuda alimentar (Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados) não estando neste número contabilizados outros tantos milhares que subsistem dos apoios de instituições diversas. E o curioso é que a 02/03/2011, o Secretário Regional dos Assuntos Sociais falava de um apoio que atingia 14.000! Só o número de enquadrados neste programa cresceu ao ritmo de 4.500 por ano. E, perante isto, perante a dimensão das carências, isto é, a dimensão da tragédia social, o presidente do governo regional, aquele a quem se deve a catástrofe, declara que na "Madeira houve muita gente que pensou que podia viver sem trabalhar, que podia viver à custa do trabalho dos outros". Do trabalho dos outros? De quem? Estará a falar dos que foram empurrados para o desemprego, quarenta e tal por cento dos quais sem direito a subsídio de desemprego, porque ele, presidente do governo, passou todos estes anos de costas voltadas para uma economia diversificada e geradora de emprego? Quem é que viveu e engordou a carteira à custa dos que hoje estão desempregados? Ora, se a economia não funciona, se, para ele, cimento e alcatrão constituem os sucedâneos dos géneros alimentícios, razão terão os cidadãos, quando questionados se a infra-estrutura, que custou um milhão de euros, co-financiada por fundos europeus, agradava ou não, uma mulher desempregada, disse-lhe na cara: "Não se esqueça que em Setembro há um dia especial".


O ainda Presidente do Governo regional e o ainda presidente da Câmara Municipal de Machico ainda não perceberam que os tempos são outros. Ainda não perceberam que uma grande parte do povo está farto de "obras", de fanfarra e de beberetes por ocasião de inaugurações, neste caso, de uma estrada, segundo o DN, que já existe há um ano! Para o "Chefe das Angústias" regionais a receita de anteontem continua a ser a solução: obras e inaugurações, paradoxalmente, quando crescem o desemprego e a pobreza. A prioridade à economia geradora de emprego continua a ser substituída pelo discurso oco, de palavras que nada dizem. Por exemplo esta declaração: "(...) enquanto eles, em Portugal, foram fazendo asneiras, aqui na Madeira a grande preocupação foi andar depressa, fazer tudo o que se podia fazer para aproveitar fundos europeus", como se o caso da estrada inaugurada, digo eu, resolvesse, mesmo que minimamente, os dramas das necessidades básicas das famílias. Ainda há dias (25/07/2013) soube-se que 23.000 pessoas recebem ajuda alimentar (Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados) não estando neste número contabilizados outros tantos milhares que subsistem dos apoios de instituições diversas. E o curioso é que a 02/03/2011, o Secretário Regional dos Assuntos Sociais falava de um apoio que atingia 14.000! Só o número de enquadrados neste programa cresceu ao ritmo de 4.500 por ano. E, perante isto, perante a dimensão das carências, isto é, a dimensão da tragédia social, o presidente do governo regional, aquele a quem se deve a catástrofe, declara que na "Madeira houve muita gente que pensou que podia viver sem trabalhar, que podia viver à custa do trabalho dos outros". Do trabalho dos outros? De quem? Estará a falar dos que foram empurrados para o desemprego, quarenta e tal por cento dos quais sem direito a subsídio de desemprego, porque ele, presidente do governo, passou todos estes anos de costas voltadas para uma economia diversificada e geradora de emprego? Quem é que viveu e engordou a carteira à custa dos que hoje estão desempregados?  
Ora, se a economia não funciona, se, para ele, cimento e alcatrão constituem os sucedâneos dos géneros alimentícios, razão terão os cidadãos, quando questionados se a infra-estrutura, que custou um milhão de euros, co-financiada por fundos europeus, agradava ou não, uma mulher desempregada, disse-lhe na cara: "Não se esqueça que em Setembro há um dia especial". Exacto. No dia 29 de Setembro chega o "dia especial". O dia de o povo saldar as contas através de um pequeno gesto, o do depósito em urna da sua vontade. Mesmo com fanfarra à mistura e comes-e-bebes à borla, com claras motivações político-eleitorais, pressuponho que poucos se esquecerão da dupla Olim/Santos Costa, guiados à distância pelo "Chefe das Angústias".
A "estrada estruturante" de Olim, entre tantas e tantas provocações e enganos ao povo de Machico, parafraseando as palavras ditas por Jardim, será julgada por esse povo que tem a certeza que, desde há 30 anos, que o sistema político se ia afundar a Região. E afundou. Só que ele, presidente, continua a chutar para longe um problema que criou.
Ilustração: google Imagens.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ESPERA SENTADO!


A população do Funchal está, assim, confrontada entre a continuidade, o faz-de-conta que é oposição e uma atitude de mudança, sobretudo quando esta brota da independência partidária, da cidadania, de pessoas que decidiram assumir que os partidos são instrumentos, importantes, é certo, mas que a sociedade é muito mais que a filiação em uma determinada instituição.


O PSD-Madeira não tem emenda. Ao desastre político ainda pede ao povo do Funchal que lhe conceda uma maioria absoluta nas próximas eleições autárquicas. Era o que faltava! Basta ter memória, olhar em redor e ter presente o generalizado descontentamento expresso no desemprego e na pobreza; bastaria um pingo de humildade para perceber que sendo a hora política tão adversa, o pedido de uma maioria absoluta pode despoletar um efeito contrário ao pretendido. Mesmo os indecisos são capazes de reagir com um gesto à Bordalo Pinheiro ou com um "vais ter... espera sentado!" Após 37 anos de poder absoluto apelam a mais um cheque em branco para as mesmas moscas. Pressuponho que tal pedido só se justifica por sensível embaraço político, síndrome de fraqueza e de tudo ou nada, porque não me parece sensato, depois de tudo o que se descobre à vista desarmada, uma candidatura atrever-se a tanto. Não que não seja legítima tal ambição, todavia não deixa de configurar uma atitude de sobranceria que, aliás, foi tónica política de quase quarenta anos de poder absolutíssimo. Mais, como se outros não existissem, como se da cidadania activa não tivessem emergido opções credíveis, como se a memória das pessoas fosse extremamente curta, como se elas fossem idiotas e não soubessem descobrir e analisar as razões estratégicas do “vigia da quinta”, os alinhamentos que fracturaram amizades e como se ninguém percebesse o jogo político em que alguns apostam para a fase pós-eleitoral, trabalhado no bas-fond político conducente a baralhar, dar de novo e manter o poder.
A população do Funchal está, assim, confrontada entre a continuidade, o faz-de-conta que é oposição e uma atitude de mudança, sobretudo quando esta brota da independência partidária, da cidadania, de pessoas que decidiram assumir que os partidos são instrumentos, importantes, é certo, mas que a sociedade é muito mais que a filiação em uma determinada instituição.
NOTA
Opinião, da minha autoria, publicada na edição de hoje do DN-Madeira.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

