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terça-feira, 12 de abril de 2016

HOJE VOU ENTRAR EM CONTRADIÇÃO COMIGO MESMO


Poucas palavras para não desvirtuar o título. E também para fazer esse higiénico mergulho, difícil e necessário, dentro do cérebro até tocar o nosso consciente latente activo - se é que o podemos localizar – e aí conquistarmos o espaço do pensamento livre. Descodificando o preâmbulo, refiro-me à tumultuosa agitação das ondas comunicacionais que, à superfície, gravitam em nosso redor e nos estrangulam sem darmos por isso. Nunca foi tão activa, obsessiva e opressiva a informação que, de fora, bombardeia olhos, orelhas e neurónios. E com tal subtileza que nem chegamos a levar as mãos à cabeça para abrigá-la de tamanho furacão. Pelo contrário. A pretexto de actualização de dados, somos nós que lhe franqueamos as portas e as janelas. E se ela não vem à hora certa (que é toda a hora) lá vamos a correr atrás da gritaria, nos jornais, nas TV’s, nas rádios, nos face’s, até mesmo na bisbilhotice caseira dos comentadores de cordel. Recordando o hino da extinta (em 1974) Mocidade Portuguesa do regime fascista que formatou na escola da ditadura os jovens de então, nossos pais e avós, também cantamos de braços abertos: “Lá vamos cantando e rindo, levados – levados, sim”.


Permitam-me este desabafo, mas (à maneira de F.Pessoa “trago a cabeça doente de sonhos”) apetece dizer: trago a cabeça doente, escaqueirada de informações. Não sei se convosco o mesmo se passa, mas caio em mim, mergulho no oceano fundo de mim próprio e pergunto: Ainda não te saturaste desse turbilhão em fúria que ronda à tua volta? Bebeste a informação, sim, mas provaste-a suficientemente nas papilas do pensamento crítico? Seleccionaste-a, saboreaste-a, interiorizaste-a naquilo que de verdadeiro e útil te pode enriquecer?
Na praça pública da informação somos, tantas vezes, taxistas de serviço gratuito à espera do primeiro cliente que se nos atira porta adentro sem controlo nem critério. E sem ferir susceptibilidades, chego ao extremo de nos compararmos a vazadouros públicos que aceitam indiscriminadamente todo o lixo que os donos da comunicação entendem despejar em cima do nosso consciente. Que ridícula atracção esta de apanha-bolas em que muita gente se torna no estádio do quotidiano. São os “spots” publicitários, são as subreptícias campanhas políticas, as encenações pseudo-religiosas, os ataques bombistas, os milionáriosoffshores, erotismos mórbidos, enfadonhos comentadores dos futebóis, já sem falar nos escândalos apetitosos aos paladares podridos – tudo nos chutam à cara e nós, bobos da feira, aceitamos e até agradecemos. “Lá vamos… levados, levados sim”.
Sem dúvida, precisamos de estar vigilantes, nada de humano nos deve ser alheio, já nos educava Aristóteles. Mas, como de água para a nossa sede, precisamos de liberdade interior para avaliarmos da química das fontes. Conforme o filósofo francês Michel de Montaigne (1533), não basta uma cabeça abundantemente mobilada; preciso é ter une tête bien rangée, uma cabeça bem arrumada. 
Perdoem-me este expirar nocturno de um estado de alma. Mas acho-o necessário ao equilíbrio neuro-vegetativo do ser humano e ao verdadeiro espírito da cultura. Assistimos hoje àquele paradoxo que o jornal El Paístitulava assim: “A solidão, epidemia da era da comunicação”, em comentário ao livro The Lonely City, da escritora britânica Olivia Laing. E justifica: ”Neste mundo hiperconectado, grande parte da população sente-se só e isolada. Estar presente a todas as horas nas redes sociais, recebendo uma maré cheia de informação permite disfarçar um sentimento real de desamparo que o mundo virtual paradoxalmente acentua”. 
É um tónico que a nossa saúde física e mental não dispensa: mergulhar para dentro de nós mesmos. E aí descobrir tesouros desde sempre escondidos.
Tudo certo. Mas, afinal, feitas bem as contas, acabo por entrar em rotunda contradição. Pela lógica que descrevo, eu não tenho sequer o direito de sobrecarregar os meus amigos nos dias ímpares com este SENSO&CONSENSO...
11.Abr.16
Martins Júnior
NOTA
Artigo publicado no blogue Senso&Consenso assinado pelo Padre Martins Júnior

segunda-feira, 11 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA - ANTES DE FALAR, POR FAVOR, PENSE!


Há governantes que, em um outro espaço territorial, já não o seriam. Porque a Educação é mais escrutinada. Há quem tenha competência para exercer a docência e bem, mas por aí ficar, porque ser governante implica muito mais que o conhecimento específico e científico de uma determinada área. A contrária também é verdadeira: há quem, embora com conhecimento, por razões várias, não se ajeite à função docente, porém, enquanto gestor denuncie visão dos problemas e acrescentada capacidade de mobilização e concretização dos projectos. Perguntará o leitor, mas a que propósito vem este texto? Pois, é que li mais uma daquelas declarações do secretário da Educação da Madeira e fiquei na mesma. Ou não fiquei! Disse: "(...) aquilo que devemos ter presente são as nossas opções em termos de futuro e não as condições que são oferecidas (…)".


Ora, às dificuldades enunciadas e bem pelo presidente do Conselho Executivo da Escola Francisco Barreto, na Fajã de Ovelha, que, segundo o DN, criticou "as reformas do sector educativo e as políticas de natalidade e de emprego existentes", respondeu o secretário com uma posição de certa forma enigmática e de interpretação contraditória. Pergunto, a construção do futuro colectivo não dependerá das "condições que são oferecidas", as de natureza geral e as específicas? É óbvio que sim. Mas podemos ir mais longe, questionando, ainda: quais são as opções portadoras de futuro que o secretário defende? Alguém as conhecerá? Existirá algum plano integrado, envolvendo vários sectores, a partir do qual se possa concluir que, a prazo, os resultados serão diferentes dos de hoje? Eu que sigo a política educativa não vejo moita de onde saia coelho! Um ano de governação e a estrutura do pensamento político mantém-se. "Tudo como dantes, no quartel general em Abrantes" pode ser o aforismo que melhor caracteriza a situação da política educativa na Madeira.
Seria compreensível que o secretário sobrevalorizasse as opções em termos de futuro ao mesmo tempo que pedisse paciência para as circunstâncias, leia-se constrangimentos, do presente, sejam quais forem, mas para isso tinha de ser conhecido o caminho escolhido pelo governo na construção desse futuro. E isso não só não é conhecido, como pelo andar da carruagem durante o último ano, facilmente se depreende que a repetição do passado é preferível a qualquer paulatina mudança. É pena, porque continuam a brincar com o sector educativo. 
Nota
Ler texto do DN neste endereço: 
http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/580159/madeira/580187-faja-de-ovelha-lanca-criticas-a-educacao
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 9 de abril de 2016

"GOVERNO DE ANGOLA COMBATE OS POBRES, NÃO A POBREZA"


Rafael Marques, jornalista angolano e considerado activista dos direitos humanos, concedeu uma entrevista à jornalista Sandra Cardoso (DN-Madeira) na qual escalpeliza a situação política angolana. Um texto para ler e, a partir das suas declarações, mergulhar no inferno dos interesses de uma clique angolana que luta pela sua riqueza enquanto o povo definha. Não conheço em toda a sua extensão a pouca-vergonha da governação angolana, mas há muitos e muitos anos que transporto o sentimento de uma ditadura disfarçada.    


