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A apresentar mensagens correspondentes à consulta eleições europeias ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
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quinta-feira, 29 de maio de 2014

SE EU ESTIVESSE NO LUGAR DE SEGURO...


(...) Mas, se lá, um vitorioso, provavelmente sairá, pergunto, na Federação da Madeira, um líder que perdeu as eleições europeias, o que deverá fazer quando, também no horizonte, estão as legislativas regionais? Quando é sintomática a dificuldade em juntar os partidos políticos para uma coligação sob a égide do actual líder do PS? Quando o seu nível de aceitação popular não permite acalentar a hipótese de "mudança" no próximo ano? Regresso ao princípio: se eu estivesse nesse lugar convocaria um congresso. Já. E pelas mesmas razões não concorreria. Finalmente, li a edição de hoje do DN-Madeira. Apesar de não ter qualquer responsabilidade política no PS-Madeira, a quem apenas pago as quotas, desde já anuncio que votarei no Dr. Carlos Pereira, caso venha a candidatar-se, por entender que é a única solução na construção de uma alternativa, inclusive, com possibilidades de acordos com outras forças políticas.


Se eu estivesse no lugar de Seguro, perante duas eleições vitoriosas e depois de três anos a credibilizar o partido, no próximo Sábado, na Comissão Nacional, por paradoxal que pareça, colocaria o lugar à disposição dos militantes e convocaria eleições. Uma posição, esta sim, irrevogável". E mais, não concorreria à liderança. Apenas saía, em alta, apesar de, naturalmente, contar com muitos apoios. Seguro deveria assumir esta posição, magoado, é certo, mas, em nome do PS e do futuro do país, sair pela porta grande e no momento certo. Esse constituiria um acto político que não está ao alcance de muitos, porque é necessária uma alta dose de desprendimento político. Sejam quais forem as causas e as pressões exercidas. Não se trata de fraqueza nem de calculismo, trata-se apenas de uma resposta para não perturbar e prolongar uma crise interna quando as legislativas nacionais estão no horizonte. 
Seguro é vítima, também, de uma comunicação social que, desde a primeira hora, não o entendeu. Eu diria que Seguro não caiu em graça. Com poucas excepções, jornalistas e comentadores alinharam pelo mesmo diapasão, mas a verdade é que ganhou as autárquicas e as Europeias. Mesmo assim, a cabeça dos eleitores está feita: este não... venha outro. Costa, neste caso, gera empatia com o eleitorado, vá lá saber-se porquê! Aliás, o mesmo aconteceu com Sócrates. Foi visado, maltratado e responsabilizado, quando se sabia e hoje confirma-se que a crise foi externa, não teve origem no governo da República, que foi uma crise que varreu e continua a varrer a Europa, agravado pelo chumbo do PEC IV que veio a determinar a entrada da Troika em Portugal. Mas a cabeça do povo eleitor foi feita!
Ora, quando isto é tão evidente, julgo, no caso em apreço, que,a Seguro, só lhe restará a saída com a noção do dever cumprido. Envolver-se na questiúncula interna poderá resultar, entre outras, uma de três consequências: primeira, uma sua vitória, por pouco, deixando o partido internamente dividido. Perguntar-se-á, à posteriori, para que serviu o congresso? Se a situação já não era famosa tenderá a degradar-se; segundo, uma vitória tangencial de Costa não favorecerá a necessária unidade interna; terceiro, em qualquer dos casos, dificuldades acrescidas nas eleições legislativas nacionais do próximo ano. Portanto, não vejo outra saída para António José Seguro que não a sua "saída limpa" deste processo.
Mas, se lá, um vitorioso, provavelmente sairá, pergunto, na Federação da Madeira, um líder que perdeu as eleições europeias, o que deverá fazer quando, também no horizonte, estão as legislativas regionais? Quando é sintomática a dificuldade em juntar os partidos políticos para uma nova coligação sob a égide do actual líder do PS? Quando o seu nível de aceitação popular não permite acalentar a hipótese de "mudança" no próximo ano? Regresso ao princípio: se eu estivesse nesse lugar convocaria um congresso. Já. E pelas mesmas razões não concorreria.
Finalmente, li a edição de hoje do DN-Madeira. Apesar de não ter qualquer responsabilidade política no PS-Madeira, a quem apenas pago as quotas, desde já anuncio que votarei no Dr. Carlos Pereira, caso venha a candidatar-se, por entender que é a única solução na construção de uma alternativa, inclusive, com possibilidades de acordos com outras forças políticas.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Couves de Bruxelas


Por estatuadesal
23/04/2019
Melo, Cristas e Soares

Em tempos idos os fenómenos mais marcantes e inéditos no país estavam, por estranha tradição, associados ao Entroncamento. Agora parece que passaram para a Golegã.

O CDS, comandado pela azougada Dra. Cristas, foi apanhar couves à Golegã. Assim, acompanhada por Nuno Melo e Pedro Mota Soares, também conhecido pelo "ministro lambreta", decidiram participar no projeto “Restolho“, da Associação de Agricultores AGROMAIS, que consiste na apanha de couves para o Banco Alimentar de Abrantes.
As razões de tão insólita acção de rua prendem-se necessariamente com as eleições europeias que, segundo a última sondagem da Aximage, não irão ser nada auspiciosas para o CDS e para a Dra. Assunção que, segundo ela, irá lutar nas eleições de Outubro para ser Primeira-Ministra.
De facto, os votos que Marinho Pinto angariou nas europeias de 2015 (7%) vão ser avidamente disputados pelo PSD e pelo CDS, e nada melhor do que recorrer à apanha da couve, para tentar captar esses votos do MPT, o partido da Terra. Ora, como se trata de eleições europeias, a Dra. Assunção só falhou o alvo quanto ao tipo de couve porque, em vez da colheita de couve lombarda, deveria ter optado pela apanha de couves de Bruxelas. Sempre era mais condizente.
Há que dizer que os políticos em campanha eleitoral resvalam muitas vezes para situações de extremo ridículo. Mas esta direita do CDS bate todos os outros aos pontos e cada vez nos surpreende mais com estas acções dignas de figurar no anedotário nacional. Acham eles que os portugueses são tão estúpidos e atrasados mentais que consideram que apanhar meia dúzia de couves em frente às televisões, transforma qualquer mortal num agricultor encartado e merecedor de empatia profissional, e quiçá, de ser merecedor de escolha nas urnas.
A Dra. Assunção sempre teve queda para as "causas agrícolas", queda que herdou do seu patrono e mentor Paulo Portas. Ainda a haveremos de ver com o boné e com o capote alentejano que o dito patrono costumava usar para se passear em campanha eleitoral por feiras, mercados e romarias.
Mas mais ainda. Como o CDS está, para já, divorciado do PSD de Rui Rio e vai a votos sozinho para mostrar o que vale, a Dra. Assunção está livre e prendada para casar com quem se chegue à frente e a queira levar ao altar.
Com este tirocínio da apanha da couve, a Dra. Assunção mostrou os seus predicados de mulher da lavoura e alertou todos os jovens agricultores casadouros para o facto de não se assustar com as duras exigências dos trabalhos do campo.
Por isso, ó jovens agricultores, quando forem ao programa da SIC, não escolham qualquer uma e protestem, junto da produção, por só vos confrontar com candidatas de fraco curriculum. Mandem vir a Dra. Assunção que já tem provas dadas em todas as artes agrícolas, desde a apanha da couve até à pasta ministerial da actividade. É garantido que melhor esposa não podem ambicionar.

sexta-feira, 15 de março de 2024

As eleições europeias 2024 estão aí


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Tememos, face ao que se passou nas recentes eleições nacionais, em que se falou de tudo menos dos problemas reais do País, que o mesmo venha a acontecer nas eleições para a UE.



A Europa em ciclo de empobrecimento

Em eleições passadas, os partidos portugueses, candidatos ao Parlamento Europeu, pouco de concreto nos informaram do seu pensamento sobre o que a União Europeia (UE) deve fazer como Instituição, no plano mundial e na relação com cada Estado-membro e, sobre o trabalho a desenvolver por cada partido no sentido de pressionar a UE a avançar no caminho que defende.

Não foram capazes de ultrapassar as meras tricas internas e nada nos elucidaram sobre os múltiplos problemas que a UE atravessava e menos ainda se iriam com a nova representação ir além de uma mera presença no Parlamento.

Tememos, face ao que se passou nas recentes eleições nacionais, em que se falou de tudo menos dos problemas reais do País, que o mesmo venha a acontecer nas eleições de Junho próximo para a União Europeia.

Centrar as discussões no cerne dos problemas da Europa é determinante para Portugal e restantes Estados-membros, pois a Europa está numa encruzilhada muito perigosa, uma das mais complexas porque tem passado, um início de ciclo de empobrecimento e de potencial desaparecimento de empresas e indústrias estruturantes da sua economia, como o automóvel.

A União Europeia atravessa uma crise de desespero profunda, em vários domínios e vários países, graças a decisões e políticas profundamente desajustadas ao longo dos tempos ou por ausência de políticas e medidas nos devidos momentos.

A União Europeia a perder o pé

1. O mundo agrícola

No mundo agrícola, a contestação é enorme. Os tractores nas ruas são a imagem perfeita, assistindo aos agricultores europeus múltiplas razões de raiva e protesto. A cedência que alguns governos têm feito vão no sentido de tentar baixar a chama e não de a apagar com a solução dos problemas.

