Mas ele sabe em que região vive e que região construiu. Uma região "pequena, pobre e inculta" parafraseando António Barreto, de gente sem noção dos seus direitos, que apesar de paupérrima tem a bandeira partidária enfiada no topo do zinco ou do casebre e, no quarto, a foto do mentor de tudo isto ao lado de Maria e do Rosário; ele conhece a Igreja submissa, que prega a solidariedade, que abre as portas, é verdade, a muitos que passam fome, mas que, historicamente, não utiliza o púlpito para libertar, não toca o sino da contestação, trata as feridas sociais com pensos rápidos, não prega no âmago das questões, não chama os bois pelo nome, não consegue reagir, atada que está de pés e mãos aos milhões da sua própria sobrevivência.
Uma região onde uns riem perante o desabafo indigente, outros encolhem os ombros porque é a natureza dele, outros tomam um qualquer antiácido pelo enfartamento dos disparates ditos, mas onde ninguém se atreve a dizer basta. Os próprios Deputados, enxovalhados pela designação de indigentes mentais aceitam, serenamente, parecendo ficar com um inchaço na língua pelo efeito secundário do antiácido.
Ninguém dá pelo facto de pertencer ao primeiro órgão de governo próprio da Região ao ser tratado por andrajoso e mendigo do regime democrático. Eu reajo e reagirei sempre porque tenho direito a ser respeitado, pois apesar de não concordar com as orientações políticas vigentes, tenho pelos meus adversários políticos a consideração que a própria vivência democrática, sinónima de respeito, assim exige.
Tratasse ele dos milhares que vivem nas margens da indigência, acabasse com as obras megalómanas, com os compadrios, a falta de seriedade e de honestidade, tratasse ele da cultura deste Povo, do Homem na sua plenitude e hoje, certamente, não teria eu este desabafo que vem do fundo das minhas entranhas. 

Nota:
Opinião, da minha autoria, publicada na edição de hoje do DN-Madeira.
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