Pergunta a jornalista: "Li recentemente uma reportagem sua na morgue de um hospital em Luanda, onde dava conta de uma mortalidade assustadora. A situação social no país degradou-se em relação ao ano passado, por exemplo? Rafael Marques: "Um jornal dava conta de 500 enterros nos cemitérios de Luanda só num dia, eu passei cinco horas e vi 235 corpos a sair da principal morgue de Luanda. Temos neste momento mais mortes do que no Afeganistão, no Iraque e na Síria por dia. Estamos a voltar aos tempos da guerra, que foi muito violenta. Depois de 14 anos de paz e depois de Angola ser projectada como a economia que mais crescia no Mundo durante seis anos, temos uma catástrofe humana. O problema não é para quem vem gastar o dinheiro nas lojas da Avenida da Liberdade, é para pessoas sem acesso a tratamento básico para a malária.
O país precisa mais de ajuda humanitária para acudir à emergência do que monetária? Como se pode dar ajuda humanitária a um país onde o Governo negligencia o seu povo, abandona-o. Tem de haver reformas profundas e aqueles que são responsáveis pela situação têm de ser responsabilizados criminalmente. Sou contra este empréstimo do FMI, que só vem dar legitimidade ao poder. Todos os que vieram esconder o dinheiro em Portugal é que deviam estar a fazer o resgate. O dinheiro é para os angolanos pagarem enquanto quem guardou aqui o dinheiro, um dia vem para Portugal como se nada fosse, como se fossem gente de bem (...)".
Enquanto isto acontece, li, recentemente, no "Negócios" que Isabel dos Santos (filha do Presidente Eduardo dos Santos) ocupa a 408ª posição na lista dos mais ricos do mundo, compilada pela Forbes, este ano. (...) Isabel dos Santos surgiu, pela primeira vez, na lista dos mais ricos do mundo da Forbes em 2013, ocupando a 736ª posição. Doze meses passados e a empresária passou a ocupar a 408ª posição, com uma fortuna avaliada em 3,7 mil milhões de dólares (2,7 mil milhões de euros), 1,7 mil milhões de dólares a mais do que no ano passado".
Como é que isto é possível em um país com assimetrias tão evidentes? Percebe-se! 
De uma edição do Jornal de Notícias, de 2013, reproduzo: "(...) Filha do presidente angolano José Eduardo dos Santos, a história de Isabel é considerada "uma janela rara para a mesma e trágica narrativa cleptocrática que estrangula os países ricos em recursos em todo o mundo".
Ilustração: Google Imagens. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

UMA SECRETÁRIA QUE CORRE, CORRE MUITO, PARA ONDE, NÃO SE SABE!


No governo anterior e alguns outros mais para trás era o secretário do Ambiente e dos Recursos Naturais que, politicamente, fazia questão de estar em todas. Distribuía acenos de simpatia e muitos milhões para os "senhores agricultores". Ele era festa da anona, do pero, do limão, da cebola, da banana, eu sei lá, não havia fruta, bolbo ou cabeça de gado que escapasse para poder falar ao povo. Mudou o governo,  a agricultura anda discreta, mas emergiu uma secretária da dita Inclusão e dos Assuntos Sociais que não fala de milhões, mas todos os dias tem qualquer coisita para acrescentar. A agenda é meticulosamente decomposta de tal maneira que um mesmo assunto ou a ele relacionado dá pano para mangas no plano político. Enche a semana. Nem conta se dá que tal exposição mediática e muitas vezes oca, por um lado, cansa e torna-se insuportável (e de que maneira!); por outro, fica à mercê das fragilidades da governação, quando a atenção é dirigida para as margens e não para o fundamental. 


O tal ex-secretário, desaparecido do combate político (não apenas ele), prometia milhões e acredito que muitos chegaram aos "senhores agricultores"; a secretária da Inclusão e da Segurança Social, todos os dias, ilumina o céu político com uma girândola de iniciativas, desde conferências a encontros aqui e ali, mas de concreto, isto é, aquelas medidas com repercussão directa nas pessoas não são nem visíveis nem sensíveis. 
Qualquer um é capaz de assumir: "Coesão social, um desígnio regional"; "Temos consciência que existem dificuldades e que a pobreza chega a muitas famílias"; "a inclusão e a igualdade de oportunidades decorrem forçosamente de uma aproximação à realidade e do conhecimento. Sem estas sobra a ignorância"; "Vamos valorizar e proteger a população menos jovem". Ora bem, qualquer pessoa, repito, diria o mesmo. Trata-se de um tipo de discurso politicamente correcto, o problema é que tantos disseram o mesmo ou coisa semelhante ao longo de quarenta anos de uma tal "estabilidade política". Não obstante, o número de pobres aumentou, o número de instituições de solidariedade social disparou, o desemprego descambou, a emigração é aquilo que se sabe, os jovens saem da Região e os que por aqui ficam andam desesperados, os idosos pensionistas perderam a esperança, enfim, quero eu dizer com isto que basta de palavras e mais palavras, basta de encontros e conferências que nada adiantam, apenas repisam posições centenas de vezes assumidas na Assembleia, quer no plenário quer na Comissão Especializada de Assuntos Sociais e, sucessivamente, chumbadas pela maioria PSD. Basta de espavento e de protagonismo sem mérito, pois aquilo que as pessoas desejam são as definições políticas claras, rigorosas, transversais, profundas e estruturantes que consigam resolver, a prazo, os vários défices sentidos pelas pessoas. A secretária da Inclusão, após um ano de mandato, o que denuncia é que a exclusão continuará a ser, infelizmente, o caminho para uma significativa parte do nosso povo. Não é com uma política de aparências, de palavras e de fotografia que os dramas sociais se resolvem. 
Aliás, sendo a questão social transversal a vários sectores da governação, o que seria óbvio esperar era uma dinâmica que aglutinasse sectores, áreas e domínios em uma convergência programática. Mas isso não está a acontecer. É perceptível que a secretaria da Inclusão e dos Assuntos Sociais corre, alegremente, na sua própria pista, sem uma preocupação integradora. Corre, corre muito, para onde, não se sabe. Mas corre! E é lamentável, porque se há sector da governação, que a par da Educação e da Saúde, deveria merecer grande preocupação, menos paleio e mais acção, parece-me indiscutível que a Inclusão e os Assuntos Sociais deveria estar no topo.  
NOTA
A propósito de um texto que aqui publiquei sobre o Banco Alimentar e o Laboratório Social, recebi um comentário que aqui deixo. Agradeço, uma vez que a minha leitura dos acontecimentos é partilhada por outros que, sem qualquer jogo partidário, apenas pretendem o melhor para a nossa comunidade. 
"Anónimo disse...
Concordo totalmente com o teor do seu texto. Sem dúvida que há uma sede enorme de tudo controlar. Parceria? Cooperação? Pelas ruas da amargura... Oxalá esteja a ver mal e a entender pior, mas estamos a retroceder. Vale tudo para aparecer, é a corrida, a feira, os grupo de trabalhos de tanta coisa, a conferência, o workshop, o cabaz, os ranchos das casas do povo, a formação para voluntários, etc. É só acompanhar diariamente a comunicação social. Um frenesim estonteante. Não deixando de valorizar muitas destas iniciativas a pergunta é, o essencial está a ser cuidado? A pobreza continua a aumentar, os maus tratos também, há cada vez mais idosos sós e dependentes,o desemprego é grande, o trabalho precário veio para ficar, etc. (...)".
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O MUNDO AO CONTRÁRIO


"Leio num jornal que o exército do Sudão do Sul e as milícias suas aliadas estão autorizados a "violar mulheres" como forma de pagamento "pelos serviços prestados". Di-lo um relatório das Nações Unidas. Que as ordens são para destruir propriedades, pilhar bens, matar e esquartejar os homens e raptar e violar mulheres e crianças. Chama-se isto "política de terra queimada", dizem, embora nada tenha a ver com política. É apenas barbárie calculada. Não interessa neste conflito de que lado estará a razão, se na maioria Dinka do Norte ou nos Nuer do Sul. Não interessa se as potências ocidentais colonizadoras e exploradoras terão também aqui alguns pecados a expiar. Não interessa. Ninguém saberá já apontar a ofensa primordial. Há muito que esta é uma guerra que se herda. Uma guerra "porque sim", porque algo se perdeu na construção destes seres humanos e fez deles menos que animais. 