UM DISCURSO QUE PROVA A EXISTÊNCIA DA ALTERNATIVA CREDÍVEL PARA O FUNCHAL

FÉRIAS OLX NO PORTO SANTO


Não fica bem. Aliás, fica muito mal. Os governantes e ex-governantes deveriam ter consciência que as casas, do Porto Santo e outras, não são do governo, mas sim propriedade da Região. Significa isto que não podem existir nem privilégios nem privilegiados. Mas, independentemente deste aspecto, fica mal, muito mal, quando são utilizadas a preços OLX. Qualquer pessoa, governante ou ex-governante deveria ter vergonha de uma situação dessas. Não me custa aceitar, por exemplo, no Porto Santo, a existência de um espaço de trabalho, repito, de trabalho, para os representantes (líderes) dos órgãos de governo próprio, apenas esses, mesmo aquando de uma situação de férias. Instalar-se para gozar férias low cost, bom, essa é uma outra história só possível em um quadro de quero, posso e mando, com tonalidades ditatoriais. O problema é que temos aí quase trinta e sete anos de maus hábitos, advindos de uma cultura que perdurou durante outros quarenta e oito anos. Isto é, o madeirense tem, embora o último período seja caracteristicamente soft, oitenta e cinco anos de uma cultura de senhorios. Quem pensa que a colonia foi extinta está redondamente enganado. A colonia é que é outra e manifesta-se de múltiplas e sofisticadas maneiras. Os colonizados, também.
 

Ora bem, o senhorio, o que manda nisto, o "único importante" o que põe e dispõe, actua e garante estas benesses. Até impossibilita que o regulamento dessas casas sejam do conhecimento de todos, conforme revela a edição de hoje do DN-Madeira (Casas dos Segredos). Para tê-los submissos, curvados e obedientes, obviamente que o regime tende a desenvolver situações que prendem o rabo dos que se vergam. Podem até ter a percepção de que estão a ser engolidos na sua dignidade, mas vendem-na a preço de saldo. Como se a dignidade tivesse preço! 
A iniciativa do PND tem, por isso, no plano político, a sua razão de ser, sobretudo quando de forma tão descarada estes senhores actuam como se fossem donos desta parcela do território português. Há que travar esta ausência de pudor, com contornos fraudulentos, na utilização dos bens que são públicos. Poderão alguns dizer que não fica bem, que aquela iniciativa pode configurar um crime de introdução em lugar vedado ao público. Pois, o poder dos senhorios assim considerará, mas digam-me lá, então, como fazer eco, de forma extremamente pacífica, com características de teatro de rua e com muito humor à mistura, de uma situação que é vergonhosa à luz dos princípios e dos valores que devem nortear a democracia e a administração dos bens públicos? Esta acção foi muito mais eficaz no plano político do que a denúncia através de um qualquer artigo de opinião. Não sei se outros não pensarão duas vezes antes de solicitarem a utilização daquele espaço a preço de saldo. Ou mesmo os próximos inquilinos, a partir dos próximos dias!  
A revolta de muitos portosantenses sobre estas férias "douradas" dos senhores governantes e ex-governantes explicam que, de facto, estão fartos de sentirem que o Porto Santo é uma colónia de férias de alguns senhores do Funchal. Um povo que anda a passar muito mal, com desemprego, pobreza e empresários insolventes, obviamente que exige respeito, quando olha para o lado e vê que não somos todos iguais, uns, na realidade, são mais iguais do que outros! Basta ir, por mera curiosidade, ao sítio da internet onde são divulgados os preços de utilização do parque de campismo do Porto Moniz e compararmos os preços aí praticados (desconheço se foram actualizados) com a(s) casa(s) utilizada(s) no Porto Santo (por dia): tenda de 25m2 € 7,00 + € 2,80 por pessoa (4 pessoas = € 11,20). Total: € 18,20, para além de uma caução de € 25,00... para dormir no chão e sem as diversas comodidades de uma casa. Então tudo isto não é merecedor de um teatrinho no quintal da casa?
Ilustração: Capa do DN-Madeira.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

CANDIDATO BRUNO PEREIRA OPTA PELA POLÍTICA DO VALE TUDO!


Neste contexto, coexistem dois aspectos que julgo serem relevantes: primeiro, o Dr. Bruno Pereira envolvido nesta história, dá a entender que se encontra numa linha de vale tudo. Quando um candidato não se demarca de certos comportamentos típicos do jardinismo, demonstra que é igual ao "chefe das Angústias". Pior a emenda quando o candidato diz: "estou em exercício de funções enquanto vereador, fui convidado pelo senhor presidente da junta de freguesia e com muito gosto aceitei participar". Como se fossemos idiotas!; em segundo lugar, perante factos denunciados e documentados como este que o DN trouxe a lume, qual a posição do Senhor Representante da República? Ah, dirá, que não tem nada a ver com isso, que o período eleitoral ainda não começou, blá, blá, blá, blá, e, portanto, não tem sentido uma sua intervenção. Pessoalmente, entendo que deveria ter. Deveria, através de uma chamada de atenção, constituir-se, através da palavra, como uma referência moral do que por aí acontece. Dirá, também, que não tem competências para tal. Não é bem assim. Ele é o Representante da República, nomeado pelo Presidente da República, a Região é portuguesa, logo, rege-se, também, por padrões de comportamento que devem ser considerados. Tão importante como uma qualquer visita a uma instituição ou receber cumprimentos institucionais deste ou daquele, são as questões relacionadas com o exercício da DEMOCRACIA que deveriam constituir uma sua preocupação diária.

Vizinha... com molho ou sem molho?