O presidente Macron, ainda recentemente, prometeu acabar com a suspensão dos direitos aduaneiros sobre o frango ucraniano que a UE decidiu, logo após a invasão da Rússia. Uma exigência do mundo agrícola francês, decisão essa que, aliás, só enche os bolsos do grande exportador de Kiev, Yuriy Kosink e dos grandes importadores franceses, prejudicando os médios e pequenos agricultores e o consumidor em geral, pelo aumento de preços.

Analistas referem que a principal razão desta tomada de posição é política, estancar a progressão de Marine Le Pen no “roubo” do voto do agricultor francês.

Já na Polónia o problema maior para os agricultores tem sido os cereais a preços muito inferiores, tanto assim que bloquearam na fronteira a entrada de mais de dois mil e quinhentos camiões.

E se saltarmos para outros países, estes e outros problemas estão na origem da contestação global dos agricultores europeus aos seus governos e à União Europeia. Para vários analistas, isto traduz um cansaço das pessoas face aos efeitos da guerra da Ucrânia e, pior, uma rejeição generalizada à sua entrada futura na UE, pelo temor da maior produtividade da agricultura de Kiev.

E o problema de fundo é esse mesmo. As sucessivas reformas da PAC poucas melhorias têm trazido a acréscimos de rendimento dos agricultores europeus. Daí que a PAC mereça uma profunda refundação.

2. A desindustrialização

Num outro domínio, o da industrialização, a Europa atravessa uma fase muito crítica, com vários setores em afundamento, já em curso ou a curto/médio prazo, como o automóvel.

O símbolo desse afundamento, como bem refere o jornal britânico, “The Times”, é o de um navio cargueiro a aportar em Vlissingen, na Holanda, em 21 de fevereiro de 2024: “A chegada de sua carga deve marcar a abertura de um novo capítulo na supremacia industrial da China ou o início de uma guerra comercial”.

O cargueiro transportava “7.000 carros elétricos destinados aos mercados europeu e britânico”, diz o jornal. O navio pertence à BYD, a empresa chinesa que destronou a Tesla, ao se tornar o maior fabricante mundial de carros elétricos. A BYD ainda sofre de alguma falta de notoriedade na Europa, mas o grupo chinês tem vindo a trabalhar o mercado europeu, nos últimos meses, no sentido de o conquistar. E como está tecnologicamente à frente e o preço é imbatível, a remodelação da “paisagem europeia do automóvel” está à vista, reduzindo fortemente a sua produção.

De novo com o “The Times”, como competir com os fabricantes chineses e, em particular a BYD, que “encontraram a receita para produzir mais e a um custo mais baixo do que todos os [seus] concorrentes?” (…) “Os modelos de entrada [da BYD] são vendidos na China por pouco mais de £ 8.000, enquanto os britânicos têm de pagar cerca de 40.000 libras pelo Tesla mais barato”.

Não vai ser fácil segurar uma indústria que representa na Europa cerca de 7% da economia e emprega 13 milhões de pessoas, quando a própria Europa decretou o fim das vendas dos veículos a combustão para 2035, sem antes ter colocado no terreno uma política sustentada de mudança.

Não é com as denúncias de Bruxelas de subsídios ocultos pela China, em que tanto se empenhou a Comissão Europeia, em finais de 2023, que o automóvel europeu vai sair da crise em que está a mergulhar. Diferentes passos são necessários: acordos entre empresas europeias do automóvel e parcerias sólidas com países terceiros, sobretudo nos minerais críticos e baterias.

Ouçamos o que nos disse Carlos Tavares, gestor português, CEO da Stellantis, grupo criado entre a italiana Fiat e a francesa PSA, à Bloomberg Television, em Fevereiro último: “Estou perfeitamente ciente de que, no futuro, as empresas que não forem capazes de resistir à concorrência chinesa se colocarão em dificuldade” e já antes avisara: a indústria automóvel europeia caminha para um “banho de sangue”, se não reagir a tempo.

E aqui estamos de forma tardia e cada vez com menos meios para reagir, perante uma indústria essencial à Europa que, se falhar na sua reestruturação e entrar em recessão profunda, é um duro golpe na economia.

Mas a desindustrialização não pára aqui. Temos a química em que sobretudo a Alemanha não está bem. Os seus grandes grupos estão em franca perda e a deslocalizar para fora da Europa. E aqui o grande problema é o custo da energia que subiu proveniente das sanções aplicadas à Rússia, tendo os empresários alertado os políticos para o embate de certas tomadas de decisão que estavam no horizonte próximo por pressão dos EUA. Como avançaram, sem alternativas, é o afundamento.

A Europa foi a mais atingida. O alvo, a Rússia, até melhorou, pois, diversificou os mercados de exportação e indiretamente continua a exportar para a Europa, agora em melhores condições de preços. A sua economia, segundo o FMI, até cresce no mundo, acima da europeia (3% em 2023, 2.6% em 2024 e 1.1% em 2025).

São factos perturbadores a merecer um empenho de reflexão e o tempo até às eleições europeias de Junho parece-nos uma altura oportuna. A crise avança de forma lenta, mas persistente e precisa de ser estancada, sob pena de um afundamento a prazo da Europa.

P.S. 10 de Março. Com resultados parciais, a situação é bem complexa. AD ganha com margem estreita. Esquerda acusa uma profunda derrota, o que Marcelo sempre desejou, intervindo na campanha até ao fim nesse sentido. Finalmente, a extrema-direita instala-se no regime folgadamente. Instabilidade é o que nos espera.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

segunda-feira, 3 de março de 2014

ELEIÇÕES EUROPEIAS: UM 5º LUGAR OU FIQUEM COM TODOS!


Enquanto cidadão estou muito preocupado com as eleições europeias de Maio de 2014. São determinantes para a Europa, uma vez que há uma absoluta necessidade de todos os povos romperem com duas situações: primeira, a deriva política desta Europa ultraliberal, vendida e rendida aos mercados que se encarregam de empobrecer e de escravizar; segundo, travar o desespero que acaba por se reflectir no despontar de grupos de extrema-direita. No essencial, há uma nova Europa para construir tendo por base um dos princípios que a determinaram: "A paz mundial que não poderá ser salvaguardada sem esforços criadores à medida dos perigos que a ameaçam", síntese da declaração inicial proferida pelo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman. Neste conturbado tempo torna-se, assim, imperioso que nessa luta estejam os melhores representantes do POVO, os políticos mais qualificados e não a proliferação de mais "Hollandes" do nosso descontentamento. 



Mas a minha preocupação vai mais longe, porque vivemos numa região ultraperiférica, debilitada, deprimida, endividada e assimétrica. Neste contexto, a nossa voz política tem de ser escutada e uma efectiva e credível ponte deve ser construída entre a Madeira e os centros de decisão na Europa. Neste quadro, o Partido Socialista nacional tem acrescidas responsabilidades, até porque, do lado do sistema vigente, a favor de uma desavergonhada direita europeia, está uma terrível coligação nacional de interesses, que deseja, a todo o custo, esconder o desastre das suas políticas. Não me passa pela cabeça que a Madeira não disponha de um lugar claramente elegível, digo-o, abertamente, de um militante socialista, com experiência política, no mínimo, até 5º na lista nacional. A diferença tem de ser pela QUALIDADE e não pelos interesses, conveniências e dádivas que a lista do PSD/CDS apresenta. Espero que o PS Nacional e o PS Madeira não permitam que Passos Coelho premeie aqueles que conduziram a Região à falência. O sexto lugar atribuído ao PSD-Madeira constitui um prémio, uma espécie de branqueamento político no que “cuba livre” e outras cubas representam. Exige-se do PS Madeira uma atitude negocial firme neste processo, porque é preciso semear para recolher os louros de uma vitória eleitoral. Se assim não for, fiquem com todos os lugares!
O PS-Madeira precisa de demonstrar que é capaz de criar uma imagem alternativa e, neste contexto, embora difícil, necessária se torna a luta por uma vitória local do PS nas próximas eleições, também como embrião das legislativas de 2015. Finalmente, seria inaceitável que nestas eleições continuasse a se verificar o sistemático desrespeito da estrutura nacional do PS, que sempre foi relutante em colocar um madeirense em lugar, repito, claramente elegível. É histórica a atitude de mendigar um lugar, quando esta é uma Região Autónoma. Em conclusão, seria incompreensível que o PS-Madeira não fosse indicado para um 5º lugar quando, na lista contrária, as duas Regiões Autónomas estão representadas até ao 6º lugar. 
Sobre esta matéria escrevi, a 17 de Janeiro de 2014, um texto, no qual defendi uma candidatura. Pode ser lido aqui:
Ilustração:  Google Imagens.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Andamos a ser enganados


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

Reina um certo desespero e Macron sentiu necessidade de dar apoio, marcando posição na Europa, aparecendo com um “pensamento estruturado e desenvolvido”, mas não muito criativo.



A um mês das Eleições Europeias, já era tempo dos partidos políticos portugueses nos andarem a alertar para os problemas de fundo que afetam a União Europeia. Mas ainda estão nos jogos de bastidores.

Nestes últimos tempos, está em moda dizer-se, como o fez Emmanuel Macron, no seu discurso na Sorbonne (25 de Abril), que é preciso parar “o declínio e a morte da Europa”.

De forma um pouco surpreendente, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, apresenta-se como candidata às eleições europeias (28/04) à frente do seu partido de extrema-direita, Fratelli d’Italia, dizendo: “queremos que a Itália seja central para mudar o que não funciona na Europa”. Este avanço de Meloni induz várias leituras, entre outras: as sondagens muito favoráveis como uma subida de seis deputados no Parlamento Europeu para 24 permitem uma grande influência na Europa e as eleições a funcionarem de referendo ao seu governo, uma prova interna de consolidação do mesmo.