Zeid Ra'ad Al Hussein, o Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos, diz que apenas conhecemos "um fragmento da realidade". Tememos a totalidade dessa "realidade" que escapa à nossa compreensão. Aquela em que os nossos familiares e amigos são mortos à catanada e as nossas filhas violadas por dezenas de homens. É precisamente este desespero que leva homens, mulheres e crianças, seres humanos que recusam ser a "recompensa" de uma qualquer milícia ou os "danos colaterais" de uma qualquer guerra, a procurar abrigo na Europa. São estas pessoas que abandonamos em campos que fazem lembrar esses outros de má memória. 14 mil amontoam-se por agora no campo de refugiados de Idomeni, entre a Grécia e a Macedónia, um campo igual a tantos outros onde se depositam famílias inteiras, onde se adoece e passa fome, onde tudo está frio, molhado e pintado de lama. Onde pais descalços e desesperados com crianças ao colo tentam a travessia de um rio que teima em levar-lhes as vidas. Tudo vale menos voltar para trás. Uma dessas crianças dizia há dias para uma câmara de televisão que queria "voltar amanhã para a Síria", que não tinha "tido tempo para trazer os brinquedos e eles ficaram todos lá". Não podemos deixar que os muros nos contagiem a consciência e despertem em nós os instintos e preconceitos mais primitivos. São muros que se propagam à nossa volta e nos levam a empatia. Esta é uma crise de humanidade. Precisamos reconquistar a memória que a traga de volta".
NOTA
Texto da Eurodeputada Doutora Liliana Rodrigues (PS), publicado no Press News de Março que pode ser lido aqui.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O BANCO ALIMENTAR CONTRA A FOME NÃO DEPENDE NEM DA IGREJA NEM DO GOVERNO, MAS HÁ QUEM DESEJE CONTROLAR A INSTITUIÇÃO


A 10 de Março de 2011, depois de largos meses de propostas sempre chumbadas (algumas com muitos anos protagonizadas inúmeras vezes pelo PCP, mas também pelo PS), eu, enquanto líder parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da Madeira, e o Dr. Bernardo Martins, da Comissão de Assuntos Sociais e Saúde, tivemos uma reunião, na sede do Banco Alimentar, com a Drª Isabel Jonet, Presidente da Federação dos Bancos Alimentares. Um encontro esclarecedor onde ficou muito claro: primeiro, a inexistência de um Banco Alimentar na Madeira (dedução nossa) ficava a dever-se a constrangimentos regionais de natureza política; segundo, que qualquer Banco Alimentar Contra a Fome assenta em um quadro de rigorosa independência estatutária, que NÃO DEPENDE NEM DA IGREJA NEM DO(S) GOVERNO(S), porque é gerido de forma totalmente independente. 


Certo é que, perante o aumento da pobreza e não podendo mais o governo do PSD esconder essa realidade, optou por recuar, apadrinhar e apanhar a onda. Daí que continuem a não respeitar a instituição que, repito, não depende nem da Igreja nem do governo. Um princípio que a secretária da Inclusão e dos Assuntos Sociais não entende, ou não quer entender, isto é, a necessária separação institucional. E assim, ora aparece no Banco Alimentar em um dia de recolha de produtos alimentares, como agora chamou a Drª Fátima Aveiro, responsável pelo Banco Alimentar na Madeira para exercer funções no Laboratório Social, criado pela Secretaria Regional da Inclusão e dos Assuntos Sociais (SRIAS).
Tenho a maior consideração pelo trabalho da Drª Fátima Aveiro, que não tem procurado protagonismos bacocos, não procura, diariamente, as páginas dos diários, desempenha apenas a sua função e bem no âmbito da solidariedade social. Do meu ponto de vista assim deveria continuar. Não tinha necessidade de abraçar este Laboratório Social, para mais, ainda, porque está na história do processo, o facto do PSD ter chumbado, no Parlamento, todas as iniciativas para que se procedesse a um estudo sobre a pobreza na Madeira. 
Depois, parece que, na Região, não existem outras pessoas qualificadas e com sensibilidade social para tal função. O que deduzo, volto ao princípio, é que o governo quer, subtilmente, controlar e retirar dividendos políticos de uma missão que compete à sociedade e aos voluntários desenvolver. O problema é que esta secretaria da Inclusão e dos Assuntos Sociais, parece que todos os dias tem descobrir uma qualquer coisita para aparecer. É notória essa sede. Não existe discrição no trabalho em favor dos mais vulneráveis. Existe sim uma necessidade de protagonismo político e pelas vias menos correctas. Repito, o Banco Alimentar não depende nem da Igreja nem do governo, é independente, e assim deverá continuar a sua notável Missão. Misturar funções não fica nada, rigorosamente nada, bem!

terça-feira, 5 de abril de 2016

UMA UNIÃO EUROPEIA QUE IMPÕE O SILÊNCIO É UMA COMUNIDADE A CAMINHO DA SUA DESAGREGAÇÃO


Na audição ao Governador do Banco de Portugal, a propósito do caso BANIF, o Dr. Carlos Costa assumiu: "(...) O Banco de Portugal tem avaliações ao seu próprio trabalho. Mas a legalidade e sigilo da matéria" impedem que partilhe esses documentos com os deputados. Uma vez mais, as implicações europeias. Eles dizem e nós obedecemos. Pergunta-se, porque é assim? Obviamente que a resposta conjuga-se com o jogo da monumental engrenagem montada. Há coisas que o povo e os eleitos do povo (os Deputados da Nação) não podem saber.


E sendo assim, a independência nacional é uma treta. A transparência dos actos políticos é outra treta. A lógica da engrenagem política assenta nos carimbos "reservado" e "confidencial". E depois, alguns, estranham os "panamás papers" espalhados por todo o Mundo, particularmente na Europa, onde só através da coragem de um alargado grupo de jornalistas foi possível pegar o fio à meada.
Não é esta Europa que defendo. Não é esta subserviência de Portugal às regras europeias que me faz ser europeísta. Esta Europa não me interessa quando impõe o silêncio e a incapacidade dos Deputados escrutinarem as alegadas leviandades que se escondem por detrás dos vários cenários.
Ilustração: Google Imagens.

SER OPOSIÇÃO É MUITO MAIS QUE ANDAR ATRÁS DOS "CASOS DO DIA"


Os vereadores do PSD na Câmara Municipal do Funchal dão a entender que andam aos papéis. Ou não têm tempo para estudar os dossiês e a sua história ou desistiram de ser oposição. Há uma terceira hipótese, pois ao criticarem a actual maioria ("Mudança"), decidiram dar um tiro em Miguel Albuquerque que foi presidente da autarquia quase vinte anos. Isto é, ao apontarem as baterias para uns, no essencial decidiram atacar os antecessores do seu partido. Por questões de mal-estar interno? Talvez. O que é certo é que não faz sentido que os executivos do PSD, tal como ainda hoje referiu o Engº Miguel Gouveia, "(...) conhecendo desde 2000 a necessidade de dar cumprimento às directivas comunitárias, nunca desenvolveram qualquer projecto para a ETAR que satisfizesse o cumprimento das mesmas (...)". Desde 1999 que a ETAR do Funchal está a violar as normas comunitárias relativamente ao tratamento de resíduos. "E Portugal foi condenado, em 2011, ao pagamento de uma multa, com pena suspensa, com o compromisso de que até 2013 a situação estaria resolvida" (DN). Não ficou!