Noticia o DN-Madeira, em uma "denúncia" do Deputado Hélder Spínola: "No passado sábado, a Junta de Freguesia de Santo António promoveu um passeio ao Porto Moniz, com almoço incluído servido na Santa, e em que participaram mais de 700 pessoas (15 autocarros). Quem não perdeu a oportunidade para fazer campanha às custas dos recursos da Junta de Freguesia de Santo António (de todos nós, portanto) foi o candidato do PSD à Câmara do Funchal, Bruno Pereira, que fez questão de distribuir os almoços". Aqui fica a foto DN, cujo texto pode ser lido aqui.
Alguns perguntarão, qual a novidade, pois que sempre foi assim? Os meios públicos, que a todos pertence, sempre foram utilizados para a mais descarada campanha eleitoral: para a realização de comícios, para arregimentar, para demonstrar poder, para comprar o voto a troco de um almoço, de um jantar ou de um passeio. Macarronada, feijoada, dobrada à moda do Bruno, seja lá o que for, tudo serve para juntar o povo e para tentar enganá-lo. Que o partido, com os seus meios, projecte uma campanha eleitoral, de não comprometimento de projectos para o Funchal e opte por uma política de estômago, tudo bem, pessoalmente, nada tenho a comentar. Bom proveito faça a quem desfruta de um prato. Dessa política, obviamente, retiro as minhas leituras e, certamente, muitos funchalenses retirarão as suas. O problema é outro, muito grave, é a subtileza de, através dos escassos recursos financeiros das Juntas de Freguesia, promover convívios com candidatos. Não o fazem ao longo do ano, não têm uma política de combate à pobreza e exclusão social escondida por tantos sítios, becos, entradas e impasses, mas porque se aproximam eleições, disponibilizam dinheiro para o pagamento da factura. Pouca-vergonha. Já não basta o Jornal da Madeira, também as freguesias compõem o ramalhete com actividades que constituem, por um lado, uma provocação, por outro, clarifica, totalmente, o posicionamento destes candidatos se, eventualmente, forem eleitos.
Neste contexto, coexistem dois aspectos que julgo serem relevantes: primeiro, o Dr. Bruno Pereira envolvido nesta história, dá a entender que se encontra numa linha de vale tudo. Quando um candidato não se demarca de certos comportamentos típicos do jardinismo, demonstra que é igual ao "chefe das Angústias". Pior a emenda quando o candidato diz: "estou em exercício de funções enquanto vereador, fui convidado pelo senhor presidente da junta de freguesia e com muito gosto aceitei participar". Como se fossemos idiotas!; em segundo lugar, perante factos denunciados e documentados como este que o DN trouxe a lume, qual a posição do Senhor Representante da República? Ah, dirá, que não tem nada a ver com isso, que o período eleitoral ainda não começou, blá, blá, blá, blá, e, portanto, não tem sentido uma sua intervenção. Pessoalmente, entendo que deveria ter. Deveria, através de uma chamada de atenção, constituir-se, através da palavra, como uma referência moral do que por aí acontece. Dirá, também, que não tem competências para tal. Não é bem assim. Ele é o Representante da República, nomeado pelo Presidente da República, a Região é portuguesa, logo, rege-se, também, por padrões de comportamento que devem ser considerados. Tão importante como uma qualquer visita a uma instituição ou receber cumprimentos institucionais deste ou daquele, são as questões relacionadas com o exercício da DEMOCRACIA que deveriam constituir uma sua preocupação diária. Mas, enfim... se o Presidente da República não tem mão sobre as barbaridades políticas que se passam na Madeira, o Representante terá? 
Um dia tudo isto mudará... podem alguns senhores ter a certeza que mudará. Só a mudança é imutável ou, então, como assumiu John F. Kennedy: "A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro."
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A MOÇÃO DE CONFIANÇA A CAVACO


Li o discurso o Presidente da República (em exercício) e, a páginas tantas, fixei-me e reli esta parte: "(...) Desde o início do século XXI, temos caminhado aos avanços e recuos: a um período de grandes ilusões segue-se sempre um período de forte austeridade. Ao fim de mais de uma década, ainda não encontrámos forma de nos libertar deste ciclo vicioso (...)". Reparemos bem, ele não falou do Século XX, onde foi, num período determinante da nossa recente História, primeiro-ministro durante dez anos. Não falou de um período que se impunha a estruturação do futuro através da reorganização do Estado e da defesa de grandes projectos estruturantes em vários sectores que propiciassem o crescimento e o desenvolvimento. E dispôs de milhões para isso vindos da então magnânima Europa. Vinte e tal anos depois seria tempo, hoje, do País estar a desfrutar de outros equilíbrios e de uma outra riqueza que não tem. Ele foi primeiro-ministro entre 1985/1995, só que faz todos os possíveis por se esquecer desse período, porque sabe que os erros do passado repercutem-se no futuro, da mesma forma que os projectos bem sucedidos acabam por gerar, no futuro, quadros auspiciosos. Só no sector educativo, em dez anos, nomeou cinco ministros! Se, hoje, a nossa estrutura económica, financeira e social é muito débil, é porque estamos a pagar, com juros, os erros de natureza estratégica cometidos há vinte e tal anos. Os erros não são de 2000 para cá, mas dos anos 80 do século passado para cá!


É estranho, ou talvez não, o Presidente da República anunciar que o governo vai apresentar uma "moção de confiança". No mínimo é esquisito. Compete ao governo tomar tal iniciativa e anunciá-la, nunca o Presidente. Parece-me óbvio. No entanto, destacou na sua intervenção: "(...) Os partidos da coligação apresentaram ao Presidente da República garantias adicionais de um entendimento sólido para alcançar estes objectivos e a informação de que o Governo irá solicitar à Assembleia da República a aprovação de uma moção de confiança e aí explicitará as principais linhas de política económica e social até ao final da legislatura. (...)". Deste texto se pode concluir que ele já sabia, antes das reuniões que visaram o tal "compromisso", das intenções do governo, o que permite várias leituras a este processo. Seja como for, não lhe competia fazer tal anúncio, ainda por cima quando tal moção, no plano da votação final, não é mais do que uma censura ao contrário, pois a existência de uma maioria política só poderá determinar, neste caso, "confiança no governo". Eu diria que será mais uma moção de confiança a Cavaco do que propriamente uma moção de confiança ao governo. 
Li o discurso o Presidente da República em exercício e, a páginas tantas, fixei-me e reli esta parte: "(...) Desde o início do século XXI, temos caminhado aos avanços e recuos: a um período de grandes ilusões segue-se sempre um período de forte austeridade. Ao fim de mais de uma década, ainda não encontrámos forma de nos libertar deste ciclo vicioso". Reparemos bem, ele não falou do Século XX, onde foi, num período determinante da nossa recente História, primeiro-ministro durante dez anos. Não falou de um período que se impunha a estruturação do futuro através da reorganização do Estado e da defesa de grandes projectos estruturantes em vários sectores que propiciassem o crescimento e o desenvolvimento. E dispôs de milhões para isso vindos da então magnânima Europa. Vinte e tal anos depois seria tempo, hoje, do País estar a desfrutar de outros equilíbrios e de uma outra riqueza que não tem. Ele foi primeiro-ministro entre 1985/1995, só que faz todos os possíveis por se esquecer desse período, porque sabe que os erros do passado repercutem-se no futuro, da mesma forma que os projectos bem sucedidos acabam por gerar quadros auspiciosos. Só no sector educativo, em dez anos, nomeou cinco ministros!  Se, hoje, a nossa estrutura económica, financeira e social é muito débil, é porque estamos a pagar, com juros, os erros de natureza estratégica cometidos há vinte e tal anos. Os erros não são de 2000 para cá, mas dos anos 80 do século passado para cá! 
Em uma outra passagem da sua intervenção destacou: "(...) As circunstâncias actuais eram particularmente propícias para que se fizesse um esforço sério para instaurar em Portugal uma cultura política de diálogo e de compromisso semelhante à que existe na generalidade das democracias europeias. Recordo que, na União Europeia, 75% dos países de média dimensão, como Portugal, são governados com base em entendimentos políticos entre um leque partidário alargado (...)". Pois, mas esses entendimentos têm por base percentagens eleitorais resultantes de eleições, tal como, em Portugal, existe um entendimento entre duas forças políticas do centro-direita. O Presidente (em exercício) mistificou a situação portuguesa, confundiu-a intencionalmente, culpabilizando, não culpabilizando, os socialistas por não aderirem ao "compromisso", numa espécie de uma por ele desejada "união nacional" de outros tempos. Mais, ainda, como pode o Presidente pedir uma "cultura política de diálogo e de compromisso" quando a coligação, politicamente maioritária, durante dois anos, pura e simplesmente ignorou e massacrou o partido socialista? Razão tem o Professor Viriato Soromenho-Marques quando sintetiza: "Hoje, Cavaco tem ainda menos autoridade do que o pouco poder que lhe restava. Tornou-se num actor sem relevância nem credibilidade".
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA EM EXERCÍCIO NOMEOU CAVACO PRIMEIRO MINISTRO