António Vitorino (ex-comissário europeu), por seu lado, numa entrevista, a propósito do relatório entregue em Bruxelas, no passado dia 21 de Março, em cuja elaboração participou: “Europa 2040 – o futuro é já hoje”, que não consigo encontrar em sítio algum, também afirma que: “a única opção [para a Europa se transformar numa “potência global, sustentável e responsável”] é mudar porque mais do mesmo não serve”.

O discurso de Macron

1. Vamos ao discurso de Macron por ser uma peça “elaborada” e porque a ele tive acesso.

Durante quase duas horas na Sorbonne, no dia 25 de Abril, Macron versou o tema da “Europa pode morrer” e, para que tal não suceda – afirmou – é preciso implementar no novo ciclo, que se iniciará com as eleições de 9 de Junho, um conjunto de “decisões estratégicas”, baseado no conceito de “autonomia estratégica”, sobre o qual já, no seu primeiro discurso de 2017 sobre a Europa, naquele mesmo sítio, dissertara.

Fundamentando a premência da autonomia estratégica como um guião base da União Europeia, Emmanuel Macron refere: “os EUA têm duas prioridades: os EUA, o que é legítimo e, em segundo lugar, a China. A questão europeia não é uma prioridade geopolítica [para os EUA] para os anos e décadas vindouros, qualquer que seja a força da nossa aliança”.

2. Esta ideia básica de autonomia estratégica, como essencial à Europa, só peca por muito tardia e, sobretudo, por uma prática continuada contrária. Já em 2017 ela esteve presente no seu primeiro discurso sobre a Europa e nada se fez.

O que se passou, desde então, foi uma falha clara de autonomia estratégica, como o alinhamento nas sanções económicas que tão caras andam a ficar à União Europeia (UE), mas serviram os interesses dos EUA e cujos resultados são o baixo crescimento da economia, a desindustrialização da Europa sobretudo no automóvel e química, a subida de preços, o mau funcionamento das cadeias de abastecimento e os atrasos na IA. Um horror de problemas que só tem trazido complicações à vida dos europeus.

Mas, essa dependência sistemática continua. Nas relações UE-China sobrepõem-se os interesses americanos. A União não avança sem acordar com os EUA: Hawei, 5G, Tik-Tok… matérias-primas estratégicas… pelo que é de se interrogar se os interesses dos dois blocos serão sempre coincidentes?!

Macron e as grandes mudanças

3. Para Macron, estão em curso no Planeta um conjunto de mudanças profundas: a transição energética, a inteligência artificial, o meio ambiente, a descarbonização das economias … e a Europa ou se prepara para nelas entrar ou fica apeada. Por conseguinte, as apostas no poder da inovação, na investigação e na produção são determinantes.

A União tem andado em franco desfasamento face aos EUA, reconhece Macron. Entre 1993 e 2022, enquanto o PIB dos EUA aumentou acima de 60%, na UE nem 30% atingiu. A UE tem de construir a sua soberania europeia, se quer vencer tamanhos atrasos.

Para Macron, a soberania europeia exige uma aposta firme em três frentes: Poder, Prosperidade e Humanismo, referindo-se a cada uma delas na intervenção da Sorbonne com algum detalhe.

No Poder, salienta uma Europa a dominar as fronteiras e iniciativas fortes no campo da defesa, relevando a necessidade da expansão consistente de uma indústria europeia de defesa, tipo cooperação em curso França-Itália.

Quanto à Prosperidade, um novo modelo de crescimento e de produção bem como uma geopolítica de matérias-primas, onde a Europa tem apresentado muitas falhas de estratégia, quer na produção quer nos aprovisionamentos, nomeadamente porque é dependente de um pequeno número de países nas terras raras e outros minerais estratégicos para sectores como o automóvel, computadores, baterias. E aqui cita o processo de descarbonização das economias e da necessidade de uma política industrial na base de cinco sectores que identifica: inteligência artificial, computação quântica, o espaço para consolidar o Ariane 6, biotecnologia e novas energias. [Sobre a política industrial europeia voltaremos no próximo artigo].

Neste novo paradigma de crescimento e prosperidade, Macron afirma que, com as existentes política de concorrência europeia, política comercial, política monetária e política orçamental, a Europa não vai a lado nenhum. De facto, só mudando muito. Simplificar para tornar uma Europa menos complicada, muito menos burocrática.

Na Europa Humanista, salienta, sobretudo, os curtos avanços quando não retrocessos, na democracia e na cooperação cultural entre os países e na sua globalidade.

Objectivos

4. Registe-se esta frase inspirada de Macron: “os objectivos são claros, mas não estamos lá e não os podemos cumprir com as nossas regras. Nós não estamos lá. Não estamos lá, porque estamos fora da sintonia com a recomposição do mundo. Não estamos lá porque regulamos demais, investimos de menos e somos demasiado abertos e não defendemos os nossos interesses de forma eficaz”.

Uma frase muito forte que também o atinge e a França profundamente. É evidente que a intervenção de Macron tem objectivos. É muito eleitoralista para o interior de França e para a sua projecção na Europa. O mesmo se diz da posição de Meloni. Só que o partido de Macron, em termos de sondagens, anda em situação difícil muito atrás de Marine le Pen, em cerca de 13 pontos percentuais.

Reina um certo desespero e Macron sentiu necessidade de dar apoio, marcando posição na Europa, aparecendo com um “pensamento estruturado e desenvolvido”, mas não muito criativo, embora com umas frases fortes como aquela em que “a Europa pode morrer”.

Estes discursos políticos levam-nos ao engano, pois deixam o fundo das questões a esvoaçar. Olhemos para a descarbonização e a inteligência artificial (IA), dois exemplos apenas.

Na descarbonização, as metas antes estabelecidas não poderão ser cumpridas no prazo previsto (2050) em cerca 40% das actividades económicas, por razões sobretudo tecnológicas, mas também financeiras. Na IA, não se fala dos consumos elevados de água e energia tão necessários, nem se aponta como os resolver.

Discursos tão empolgados, mas de mera campanha eleitoral. Não dão soluções reais. E acusam falhas de fundamentação. E assim se faz uma campanha, com muitos truques e enganos à mistura.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

25 DE MAIO - ELEIÇÕES EUROPEIAS. NÃO TRANSFORMAR O SONHO EM PESADELO!


"NÃO faça nas URNAS o que costuma fazer na sanita, pois na sanita você faz a descarga e não vê mais, mas nas urnas você leva 4 anos a ver a merda que fez".


Aproxima-se o dia das eleições europeias. Domingo, temos o dever de reservar um tempo para cumprir o que a Democracia exige de todos os cidadãos. Dizer que são todos os mesmos, que a trafulhice anda por aí, que o descrédito dos políticos é evidente e que nada melhorará com novos protagonistas, não constitui solução. Não votar significa entregar o poder, de bandeja, a quem não gostamos, ou porque nos roubaram, saquearam ou diminuíram direitos sociais conquistados com muita luta; não votar significa dizer sim à transformação do sonho europeu num pesadelo europeu. E nós estamos a viver esse pesadelo consubstanciado numa clara agressão aos povos, onde deixou de existir solidariedade no âmbito do sentido de comunidade, mas espezinhamento para favorecimento dos grandes interesses financeiros. Não falo de igualdade entre as nações, mas de solidariedade comunitária, o que é bem diferente. É perverso que os directórios europeus, liderados por grupos que sabem de onde vêm, o que pretendem e para onde seguem, entrarem no país para nos dominarem a seu bel-prazer. Tenhamos presente o texto de Frédéric Panier, Economista na Universidade de Stanfort, Califórnia, a propósito dos "arranjos contratuais, que pretende fragmentar as solidariedades nacionais (in Le Monde Diplomatique): "(...) Os arranjos contratuais, igualmente conhecidos pelo nome "Instrumentos de Convergência e Competitividade" assentam num princípio simples: em troca de incentivos financeiros, os estados europeus serão convidados a assinar contratos de reformas macroeconómicas com a Comissão. Estes compromissos incidirão sobre os sectores social, económico ou fiscal, independentemente das competências transferidas para as instituições europeias. Assim, tendo em conta as prioridades actuais da Comissão, é fácil imaginar que a concessão de "vantagens financeiras" pode vir a ser condicionada à eliminação de medidas de protecção do emprego, a reduções das despesas sociais, ou a benefícios fiscais às empresas... ". Isto, segundo o Partido Socialista Europeu (PSE), Sergeï Stanichev, que assegura que ele poderá "fazer desaparecer as disposições sociais em todos os Estados Membros, um atrás do outro, medida atrás de medida". 
É pois contra esta vergonhosa teia de interesses europeus que devemos lutar. A única arma que dispomos é a do voto. Domingo temos o dever de dizer NÃO a estes senhores que dominam politicamente a Europa. Eu irei votar.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 28 de março de 2024

As direitas e as esquerdas


Por
João Abel de Freitas
Economista

A Europa não tem sido hábil no encontro com os seus cidadãos. Numas eleições em clima de guerra e de corrida armamentista, menos esperança resta ainda aos europeus, desejosos de uma saída de paz e bem-estar.



Portugal e União Europeia

As eleições de 10 de Março trazem um novo figurino à Assembleia da República, com uma esmagadora maioria de deputados em São Bento da direita e direitas radicais e populistas.

As eleições europeias de Junho próximo são de alto risco para a União Europeia (UE). Os estudos de opinião dão as direitas radicais e populistas na liderança em vários países, o que aponta para o seu reforço no Parlamento Europeu (PE). Assim, a distribuição dos 720 eurodeputados deverá sofrer alterações significativas e os temas a debater mudarão de foco.