Pergunta-se, então, qual o fundamento da crítica do Dr. Paulo Atouguia, face ao desempenho da actual equipa camarária no sentido de resolver uma questão da maior relevância para a cidade? Chamar-se-á a isto "(...) alimentar querelas políticas perfeitamente artificiais"? como sublinhou o vereador Paulo Atouguia? Segundo o que foi publicado, o PSD "desperdiçou uma oportunidade de candidatar a obra aos 739 milhões do III QCA (2000-2006) e aos 320 milhões do INTERVIR+ (2007-2013), quando, simultaneamente, faziam ascender a dívida da Câmara Municipal do Funchal até aos 111 milhões de euros" e, agora, critica porque há quem queira dar um passo no sentido da solução. Esquisito!
Ser oposição é muito mais do que andar atrás dos "casos do dia". Neste caso, existindo um "rabo de palha" político muito extenso, que razões justificam o sentido desta crítica? Não sei.
Ilustração: Google Imagens.
Outros textos:
http://comqueentao.blogspot.pt/2013/06/no-dia-mundial-ele-fala-de-ambiente.html
http://comqueentao.blogspot.pt/2010/08/um-problema-de-incompetencia.html

segunda-feira, 4 de abril de 2016

POLÍTICA EDUCATIVA ÀS AVESSAS


Tenho pelo pedagogo Sérgio Niza e pelo neuropediatra Luís Borges uma enorme consideração. Por razões diferentes. Pelo Professor une-me os laços do seu pensamento sobre os caminhos da Escola Moderna, luta baseada na investigação vai para 50 anos; pelo Médico, o facto de ter, há muitos anos, diagnosticado e, por extensão, invalidado, em Coimbra, de forma certeira, uma primeira avaliação de um alegado problema saúde de uma filha. Por ambos, nutro consideração e muita estima pelos seus percursos, para mais, ainda, tratando-se de duas pessoas de fino trato, humildes e de rara inteligência. Ontem, dediquei algum tempo a ler assuntos de política educativa. E dei com duas entrevistas que me encheram de entusiasmo, simplesmente porque, quando o erro político permanece, há pensadores que vêm dizer, cuidado, vamos no sentido errado. Deixo aqui duas passagens das entrevistas que li. 


"A escola já não perde tempo a fazer aprender"

Alerta o professor e pedagogo Sérgio Niza. "Alunos sem esperança, professores ansiosos, ensino bafiento e uma escola que não serve os interesses das crianças e jovens nem os do país. Sérgio Niza dedicou a vida à educação e não se conforma com o estado a que a escola portuguesa chegou. Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século XVII e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século XX que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?

Encurtava as aulas, multiplicava os intervalos, mudava as metas curriculares, dava aos professores mais formação na área das neurociências e garantia aos miúdos mais tempo para brincar. 

"Se pudesse, o neuropediatra Luís Borges mudava a escola. E medicava muito menos. (...) Há coisas que não estão de acordo com as capacidades das crianças. Eles conseguem, mas com grande esforço, grande stress e sem alegria. Ao nível do cérebro, quando a criança faz uma conta bem feita e tem sucesso, é libertada uma substância que gera bem-estar, a dopamina. Já o insucesso liberta as hormonas de stress, a adrenalina, que muitas vezes bloqueiam a capacidade de raciocínio. Se a criança tem medo de errar, não está em boas condições para aprender. Depois, o stress acumula-se e a motivação que é o motor para aprender não existe, a escola torna-se uma seca".
A Secretaria Regional da Educação que pense nisto!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 3 de abril de 2016

OS VAMPIROS ESTÃO DE VOLTA


O Fundo Monetário Internacional, depois de, por diversas vezes, ter assumido que a austeridade foi longe demais, vem agora, através de Christine Lagarde, duvidar da capacidade de Portugal cumprir metas. Défice inferior a 2,9% só com Plano B, diz o FMI. E o que tal plano b) significa é, apenas, mais austeridade, mais constrangimento para as famílias e continuidade do empobrecimento. O resto é conversa fiada em que se especializaram as instituições porta-vozes dos grandes interesses financeiros. Montaram, paciente e obstinadamente, uma complexa engrenagem onde necessário se torna uma inteligência capaz de poder escapar ao redemoinho. Há quanto tempo a direita política fala de um plano b)? No essencial, estão todos umbilicalmente interligados, FMI, União Europeia, agências de rating e seus sequazes.



Christine Lagarde, leio, "não acredita nas metas orçamentais que António Costa traçou para Portugal e pede mais esforço e menos generosidade. Adiar a reposição integral dos salários dos funcionários públicos, manter a sobretaxa do IRS e preparar um plano B que permita cumprir as metas do défice são algumas das recomendações do FMI". Ora, esbater a pobreza, dinamizar a economia assente em um outro paradigma é coisa que não lhes interessa. A receita que definiram é a que se ajusta ao pensamento dominante. Austeridade, privatizações a eito, emprego precário, substancial redução dos apoios sociais, tudo para defesa dos "investidores" e nada em defesa do bem-estar mínimo das populações. Nem se coíbem de "invadir" os países, remetendo, de longe, o discurso desestabilizador de qualquer dinâmica alternativa. Uma vergonha! Tenhamos presente quando o grego Varoufakis quis, na UE, discutir economia, teve como resposta: "você até tem razão mas vamos esmagar-vos mesma". A UE discute Tratados (porquê e com que interesse!) os povos querem que se discuta Economia. Li em uma entrevista a Varoufakis: "O Eurogrupo toma decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém” (...) "Afinal o que temos é um grupo inexistente que tem o maior poder para determinar as vidas dos europeus. Não presta contas a ninguém, dado que não existe na lei; não há minutas das reuniões; e é confidencial. Por isso nenhum cidadão sabe o que lá é dito… São decisões quase de vida ou morte e nenhum membro tem de prestar contas a ninguém" (...) "Quando falava nas reuniões, com argumentos económicos preparados, "as pessoas ficavam a olhar para mim, como se não tivesse falado (…) Bem podia estar ali a cantar o hino da Suécia que ia receber a mesma resposta (…) Nem sequer havia mal-estar, era como se ninguém tivesse dito nada", revelou Varoufakis. (...) O que mais impressionou Varoufakis nas reuniões a que assistiu foi a "completa ausência de qualquer escrúpulo democrático por parte dos supostos defensores da democracia". O ex-ministro da Grécia dá um exemplo: "Ter várias figuras muito poderosas a olharem-me nos olhos e dizerem ‘Você até tem razão no que está a dizer, mas vamos esmagar-vos à mesma".
É esta Europa que temos e é neste mundo que o FMI funciona. Entretanto, porque tudo tem um limite começam a surgir alguns movimentos contra esta lógica própria de sanguessugas. "Mário Centeno, ministro das Finanças de Portugal, faz parte de um grupo de oito ministros das Finanças europeus que escreveram uma carta à Comissão Europeia a contestar a fórmula de cálculo do défice estrutural, que serve de base à definição do esforço orçamental que os países têm de fazer todos os anos, para cumprir os tratados europeus. A carta está ser avançada pelo jornal espanhol Expansión, numa notícia sobre um movimento de “rebelião” liderado por Espanha e por Itália. Além destes dois países e de Portugal, assinam a carta Luxemburgo, Lituânia, Letónia, Eslovénia e Eslováquia. A carta é dirigida ao vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis e ao comissário Pierre Moscovici, com conhecimento do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Os governantes apontam para "incoerência" no atual sistema. O principal argumento é que o défice estrutural é calculado em função do PIB potencial – um indicador "desconhecido” e que portanto gera estimativas com “um elevado grau de incerteza”. A utilização do défice estrutural produz assim "diferenças significativas" entre diferentes Estados membros quando se avalia se há ou não cumprimento dos objectivos do défice estabelecidos pela União Europeia. Mário Centeno assina a carta depois de um Orçamento do Estado para 2016 marcado por intensas discussões com a Comissão Europeia sobre o esforço de ajustamento orçamental necessário para este ano. Bruxelas impôs mil milhões de euros de medidas adicionais, face às intenções iniciais do Governo, precisamente com o argumento de que seria necessário reduzir o défice estrutural em linha com as regras europeias" (ionline).
E assim andamos nós nesta embrulhada!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 2 de abril de 2016

