O mentor desta estratégia partiu do errado pressuposto que este ainda era o tempo dos reis e que as caravelas vinham apinhadas de riqueza. Ou, então, mesmo sabendo que esta "caravela" atlântica afundaria de velhice, quis perpetuar a obra, já que as dívidas alguém as pagará, o Povo, certamente. Por isso, tem "placas" alusivas por tudo quanto é sítio e, um dia, um busto algures no meio da cidade que, por enquanto, o nega. Com o meu contributo nunca o terá.
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Sempre a ofender
mas sempre a pedir perdão! |
Estamos no final de mais um ano. Politicamente, foi mais um ano complexo. Muito complexo para os madeirenses e porto-santenses. E foi porque o governo regional assim quis. Começou a pagar a factura da megalomania, começou a sentir que o cofre estava vazio e que ninguém está para manter um quadro de despesismo absolutamente inviável e comprometedor para o futuro.
Quando a liquidação das facturas no sector da Saúde é superior a 1000 dias e que a banca bloqueou o sistema factoring, obviamente que estes constituem sinais óbvios do desastre, isto é, da incapacidade para governar. Só que todo este processo tem uma história, que vem de longe, muito longe, vem daquele "princípio" orientador de que a História não fala de dívidas, mas de obras. O mentor desta estratégia partiu do errado pressuposto que este ainda era o tempo dos reis e que as caravelas vinham apinhadas de riqueza. Ou, então, mesmo sabendo que esta "caravela" atlântica afundaria de velhice, quis perpetuar a obra, já que as dívidas alguém as pagará, o Povo, certamente. Por isso, tem "placas" alusivas por tudo quanto é sítio e, um dia, um busto algures no meio da cidade que, por enqunto, o nega. Com o meu contributo nunca o terá.
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A tragédia não explica tudo. |
Mas, dizia, este foi um ano politicamente difícil. A tragédia de 20 de Fevereiro e os fogos de Agosto vieram completar essa complexidade. Mas a crise, é preciso que se tenha em atenção, não vem daí. Tais acontecimentos acentuaram e colocaram a nu um quadro deveras preocupante. Quer a tragédia quer os fogos demonstraram a fragilidade da Região, os erros cometidos em matéria de prioridades e de prevenção. Puseram a nu licenciamentos de obras que nunca deveriam ter tido lugar. Não quer dizer que tais eventos não tivessem acontecido, mas os danos poderiam ter sido muito, mas mesmo muito atenuados. Tome-se em consideração, por exemplo, o número de obras de canalização de ribeiras e de pequenos afluentes que foram realizadas nos últimos tempos. Foi necessária a tragédia para tais obras serem consideradas prioritárias. E o que dizer do desordenamento do território, da falta de rigor e de respeito pelo planeamento! E o que dizer da ausência de vigilância preventiva no caso dos fogos florestais! Há, portanto, incúria e irresponsabilidade política, porque o tal mentor, um dia, disse que tínhamos de viver e de conviver com o risco. É evidente que todos sabemos que o risco faz parte da nossa vida, independentemente de vivermos numa ilha, só que nós, no plano individual, tentamos minimizá-lo, prevenindo-o. O que não aconteceu, nem acontece, com este governo cujas opções, desde há muitos anos, visam mais a sua auto-afirmação do que propriamente a defesa do Povo.
E essa auto-afirmação conduziu, mesmo neste tempo de vacas magras, a uma total incapacidade para alterar o seu paradigma de governação. Continuaram a não querer ouvir ninguém, judicialmente processaram pessoas, aviltaram-nas na praça pública, soltaram os cães, continuaram a onda de cimentização, jogaram fora contributos válidos e na Assembleia Legislativa tudo chumbaram na mais absurda política ditatorial de quero, posso e mando.
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A situação é de dor. |
Pela auto-afirmação do seu poder, negligenciaram os números do desemprego, onde as falências acontecem, mas a taxa de desemprego não cresce. Pela auto-afirmação, continuaram a esconder o número de pobres, inviabilizaram o processamento de um apoio acrescido aos pensionistas idosos e pobres, meteram na gaveta petições populares da maior relevância quer pelo número de subscritores quer pela matéria defendida. Atiraram o Porto Santo para uma situação de insustentabilidade, com 92% das empresas em insolvência técnica. Deixaram que o Turismo chegasse ao ponto a que chegou, onde já se fala do destino Madeira num arrepiante quadro de "sazonalidade". Pela auto-afirmação, porque o dinheiro não chega para tudo, esqueceram-se das empresas enquanto promotoras de economia viva e, naturalmente, de emprego. Deixaram, intencionalmente, que a Escola não partisse para a excelência dos resultados e, no plano da Saúde, os conflitos falam por si.
Este foi um ano político para esquecer. E como não aprenderam, em 2011, as vítimas serão as mesmas. Ficarão piores, porque a megalomania, o interesse pelas eleições, a fome de poder, conduzi-los-á a não olhar para os sectores prioritários, atenuando, com medidas estabilizadoras e no quadro da Autonomia, as medidas de austeridade que vêm a caminho. Tal como estão a fazer nos Açores. Espero que o Povo desperte enquanto é tempo e que, em Outubro, diga BASTA a um poder que o anda a triturar como se nada tivesse a ver com ele.
Ilustração: Google Imagens.