Decididamente, Portugal não tem Presidente da República. Eu diria que o Presidente da República em exercício nomeou Cavaco Primeiro Ministro. A estratégia política do governo continuará como sempre ele quis e, como causas iguais propiciam consequências iguais, obviamente que se espera mais austeridade e mais dificuldades para todo o povo. Não estarei longe da verdade se disser que Cavaco sentou todo o País em cima de uma bomba relógio, porque as tensões sociais vão-se agravar e a instabilidade inevitavelmente crescerá. Há limites para os sacrifícios. Mais cedo que tarde, estou convicto, as circunstâncias determinarão a necessidade de eleições antecipadas. Cansa-me esta figura que um dia disse que raramente se enganava e que nunca tinha dúvidas. Cansa-me esta figura que também assumiu que "raramente lia jornais", talvez por isso mesmo não tenha o senso da realidade. Cansa-me esta figura cinzenta, que caminha sempre atrás dos acontecimentos, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, mas que permitiu que um governo, num lapso de dois anos, desse cabo de muitos direitos sociais conquistados ao longo de décadas. O "homem do leme", aquele que tem uma visão minimalista da Constituição e dos poderes do Presidente da República, ontem, à hora marcada, falou aos portugueses para, em suma, dizer-lhes que fica tudo na mesma. Baralhou e deu de novo. Deveria ter assumido, ao contrário de ontem, que teve dúvidas e que se enganou. Deveria ter pedido desculpa aos portugueses, porque, nas actuais circunstâncias, todo este tempo de indecisões e de decisões erradas custará muito aos portugueses.


E vamos para um mês nesta paródia patrocinada pelo Senhor Presidente da República, apostado que esteve numa espécie de "união nacional". 
Recuando no tempo, julgo que foi em Oliveira de Azeméis, já tem uns anos, Hermínio Loureiro, presidente da Câmara Municipal, descreveu-o como "garante da estabilidade perante o nervosismo de muitos outros" e, dirigindo-se directamente a Cavaco Silva, afirmou: "precisamos de o ter como o homem do leme, alguém que, no meio da tempestade, não perca o rumo e leve a nau portuguesa a bom porto". O "homem do leme", caracterização (irritante em democracia) para consumo interno e, porventura, para dentro das próprias hostes social-democratas, dir-se-á que encalhou o navio. Ontem, na declaração ao País, fez como o capitão Schettino, pôs-se ao fresco, com a justificação que caiu para dentro da baleeira. No essencial, disse que tentou salvar o "navio" só que a tripulação não se entendeu. A culpa não foi dele, conclui-se, os malandros do PS, certamente, é que não quiseram seguir o seu conselho de uma "união nacional" dos novos tempos. 
Decididamente, Portugal não tem Presidente da República. Eu diria que o Presidente da República em exercício nomeou Cavaco Primeiro Ministro. A estratégia política do governo continuará como sempre ele quis e, como causas iguais propiciam consequências iguais, obviamente que se espera mais austeridade e mais dificuldades para todo o povo. Não estarei longe da verdade se disser que Cavaco sentou todo o País em cima de uma bomba relógio, porque as tensões sociais vão-se agravar e a instabilidade inevitavelmente crescerá. Há limites para os sacrifícios. Mais cedo que tarde, estou convicto, as circunstâncias determinarão a necessidade de eleições antecipadas. É uma questão de tempo.
Cansa-me esta figura que um dia disse que raramente se enganava e que nunca tinha dúvidas. Cansa-me esta figura que também assumiu que "raramente lia jornais", talvez por isso mesmo não tenha o senso da realidade. Cansa-me esta figura cinzenta, que caminha sempre atrás dos acontecimentos, que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição, mas que permitiu que um governo, num lapso de dois anos, desse cabo de muitos direitos sociais conquistados ao longo de décadas. O "homem do leme", aquele que tem uma visão minimalista da Constituição e dos poderes do Presidente da República, ontem, à hora marcada, falou aos portugueses para, em suma, dizer-lhes que fica tudo na mesma. Baralhou e deu de novo. Deveria ter assumido, ao contrário de ontem, que teve dúvidas e que se enganou. Deveria ter pedido desculpa aos portugueses, porque, nas actuais circunstâncias, todo este tempo de indecisões e de decisões erradas custará muito aos portugueses.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 21 de julho de 2013

AS APARÊNCIAS ILUDEM


Não é sério quando assume e critica que "o PS criou o problema e não quer fazer parte da solução". Pelo contrário, quem criou o problema, à luz dos dados que acima lhe deixo, é que deve resolvê-los. E relembro-lhe as palavras de Paulo Portas, em Março de 2011: "o PS não é parte da solução, é parte do problema". Depois do descalabro da governação social-democrata/centrista e da posição de Portas fará algum sentido pedir, aos para si "culpados" da situação, uma bóia de salvamento político, ao jeito de repartição da factura dos estragos feitos por clara impreparação para governar? Relembro, também, que foram legitimamente eleitos após chumbarem, na Assembleia da República, o PEC IV e o governo foi empossado pelo Presidente da República, com um programa de "salvação nacional". Prometeram resolver o problema do País sem esfrangalhar o já de si pobre tecido social. Foi o que vimos! Mas, o curioso, José Manuel Rodrigues, é que ao mesmo tempo que responsabiliza o PS, também diz que "é necessário ter um governo mais forte que lance políticas", o que significa que este governo, em sua opinião, evidencia sensíveis fragilidades e que, deduzo eu, o campo da austeridade pela austeridade apenas agravou a situação herdada. Em que ficamos? Pergunto-lhe, então, neste contexto e uma vez mais, se faz algum sentido, chamar para um "compromisso", de governo ou de legislatura, aqueles que, no seu entendimento, foram os culpados, os mais gastadores e sem sentido de Estado, aqueles que conduziram "o país à maior dívida da sua história"? Que incoerência política, Caro José Manuel!