A OFENSA GRATUITA NO DEBATE POLÍTICO


Pela segunda vez foi adiado o julgamento do ex-presidente do governo regional da Madeira, arguido em um caso de difamação e injúrias ao seu opositor político, o socialista Dr. António Loja. O caso passou-se em 1994 e só agora entrou na fase de julgamento. A imunidade parlamentar justificou tantos anos a aguardar Justiça. Segundo o DN o arguido desancou no Dr. António Loja designando-o por “pirado”, “criatura” e “ordinarote” (...) “tão pirado que não vê as próprias grosserias e descobre-as nos outros”; “a criatura endoidou”; “ordinarote” e “o homenzinho, ao ler isto, caem-lhe mais três dentes, dois de raiva e um de senilidade”.


Em um outro caso, este em fase de instrução, processo também com muitos anos devido à tal imunidade, disponibilizei-me para ser testemunha contra um outro "pirómano" político que resolveu chamar de "filho da...", entre outros mimos grosseiros, a um deputado da oposição. 
Ora bem, assume a defesa destes arguidos, que as expressões utilizadas "foram empregues no âmbito do debate político". E é aqui quero chegar através de uma simples pergunta: o que tem a ver o debate político com a deliberada ofensa à dignidade dos opositores. Tantas vezes estive envolvido em acalorados debates com figuras da maioria política na Assembleia, mas nunca, nunca, ofendi fosse quem fosse. Para já porque a ofensa é indigna no plano do debate democrático, depois, porque quem ofende, demonstra uma baixeza comportamental, sobranceria relativamente aos outros para além de colocar em causa a dignidade das instituições. 
Obviamente que é admissível que o debate, em função dos posicionamentos políticos, seja intenso e vigoroso, todavia, em circunstância alguma pode descambar na grosseria e na ofensa directa à dignidade dos outros. Quando tal acontece só há um caminho a seguir pelo prevaricador: apresentar públicas desculpas, redimindo-se das atitudes assumidas. Esconder-se na imunidade parlamentar ou provocar sucessivos adiamentos, quando é possível dirimir os argumentos em sede própria, na Justiça, parece-me próprio dos fracos e intolerantes. Retratem-se, por favor.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

TERNI - ITÁLIA CASCATA DELLE MARMORE


Fica a poucos quilómetros de Roma. Trata-se de uma obra iniciada pelos romanos como forma de corrigir o curso do Rio Velino. É a mais alta da Europa com 165 metros, divididas em três quedas. Às 11 horas começa o ruído pela abertura das comportas. Aí assiste-se a um impressionante espectáculo pelo volume de água em sucessivas quedas, que corre mesmo ali ao nosso pé. Uma visita a não perder por quem por aquelas paragens ande.
Arquivo próprio.

quinta-feira, 31 de março de 2016

"O QUE NOS VALE É QUE HÁ MAIS CRISTO ALÉM DA MITRA"


O Padre Martins Júnior escreveu um texto no seu blogue Senso&Consenso que, no actual contexto, é notável. É directo e incisivo. Mordaz, até. Porque tem sido uma pessoa ofendida ao longo de muitos anos e, legitimamente, reage. Eu, Cristão, continuo sem perceber, ou se calhar percebo, o silêncio do Bispo do Funchal D. António Carrilho relativamente à suspensão "ad divinis" do Padre Martins. Não faz qualquer sentido que esteja nas tintas para a vergonha perpetrada sobre um membro da Igreja e sobre um povo que o abraça. Já não há paciência para suportar cumplicidades sujas, como se fosse desejável a manutenção de um cordão umbilical entre o Paço Episcopal e o poder político. O Padre Martins Júnior é uma vítima desse poder político e o Senhor Bispo um cúmplice de uma estratégia política há muito montada. Pela enésima vez, oiça Senhor Bispo, se o Padre é culpado de alguma coisa que o julguem em Tribunal Eclesiástico. Apresentem provas, dirimam os factos históricos, absolvam ou condenem, mas acabem com esta treta. E se for absolvido que tenham a HUMILDADE de pedir PERDÃO. Tão simples, na esteira deste Papa Francisco. Sinto-me revoltado quando a Igreja a que pertenço se apresenta, por clara omissão, contrária aos princípios e valores da Palavra. Deixo aqui o texto do Padre Martins Júnior... 