A imigração, a transição energética e o modelo agrícola passarão a constar com frequência na ordem do dia, no sentido, porém, de serem introduzidas alterações profundas de rumo. O PE, a Comissão e o Conselho vão sofrer ajustamentos, em virtude dos resultados das eleições e de mudanças políticas que ocorrerão ao longo do novo ciclo europeu, em países como a França, Alemanha e outros.

Há a assinalar uma diferença significativa entre o PE e o Parlamento português. Os partidos das direitas radicais e populistas no PE estão organizados em dois grupos distintos: ID (Identidade e democracia) que agrega fundamentalmente deputados dos partidos de Marine Le Pen, Matteo Salvini (vice-presidente do governo italiano), AfD alemã e agora os eurodeputados que o Chega eleger e ECR (Conservadores e reformistas europeus) deputados dos partidos de Georgia Meloni (primeira-ministra do governo de Itália), PiS da Polónia, Vox de Espanha e, eventualmente, a entrada do Fidesz de Orban da Hungria.

A grande questão ao nível do PE reside na perda ou não da segunda posição do grupo dos socialistas e democratas (S&D), sabendo-se, porém, pelos estudos de opinião que irá baixar o número de representantes do PPE e S&D, os grupos políticos dominantes até à data, prevendo-se que a ID e ECR, em conjunto, ultrapassem o grupo S&D e, segundo alguns estudos, o próprio PPE.

A queda da esquerda portuguesa no PE parece ser uma realidade. Alguns dos partidos com representação hoje poderão deixar de a ter ou reduzir o número de deputados.

Consequências das eleições portuguesas

As esquerdas e centro-esquerda portuguesas tiveram uma derrota gigante, no seu conjunto. A direita tradicional, com primeiro-ministro já indigitado, também não a teve menos, mas goza de condições para fazer governo e até poder cumprir a legislatura, apesar das minúsculas décimas que a separam do PS. O PS, com o resultado destas eleições, com este Parlamento, nunca poderia pensar em governo, a não ser que se quisesse trucidar, levando atrás o País. Assumiu desde logo ser Oposição e bem. Daí não se entenderem certas cabeças pensantes!

Admito que, apesar dum ambiente de incerteza, o Governo da AD, que o Presidente tudo fez para lá pôr e agora segurar, poderá durar até ao final do seu mandato.

E o Chega pode ter aqui o papel fundamental. Os Açores já serviram de ensaio.

Diz Bolieiro que não negociou nada com ninguém. Citando José Pacheco Pereira (Público, 16 de março 2024): [É como o “não é não” de Montenegro ao Chega que começa hoje a ter formas, digamos assim, “flexíveis”, como dizer-se “Bem, na Assembleia da República falamos (negociamos é menos “novilíngua” orwelliana) com todos os deputados”, o que, como é óbvio, não é para a AD falar com o Bloco, mas com o Chega. Aliás, foi também este o pretexto para negociar o apoio do Chega nos Açores que, como os cínicos previam, esperou pelas eleições nacionais para se saber que tinha havido “conversas”].

Avançando um pouco. AD e Chega têm todo o interesse em se sustentarem um ao outro. Um para montar as estruturas de ocupação do aparelho de Estado, distribuir benesses (com o mealheiro cheio) por diversas camadas sociais e assim conquistar apoio crescente na sociedade para ir governando o mais longe possível. O Chega, atendendo aos resultados eleitorais a que chegou no país, necessita de os consolidar no terreno e, pelo menos, uma legislatura calma, sem eleições, é necessária.

Um e outro precisam de criar raízes, para consolidar a sua influência. A IL nem será para aqui chamada. Nem a AD nem o Chega precisam da IL para nada. Os interesses estão centrados nos dois. Se forem inteligentes, como os interesses comuns são enormes, nenhum precisa de esticar a corda. Uns pequenos arrufos aqui e ali para “abrilhantar” o palco. E, se isso resultar, uma segunda legislatura, eventualmente em novos moldes, poderá então ser uma hipótese de governação.

Pedro Nuno Santos vai ter vida bem difícil na oposição. Vai ser apertado a três níveis, no PS para cedências à direita e pelas diferentes esquerdas e direitas. O seu grande problema consistirá em como atrair sobretudo as camadas mais jovens, uma vez que as eleições demonstraram que o PS não anda nada atractivo para a gente jovem.

A nível internacional, a situação também não está de feição. A tendência, de há anos a esta parte, é de fragmentação dos partidos tradicionais, correspondendo a uma evolução política da própria sociedade com a clivagem cada maior entre as camadas jovens a alinhar com os novos partidos, enquanto os estratos mais velhos, embora em fuga parcial, continuam a ser o seu sustentáculo.

Dificilmente, os partidos tradicionais recuperarão o fulgor que já tiveram. Países como a França, Alemanha, Itália … estão em linha neste ponto. Os partidos socialistas em franco ocaso, os partidos comunistas há muito que marcam posição simbólica ou desapareceram e a própria direita clássica em perda continuada ou a fragmentar-se.

A Península Ibérica tem escapado um pouco a este figurino, mas chegam os indícios de que a mudança bate à porta.

Tendências futuras

Por todo o mundo, as direitas radicais estão em crescendo e a agir com alguma articulação, o que só lhes dá força. Na Europa, nas próximas eleições, onde poderão surgir surpresas inesperadas em alguns países, ficaremos com uma foto dessa realidade.

Se Trump vencer, em Novembro, abre-se uma via rápida a nível global. O Mundo está a atravessar contornos geopolíticos complexos, onde se torna difícil vislumbrar apoios para caminhos de alternativa.

Perante estas antecipações pouco animadoras [quando temos uma União Europeia inoperante, sem estratégia e dividida, acerca de temas tão básicos como a Energia, o Mundo Agrícola, a Transição Energética e grandes desafios em indústrias várias como o automóvel e a química] surge um futuro cheio de nuvens densas e negras.

A Europa não tem sido hábil no encontro com os seus cidadãos, porque pouco tem a oferecer-lhes. Numas eleições em clima de guerra e de corrida armamentista, menos esperança resta ainda aos cidadãos europeus, desejosos de uma saída de paz e bem-estar.

Muitos são os problemas que estão a enfrentar e começa a haver consciência de que a Europa entrou numa rampa descendente que, a prazo, lhes retirará qualidade de vida e poder aquisitivo. Imagine-se a prazo uma UE sem indústria automóvel, sem indústria química, em perda na IA, em tecnologias de ponta… com as contas em descontrolo.

Este ambiente assusta os cidadãos europeus, tanto mais porque não sentem uma liderança política firme, conducente a uma mudança de caminho de mudança. Portugal e a UE numa encruzilhada deveras desgastante.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Take two: o bolsotrumpismo ensaia-se uma outra vez


Francisco Louçã, 
in Expresso Diário
26/03/2019

Diz Bolsonaro para Trump, lado a lado no jardim da Casa Branca, há uma semana: “o que nos une é sermos contra a ideologia de género, o politicamente correto e as fake news.” Desconte o servilismo da tentativa de seduzir o chefe com a repetição do seu mantra, ou de reduzir a política a três mistérios. E perguntemo-nos como é que as direitas portuguesas mostram ter reagido a este episódio.


Terão reagido com um frémito de vergonha, com um envergonhado “logo eu”, ou, eu que ando a invetivar a “ideologia de género”, e agora revela-se que sou instigado por aqueles dois, que são vagamente infrequentáveis, ou pelo menos que tenho que dizer que me provocam alguma repulsa ou que, dos quais, definitivamente, nada me aproxima? Nada disso, note bem como em poucos meses se fizeram anos luz de caminho. Esta velocidade é que revela o novo mundo que se está a formar na radicalização das direitas que, sem vergonha e antes com garbo, se vai transformando em lumpendireita, como sugeria há semanas uma das suas inspiradoras. Assim, a tomar em consideração a cerimónia oficiada por Miguel Morgado na fundação de um pomposo M5.7, que se pretende apropriar da memória da AD de Sá Carneiro, Freitas do Amaral e Ribeiro Telles, dos quais aliás tudo os separa, foi mesmo com orgulho que se sentiram representados no resumo lapidar de Bolsonaro.
A este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios.
De facto, foi assim que Morgado, ao lado de uma deputada do CDS e de um representante de um partido estreante, apresentou o seu guião, não passa um par de meses depois de ter exaltado o país com um tremendo “estou a ponderar muito a sério a possibilidade de ser candidato” contra Rui Rio. Foi a repetição, tintim por tintim, da jura dos jardins da Casa Branca. Estamos agora aqui por causa da “ideologia de género”, lembrou desta vez, sem grandes delongas sobre essa torpe conspiração das mulheres que querem tomar conta do mundo condenando a violência doméstica, portanto humilhando os coitados dos homens. Acrescentou, numa leve evocação dos neoconservadores da geração anterior, que precisa dos democratas-cristãos para trazer a moral para a política (com Bolsonaro vai-se mais diretamente ao “voto de Deus”, mas isto para já serve). E tudo contra o “politicamente correto” e os social-democratas que são socialistas, os malandrins infiltrados ao serviço do Dr. Costa, porque há um “inverno” socialista em que as empresas são desmerecidas e certamente lhe falta o carinho dos subsídios públicos, acusação aliás injusta para Centeno. Embrulha-se tudo isso com uma conclusão, há uma nuvem de corrupção que, como não se sabe onde começa e onde acaba, está em todo o lado, de Belém a S. Bento.
Dir-me-ão que este take two, depois desse episódio exuberante que foi o coming-out do deputado Bruno Vitorino na semana anterior, vem depressa demais, é demasiado Neto de Moura, é esotérico demais, cheira demais a CDS à caça no PSD, e que não faz um Tea Party quem quer mas quem consegue. Será certo. Mas, a este ritmo e, como lembra Steve Bannon em entrevista curiosa ao El Pais, como só estamos a sessenta dias das eleições europeias, teremos um frenesim de ensaios.
Em Portugal, como só lhes pode correr mal, ou para já só Ventura poderia tentar traduzir em votos esta demanda, o que não lhe é fácil, resta reduzir todo o movimento glorioso do contra-a-ideologia-de-género-e-contra-o-politicamente-correto a uma disputa dentro do PSD, acolitada pela malta do Observador e para já unicamente subordinada ao grande objetivo patriótico de fazer o Morgado figurar nas listas do partido para deputados. É poucochinho, mas um pequeno passo para a humanidade é um grande passo para quem “pondera muito a sério” anunciar-se como o prometido.

terça-feira, 6 de maio de 2014

QUAL A SAÍDA LIMPA NESTE CONSPURCADO LABIRINTO?