Meu Caro 
José Manuel Rodrigues,
Somos Amigos há muitos anos. Julgo que a consideração e estima pessoal é mútua. Respeitamo-nos com as naturais diferenças de pensamento político. Sou por políticas de esquerda, de respeito pelo ser humano, o meu Caro pertence à direita política que se esqueceu do seu ideário democrata-cristão. Mas isso não significa que não nos entendamos e nos respeitemos. É essa forma de estar na vida e no exercício da política que me leva a escrever estas linhas ao correr do pensamento. Que gostaria que fossem interpretadas de forma séria, sem interesse colateral em função da proximidade das eleições autárquicas. Se ler estas linhas considere-as como se estivéssemos numa conversa informal, em tempo quente, em todos os sentidos, com uma cerveja pelo meio. 
Meu Caro, politicamente, não é sério, nem justo, que assuma que foi o PS "que conduziu o país à maior dívida da sua história". Repito: não é sério, nem justo. A declaração pode servir interesses políticos mediáticos, na cavalgada pelo poder, mas não tem sustentabilidade. Sabe, tão bem quanto eu, que o governo do Engº José Sócrates, no primeiro mandato, reduziu um défice de 6.83% para menos de 3% e com quatro factores que não devem ser escamoteados: crescimento económico, substancial aumento dos benefícios sociais, política de abertura aos mercados externos (exportações) e aposta nos sectores estratégicos, concretamente, na educação/ciência e energias, entre outras. Não lhe vou dar exemplos, porque o meu Amigo sabe que assim foi. E sabe também que a avassaladora crise, a pior dos últimos oitenta anos, colocou muitos países em situação complexa. Os países com maiores debilidades estruturais foram os que mais sofreram. A nossa taxa de analfabetismo, insucesso, abandono, défice no campo profissional e quase 2,5 milhões de pobres (INE) foram determinantes para impedir o esbatimento das consequências do gigantesco tsunami económico e financeiro. Independentemente das circunstâncias internas, peço-lhe que olhe, por exemplo, para Espanha, que tinha superavit nas contas públicas e como ela está hoje, entre tantos outros países que andam de angústia em angústia. A crise portuguesa tem, portanto, origem externa, o que não significa que não tivessem sido cometidos erros. Qual o governo que não os comete(u)? Porém, não se me afigura sério que apenas se olhe para um dos pratos da balança e que, politicamente, se esconda o peso do que de bom foi concretizado. 
Ora bem, mas se esse foi, no seu entendimento, um mau período de governação, o que dizer do governo a que o seu partido pertence que de uma riqueza do País que estava a cair 0,9%, em 2011, hoje, cai 4%; que dizer do seu governo cuja taxa de desemprego era de 12,1% e que passou para 17,6%; onde a dívida pública era de 107% do PIB e passou para 127% e que continua em acelerado e preocupante crescimento; onde o défice estava em 8% e que hoje é de 10,6%? Caro José Manuel Rodrigues, permita-me que lhe diga, uma vez mais, não está a ser sério, quando conhece, porventura melhor do que eu, todas as promessas feitas aos portugueses pelos partidos da coligação PSD/CDS, nessa ânsia apressada de chegar ao poder ou ao "pote" conforme se queira interpretar. Em dois anos de governo, o José Manuel Rodrigues sabe que esta coligação deu cabo do País, intencionalmente empobreceu-o, castigou-o com impostos e taxas pavorosas, maltratou os reformados e pensionistas, conduziu o povo a um novo ciclo de emigração e de um PEC IV, negociado com as mais altas instâncias europeias e com o "selo" de garantia de Merkel, hoje, andará pelo PEC quinquagésimo se somarmos as medidas desde então tomadas!
Não é sério quando assume e critica que "o PS criou o problema e não quer fazer parte da solução". Pelo contrário, quem criou o problema, à luz dos dados que acima lhe deixo, é que deve resolvê-los. E relembro-lhe as palavras de Paulo Portas, em Março de 2011: "o PS não é parte da solução, é parte do problema". Depois do descalabro da governação social-democrata/centrista e da posição de Portas fará algum sentido pedir, aos para si "culpados" da situação, uma bóia de salvamento político, ao jeito de repartição da factura dos estragos feitos por clara impreparação para governar? Relembro, também, que foram legitimamente eleitos após chumbarem, na Assembleia da República, o PEC IV e o governo foi empossado pelo Presidente da República, com um programa de "salvação nacional". Prometeram resolver o problema do País sem esfrangalhar o já de si pobre tecido social. Foi o que vimos! Mas, o curioso, José Manuel Rodrigues, é que ao mesmo tempo que responsabiliza o PS, também diz que "é necessário ter um governo mais forte que lance políticas", o que significa que este governo, em sua opinião, evidencia sensíveis fragilidades e que, deduzo eu, o campo da austeridade pela austeridade apenas agravou a situação herdada. Em que ficamos? Pergunto-lhe, então, neste contexto e uma vez mais, se faz algum sentido, chamar para um "compromisso", de governo ou de legislatura, aqueles que, no seu entendimento, foram os culpados, os mais gastadores e sem sentido de Estado, aqueles que conduziram "o país à maior dívida da sua história"? Que incoerência política, Caro José Manuel!
E quanto a eleições antecipadas, ao sublinhar que elas "só viriam a agravar a situação do país em termos financeiros", desculpar-me-á mas penso que se trata de uma afirmação sem qualquer consistência e apenas para consumo dos menos esclarecidos. Agravar em que aspecto? É tão legítimo pensar dessa forma como eu presumir que, através de um confronto político, os "mercados" repensariam a sua estratégia de exploração e de esmagamento dos países. É preciso sustentar aquilo que se afirma. Eu não entro nesses domínios da discussão, em função de uma complexidade que não domino, mas estou certo que há uma absoluta necessidade de uma nova ordem internacional, que Christine Lagarde não pode dizer hoje uma coisa e, amanhã, o seu contrário, e que à Europa, dominada pela onda neoliberal, comilona e insaciável a que o seu partido pertence, devem os países mostrar os dentes. Repito: mostrar os dentes! Sabe, não devemos ser eternos "bons alunos". É tempo de sermos bons professores! Temos que nos dar ao respeito, em função de quase novecentos anos de História. Hoje, não se empresta dinheiro, vende-se dinheiro. E o dinheiro que nos venderam, tem de ser restituído, é certo, mas de forma (re)negociada e com taxas de juro que não signifiquem o estrangulamento de dez milhões e de outros por essa Europa fora.  
Mas ainda sobre as eleições antecipadas, a talhe de foice, questiono o meu Amigo, fazendo um zoom à Madeira, se a sua tese corresponde ao mesmo princípio, isto é, que elas também aqui não se justificam? Com uma dívida (impagável) estimada em mais de oito mil milhões (com as PPP), com 25.000 desempregados, empresas em falência, pobreza em crescimento, será, pergunto-lhe, que a nossa situação se agravaria com eleições antecipadas? Dir-me-á que são dimensões diferentes do problema. Respondo-lhe, tal como Cunhal disse a Soares: "olhe que não... olhe que não". A embrulhada é a mesma, a pouca-vergonha política por aqui é pior que a da República, daí que, eleições para colocar esta gente a andar justifica-se, sendo para tal necessário um pingo de responsabilidade por parte do Presidente da República, figura que está em Belém com o apoio do CDS/PP, convém lembrar. A não ser que esteja a pensar numa coligação com o PSD-M! O mesmo lhe digo, relativamente, ao governo de Passos/Portas, completamente desacreditado, onde só a devolução da palavra ao povo poderá trazer alguma esperança. O meu Amigo não as deseja, eu compreendo, porque sabe o que vale o CDS de lá e o CDS de cá; sabe que o desastre eleitoral para o CDS será catastrófico, porque poucos perdoarão o que fizeram durante estes dois anos de tormento pela sistemática agressão aos mais elementares direitos das pessoas. 
Sem me afastar deste meu desabafo, porque as palavras são como cerejas, em Maio passado li, no Expresso, um artigo de Paulo Gaião com o seguinte título: "Porque é que o CDS não aprovou o PEC IV". Ele traz à colação Lobo Xavier que chamou "aprendiz de feiticeiro" a Passos Coelho e onde sublinha que o CDS "é especialista nestes revisionismos históricos, em que só os outros saem mal na fotografia". O autor, mais adiante, transcreve o que é contado no livro "Resgatados", de David Dinis e Hugo Filipe Coelho (editora Esfera dos Livros), sublinhando que "muita gente no PSD, ainda que por diferentes razões, pôs as mãos na cabeça quando Passos anunciou que ia rejeitar o PEC IV. Durão Barroso telefonou ao líder do PSD para o demover: "Não pode chumbar isso. Já foi muito discutido. Esteve aí uma missão da Comissão Europeia e do BCE a preparar tudo". "Isto com a Grécia foi horrível, se você puder evitar isso é o mais importante. Depois terá uma oportunidade (...)". Eduardo Catroga tinha uma visão diferente mas também era contra o chumbo do PEC IV, como se refere no mesmo Resgatados. Em telefonema a Passos, Catroga disse ao líder do PSD: "Se eu fosse a si, ainda viabilizava mais este, porque isto vai rebentar mais à frente, antes do fim do ano. Aguente e o Sócrates cai para a casa dos 10% e, então, fica bem enterrado". O CDS quer engalfinhar os laranjinhas. O problema é a bomba ao retardador também o atingir (...) o velho problema do CDS quando começa a fazer piruetas muito ousadas e morde a própria cauda". É este tipo de política, Amigo José Manuel, que repudio. Você conhece o bas-fond da política e mais não lhe digo, porque seria ensinar o "Pai Nosso ao vigário".
Caro José Manuel Rodrigues, eu compreendo a sua angústia pela proximidade de um acto eleitoral onde decidiu jogar tudo e cujos tiros podem sair pela culatra. Não se convença da expressão eleitoral das últimas legislativas que lhe garantiu nove deputados. O PS também já teve dezanove embora num outro contexto. Quando tive algumas responsabilidades políticas sabia que quando o PS por lá andava bem, na Madeira crescíamos; a contrária também foi sempre verdadeira. No seu caso, presumo, que o mesmo se verificará. O desastre da governação nacional (PSD/CDS) terá repercussões no seu partido ao nível regional, apesar de alguma condescendência que venho a verificar na crítica política em relação ao PSD. Parece-me óbvio que sofrerá as consequências da péssima governação nacional. É a vida! O que não me parece de bom tom político é a dissimulação, é responsabilizar outros por incompetências provadíssimas, é querer estar no poder sem apoio social, é ter um discurso na República e outro na Madeira. Isso, não aceito.
Meu Caro, um dia destes falamos com uma cerveja pelo meio. Talvez ajude a afogar as suas "mágoas". As minhas expresso-as neste blogue, porque há um tempo para fazer política e um tempo para reflectir o que vai acontecendo em nosso redor.
Um abraço de Amizade.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 20 de julho de 2013