"Não era este o tema que reservei para terça-feira de Páscoa. Creiam, mesmo, que as mãos me pesam mais que noutros dias sobre este teclado de notas alfabéticas. A qual músico e a qual ouvinte agrada tocar ao piano repetidas dissonâncias ou escutar cacofónicas percussões? Por isso, quero ser breve. Desde logo, pela motivação circunstancial que amigos meus me trouxeram acerca de um incidente ocorrido numa das pacatas nortenhas paróquias da Madeira onde foi solicitada a PSP pelo respectivo jovem pároco. Perante a minha quase indiferença em relação à notícia (para mim, mais do mesmo) fiquei amarrado à “provocação” dos meus amigos interpelantes: “Então não reage? Vai fazer o mesmo que a diocese que se esconde sempre nos silêncios cúmplices?”
Aqui vai, pois, uma pequena amostra do que penso e sinto.
A Diocese, no feminino (em francês é masculino, le diocèse) é uma entidade abstracta, sobretudo entre nós, ilhéus. Não tem rosto, duvido que tenha alma, pelo menos, alma evangélica. Quando é chamada à colação, não reage. Usa uma arma secreta: o silêncio dos cemitérios. Entretanto, ela reconhece-se pelo corpo, nas suas estratégicas aparições, nas paradas espectaculares, nos jantares e inaugurações governamentais, nos arraialescos festejos de verão e nos partos litúrgicos pré-natais. De longe dá nas vistas pela anafada cinta vermelha e pelo régio brilho de uma cruz dourada, à imagem e semelhança dos brasonados oficiais do reino.
Falo do que se vê a olho nu. E de mais alguma coisa que vi, sobretudo, nos três últimos titulares madeirenses, de entre os sete que conheci como inquilinos do Paço. Confrange-me -.mas não afecta a minha fé no Cristo Nazareno, anti-sinagoga e anti-diocesano – sim, confrange-me olhar a paisagem. Numa ilha pequena, Madre das Cristandades de outrora, onde nos tempos mais recentes tem reinado a prepotência política, o favoritismo, a mediocridade e o nepotismo, esperava-se (e os madeirenses mereciam) um pastor verdadeiro, cuja mitra fosse cultura e talento e cujo báculo fosse “chicote no templo dos vendilhões” e, por outro lado, arrimo seguro para os mais débeis do seu rebanho, os proscritos dos poderes mundanos. Em vez disso, porém, coube-nos a sorte de uma diocese, corpo sem alma lá dentro. Diocese-Instituição. Há modestas autarquias rurais com melhor e mais responsável sentido de liderança, vigilante e humanista. Talvez até simples associações e colectividades de bairro, porque têm alma e dão o corpo às balas, em defesa da Verdade que professam.
Pelo que acabo de dizer, nada me espanta o “lavar-de-mãos na bacia de Pilatos” por parte da Mitra. Ê mais do mesmo. Um eclesiástico subalterno entende transgredir as mais elementares normas urbanísticas, outro espuma retaliação contra uma instituição centenária e exclui-a da igreja-mãe a que sempre deu colaboração; este chama a polícia, aquele abre-se aos apetites políticos de um governo que lhe faz obras faraónicas, inúteis – e onde está a Diocese? No retiro dos cenóbios ou na paz dos sepulcros. Um bispo toma conta de uma quinta, legado pio para abrigo dos sacerdotes na sua velhice – e que diz o hierarca diocesano? Zero!
Termino já, porque não me conforta nada pôr a secar na via pública o estendal de roupa esfarrapada que não aquece a nudez de ninguém.
Ficaria, porém, incompleta a mensagem aos meus amigos interpelantes deste dia 29, se não citasse a resposta da Diocese – a mesma entidade sem rosto, não se sabe quem responde, se o Chefe ou se o vice - que ofereceu como antídoto e consolo, no caso da paróquia nortenha, uma receita de “misericórdia” perante duas devotas que, a pedido do jovem pároco, a polícia devia expulsar da igreja.. Misericórdia! É o que está na moda neste ano de abrir de portas. Nem me apetece comentar. Seria uma boa deixa para Dante escrever uma outra versão da “divina comédia”, revista e actualizada.
Misericórdia! Não brinquem nem nos tomem por tolos. Terá sido por “misericórdia” que a Diocese deu aval ao Governo Regional para mandar 70 (setenta) polícias atacar e esvaziar a igreja da Ribeira Seca, em 1985?... Foi por “misericórdia” que cortou a essa igreja a venda das hóstias para a Eucaristia?... Foi também por Santa “misericórdia” que não deixou entrar nessa igreja, em 8 de Maio de 2010, a Imagem Peregrina?... E será por que carga “misericordiosa” os bispos da Madeira, há 42 anos, não têm força para administrar o sacramento do Crisma na igreja da Ribeira Seca?..
Misericórdia, Papa Francisco – dizemos nós. Quem tem ouvidos de ouvir, entenda. Quem tem olhos de ver, interprete os factos.
O que nos dá força é que há mais Vida além da Diocese. O que nos vale é que há mais Cristo além da Mitra." 
29.Mar.16
Martins Júnior

quarta-feira, 30 de março de 2016

PRIMEIRO ANO DE GOVERNO DA MADEIRA É UMA COMÉDIA DE ENGANOS


Quem acreditou, concedendo o voto, tem razões para sentir o desconforto. É que não está em causa o stop à “obra” pública ou as mal explicadas e polémicas substituições em cargos políticos, mas sim para onde caminha a Região. E isso ninguém sabe. O governo transmite a imagem de um departamento da função pública que abre e encerra, pontualmente, todos os dias. Cumpre o horário, despacha o normal e o anormal, comparece aos actos protocolares e autopromove-se através dos seus gabinetes. Políticas estruturantes de natureza económica, educativa, de saúde, de assuntos sociais, vectores fundamentais portadores de futuro, do crescimento e do desenvolvimento, não são perceptíveis. É sensível uma política de transmissão de uma imagem serena, feita de palcos e palavras, de sessões contínuas de filmes em cena há tantos anos, não de pensamento acerca do futuro.


A coisa vai funcionando, viciosamente, mas governar é muito mais do que isso. Alguém saberá como resolver o dramatismo da impagável dívida e as políticas económicas associadas, mormente as do desemprego que cresce descontroladamente? Alguém está interessado em gerar linhas orientadoras de um novo e basilar sistema educativo? E a saúde esgotar-se-á no debate em redor de um novo hospital? E a aflitiva pobreza, os imensos dramas vividos nas margens sociais e as questões da solidariedade resolvem-se com iniciativas folclóricas que nascem e morrem no mesmo dia?
Seria curial que, em função da gigantesca dívida herdada pelos confrades, emergisse sinceridade no discurso político, transmitindo à população as múltiplas impossibilidades e que, no mínimo, restassem as convicções de um percurso estruturado no bem-estar futuro. Nem isso acontece. Assiste-se a uma representação teatral, a uma comédia de enganos, que não consegue disfarçar uma certa impreparação para a complexidade do acto de governar. Ao contrário de transmitir uma imagem de grupo coeso, firme e posicionado na dianteira dos problemas, tem ficado o sentimento da desarticulação entre sectores e uma encenação que tenta disfarçar, inclusive, as tensões partidárias internas, o que tem sido provocador de uma corrida, permanentemente insensata, ziguezagueante e de promessas adiadas, sempre atrás das circunstâncias. O governo, muitas vezes, parece-me mais guiado pelo “Diário” e não por um eventual pensamento político. 
O problema é que há políticos deslumbrados, no governo e na Assembleia, para os quais parece mais valer o lugar que ocupam que a importância da função que desempenham. Resquícios do passado ou hereditariedade política, talvez. E isso é um problema que em nada ajuda na construção de uma região próspera. Ai, ai, se este quadro acontecesse no Continente, com a massa crítica exigente e implacável!
NOTA
Texto da minha autoria, publicado na edição de ontem do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 29 de março de 2016

SUBSÍDIO DE MOBILIDADE E A INCAPACIDADE DE OUVIR OS UTENTES


O secretário regional da Economia, Turismo e Cultura continua a defender as vantagens do subsídio de mobilidade. Na sua opinião é tão fantástico que, agora, qual paradoxo, culpa o governo da República pelo atraso na revisão do modelo. Cheguei a pensar que o erro de avaliação seria meu, tanta foi a propaganda feita. Calei-me, até porque não tenho viajado com regularidade. Mas tenho seguido os comentários, as "cartas do leitor", as peças jornalísticas, os textos nas redes sociais e tantos desabafos com quem me cruzo, desde agentes de viagens a pessoas do meu círculo de amizade. Porém, o discurso já não é substancialmente o mesmo, o secretário que, em nome do governo, só via maravilhas, assumiu, hoje, que o regime é "francamente positivo". Parece que já não é indiscutível e, daí, toca a atirar a batata quente para Lisboa. Pergunto, então, por que não ouviu, atempada e serenamente, aqueles que duvidaram e colocaram em causa as fragilidades do regime em vigor? 


Governar implica ter uma enorme humildade e capacidade de auscultação. Não é que tudo o que por aí possam dizer seja correcto, até porque as pessoas não dominam todas as variáveis, mas existe uma vivência e conclusão derivada da utilização de tal regime. E essa é a melhor percepção que se pode ter. Parece-me muito pouco sensato insistir na defesa de uma posição quando, de forma generalizada, as queixas são muitas. As tarifas foram inflacionadas e a pouca-vergonha dos preços praticados em épocas festivas demonstram que, afinal, este regime deveria ter sido melhor pensado, quer na vertente dos custos para o utilizador, quer para o Estado. Ainda hoje um leitor deixou escrito no online do DN em resposta ao secretário: "(...) Positivo para quem? Para mim e para a maioria dos viajantes madeirenses de certeza que não foi. (...)" - Daimex
Mas este governo parece-me que segue peugadas do anterior. Diz-se dialogante, mas a prática é outra. Talvez seja por inexperiência política e governativa, porque por soberba talvez não seja. Concedo o benefício da dúvida.
Ilustração: Arquivo próprio.  

VERGONHA MUNDIAL: 27 MILHÕES DE ESCRAVOS!