Não há "saída limpa" quando o labirinto está completamente conspurcado e cheio de minas. E ouvem-se todos os centros de decisão, do FMI, aos vários sectores da União Europeia, passando por vários países e até comentadores sem pensamento estruturado, os aplausos de uma vitória que não existe. Raios os partam todos, porque mentem, porque aldrabam, porque tentam passar uma mensagem falaciosa da realidade. Como podem congratular-se com os resultados de um programa de assistência quando três anos depois, a dívida aumentou para os 130% do PIB, a taxa de desemprego é assustadora, quando é preciso recuar aos anos 60 do século passado, para estabelecer a comparação com as vagas maciças de emigração, quando a pobreza disparou para valores inimagináveis, quando o tecido empresarial está em completo esgotamento, quando os sistemas de saúde, educação e de protecção social encontram-se em ruptura, quando o país vai continuar sob controlo externo de seis em seis meses, pergunta-se, num quadro destes, de agravamento das desigualdades, se a dita saída não é suja? Muito suja, obviamente! Vários anos de sacrifício, de roubo nos salários, nas pensões de aposentação, de um substancial agravamento de todos os impostos e de um gravoso ataque sem precedentes aos trabalhadores do nosso País, terá alguma verdade aquela conferência de imprensa do primeiro-ministro?

Que trio!
Estamos entregues a gente sem escrúpulos, MENTIROSA e subjugada aos interesses externos da alta finança. Todo o português vê, claramente, que está a ser enganado. E o tempo o dirá. A direita política, a todo o custo, porque há eleições europeias a 25 de Maio, quer fazer passar a ideia de um enorme sucesso das políticas de austeridade impostas nos países sujeitos a ajuda externa, mas essa não corresponde à realidade. Não há um, apenas um indicador económico que prove tal sucesso. Bem pelo contrário, o país está exaurido, sem defesas e sem esperança. Foram três anos perdidos para gáudio da alta finança que aqui encontrou mais um espaço para esmagar e sugar a pouca riqueza do nosso povo. Bastará que passe a euforia das eleições europeias e, eventualmente, a direita política conserve os seus lugares-chave na política económica, e lá aparecerão de novo, os esfaimados do costume, com a benção interna da dupla Passos/Portas, a corroer ainda mais as nossas parcas riquezas. 
Passos Coelho sussurrou que o dia 17 de Maio corresponderá a um novo 25 de Abril. Merecia uma bolachada (em sentido figurado). Saberá o que foi a luta durante dezenas de anos pela verdadeira libertação do povo, amarrado que estava a uma ditadura que marcou e condicionou o seu futuro? Saberá quantos portugueses morreram às mãos dos agentes da polícia política, quantos foram torturados, quantos viveram a tragédia do exílio e do campo de concentração do Tarrafal? Saberá quantos portugueses morreram ou ficaram estropiados numa guerra colonial sem sentido? Saberá o que foi o analfabetismo e os condicionamentos sociais ao longo de meio século de obscurantismo? Saberá o que foram as vagas de emigração forçada? Saberá o que significou de esmagamento pela fabricada trilogia "Deus, Pátria e Família"? Passos Coelho, enfim, não consegue enganar. Nem ele nem Portas. Ambos passam com facilidade a linha vermelha que antes seria inultrapassável, teimam em afirmar que não haverá mais aumentos de impostos e, dias depois, aumentam-nos, ambos são políticos que dizem coisas enquanto mantêm a sua fome de poder, mesmo que esse poder seja efémero e muito pequenino! Não os designo por palhaços pela consideração que tenho à profissão. Apenas por isso. Revolta-me, porque ao contrário deles, eu e muitos milhares de portugueses arriscámos a vida numa guerra estúpida.
É tempo de o povo acordar e acreditar que existem alternativas. Que a Europa precisa de uma substancial mudança que coloque as pessoas no centro das preocupações e não os movimentos financeiros especulativos que trituram os povos. O povo tem essa oportunidade no dia 25 de Maio. Não votar significa, apenas, a possibilidade de mais austeridade e de mais sacrifícios. 
Ilustração:  Google Imagens.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

APROXIMAM-SE AS ELEIÇÕES EUROPEIAS. UM MOMENTO MUITO IMPORTANTE PARA A MADEIRA.


Confesso, em jeito de nota prévia, a minha profunda amizade por um político de mão-cheia. Já lá vou ao seu nome. Mas tão enorme quanto a amizade é a admiração que nutro pela sua capacidade e inteligência política, alicerçada no conhecimento, no estudo dos dossiês, na argumentação, na rapidez de raciocínio, na frontalidade, tudo em defesa de princípios e de valores que o guiam. Tenho muitos anos de actividade política, pela Assembleia Legislativa passei oito anos e doze pela vereação da Câmara do Funchal, vivi e senti o pulsar do debate político com muitos "utilizadores da palavra", mas nunca vi um político como o Dr. Carlos Pereira. É o tipo de político que todos os dias "inventa coisas" para fazer. Não fica à espera da agenda ou do que a comunicação social vai transmitindo. Não anda atrás dos acontecimentos, antes posiciona-se na dianteira. Não fala por falar, não abre a boca porque tem de dizer coisas, antes estuda e vai direitinho ao âmago dos assuntos. Para mim, nestes seis anos que leva de Assembleia, o Deputado Carlos Pereira foi a figura central do Parlamento. Foi criticado, eu diria miseravelmente bombardeado, ofendido e sofreu alguns assassínios de carácter, tudo porque estudou, como ninguém o tinha feito até então, entre outras, as contas da Região. Determinou o "buraco" financeiro, assumiu que andaria pelos seis mil milhões de euros e pouco tempo depois, confirmou-se a verdade: "a situação da Madeira é insustentável", disse-o Vítor Gaspar, ex-ministro das Finanças. Foi uma questão de tempo e ficou-se a saber da história das facturas não reportadas e, sabe-se lá, o que saberemos na sequência do processo "Cuba Livre". 


O PSD-M não gosta dele, obviamente. Simplesmente porque o Deputado Carlos Pereira olha na cara, olhos nos olhos e enquadra os assuntos com invulgar seriedade e honestidade. Mas, reconhecem o seu indiscutível valor, quando, à mesa do café, longe dos olhares da comunicação social, a ele se referem. Perguntará o leitor: e por que faço este enquadramento desta figura do Parlamento e do PS? É simples. Aproximam-se eleições europeias e estou muito preocupado com as candidaturas e com o resultado.  Alberto João Jardim com toda a certeza que também está. Na sua recente reunião com o líder do PSD, este deve ter sido um dos assuntos em cima da mesa.
A questão que hoje se coloca na Europa, em geral, e para Portugal, em particular, situa-se ao nível da Economia e das Finanças. No caso da Madeira ainda mais face às circunstâncias de todos conhecida. Por outro lado, ao contrário de Durão Barroso que disse que a Europa não tem culpa da crise, defendo a necessidade de uma política de esquerda que coloque fim a este ciclo de uma direita devoradora e insaciável que varreu a Europa sob a liderança complacente do português. E nesta política de esquerda que rompa com os anos de austeridade forçada, necessário se torna a presença de eleitos muito qualificados nesses domínios e respeitados do ponto de vista ideológico. O Dr. Carlos Pereira, do meu ponto de vista, é a figura que interessa à Madeira, porque a conhece, nas fragilidades e potencialidades, porque tem discurso e porque pode ser determinante na construção de benefícios que a Madeira tanto precisa, enquanto região ultraperiférica. Sei que o PS perderá, nas suas fileiras na Região, um excelente Deputado, mas a Madeira ganhará uma voz nos centros de decisão política. E ao dizer isso estou a partir do princípio que o PS-Madeira, desta vez, não será ultrapassado por ninguém, pelos interesses geridos no Largo do Rato. Nem aceito que este madeirense entre em lugar cinzento na lista. Do meu ponto de vista terá de ocupar um lugar claramente elegível. O Dr. Carlos Pereira pede meças a muitos que por lá andam e que nem os conhecemos!  
Apesar de amigo de Carlos Pereira desconheço qual o seu posicionamento sobre esta matéria. Concretamente, se aceitaria ou não um desafio desta natureza. Se escrevo, sem o consultar, é por três motivos: primeiro, pelo reconhecimento da sua qualidade; segundo, pelo benefício para a Madeira; finalmente, porque nesta Europa que espezinha povos, há uma necessidade de políticos que façam o discurso da diferença, o discurso político que interessa à maioria da população desta Europa à procura de rumo. Espero que o PS-Madeira e o PS-Nacional se entendam nesta matéria.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Eleições 2024. União Europeia, a bela adormecida


Por
João Abel de Freitas, 
Economista

O panorama que se vislumbra para o PE é do maior melindre pelas suas repercussões na composição futura dos órgãos de governação da UE e, por consequência, na determinação do conteúdo das decisões políticas nos próximos cinco anos.



