
Ora, o conflito pessoal, a velha história de uns contra os outros, o olhar atento para quem se move no xadrez político interno, as aparências de paz, um pé aqui e outro ali, as ligações nem sempre transparentes a grupos económicos, o tal olhar para o umbigo que apenas se aplica aos outros, o discurso político pouco afinado, incoerente e nada determinado, parece-me também evidente que não ajuda, não tem ajudado, à necessária e imprescindível credibilização. O afunilamento das questões que se colocam, a fulanização e a ausência de humildade política para reconhecer capacidades, competências e aceitação popular, acabam por constituir a cereja no bolo que tanto agrado proporciona a quem escreve em nome do regime.
No meio de tudo isto, ouço, que o "adversário está lá fora" (é verdade que sim) mas os mesmos que o assumem (e bem), mostram-se incapazes de resolver os jogos dos adversários que estão cá dentro. Para esses, nunca é tempo de falar de coisas sérias e quando alguém fala, pois é, lá está(ão) ele(s), a denegrir(em), a instituição, a deitarem abaixo o que tanto custa construir. Enganam-se os que assim pensam. Eu, pelo menos, parto do princípio que as sociedades movem-se no conflito e na reprodução. As instituições também. Conflitua-se através do debate elevado para reproduzir uma situação melhor. Tome-se, por exemplo, o debate interno do PS, em 2005, onde João Soares, José Sócrates e Manuel Alegre, aos olhos de todos os portugueses, numa complexa fase interna do PS, abriram-se à sociedade com os seus projectos. O conflito reproduziu uma maioria absoluta.

Escrevo e desabafo assim por convicção, por respeito a princípios e valores sociais, económicos e culturais, porque há muitos anos que sirvo a instituição PS mas nunca, nunca, dela me servi para atingir fosse o que fosse. Ocupei lugares de destaque na hierarquia interna mas nunca fui candidato a lugares de prestígio político nacional. Nunca gostei de nadar em meias-águas e, de quando em vez, retornar à superfície para respirar. Nunca andei resguardado na toca só de lá saindo para o ataque. Nunca precisei de andar em bicos-de-pés nem precisei de padrinhos para ser notado. Tenho feito, apenas, o meu trabalho com o rigor necessário, falando olhos nos olhos com as pessoas. Não tenho inimigos, tenho pessoas com as quais discordo. Agora, o que nunca me verão fazer é uma vénia perante aquilo que não acredito. Sou assim e, como diz o povo, "quem dá o que tem a mais não é obrigado!".
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