A AMPULHETA E O PRESIDENTE


Ou o Presidente se despacha com o "despacho" ou vamos ter um sarilho e dos grandes. E para mim é claro que quem deitou areia neste processo foi, exactamente, o Presidente da República. A engrenagem já não funcionava bem, todos sabemos que estava desconjuntada, agora muito pior com tanta areia vertida para dentro do motor. A história de "eu avisei" chegou ao final. Há dias, João Garcia, no Expresso, tocou no ponto que o Presidente escamoteou: "(...) Pedir a Passos que governe com um bocadinho do programa socialista e a Seguro que feche os olhos aos desígnios dos social-democratas é o mesmo que acreditar que Eva poderia ter resistido a trincar a maçã. Mais tarde ou mais cedo viria a dentada fatal. Se Passos e Portas ainda não esconjuraram a austeridade e até asseguraram que Gaspar continuará, pelo menos em espírito, nas Finanças, e o PS ainda não desistiu de contrapor o desenvolvimento, como encontrar a conciliação? Para quanto é preciso reduzir o corte de 4,7 mil milhões de euros no Estado Social para que possa ter a bênção do PS? E qual a dimensão do corte a fazer nas propostas do pacote laboral da Função Pública? O Governo seria de matriz democrata-cristã, liberal, social-democrata e teria uns pozinhos de socialista?"

Veredicto: Culpado!

Assim se perdeu mais uma semana. Qualquer pessoa atenta, com alguma memória e independente de mexericos políticos, percebia que estes encontros de "compromisso" não iriam dar em nada. Tão simples quanto esta pergunta que se impunha ao Presidente, no silêncio do seu gabinete: se existe uma maioria absoluta na Assembleia da República e se, apesar de todos os indicadores que denunciam o descalabro do País, são inoportunas eleições antecipadas (disse), que justificação existe para chamar à liça o maior partido da oposição, depois de dois anos a ser massacrado e ignorado? Não se questionou. O que terá, então, passado pela cabeça do Presidente? Talvez, a tentativa de esbater a incompetência governativa do PSD/CDS, chamando, no limite, para o governo, o PS, por aí amarrando-o politicamente? É uma hipótese. Mas uma hipótese que qualquer pessoa minimamente informada adivinhava que não levaria a parte alguma. Foi uma encenação de má qualidade. Entretanto, foi até às Selvagens, anilhou uma cagarra e esqueceu-se que os madeirenses andam "anilhados" há trinta e tal anos. Nem uma palavra sobre o desastre regional! Tudo bem, digo eu, cada assunto no seu lugar, tal como li algures, "cada cavaco no seu galho". 
Perdeu-se mais uma semana (já lá vão 21 dias, desde o início da crise política) que poderia ter sido aproveitada para caminhar no sentido da solução deste drama. O Presidente diz que tem outras soluções jurídico-constitucionais. Espera-nos, certamente, mais uma semana de impasse. A ronda de ontem pelos líderes partidários, em síntese, resumiu-se a dois partidos a dizerem ao Presidente que o terceiro não quer envolver-se na "festa", isto é, quem chumbou o PEC IV, quem trouxe a troika para Portugal, quem possibilitou que técnicos (não políticos) estranhos impusessem as regras de um repelente neoliberalismo, quem explorou os reformados e pensionistas até ao tutano, quem aplicou impostos insuportáveis, quem criou o código de trabalho, quem roubou direitos sociais básicos e inquestionáveis, quem mandou os jovens emigrarem, quem estrangulou as empresas e quem gerou desemprego, pobreza e emigração, agora, que resolva o problema. Ainda têm dois anos de mandato com maioria absoluta. Certamente que não disseram isto ao Presidente, mas o Presidente, se não enjoou na travessia Selvagens-Funchal, parece-me óbvio que terá chegado a tal conclusão. O que irá fazer, não sei. Pressuponho que, em um primeiro momento, forçará uma profunda remodelação do governo e, só depois,  poderá optar por eleições antecipadas. Se optar! A verdade é que perdemos tempo e a ampulheta, enquanto relógio de areia, com o Presidente nela metido, está quase no limite. 
O tempo está a esgotar-se...
e ele "anilhado" a quê?
Ou o Presidente se despacha com o "despacho" ou vamos ter um sarilho e dos grandes. E para mim é claro que quem deitou areia neste processo foi, exactamente, o Presidente da República. A engrenagem já não funcionava bem, todos sabemos que estava desconjuntada, agora muito pior com tanta areia vertida para dentro do motor. A história de "eu avisei" chegou ao final. Há dias, João Garcia, no Expresso, tocou no ponto que o Presidente escamoteou: "(...) Pedir a Passos que governe com um bocadinho do programa socialista e a Seguro que feche os olhos aos desígnios dos sociais-democratas é o mesmo que acreditar que Eva poderia ter resistido a trincar a maçã. Mais tarde ou mais cedo viria a dentada fatal. Se Passos e Portas ainda não esconjuraram a austeridade e até asseguraram que Gaspar continuará, pelo menos em espírito, nas Finanças, e o PS ainda não desistiu de contrapor o desenvolvimento, como encontrar a conciliação? Para quanto é preciso reduzir o corte de 4,7 mil milhões de euros no Estado Social para que possa ter a bênção do PS? E qual a dimensão do corte a fazer nas propostas do pacote laboral da Função Pública? O Governo seria de matriz democrata-cristã, liberal, social-democrata e teria uns pozinhos de socialista? Na próxima campanha eleitoral teríamos a singular situação de ver o PS criticar o Governo cessante apesar de ter aplicado parte das suas propostas, e a maioria a lamentar não ter feito melhor por ter sido constrangida pela oposição". Mais para quê?
Ilustração: Google Imagens. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A "SELVAGEM" HIPOCRISIA