1. Estamos a 5 dias das eleições europeias. No próximo domingo, dia 9, receberemos o veredicto. Todas as sondagens, sem excepção, apontam, em maior ou menor grau, para um reforço da extrema-direita e direita radical na Europa. Em dois dos grandes países fundadores da UE, França e Itália, os partidos de Marine Le Pen e de Georgia Meloni (primeira-ministra de Itália) vão ser os vencedores das eleições e, por grande diferença de deputados, elevando, deste modo, a sua influência nos grupos políticos do Parlamento Europeu em que se integram, ID-Identidade e Democracia e ECR – Reformistas e Conservadores Europeus. Acresce ainda que, em países de média dimensão, como a Hungria, Áustria, Eslováquia, Holanda, Roménia, Suécia, a conquista do primeiro lugar pela extrema-direita tem uma elevada probabilidade, correndo-se o risco, na Alemanha, da AfD – partido de extrema-direita, alcançar o segundo lugar, à frente do partido social-democrata do primeiro-ministro, Olaf Scholz, o que não deve trazer grande saúde ao governo.

Meloni e Le Pen têm plena consciência das condições favoráveis que irão disfrutar no exercício da sua influência e vão agir no sentido de dar passos significativos no ajustamento da UE ao seu projecto “europeu”. Há quem defenda que estes partidos de extrema-direita e direita radical “não têm nenhum tipo de pensamento europeu”, que o seu pensamento é nacionalista, e o que pretendem é desagregar a Europa, embora presentemente com posições mais mitigadas, já não advogando a saída da UE ou o fecho de fronteiras. Se estivermos atentos à sua narrativa reconhece-se um “suavizar” de posições em certos domínios e temas, e uma rotunda rejeição de outras propostas novas como a da inclusão da IVG na carta dos direitos europeus, posição entre nós seguida por Sebastião Bugalho, cabeça de lista da AD, que se encaixa no PPE europeu.

O panorama que se vislumbra para o PE é, assim, do maior melindre pelas suas repercussões na composição futura dos órgãos de governação da UE e, por consequência, na determinação do conteúdo das decisões políticas nos próximos cinco anos.

2. Nas europeias de 2019 escrevia, então, que a Europa “andava à deriva” sob o impulso da extrema-direita. Há 5 anos, a deriva já era notória. Hoje bem mais profunda. O que ainda amortece uma implantação mais forte é essas forças não se entenderem, a nível das suas relações externas por exemplo na guerra da Ucrânia (pro-Rússia e pró-Ocidente) e, a nível interno, na diferenciação do grau de moderação. Em Itália, o caso é bem visível. Giorgia Meloni dos Fratelli d’Italia (partido com profundas raízes fascistas) tem protagonizado uma posição moderada que levou Mário Monti, ex-Comissário europeu, a dizer: “olhei atentamente para as relações deste governo (de Itália) com a UE, e apraz-me dizer que a atitude me parece positiva”. Este moldar de Meloni às circunstâncias vai ser um trunfo no aprofundamento da sua influência na UE, nos próximos cinco anos. Pensando melhor já está a sê-lo, tanto que Von der Leyen, candidata a segundo mandato da Comissão europeia pelo PPE lhe anda a “mendigar” apoio à sua candidatura, o que não é nada inocente, perfilhando-se neste comportamento uma aliança, mais formal/menos formal, em detrimento do grupo das forças socialistas europeias (S&D).

E não nos podemos esquecer que a construção da União Europeia tem sido, no essencial, um produto da democracia-cristã e das forças sociais-democratas com o que tem de bom e de mau e que, nestas eleições, com von der Leyen candidata a um segundo mandato, se perfila secundarizar o eixo social-democrata, cozinhando um entendimento da direita com a extrema-direita.

3. Mas a União Europeia está em declínio escorregadio, com efeitos de longo prazo preocupantes, tanto mais que os estrangulamentos estruturais são difíceis de remover. Alguns estudos de prospectiva sinalizam que só com mudanças de paradigma no modelo de crescimento, a UE poderá recuperar. Como se referiu no último artigo, no horizonte de 2050, se nada for feito em contrário, o peso da União europeia no PIB mundial será de 15%, quando em 2022 era de 21,5%. Uma perda significava a traduzir-se em empobrecimento das pessoas da zona UE.

Much More Than a Market – Enrico Letta

Li recentemente um relatório da autoria de Enrico Letta, antigo primeiro-ministro de Itália e hoje presidente do Instituto Jacques Delors, feito a pedido da União europeia (Conselho e Presidência da Comissão) sobre o estado do mercado único europeu.

O relatório não trata todas as variáveis importantes de um modelo alternativo de crescimento económico. Mas aborda muitas áreas da competitividade da economia. E várias vezes releva que o mercado único, uma ideia de Delors, foi concebido para os cidadãos, que são o seu centro.

Para Enrico Letta, o mercado único europeu está longe de ser construído. E não está por vontade dos grandes países europeus que julgavam não precisarem da dimensão europeia, que a sua própria dimensão bastava. Trinta anos depois, continuamos a ter 27 mercados e dá, como exemplo, três sectores chave: a energia, as telecomunicações e os mercados financeiros, alicerces base de qualquer economia em que, na realidade, existe um mercado por cada Estado-membro. Os países membros acordaram tardiamente para estas matérias e quando se aperceberam de que não tinham escala para competir, aí perceberam que recuperar terreno, não sendo impossível, se torna uma extrema dificuldade.

O facto do mercado de capitais não se ter desenvolvido trouxe um problema adicional a toda a economia dos países, o do financiamento, que é curto na União europeia, mais ainda com os países ditos “frugais” a obstaculizar a criação de eurobonds, o que prejudica sobretudo os países mais débeis.

O debate público de preparação – eleições 2024

Na campanha eleitoral até se falou de problemas europeus mais que o costume. Mas pela rama, não indo ao âmago das questões estruturantes como o mercado único europeu, fiscalidade, questões climáticas e demográficas. Pouco se falou da inovação e ciência, da qualidade do ensino: duas áreas-chave para a competitividade em que a União europeia está em perda deslizante face aos seus concorrentes e sem vencer esse fosso nada feito. E, por vezes, o fosso vai se aprofundando muito por falta de organização. Uma vez mais, cada país anda a fazer ciência, desligado.

Sobre nada disto se deixaram os devidos alertas e a sociedade portuguesa ficou sem saber os verdadeiros constrangimentos que paralisam os avanços na União europeia e o que cada força concorrente pensa para os ultrapassar. Será que os candidatos não leram documentos fundamentais como o do mercado único, nem ficaram incomodados por

exemplo com o discurso de Macron no 25 de Abril na Sorbonne a alertar para se a UE não mudar de políticas corre para o “suicídio”?! De pouco se falou bem.

Não se ouviu dizer que a União europeia precisa de inflectir a sua demografia, nem de uma nova política económica, nem da reforma do mercado de capitais, nem da harmonização fiscal para evitar distorções de competitividade entre países membros.

Uma Europa futura e de progresso precisa de modificar profundamente a filosofia da sua política económica. Muita mudança tem de haver, mas não se sente vontade política de abraçar esse caminho.

sábado, 13 de abril de 2024

Será a Agenda Verde Europeia uma das principais causas do declínio económico e social da UE?


Por
João Abel de Freitas 
Economista

A situação está adormecida por algumas cedências e recuos dos Governos nos vários países e alguns subsídios, mas pronta a reaparecer a qualquer momento.



1. A Agenda Verde foi “imposta” aos Estados-membros pela Comissão Europeia, em Julho de 2021. Doze textos, com milhares de páginas e, uma ambição desmedida: “liderar a transição ecológica e energética”, a nível mundial e, transformar-se no primeiro Continente, livre de emissões de CO2 até 2050.

A experiência da vida ensina-nos a duvidar. E começo por não se acreditar que tenha havido muitas pessoas (incluindo altos responsáveis) a ler e a pensar sobre estes milhares de páginas!

Ficou o registo, no entanto, de que quase metade dos 26 comissários europeus tinham muitas incertezas sobre a eficácia da Agenda, onde tanta ambição era um fim com sabor a propaganda, onde as metas de descarbonização enunciadas dificilmente poderiam ser atingíveis (indústrias pesadas, transportes pesados, marítimos e aéreos) e onde muitos pressupostos económicos e tecnológicos não estavam reunidos para dar sustentabilidade à sua realização, designadamente na área da energia, elemento primordial de qualquer Agenda Verde, digna desse nome.

Duvido ainda de programas de muitas páginas. Normalmente, este tipo de trabalhos esconde o pouco domínio que os próprios construtores têm do assunto, um conjunto de ideias confusas que não sabem como as explicar nem como prosseguir. Por isso, rodeiam-se de floreados palavrosos.

2. O IFRI – Institut français des relations internationales, uma instituição de referência em questões internacionais, no panorama francês e internacional, criado em 1979, levanta, desenvolve e aponta grandes riscos quanto à implementação da Agenda Verde da Comissão Europeia.

Desde logo, nas ambições desmedidas e irrealizáveis assentes em pressupostos demasiado frágeis, como se referiu. E mais, afirma que na Agenda não foram consideradas as consequências económicas, sociais e financeiras, nem se os países-membros eram detentores de instrumentos adequados de todo o tipo para a realizar.