Nos últimos dois anos, a fotógrafa Lisa Kristine viajou pelo mundo e documentou a realidade dura da escravatura nos tempos modernos. Lisa partilha imagens estonteantes — mineiros no Congo, pedreiros no Nepal — que revelam a situação das 27 milhões de almas escravizadas por todo o mundo. Uma vergonha para a HUMANIDADE. Vale a pena assistir a este vídeo realizado em Janeiro de 2012.

 

segunda-feira, 28 de março de 2016

TRANQUADA GOMES E IRENEU BARRETO UNIDOS NO REFRÃO "PAZ, PÃO..."


Que o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, partidariamente, faça um elogio à actual governação e um auto-elogio ao desempenho do primeiro órgão de governo próprio, compreendo. A família protege-se, como é óbvio, mesmo que, as palavras de elogio tenham sinais contraditórios. O Dr. Tranquada Gomes, viveu anos naquela Assembleia e nunca se ouviu a sua voz contra aquilo que hoje diz ser a necessidade de "credibilização das instituições, um melhor diálogo entre a República e a região" e "uma nova forma de fazer política". Será que está a fazer um mea culpa pelas sistemáticas alterações do "Regimento" sempre no sentido de limitar a palavra à oposição? Ora bem, vir agora assumir que "muita coisa mudou" e que se abriu "um novo ciclo" no arquipélago, constitui um paradoxo e uma pública desconsideração face a várias cumplicidades políticas passadas, até para quem o convidou para deputado! 


Mas o que é mais estranho e, politicamente, muito pouco sensato, são as declarações do Senhor Representante da República, Juiz Conselheiro Ireneu Barreto, que declarou que o mau relacionamento entre a região e a República nos mandatos do anterior Governo insular, liderado por Alberto João Jardim, "muitas vezes era mais aparente que real". Aparente? As ofensas dirigidas, os sistemáticos enxovalhos de figuras públicas e, por exemplo, o fantasma de um movimento independentista, pode considerar-se aparente? Questiono, pode o Senhor Representante assumir que, o essencial da política são os resultados e que "nós podemos dizer que, no tempo do dr. Alberto João Jardim, a região conseguiu alguns bons resultados"? Seis mil milhões de dívidas, facturas escondidas, valores não reportados, pobreza e desemprego galopante são bons resultados? O processo "Cuba Livre" espelha esse bons resultados? E quais são, apetece-me perguntar ao Senhor Representante, os resultados do último ano de governação para que possa dizer que "também tem dado bons resultados à região"? Diga, quais? Exemplifique, com factos e números. Ou será que o exercício da política se baseia em cosmética, dando a entender uma realidade que não existe? Uma coisa é o triângulo Palácio de S. Lourenço, Assembleia, Quinta Vigia, outra bem diferente é o que se passa no tecido familiar e empresarial. E aqui, insisto na pergunta, onde estão os "bons resultados"? Saberá o Senhor Representante o que se passa na Assembleia? 
Julgo que a ambos, ao Presidente da Assembleia e ao Representante da República, lhes falta sair dos gabinetes e andarem por onde está o povo, no interior e no litoral, nos locais mais recônditos até aos mais perto dos olhos, nas ruas, becos, travessas e impasses, nos bairros, nas escolas, nos hospitais, junto de todos que têm direitos, mas quase nula justiça social. Falta-lhes essa experiência, para sentirem o cheiro da pobreza, os desconfortos, a sina de quem nasceu pobre e como alguns políticos os atiraram para a margem! 
Finalmente, o Senhor Representante tem todo o direito de ter um posicionamento político-partidário, como tenho o meu, mas no quadro das suas funções de Estado, que, aliás, já deveriam ter terminado, deve ser comedido e distante. Que o Dr. Tranquada Gomes teça loas ao desempenho do seu partido, enfim, qualquer pessoa compreende, o Senhor Representante, não.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 27 de março de 2016

DOMINGO DE PÁSCOA



A todos quantos por aqui passarem desejo um Santo Domingo de Páscoa no seu significado mais puro e extenso, de passagem da morte para a vida. Simplesmente porque há muitos "mortos" entre os que vivem! Os que não querem ver e experimentar o amor, a paz, a solidariedade, a fraternidade e a irmandade entre povos e nações. Enalteceu o Papa Francisco na Sua mensagem: "(...) Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família – um egoísmo que faz continuar o tráfico de pessoas, a escravatura mais extensa neste século vinte e um. Paz para todo o mundo dilacerado pela violência ligada ao narcotráfico e por uma iníqua exploração dos recursos naturais. Paz para esta nossa Terra! (...)"
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 26 de março de 2016

KEUKENHOF - A PRIMAVERA E O ESPECTÁCULO DA FLOR



De 24 de Março a 16 de Maio, na Holanda, em Keukenhof, a 40 km de Amesterdão, vive-se a grande festa da flor. É muito difícil traduzir por palavras todas as emoções de um parque de 32 hectares.

sexta-feira, 25 de março de 2016

CENTRO INTERNACIONAL DE NEGÓCIOS DA MADEIRA. E SE A EURODEPUTADA ANA GOMES ESTIVESSE CALADA?


É público que tempos houve de uma grande desconfiança que recaiu sobre as operações de algumas empresas vinculadas ao Centro Internacional de Negócios. Julgo que até correram, externamente, procedimentos judiciais. E há um livro "Suite 605" de João Pedro Martins que explica muita marosca passada. Portanto, uma coisa é investigar quem utiliza a praça para fins obscuros; outra, lançar uma generalizada desconfiança. Se há quem esteja a prevaricar, e isso, julgo eu, é sempre possível, pois que se denuncie, investigue e, provando-se, que se puna. Entendo que não é curial arrastar todos os outros que cumprem a Lei.


Se me perguntarem qual o meu posicionamento sobre as praças financeiras, em geral, eu diria que todas não deveriam ser autorizadas a operar. Por múltiplas razões. Mas se elas existem e estão legalmente enquadradas, pergunta-se, que razões subsistem para um comportamento diferente entre a madeirense e todas as outras? Não faz sentido. Faz sentido sim, na Madeira, entre outros procedimentos, tal como assumiu o Dr. Carlos Pereira, em Julho de 2012, que "(...) Podemos fazer bastante mais" (...) por exemplo, "não existe no mundo nenhum sistema de benefícios fiscais com interesse público que seja gerido por uma entidade privada. Podemos, por isso, exigir que o Governo Regional deixe de estar de cócoras perante a concessionária, altere o contrato de exploração que vigora há mais de 25 anos e assim garanta que seja traçada, urgentemente, uma estratégia de atracção de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) que inclua as vantagens que hoje o CINM já oferece em termos de benefícios fiscais mas que adicione sentido estratégico aos critérios a estabelecer para as empresas a atrair para a RAM".
Daí que, compaginando, se me afigure absolutamente correcta a posição do presidente do PS-Madeira, Dr. Carlos Pereira ao manifestar total discordância com a Eurodeputada Ana Gomes, anunciando que vai agir em várias frentes. Entre elas, está uma carta à Comissão Europeia “salientando a importância da ZFM/CINM para a Região Autónoma, mas também inquirindo se a Comissão está a adoptar igual procedimento inquisitório para as restantes praças financeiras com um regime fiscal preferencial existentes na União Europeia”.
Outra iniciativa anunciada passa por solicitar uma reunião de trabalho com os eurodeputados do PS “para esclarecer qualquer dúvida que ainda persista” neste dossier. Para o PS da Madeira, a "defesa da ZFM/CINM é primordial” na medida em que funciona como um “importante mecanismo para promover o desenvolvimento” da Região, ainda por cima quando a Madeira, por erros do passado, precisa de receitas como de pão para a boca.
Ler notícia neste endereço:

quinta-feira, 24 de março de 2016

QUINTA-FEIRA SANTA - "FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM... O QUE É ISTO?"