O Diário de Notícias de Lisboa traz como manchete: "Cavaco elogia luta contra ratos e coelhos que destruíram a riqueza". Na política as palavras têm um contexto, mas também podem assumir outras leituras conotativas que o emissor constrói através de um pensado jogo de palavras. Perguntar-se-á, então, em função da crise política e da sua última intervenção aos portugueses, quem são, politicamente, os ratos e coelhos que "destruíram a riqueza"? Ele não falou da natureza, mas de riqueza! Qual riqueza, a do País? Só ele saberá se de "roedores políticos" falava ou da defesa daquele santuário natural através da paixão profissional dos vigilantes que ali passam semanas. Se as suas palavras assumiram um sentido conotativo, ora bem, poder-se-á dizer, então, que enquanto "vigilante" da Nação, não tem sabido seguir o livrinho (Constituição) para controlar a rataria política e a coelhada que colocou a "riqueza" do País que estava a cair 0,9%, em 2011, e hoje cai 4%; a taxa de desemprego que era de 12,1% e que passou para 17,6%; a dívida pública que era de 107% do PIB e passou para 127%; o défice que quase chegava aos 9% e que hoje é de 10,6%. E, perante isto, questiono se o Supremo "vigilante" da Nação pode dar-se ao luxo de adiar 12 meses para perguntar ao povo qual o caminho que deseja seguir. É que, Senhor Presidente, nós não somos cagarras!


Duas notas:
Primeira. Confrontado pelos jornalistas sobre as suas relações com Cavaco Silva, Alberto João Jardim, na Selvagem Grande, disse: “Só o senhor Presidente me ajudou neste vale de lágrimas”. Se foi sincero demonstrou, simultaneamente, uma "selvagem" hipocrisia; se foi irónico, deu a entender que continua sem respeito por ninguém. Enquanto Presidente da República não nutro qualquer simpatia e disso tenho aqui dado conta, da mesma forma que o presidente do governo não gosta do "Sr. Silva", todavia, manda o respeito e a dignidade institucional outra forma de comportamento e de relacionamento. Atirar, em determinados momentos, venenosas setas à figura do Presidente e, olhos nos olhos, referenciá-lo como o único que o "ajudou" só pode ter a classificação de hipócrita. Coisa que não é de estranhar, valha a verdade, pois esse sempre foi o seu registo político. Lembro-me quando assumiu, julgo que em Fevereiro de 2005, que "é preciso ter a coragem de expulsar o senhor Silva, que não seria ninguém sem o partido que o apoiou". 
Se trago este tema para as minhas divagações diárias é porque me choca esta forma de actuação no exercício da política. É um mundo que me enoja, porque feito de cinismo, de gente que não dorme para gerir a porcaria do dia seguinte. Sempre no meio de sorrisos!
Segunda. O Diário de Notícias de Lisboa traz como manchete: "Cavaco elogia luta contra ratos e coelhos que destruíram a riqueza". Na política as palavras têm um contexto, mas também podem assumir outras leituras conotativas que o emissor constrói através de um pensado jogo de palavras. Perguntar-se-á, então, em função da crise política e da sua última intervenção aos portugueses, quem são, politicamente, os ratos e coelhos que "destruíram a riqueza"? Ele não falou da natureza, mas de riqueza! Qual riqueza, a do País? Só ele saberá se de "roedores políticos" falava ou da defesa daquele santuário natural através da paixão profissional dos vigilantes que ali passam semanas. 
Se as suas palavras assumiram um sentido conotativo, ora bem, poder-se-á dizer, então, que enquanto "vigilante" da Nação, não tem sabido seguir o livrinho (Constituição) para controlar a rataria política e a coelhada que colocou a "riqueza" do País que estava a cair  0,9%, em 2011, e hoje cai 4%; a taxa de desemprego que era de 12,1% e que passou para 17,6%;  a dívida pública que era de 107% do PIB e passou para 127%; o défice que quase chegava aos 9% e que hoje é de 10,6%. E, perante isto, questiono se o Supremo "vigilante" da Nação pode dar-se ao luxo de adiar 12 meses para perguntar ao povo qual o caminho que deseja seguir. É que, Senhor Presidente, nós não somos cagarras!
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

TOTALMENTE CONTRA O "CENTRÃO" DOS INTERESSES POLÍTICOS


Razão tem o Professor Luís Menezes Leitão, venha o saudável confronto democrático, discutam-se projectos sérios, olhos nos olhos, sem falsas promessas, colocando os portugueses perante a verdade e perante as opções. Depois, competirá aos portugueses escolherem o caminho que melhor entenderem. Não é o "centrão" que deve prevalecer, até porque os portugueses dele estão fartos e cheios. Concordo com o deputado João Galamba, segundo o qual o Presidente da República "tem em mente" o "suicídio político" do líder do PS e discordo do deputado Carlos Zorrinho quando fala do "reforço da centralidade" do partido no processo político português. Se esse for o caminho ninguém aqui me verá criticar a opção (os homens e mulheres passam e as instituição ficam), mas seguirei o meu caminho, obviamente. Mas esta é uma mera especulação da minha parte, pois não acredito nesse "compromisso". Os cortes de 4,7 mil milhões de euros afastarão o PS do PSD nas negociações, ainda por cima quando, de acordo com o "Diário de Notícias", a ministra das Finanças terá afirmado que "o Governo não abre mão dos cortes, que na sua versão original incidem sobretudo sobre salários e pensões". Por seu turno, repetindo a sua posição, António José Seguro já assumiu que nunca colocará "outro interesse acima do que é melhor para os portugueses. Assumo todas as consequências, mas disso não abdicarei".