Aliás, o descontentamento recente dos agricultores, que atravessou toda a Europa, é uma prova do que se acaba de referir, pois a enorme contestação do mundo agrícola virou-se para o Green Deal (Agenda Verde europeia) como a principal causa dos seus problemas. A situação está adormecida por algumas cedências e recuos dos Governos nos vários países e alguns subsídios, mas pronta a reaparecer a qualquer momento.

Esta análise crítica da Agenda Verde europeia consta de um relatório com menos de 40 páginas, um relatório alarmante, de Janeiro de 2024, sob a designação How Can the Green Deal Adapt to a Brutal World.

Aliás, o relatório do IFRI não só coloca questões pertinentes sobre a fundamentação inicial da Agenda Verde, quanto acentua que, com ela, se multiplicaram “os constrangimentos às empresas e populações” e, hoje, ainda se encontra em maior degradação, pois não internaliza as profundas alterações que ocorreram ao longo dos últimos três anos no ambiente geopolítico, comercial e financeiro.

As mudanças no ambiente geopolítico e comercial, como a guerra entre os países europeus e a Ucrânia, a crescente oposição entre o Ocidente e o Sul global, a deterioração da situação económica e financeira mundial, a nova geografia da energia, a inflação, o enfraquecimento das cadeias de valor, tornam a Agenda Verde ainda mais surreal e vulnerável.

Estas mudanças – refere o relatório – “exigem uma reavaliação estratégica e ajustamentos significativos do Pacto Verde” e continua: [a situação é preocupante: “embora o passado da UE nos diga que foi feita prova de coesão face a crises, esta tendência actual poderá ser perturbadora”. A UE corre o risco de ser submersa por várias crises em simultâneo. Ela terá gastado mais de 600 mil milhões de euros em importações de energia em vez de os alocar à transição energética. Os governos terão gastado outro tanto na atenuação das crises energéticas. Estes são números alarmantes.

Mas a Comissão Europeia continua a insistir no seu prosseguimento, aprofundando muitos anti-corpos internos contra a Agenda, apesar das contestações crescentes como se referiu dos Agricultores, mas que se estendem a toda a sociedade, aos industriais, opinião pública e Governos.

No meio de toda esta confusão, a Comissão Europeia apressou-se pela voz de Von der Leyen a propor uma nova meta de baixa de emissões de CO2 para 2040, quando os apelos vão no sentido de uma pausa de reflexão em várias áreas. Mais um passo contranatura!

União Europeia a descarbonizar por péssimas razões

3. A União Europeia está mesmo a descarbonizar, de forma altamente perigosa.

O perigo reside – acentua o IFRI – porque a descarbonização é decorrente não de políticas eficazes (advindas do Pacto Verde), mas do facto da UE descarbonizar através do encerramento das suas indústrias com utilização intensiva em energia (como as indústrias químicas), das baixas taxas de crescimento, do aumento da dependência das importações, do enfraquecimento e falência de instituições e dos mercados fragmentados.

Os preços da energia são um factor determinante que retira competitividade à economia europeia face a outros espaços económico-políticos como os EUA, China, Índia. A Europa entrou em perda lenta no contexto mundial.

E se a União Europeia mudasse de agulhas

4. A União Europeia precisa urgentemente de mudar de agulhas. Poderia aproveitar o período até às eleições de Junho para colocar meia dúzia de ideias fortes em discussão, entre elas, sem dúvida, a do Pacto Verde que poderia servir de pivot na ligação com outros domínios internos onde a economia, a ciência e a tecnologia devem sobressair, tendo as pessoas e as empresas no centro.

Por outro lado, a União Europeia tem de conquistar peso político próprio no ambiente geopolítico internacional. Para isso, precisa de uma estratégia sua e não de uma política importada. Se olharmos para o ambiente complexo das duas guerras, Ucrânia e Hamas-Israel, temos de admitir que a União não teve e continua a não ter acção própria. Desempenha um papel titubeante, a reboque dos EUA.

Estou convicto de que estou a falar sobre o impossível.

As eleições para o PE vão se transformar numa ladainha, em todos os países e não só em Portugal, sobre questiúnculas nacionais. O que é muito perverso. Os verdadeiros problemas passam ao lado.

O campo eleitoral fica, assim, aberto às direitas radicais

5. Indo por este caminho, não sendo a campanha das eleições europeias o espaço de debate dos problemas europeus, as populações sentem-se naturalmente mais distantes e cada vez percebem menos as coisas simples do que é ser Estado-Membro.

De uma forma geral, as pessoas apenas sabem que há fundos financeiros e muitas vezes desconhecem as implicações decorrentes desses fundos. Muitos políticos também se comportam como se não soubessem, o que até, em muitos casos, é verdade.

Um equacionamento de fundo das questões, que o IFRI bem levanta no seu relatório, poderia começar por um debate sério agora nas eleições europeias. Sem conhecimento dos problemas não há mudança a não ser no sentido para uma situação pior ou do caos. E quanto menos conhecimento e informação houver, maior é o caminho que se abre às direitas radicais.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

terça-feira, 30 de julho de 2013

VIVA A CIDADANIA E CUIDADO COM AS ALMINHAS SIAMESAS


Não acredito em candidaturas, uma que significa a continuidade, o conhecido, a resposta sempre igual para problemas distintos, o partido que não vai além da horta urbana, a promessa que não se concretiza, o Funchal do bilhete postal e o Funchal das zonas altas; outra, que se mostra zangada com o poder, mas que, no essencial, tem alma política siamesa. São iguais, porque são partidos nascidos um para o outro, que apesar dos arrufos de circunstância, que fazem parte do jogo político, comungam da mesma ideologia e dos mesmos interesses. Basta olhar para a República e analisar o que disseram um do outro durante a campanha eleitoral de 2011, para logo de seguida, fazerem tréguas, casarem, divorciarem-se e voltarem a casar, no mesmo cartório e com a "bênção" do mesmo administrador, com comunhão de bens e com a jura de todos os bens adquiridos, após o casamento, pertencerem igualmente a ambos. No caso em apreço, reparem os leitores, até já pensam juntar os trapinhos para as eleições europeias do próximo ano! Significativo. Assim escrevo, não pela minha costela partidária que integra esta coligação, mas porque 37 anos de um só partido com maioria absoluta é tempo demais para que alguém ainda entenda como necessária a continuidade. Chega. Viva a cidadania.



Ouvi o discurso do Dr. Paulo Cafôfo, candidato da Coligação Mudança à presidência da Câmara Municipal do Funchal, no decorrer da apresentação do mandatário da candidatura, o Arquitecto Luís Vilhena. Depois de escutá-los exclamei: quem poderá dizer que não existe uma alternativa credível, nascida da cidadania, de homens e mulheres livres, que roubam quatro anos às suas rotinas normais de vida para se dedicarem, em exclusivo, aos problemas de uma cidade cheia de complexas situações económicas, financeiras, sociais e culturais por resolver? Há alternativa, pois é evidente que existe. Uma alternativa que não se confunde com interesses menores no quadro dos jogos de poder, uma alternativa onde aquilo que apresenta na montra corresponde ao que guarda no armazém pleno de convicções. Uma alternativa que põe de lado as politiquices partidárias para dar força à inovação, à responsabilidade, ao rigor e ao sentido humano de que tanto as pessoas precisam. Fiquei impressionado com o discurso de Paulo Cafôfo e do seu Mandatário, o Arquitecto Luís Vilhena. O primeiro, porque dele venho confirmando, em crescendo, o homem de bem que é, portador de princípios e de valores, um homem de visão larga, sereno e assertivo, que não precisa de se colocar em bicos de pés para demonstrar as características de líder; o segundo, porque guardo dele, independentemente das suas inegáveis qualidades pessoais, o conhecimento da cidade que me habituei a seguir nos seus artigos "SOBRE(voando) o Território", publicados no DN-Madeira, onde passou em revista as grandes questões do planeamento, da vida, vivência e convivência na cidade. Luís Vilhena escreveu sobre "Cidades Transparentes": "A democracia em que vivemos criou uma série de mecanismos que possibilitam e incentivam a participação dos cidadãos nas decisões relativas a intervenções de transformação e desenvolvimento da sua cidade ou território (Julho 2006) e, no seu blogue, quase em contraponto, um dia sublinhou: "Que pena que eu tenho deste mundo estar cheio de hipócritas...". Ora bem, é pela transparência das decisões na transformação da cidade do Funchal e distante das habituais hipocrisias políticas, que o Arquitecto Luís Vilhena se vincula a um projecto de grande honestidade política liderado pelo Dr. Paulo Cafôfo.
O Funchal precisa desta gente, desta enorme equipa que não se vende ao primeiro da esquina. Só o facto de seis partidos políticos (PS, PTP, BE, PTP, PND, PAN) terem abdicado dos seus interesses partidários para conjugarem esforços no sentido da construção de uma alternativa, tal facto já é merecedor de um grande aplauso. Mas, quando, essa conjugação de esforços decorre de forma serena, sem ambiguidades, com qualidade e com um grande sentido de responsabilidade, obviamente que é de esperar que o povo do Funchal entenda que é chegada a hora de uma "Mudança", enquanto aurora de um novo tempo onde os interesses dos cidadãos sejam colocados em primeiríssimo lugar. Não acredito, pois, em candidaturas, uma que significa a continuidade, o conhecido, a resposta sempre igual para problemas distintos, o partido que não vai além da horta urbana, a promessa que não se concretiza, o Funchal do bilhete postal e o Funchal das zonas altas; outra, que se mostra zangada com o poder, mas que, no essencial, tem alma política siamesa. São iguais, porque são partidos nascidos um para o outro, que apesar dos arrufos de circunstância, que fazem parte do jogo político, comungam da mesma ideologia e dos mesmos interesses. Basta olhar para a República e analisar o que disseram um do outro durante a campanha eleitoral de 2011, para logo de seguida, fazerem tréguas, casarem, divorciarem-se e voltarem a casar, no mesmo cartório e com a "bênção" do mesmo administrador, com comunhão de bens e com a jura de todos os bens adquiridos, após o casamento, pertencerem igualmente a ambos. No caso em apreço, reparem os leitores, até já pensam juntar os trapinhos para as eleições europeias do próximo ano! Significativo.
Assim escrevo, não pela minha costela partidária que integra esta coligação, mas porque 37 anos de um só partido com maioria absoluta é tempo demais para que alguém ainda entenda como necessária a continuidade. Chega. Viva a cidadania.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

FUNCHAL, CIDADE EUROPEIA DO DESPORTO EM 2016. NÃO, OBRIGADO!


