segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

CHOCANTE: "CHULOS FIQUEM NA MADEIRA..."


"Ó Desporto, tu és a paz (...) Ó Desporto, tu és a Justiça (...). Ora, nem paz nem justiça podemos encontrar naquela estúpida frase. O que dela ressalta é, por um lado, o confronto entre os que vivem no espaço continental e no espaço insular, por outro, a confusão entre as políticas de um homem que governa a Região e todo o seu povo. Nem é correto estabelecer o confronto, nem é justo confundir o povo com o espartilho de um poder que tudo secou à sua volta.


Os madeirenses não devem
ser confundidos com
as atitudes de quem governa.
"Chulos, fiquem na Madeira e não roubem mais dinheiro a Portugal!" foi a frase que marcou um encontro de basquetebol, em Lisboa, entre o Benfica e o CAB-Madeira. Trata-se de uma frase chocante e que me irritou por dois motivos: primeiro, por ser exibida em um encontro onde a palavra "desporto" surge espezinhada. O ponto IX da Ode ao Desporto de Pierre de Coubertin, sublinha: "Ó Desporto, tu és a paz! Estabeleces relações felizes entre os Povos, aproximando-os no culto da força dominada. (...)". Isto para além do ponto III: "Ó Desporto, tu és a Justiça! A equidade perfeita, em vão perseguida pelos Homens nas instituições sociais (...). Neste pressuposto, em um espaço desportivo, mesmo tendo como pano de fundo uma competição profissional, os mais altos valores daquela prática deveriam estar salvaguardados: "Ó Desporto, tu és a paz (...) Ó Desporto, tu és a Justiça (...). Ora, nem paz nem justiça podemos encontrar naquela estúpida frase. O que dela ressalta é, por um lado, o confronto entre os que vivem no espaço continental e no espaço insular, por outro, a confusão entre as políticas de um homem que governa a Região e todo o seu povo. Nem é correto estabelecer o confronto, nem é justo confundir o povo com o espartilho de um poder que tudo secou à sua volta.
Todavia, há causas para que aquela situação tivesse acontecido. Houve um tempo que o povo residente em Portugal Continental achava graça ao "chefe" cá da paróquia. Um dia, num táxi, o condutor disse-me que "Portugal precisava de um Alberto João! Respondi-lhe, argumentando, quanto ele estava enganado. Hoje, consequência do sistemático e desbocado ataque a tudo e a todos, figuras do Estado e outras, a par do total desvario das contas públicas, porventura o tal taxista dir-me-ia: fiquem com ele! Portanto, aquela frase surge, entre outras plausíveis razões, por um estado de revolta relativamente a quem lançou ventos. Hoje, temos aí a tempestade que se apresenta com frases que chocam os que vivem na Região e que nada têm a ver com os disparates de um político, que ama o poder e que nele parece querer ficar até ao fim dos seus dias. Se é ao povo que compete resolver esta situação, no momento do voto, alguém, para já, tem de fazer um esforço para que a imagem da Madeira e do seu povo não seja espezinhada da forma como começa a ser sensível.
Ilustração: Google Imagens.

9 comentários:

António Trancoso disse...

Caro André Escórcio
Há muitos anos,e desde então,os meus amigos continentais,se metem comigo a propósito do ditardozeco cá da aldeia...Tive sempre o cuidado de,brincadeira aparte,os alertar para o infecto abcesso, que,mais tarde ou mais cedo,afectaria a saúde democrática,não só da Região como do todo Nacional.
Na altura,sorriam-se...e,com despreocupada leviandade,achavam graça ao que,para os conscientes cidadãos madeirenses,não tinha,já, graça alguma!
Agora,a música é outra,dão-me razão,e,curialmente,ressalvando a minha tradicional posição,não deixam de argumentar com o tradicional e sistemático apoio eleitoral, do "povo superior", àquela travestida aventesma e aos seus "democráticos" muchachos...
Compreendo que,por natural "dever de ofício",o meu Caro Amigo,não possa,nem deva,chamar a boiada pelo nome.
Mas posso,e devo,eu,liberto de qualquer peia que constranja a minha consciência cidadã.
É certo que,no último acto eleitoral,52% dos eleitores recusou a "superioridade" vigente,e,que,48% continuou embalada na (in)digestão tardia da espetada e vinho seco. Tanto bastou para,através de Hondt,os votos expressos,garantirem a permanência do putrefacto inchaço!
Mas,não só!
Atente-se na significativa e alienada percentagem dos abstencionistas...
E,aqui,tanto o apoio como o desinteresse,dão pleno lugar os adágios tradicionais:
"Tão ladrão é o que vai às uvas,como o que fica a vigiar!",e,"Quem cala...consente."
Meu Caríssimo Amigo,numa sociedade,minimamente decente,nem a centésima parte,do ignóbil desvario, seria admitida.
Assim,a maioria da população madeirense é,de facto,conivente e culpada.
Um democrático abraço.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário. Tem toda a razão quando afirma que "numa sociedade decente, nem a centésima parte, do ignóbil desvario, seria admitida". Pois é. O nosso drama colectivo é que, intencionalmente, esmagaram a capacidade das pessoas serem pessoas livres e com a consciência dos seus deveres e direitos. Passaram esta população pelo ferro frio da uniformidade. Silenciaram-na, sedaram-na e, hoje, continua a carregar a cruz como convém a quem decide!
Um abraço, na convicção que o elástico acaba sempre por partir-se. Oxalá que seja pelo lado potencialmente mais forte.