O Professor Luís Menezes Leitão, Professor da Faculdade de Direito de Lisboa, disse ao jornal I: "O país precisa do confronto democrático, não de partidos que aceitam atentos, veneradores e obrigados as imposições de Belém". Subscrevo. Aliás, ainda há dias, aqui postei um texto exactamente sobre esta matéria. Não entendo esta tentativa de "compromisso", esta historieta de tentar juntar pensamentos inconciliáveis. É pura perda de tempo e desgaste, enquanto tudo em redor agoniza. O PS está ali a cumprir uma tarefa sabendo que os ponteiros do relógio "engataram". Se tomarmos em consideração a sequência discursiva do seu secretário-geral e todos os posicionamentos anteriores, não acredito que exista qualquer hipótese de "compromisso", quando em causa está, fundamentalmente, quase cinco mil milhões de euros de corte na despesa pública, despedimentos, mobilidade especial, mais horas de trabalho, diminuição dos apoios sociais, porventura ainda mais agravamentos na carga fiscal. Penso que se trata de uma farsa a participação nesse grupo tripartido. Qualquer posição no sentido de algum "compromisso", politicamente, significará para o PS perda de espaço de manobra e decepção enquanto alternativa. A posição do PS tem de ser claramente de políticas à esquerda e não neste grande "centrão" dos interesses para o qual o querem empurrar. Aliás, tenho para mim que esta proposta de Cavaco visa isso mesmo, desprestigiar António José Seguro e incluir o maior partido da oposição na divisão dos estragos feitos nestes dois anos, pública e notoriamente por ausência de acção do Presidente da República. Deixou o marfim correr, nunca assumiu posições e, agora, tenta encontrar um álibi para sua medíocre postura política. Se o "compromisso" falhar, dirá, certamente, eu tentei, mas eles não quiseram!
Razão pois tem o Professor Luís Menezes Leitão, venha o saudável confronto democrático, discutam-se projectos sérios, olhos nos olhos, sem falsas promessas, colocando os portugueses perante a verdade e perante as opções. Depois, competirá aos portugueses escolherem o caminho que melhor entenderem. Não é o "centrão" que deve prevalecer, até porque os portugueses dele estão fartos e cheios. Concordo com o deputado João Galamba, segundo o qual o Presidente da República "tem em mente" o "suicídio político" do líder do PS e discordo do deputado Carlos Zorrinho quando fala do "reforço da centralidade" do partido no processo político português. Se esse for o caminho ninguém aqui me verá criticar a opção (os homens e mulheres passam e as instituição ficam), mas seguirei o meu caminho, obviamente. 
Mas esta é uma mera especulação da minha parte, pois não acredito nesse "compromisso". Os cortes de 4,7 mil milhões de euros afastarão o PS do PSD nas negociações, ainda por cima quando, de acordo com o "Diário de Notícias", a ministra das Finanças terá afirmado que "o Governo não abre mão dos cortes, que na sua versão original incidem sobretudo sobre salários e pensões". Por seu turno, repetindo a sua posição, António José Seguro já assumiu que nunca colocará "outro interesse acima do que é melhor para os portugueses. Assumo todas as consequências, mas disso não abdicarei". Os socialistas defendem que há outras formas de alcançar as metas do défice, sobretudo se elas forem renegociadas. Perante este quadro, apenas há que aguardar, mesmo quando um conjunto de personalidades se movimentem em "manifesto" dirigido aos líderes do PSD, PS e CDS-PP, apelando a que seja alcançado um acordo de salvação nacional. Sempre os mesmos e sempre com os mesquinhos interesses de sempre!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

INQUALIFICÁVEL


Acabo de ler no DN-Madeira que o líder do grupo parlamentar do PSD-M, Jaime Ramos, terá, de forma muito rasteira, ofendido a mãe de um deputado de uma forma que me recuso aqui repetir. Inqualificável. Quem por esses caminhos da ofensa e da indignidade entra, obviamente que não deveria ter assento numa instituição que deve primar pelo exemplo, pela elevação e pela responsabilidade das palavras ditas. Uma coisa é o debate vigoroso das teses políticas que cada um defende, outra o contínuo resvalar para o discurso de sarjeta. E pasmo quando os seus próprios pares não se insurgem, calam-se, acomodam-se, deixam passar aleivosidades daquela natureza. O mínimo que seria sensato fazerem era levantarem-se e saírem do hemiciclo, deixando só naquela primeira fila, digo eu, na última fila da indignidade. Aceitam e porque aceitam são tão iguais quanto o deputado que terá desferido tal vergonhoso ataque pessoal. E digo mais, toda a oposição deveria ter saído em solidariedade, porque "para grandes males grandes remédios".


Uns dirão que sempre foi assim, portanto, aquela ofensa não trouxe nada de novo, é repetitiva, com tais palavras ou outras de sinal idêntico em outros contextos. Não deixa de ser indesculpável. Não me refiro, apenas, ao que lá se passou, mas a todos os outros, ao longo de muitos anos, caracterizados por ataques vis, malcriados e muitas vezes ordinários. A Assembleia, cada vez mais, cai no descrédito público, na total falência dos princípios e dos valores que a deveriam nortear, obviamente, à medida que cresce o descontentamento popular, a pressão política dos partidos da oposição e a inevitável quebra de influência do partido maioritário junto dos eleitores. Há uma correlação directa entre este quadro e a ofensa, simplesmente porque o poder, seja ele qual for, funciona como uma droga que só acalma com doses acrescidas da mesma. O poder é viciante e quando, paulatinamente, se o perde, a má formação, neste caso democrática, conduz não à mudança de paradigma, mas ao reforço do modelo com um formato de crescente agressividade. 
É da história parlamentar aquele governante que, perdido no debate das ideias, olhou para uma deputada e pediu que juntasse os joelhos porque não era hora do almoço. Foi há muitos anos. Isto para dizer que, ao longo de todo o tempo, sempre foi notória a ofensa de quem parte do pressuposto que maioria absoluta significa poder absoluto e incivilidade absoluta. E se o rol das ofensas é extenso, muitas vezes, cirurgicamente, apontadas a este e àquele deputado, penso que ainda iremos assistir a situações tendencialmente piores, porque existe ali uma ideia que se consolidou de vale tudo, de aqui mandamos nós, de que os fins justificam os meios e que aquela é a forma eficaz que encontra eco nos eleitores. Estão enganados, totalmente enganados. No caso que deu origem a este texto de desabafo e de solidariedade, o autor dos impropérios será, tarde ou cedo, julgado nas urnas e, para já, deveria pedir públicas desculpas. Não acredito que o faça, até porque o diferendo que o mantém em relação ao seu colega de bancada Miguel de Sousa decorre no Tribunal. Quando a violência das palavras atinge um colega de partido, obviamente que nada se poderá esperar em relação aos adversários.
Ilustração: Google Imagens.