É esta uma noite ímpar, pela soma de contrastes que a vestem. Por um lado, os galopantes ventos cruzados que derrubam árvores e travam aeronaves. Por outro, a lua cheia, viajando fagueira “como a alma de um justo”, entra-nos em casa e na mente em acenos de paz e cânticos de Páscoa. Dormem no mesmo berço nocturno, as bombas suicido-assassinas dos aeroportos e os prenúncios de uma Ceia, em cuja mesa pão e vinho se misturam com o sabor do abraço e do perdão. E é nesta Ceia, chamada a Última, que debruço hoje o meu olhar para descobrir-lhe a ementa e desvendar-lhe o significado. Espero não ferir susceptibilidades e arquétipos interpretativos que sucessivas gerações nos transmitiram ao ritmo imponderado do tradicionalismo religioso.



No derradeiro adeus aos amigos mais próximos, J.Cristo pôs a mesa e sobre a toalha dispôs pão e vinho da terra, dizendo: “Isto é o Meu Corpo, Isto é o Meu Sangue”. E como quem acentua o núcleo ideológico daquela estranha despedida, mandatou-os com este aviso: “Fazei Isto em memória de Mim”. 
Que sentido maior terá o demonstrativo “Isto” no contexto da narrativa?
O conhecido e abalizado teólogo Bento Domingues refere, na sua crónica de domingo passado, que a Última Ceia fica toda iluminada com o gesto simultâneo de J.Cristo quando decidiu lavar os pés aos comensais, pescadores e pecadores, seus amigos desde a primeira hora – uma atitude de intensa carga afectiva e de partilha igualitária entre todos, sublinhando a moralidade global daquela Ceia: “Também é Isto que deveis fazer uns aos outros”. (Mt.26,26; Jo.13,1-17). 
Os primeiros cristãos traduziram à evidência o mandato do Mestre: “Partiam o pão em casa e comiam juntos com alegria e singeleza de coração…Tinham tudo em comum: até vendiam as suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, conforme as necessidades de cada um”.(Act.2, 44-46). Eis a genuína interpretação da Ceia do Senhor e do subsequente Lava-pés, fielmente vivenciada pelos que receberam em primeira mão a narrativa do Cenáculo. Para eles, interessavam menos os rituais do que as acções concretas de solidariedade no terreno, demonstração dinâmica da sua fé na Eucaristia – a “Boa Graça”, etimologicamente.
Assim não entenderam os séculos posteriores e os cristãos, doutrinados e dominados por uma hierarquia crescente em poder, luxo e majestade. Passou-se a privilegiar o rito em prejuízo da seiva interior que lhe dava sentido e actualização. Fechou-se a Ceia no círculo apertado do formalismo litúrgico da “Consagração”. Depois, ergueram-se camarins e baldaquinos, cinzelaram-se sacrários, âmbulas e custódias, algumas delas de ouro precioso (lembremo-nos da sumptuosa custódia do ourives quinhentista Mestre Gil Vicente) e guardou-se o “Senhor do Universo” numa perfeitinha hóstia circular, bem segura numa prisão que, por ser dourada, não deixa de ser prisão. E chegou-se a esta obtusa contradição: enquanto o Mestre e os primeiros cristãos tomavam o pão da Eucaristia para abrirem caminho ao exterior, aos que viviam nas periferias, a Igreja usa prioritariamente a Ceia do Senhor para prendê-lO nas áureas teias do solenes rituais.
Não está em causa o fenómeno da “transubstanciação” (um vocábulo dogmático que os crentes pouco entendem) mas a inversão dos factores-valores da equação entre os meios e os fins, entre o ritualismo e vida. Se alguém houve que repudiou o verniz dos cerimoniais e defendeu acerrimamente os valores da fé viva e actuante, esse alguém foi o nosso Líder e Mestre, atraindo, por isso, contra si a fúria dos sumos-sacerdotes sentinelas da religiosidade formalista oficial.
Em síntese, todo o equívoco resume-se à frágil distinção entre significante e significado. Quanto menos evoluído é um povo, mais necessidade tem de significantes - repetidos, redundantes, asfixiantes até. Pelo contrário, um povo de olhos límpidos, não afectados por sombrias cataratas ideológicas, depressa intui o significado essencial dos gestos e tradu-lo em expressões factuais, prova transparente da sua crença.
Quinta-feira Sã e Santa, porque criadora de solidariedades necessárias, dos perdões consensuais, embora tantas vezes doridos e sofridos, mas no fim sempre geradores de prazer e militância face ao futuro!
Não há Eucaristia sem Abraço!
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Seria “divertido” e produtivo se alguém quisesse desenvolver um tema que tivesse mais ou menos este título: “Ao fim de 50 anos de embargo a Cuba, o presidente adventista Obama visitou aquele Povo. Na Madeira, faltam só oito anos para a Diocese levantar o embargo decretado desde 1974 à comunidade cristã e católica, chamada Ribeira Seca”.
Viva Quinta Feira Sã, Saudável, Santa!
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23.Mar.16
Martins Júnior

NOTA:
Texto publicado pelo Padre Martins Júnior no seu blogue Senso e Consenso.
http://sensoconsenso.blogspot.pt/2016/03/o-que-e-isto-pao-e-vinho-sobre-mesaem.html#gpluscomments

quarta-feira, 23 de março de 2016

TUDO MUDO COMO EM OUTROS TEMPOS...

Já tinha visto esta foto. Agora, chegou-me, novamente, através de um amigo. Dá conta da revolta contra a austeridade manifestada por deputados no Parlamento Europeu. Curiosamente, ou talvez não, na imprensa portuguesa não constituiu matéria de interesse. Não é de estranhar. Os últimos quatro anos, esta é a minha leitura, serviram, também, para exercer um certo controlo sobre a informação publicada. Todos os dias tal é notório através de peças e dos comentários de muitos "avençados".  







terça-feira, 22 de março de 2016

QUE MUNDO TÃO PERIGOSO! UM DESABAFO AO INÍCIO DA MANHÃ


Agora, logo ao início da manhã, foi em Bruxelas, mas as tensões andam por todo o lado. O sentimento que cresce é que não estamos seguros em sítio algum. Viajar, por razões profissionais ou, simplesmente, pelo prazer de conhecer, está a tornar-se uma quase aventura. Dizem, uns, que é preciso ser determinado para denunciarmos que não temos medo, mas isso não passa de uma balela dita boca fora. Na realidade, fugimos com o receio de estarmos no sítio errado na hora errada. Acordamos ao som das explosões e deixamos o dia com as imagens e os comentários do desespero e da morte. Para quê tudo isto? 


Já não bastam as angústias provocadas pelos desequilíbrios económico-financeiros, já não basta olharmos para este Mundo de pobres, de sessenta milhões de refugiados, de seca, de analfabetismo, de continuada exploração do homem, de falência das instituições, de roubo aos mais vulneráveis para deleite dos ricos e muito ricos, de corrupção a todos os níveis, de clara insustentabilidade do planeta motivada pela ganância? Como se tudo isto não bastasse ou por causa disso mesmo, caminhamos, diariamente, com medo e em pânico, nesta curta passagem pela vida. 
Hoje, em Bruxelas, no coração das instituições europeias, aconteceu mais um sinal dos tempos. E nós, completamente impotentes e frágeis, condenados a conviver com a incerteza. Que Mundo tão perigoso! Onde estão as referências do ser humano, os Homens e Mulheres estadistas capazes de inverterem este doloroso caminho para o abismo, quando sabemos que o recurso à bomba não resolve...