Dei conta que, esta semana, o Deputado Europeu Nuno Teixeira reuniu, no Parlamento Europeu, com o representante da Federação das Capitais e Cidades Europeias do Desporto (ACES Europe), Eduardo Balekjian, e o chefe da Divisão de Desporto do Município do Funchal, Duarte Oliveira, com a intenção de preparar a candidatura da cidade do Funchal a cidade Europeia do Desporto em 2016. Ora bem, pergunto, desde logo, para quê? E a pergunta tem a sua razão de ser. Alguém saberá ou lembrar-se-á do que foi realizado e quais foram os resultados e benefícios do Funchal ter assumido o "pontapé de saída" do "Ano Europeu da Educação pelo Desporto" (2004), com uma cerimónia realizada com pompa e circunstância? Zero. As políticas continuaram as mesma, em muitos casos agravaram-se e só a grave crise financeira veio pôr a nu a ausência de políticas sérias, no sistema educativo escolar e no sistema associativo, consequência das decisões do governo e das autarquias. Em 2005 escrevi um artigo que publiquei na revista A Página da Educação que sintetizou o meu posicionamento sobre esta matéria:


"Escolarizar o desporto, desportivizar a escola e a Vida...
Tal como destacou Mário David Soares, no Jornal da Fenprof, alguém, porventura, se lembra de alguma iniciativa portadora de futuro naquele que foi o Ano Europeu da Pessoa com Deficiência? E agora questiono eu: mais recentemente, alguém será capaz de referir uma só atitude política no decorrer do Ano Europeu da Educação pelo Desporto, capaz de renovar e alimentar a esperança portuguesa de um desporto direito de todos? Infelizmente, deste último ano, retenho, o fracasso de Portugal nos Jogos Olímpicos de Atenas, vários municípios endividados até ao céu da boca na sequência do Euro-2004, impressionantes fugas ao fisco, detenções e, sobretudo no futebol, muitos arguidos em processos de alegada corrupção. Pelo meio, discursos de circunstância, genericamente ocos, como foram aqueles que escutei, no Funchal, por ocasião da pomposa cerimónia oficial de abertura do Ano Europeu da Educação pelo Desporto. Na Escola, aí, no centro das políticas educativas, onde tudo deve começar, rigorosamente nada aconteceu. Tudo permaneceu igual, numa enervante rotina onde sobressaíram, numa aproximação a Shakespeare, "words, words, words, nothing, but words". Mais um ano de palavras, de supérfluos programas desportivos, em horário nobre, que nada acrescentaram, espaços do tipo pescadinha-de-rabo-na-boca, porque não vão além do golo falhado, das milionárias contratações, dos comentários em redor da arbitragem, numa arrepiante coscuvilhice que serve às mil maravilhas o embrutecimento e o desvio das atenções dos reais problemas do país no que, entre outras, à educação pelo desporto diz respeito. 
O Ano Europeu da Educação pelo Desporto não deixou nada nem permitiu abrir a desejável janela de esperança. Teria sido, no mínimo, oportuno e sensato o aproveitamento do momento para multiplicar, por este país fora, um grande e sensibilizador debate nacional que questionasse velhos problemas de ordem económica, social, cultural e organizacional dos Sistemas Educativo e Desportivo. Um debate que, por exemplo, afrontasse a crise de identidade e de credibilidade social da Educação Física curricular, o caos a que os sucessivos governos conduziram o Desporto Escolar e a corresponde interface com o Sistema Desportivo. Um debate absolutamente necessário, agitador de consciências anestesiadas, no quadro do pensamento estratégico que, bastas vezes, A Página, desde há muito, vem fazendo eco através dos singulares textos dos Doutores Manuel Sérgio e Gustavo Pires. Um debate que equacionasse o drama vivido na escola e no desporto português e que tão bem foi sintetizado pelo meu Amigo Doutor Olímpio Bento:
"(...) para a reconstrução da Educação Física assume particular relevância a revolução operada nos conceitos de corpo, de saúde, de estilo de vida activa e na educação ambiental. Mais, essa reconstrução é ditada por duas ordens de razões incontornáveis: 1. pela necessidade de renovação da própria escola, no tocante à sua configuração enquanto polo de cultura e de humanidade; 2. pela necessidade de influenciar o desporto institucionalizado que hoje ostenta as máculas de um paradoxo, ao afastar-se da cultura, da formação, da educação, do humanismo. Isto é, encontra-se em rota de colisão com princípios e valores que o fundaram como um sistema moralmente bom e resvala, cada vez mais, para a imoralidade, para o analfabetismo, para a incultura e para a trapaça. Sendo através desta área escolar que as crianças e jovens acedem ao contacto com o desporto, a escola não pode eximir-se da responsabilidade que lhe cabe nesta matéria (...) é, portanto, curial reconstruir esta área à luz de um lema como este: escolarizar o desporto, desportivizar a escola e a vida (...)" (B., Olímpio. Da Educação Física ao Alto Rendimento. Edição de O Desporto Madeira. 2001. Pág.: 83)
Pois bem, muito mais do que as iniciativas de carácter pontual, o Ano Europeu da Educação pelo Desporto deveria ter ido ao encontro das causas, rompendo com anacrónicas e ultrapassadas lógicas de funcionamento, orgânicas e programáticas, muitas vezes alimentadas por um cego corporativismo. É, de facto, de uma pobreza conceptual, face à realidade do País em múltiplos domínios, inclusive, no desporto, o próprio Comité Olímpico de Portugal querer apresentar uma candidatura à organização dos Jogos Olímpicos, quando o desporto não está escolarizado, quando temos a pior taxa de participação desportiva da Europa e a estatística nos mostra um quadro de menoridade competitiva no contexto das nações, bem evidente no facto de, em 108 anos de Jogos Olímpicos da era moderna, Portugal ter somado vinte medalhas, entre as quais, apenas três de ouro. (...)". 
Esta continua a ser a realidade... dez anos depois! E, por favor, não venham, novamente, com essa do "prestígio e reconhecimento à cidade do Funchal, colocando a tónica na actividade física e no desenvolvimento de actividades desportivas durante todo o ano" (...) e porque "será também uma oportunidade de divulgar a qualidade da oferta de infra-estruturas desportivas disponíveis na Madeira - Deputado Nuno Teixeira". Reconhecimento? Bom, isto é o que se designa por paleio político que de verdade nada tem. A promoção da Região não passa por aí; a maior ou menor adesão às práticas físicas ou ao desporto formal não passa por aí; tampouco a "venda" das infraestruturas. Se quase todos os dias corro é porque assumi a prática física como um bem cultural. E, já agora, se tenho um desejo de ir a Istambul, não é por ter sido capital europeia do desporto, mas pela riqueza do seu património histórico-cultural. Finalmente, conheço os processos, com exemplos vários, que conduzem ao despertar do interesse pela realização de estágios desportivos associados à hotelaria, sobretudo ao nível do alto rendimento.
Ademais, o desporto só pode ser a primeira das segundas ou terceiras prioridades. No actual quadro financeiro isso, aliás, é muito evidente. Daí, complemente, que muito deverá mudar (a lógica política é de MUDANÇA", não é verdade?), pelo que essa mudança não passa pela cidade ser "Cidade Europeia do Desporto". Com toda a modéstia, todavia foi o meu contributo (quem dá o que tem a mais não é obrigado) sugiro aos responsáveis, se tiverem paciência, claro, a leitura de um texto que apresentei na Assembleia Municipal do Funchal, em 1988, exactamente sobre uma política municipal de abertura ao desporto e autonomização das práticas físicas dirigida à maioria da população aparentemente saudável. Já lá vão 36 anos!
Em suma, os responsáveis pelo desporto e pela actividade física em geral, seja a que nível for, não devem utilizar as instituições como uma passerelle de vaidades ou porque há eleições europeias. O que está em causa é a construção do futuro e o direito constitucional consignado no Artigo 79º da Lei Fundamental. E as autarquias têm a sua quota parte de responsabilidades, quando integradas numa política global de desenvolvimento. Tão simples quanto isto!
NOTA:
Na política não acredito em coincidências. Aliás, faz parte do abc político que "o que parece é". Num dia, leio uma notícia sobre uma reunião, em Bruxelas, entre o Deputado Nuno Teixeira e um representante da Câmara Municipal do Funchal, sobre a possibilidade de uma candidatura do Funchal a Capital Europeia do Desporto; no dia seguinte, outra notícia, que dá conta que a candidata do PSD, indicada pela Madeira, reuniu com Nuno Teixeira, com Durão Barroso a apadrinhar a foto ("Já trabalha em Bruxelas", li!). São coincidências a mais, quando, no próximo mês, se realizam eleições europeias. Espero que não passe disso mesmo... de folclore eleitoral.   
Ilustração: Google Imagens.