quarta-feira, 16 de março de 2016

DA "GUERRA TOTAL" DO SÉCULO XX, PASSÁMOS À "GUERRA DA INSEGURANÇA" NO SÉCULO XXI


É um sofrimento diário, já aqui escrevi. Assistir, pontualmente, às 20 horas, ao contínuo êxodo de muitos milhares, oriundos de países inseguros, martirizados pela guerra e pela fome, é assunto que constrange, dói e nos massacra pela impotência de uma solução. Olhar para aquelas tendas, para aquele chão enlameado, para a chuva que persiste, já não bastasse as doenças que proliferam entre adultos e crianças, parte qualquer coração, mesmo os mais insensíveis. Olhar para aquelas crianças, de olhar terno, muitas de colo, vê-las em um sofrimento permanente, com pais sem meios para a necessária assistência, todos estamos de acordo que é doloroso em pleno Século XXI. É a falência das instituições internacionais, dos políticos e das políticas que dizem desenvolver, no seu mundo feito de palavras e de poucas acções concretas.


Com que raio de políticos temos de lidar e aturar, com as suas posições muitas vezes contraditórias, claramente subjugados a uma mancheia de interesses, entre muitos, os geoestratégicos, os da droga e os do próprio negócio das armas que alimenta a guerra que, curiosamente, dizem negar. Diplomacia? Qual diplomacia? Confrontamo-nos, sim, com a falência das instituições internacionais, que funcionam, claramente, atrás dos problemas. Gente com acrescida responsabilidade que dorme bem face aos conflitos que por aí proliferam. 

A miséria anda à solta e ainda falam em direitos do Homem e, insistentemente, nos direitos da criança. Espantoso. Atentemos no texto de Matilde Pereira (Renascença): "O conflito na Síria, que dura há mais de cinco anos, já resultou em 2,4 milhões de crianças refugiadas, provocou a morte de muitas e levou ao recrutamento de crianças para o combate armado. Algumas destas crianças-soldado chegam a ter apenas sete anos, segundo o relatório da UNICEF divulgado esta segunda-feira.

Cerca de uma em cada três crianças sírias nasceram depois do início do conflito há cinco anos, o que significa que as suas vidas têm sido moldadas pela violência, pelo medo e pelas deslocações, descreve o relatório “No Place for Children” (Um local que não é para crianças). Este número inclui mais de 306 mil crianças nascidas como refugiadas desde 2011. A UNICEF estima que mais de 80% da população infantil síria esteja a ser afectada pelo conflito. “Na Síria, a violência tornou-se uma prática comum, atingindo casas, hospitais, escolas, centros de saúde, parques, jardins infantis e locais de culto”, afirma, no relatório, Peter Salama, director regional da UNICEF para o Médio Oriente e Norte de África. “Perto de sete milhões de crianças vivem na pobreza – uma infância marcada pela perda e pela privação.” Este relatório da UNICEF verificou 1.500 violações graves praticadas contra crianças, incluindo mais de 60 casos de morte e mutilação resultantes do uso de explosivos em zonas de habitação. Destas crianças, mais de um terço foram mortas na escola ou a caminho da escola".


Isto, na Síria. E nos outros 414 conflitos identificados, quarenta e cinco dos quais "altamente violentos"? Perante o drama mundial, os senhores(as) da aldeia global  engravatados ou com lenços Channel, pouco têm passado das palavras. O dramatismo é sensível e a impotência da Europa, do "Velho Continente", como a História catalogou, é um facto. Da "guerra total" do século XX, hoje vivemos a "guerra da insegurança" e do medo. O nuclear assusta, o conflito entre etnias e religiões tornou-se dramático, as ideologias xenófobas preocupam, a luta pelo domínio dos combustíveis é assustador, enfim, são tantas as razões que conduziram a mais de 60 milhões de pessoas em todo o mundo deslocadas devido aos conflitos armados e perseguições diversas. Que Mundo este!

Ilustração: Google Imagens e Folha de S. Paulo

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