Anónimo disse...

Os madeirenses não querem mudar, querem apenas encontrar um novo Jardim!
Como costumo dizer, agora mais do que nunca, os políticos no geral e o povinho estão bem uns para com os outros!

amsf

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
Eu percebo-o, apenas não estou de acordo consigo em um aspecto. Por maiores que sejam os pecados dos políticos, a verdade é que o regime democrático assenta na participação através dos partidos políticos. Daí que a mudança se torne necessária, com frequência, de tal forma que, quem está na oposição seja criador e inovador. O mal está quando se deixa um poder criar profundas raízes em função da sua permanência. E neste aspecto, a "arma do voto" está sempre nas mãos do povo.

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

O Marquês de Coubertin era um idealista. Talvez mesmo um sonhador. Mas parece-me oportuno recordar Henri Mencken, conhecido por “o sábio de Baltimore” (1880-1956) que afirmou um dia que “Um idealista é aquele que, verificando que uma rosa cheira melhor do que uma couve, conclui que fará também melhor sopa”.
Com efeito, o desporto moderno, apesar das boas intenções iniciais, tornou-se na prática um verdadeiro monstro incontrolável, especialmente depois de se ter posto em prática a ideia peregrina de o profissionalizar. Hoje em dia, movimenta milhões, dá cobertura a negócios escuros e ninguém duvida de que não tenha ligações ao mundo do crime organizado. Por outro lado, deu origem a comportamentos vergonhosos por parte dos adeptos que, demasiadas vezes, obrigam à intervenção, por vezes violenta, das autoridades.
Daí que não estranho nada o comportamento boçal do energúmeno que insultou os madeirenses. Não é de todo desculpável.
Mas concordo consigo. O jardinismo acabou por ser o grande responsável pela péssima imagem que a Madeira tem no resto do país e, pior ainda, por esse mundo fora. Porque, com os últimos desenvolvimentos, a Madeira deixou de ser uma vergonha nacional para ser uma vergonha internacional.

Pica-Miolos II disse...

Senhor Professor
Quem tem alma de escravo,só ouve a voz do dono!Contenta-se com as migalhas com que os abutres compram a sua dignidade.
Um povo eunuco,merece o governo que tem. Quase trinta e oito anos após a conquista da Liberdade Democrática,nada justifica a cegueira de uma população,a não ser a "virtude" de ser, superiormente, estúpida.
Bastará um ligeiro alívio do garrote... para tudo voltar à estaca zero.
Digo isto e não sou bruxo.Juro!

Espaço do João disse...

Meu Caro Amigo.
Mas, onde se pratica actualmente desporto?
Na escola?
Nos estádios?
Na assembleia da república?
No palácio de Belém?
Infelizmente, hoje ninguém pratica desporto. Há uma industria ou um comércio de carne humana a que chamam de desporto, mas não passa duma praça de " gladiadores", até parece a velha Roma.
Um abraço. João Sousa

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário. Eu conheço o monstro, a teia de interesses e conheço a ausência de qualquer inteligência política quando querem tornar esta terra pobre e dependente em uma referência da prática desportiva associativa. Nos últimos dez anos foram gastos mais de 340 milhões de euros no desporto associativo regional e estão todos falidos. Enquanto isto acontece, dizem os estudos que 77% da população da Madeira não tem hábitos regulares de prática física e ou desportiva.
Talvez seja necessário regressar à pureza de Pierre de Coubertin.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelos vossos comentários (Pica-Miolos e Espaço do João.
Relativamente ao primeiro, mesmo com folgando o garrote, o homem, coitado, não aguentará; João, é verdade, o desporto está completamente desvirtuado. Apoiam o alto rendimento e esquecem-se da educação desportiva.